A NARRATIVA CONTEMPORÂNEA: INTERTEXTUALIDADES


Coordenadores
Profa. Dra. Maria Luiza Guarnieri Atik (Mackenzie)
Profa. Dra. Lílian Lopondo (USP/Mackenzie)
Prof. Dr. Miguel Koleff (Univ. Católica de Córdoba - Argentina)
Resumo: Julia Kristeva, na esteira da Mikhail Bakhtin, foi a primeira a formular o conceito de intertextualidade no intuito de reunir, num único termo, os diferentes veios das reflexões do pensador russo a respeito do dialogismo textual. Desde então, o termo tem sido utilizado à saciedade pela crítica literária. O conceito remete à idéia de que o texto se apresenta como um “mosaico de citações”, ou seja, absorve e transforma outros textos. Ao discutir o conceito, Barthes afirma que “todo texto é um intertexto; outros textos estão presentes nele, em níveis variáveis, sob formas mais ou menos reconhecíveis. / ... / A intertextualidade é a maneira real de construção do texto.” (Barthes, 1994.). A intertextualidade consiste, pois, na interação semiótica de um texto com outros. Este simpósio tem por objetivo reunir estudos que privilegiem o diálogo entre o texto literário e outros textos, verbais ou não-verbais, a fim de detectar os elementos de tensão dele resultantes e a ideologia que lhe serve de alicerce. "

Subtema: Gêneros literários: fronteiras e ambigüidades

O eco de velhas histórias, uma leitura da trilogia microficcional de Marina Colasanti
por Carla Victoria Albornoz

Resumo
A microficção, uma narrativa que cabe no espaço de uma página, vem experimentando um crescimento sustentado na América Latina desde meados do século XX. Muitas das suas ferramentas narrativas provêm do conto, do qual herda a capacidade de criar um ritmo e uma pulsão interna, embora nelas haja ressonâncias de outros gêneros. Na economia da linguagem da microficção esconde-se um olhar lúdico de situações do cotidiano, contos populares, mitos ou versões corriqueiras de clássicos da literatura que se misturam com ângulos inéditos da condição humana. Há um interesse especial por criar áreas de intersecção do texto microficcional original com o ato da reescrita em geral, provocando uma outra leitura possível e permitindo-nos analisar a microficção desde a ótica da reprodução na produção: da repetição como ato original que se intromete em temáticas exploradas anteriormente. São pequenas obras abertas que se apropriam e brincam com narrativas anteriores num jogo contínuo de intertextualidades, no qual a microficção seria uma peça de uma coleção de relatos em que o leitor identifica vestígios de histórias passadas. A proposta é a de analisar as intertextualidades que se manifestam em Zooilógico, A morada do Ser e Contos de amores rasgados de Marina Colasanti.

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A Fúria de um inferno provisório: Narrando Alteridades na Literatura Contemporânea
por Cristina Maria Da Silva

Resumo
Este trabalho tem como objetivo compreender os traços da socialidade contemporânea através da literatura. Busco compreender os nomadismos e impasses contemporâneos através das narrativas de João Gilberto Noll e Luiz Ruffato se inscrevem nas manifestações contemporâneas do imaginário e no jogo de imagens que configuram as formas agregativas na vida social. As imagens que se tecem nessas narrativas têm seu lócus nos rastros dos fundamentos históricos, sociais e geográficos que nelas se entrelaçam. Indicam marcas de uma experiência social por se integrarem aos movimentos de imaginários que se deixam contar entre rasuras e frestas das invenções sociais e culturais. Numa possível “etnografia ficcional” penso que esses textos literários trazem os embates da experiência social contemporânea, neles as muitas vozes de alteridades em contraponto se tornam presentes, em algumas “formas sociais”: num entrecruzamentos de temporalidades, nas marcas de uma “geografia rarefeita das cidades”, numa fúria do corpo, nos esquecimentos da memória social e nas “dinâmicas da violência” nas arenas de alteridades da sociedade atual. Nessas escrituras, se encontram olhares migrantes, deslocados, “desestabilizadores da forma e do olhar”, escritas que acompanham os embates do vivido, os rastros da vida social, na medida em apontam os limites e desafios em recorrer a outras vozes e linguagens na busca por compreender a época que vivemos e que nos debruçamos a pensar.

 
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A ironia e o absurdo na ficção de Woody Allen
por Felipe Mansur

Resumo
Ainda pouco observado pela crítica literária, o trabalho do cineasta Woody Allen como contista revela um interessante traço do estilo ficcional do autor americano dentro da temática contemporânea da intertextualidade. Allen, que nunca negou suas principais influências dentro do universo fílmico, como Bergman e Hitchcock, também sempre apontou para os principais autores de literatura de sua formação artística, como os grandes autores russos, Flaubert, Kierkegaard e até mesmo o brasileiro Machado de Assis. Sua obra ficcional demonstra ser um grande palco para essa confluência intertextual de autores. Retomando sua obra de contos, temos “A dieta” e “O condenado”, em que Allen retoma o mote e o estilo de dois grandes autores do século XX, Franz Kafka e Albert Camus. O humor presente nestes contos só é atingido através da prévia leitura destes autores já clássicos, fazendo com que o jogo da ironia de Allen transforme-se, na verdade, num esgarçamento, que não leva ao rompimento das tensões, mas a um estágio tal de absurdo das já irônicas narrativas destes autores. Ironia sobre ironia, a intertextualidade presente no texto de Woody Allen faz emergir as vozes e os traços de Kafka e Camus, sem, no entanto, calar a voz do narrador cômico do autor americano. Mais do que uma sátira, ou uma homenagem, estes contos de Allen revelam a presença do pensamento moderno do início do século XX, como embrião para um sentimento contemporâneo, o da absurdidade, que o próprio Camus nos apresentou em O mito de sísifo. Além dos textos seminais sobre a intertextualidade de Kristeva e Bakhtin, meu trabalho utiliza várias reflexões acerca da ironia e do humor, como os de Kierkegaard, Umberto Eco e Vilem Flusser, além da já mencionada teoria da absurdidade de Camus.

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La construcción de la identidad en Todos los nombres, de José Saramago y...
por GRACIELA BEATRIZ PERRÉN

Resumo
En el presente trabajo me propongo considerar dos novelas contemporáneas: Todos los nombres, del portugués José Saramago y Los restos del día, del escritor inglés –de origen japonés- Kazuo Ishiguro. En ambas ficciones, los protagonistas son seres que custodian, cada cual en su propia esfera, vidas ajenas. Don José, el escribiente de Saramago podría considerarse el subalterno máximo ya que es hombre sin familia ni amigos y sin historia pasada; Mr Stevens, otro subalterno, aparece en al novela de Ishiguro como el prototipo del mayordomo perfecto, con una vida dedicada por entero al servicio de “una gran casa”. Don José juega su aventura de resistencia al poder coercitivo y omnímodo impulsado por el amor, Stevens, en apariencia un hombre que ha vivido una existencia con enormes pérdidas, no abandona jamás la meta que considera eje de su vida: el desempeño digno de su labor. Son seres que, en apariencia, carecen de identidad, meros reflejos de otras vidas más luminosas; sin embargo, cada cual es capaz de construir esa identidad propia a través de elecciones vitales. Cada uno de ellos vive y conserva los valores en los que cree, aun cuando el sabor de la derrota aparezca al momento de contemplar sus vidas.

 
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A duplicação da narrativa e a duplicação do ser: Nenhum Olhar, de José Luís Peixoto
por Lílian Lopondo

Resumo
No romance Nenhum Olhar ( 2001 ) -- de autoria de José Luís Peixoto --, laureado com o Prêmio José Saramago, a comunidade do Alentejo ( ! ) é formada por um grupo de personagens que rumam, sem exceção, em direção ao trágico. Dentre elas, sobressaem-se os gêmeos siameses Moisés e Elias, unidos pelo dedo mindinho. O desenrolar da fábula enfatiza que, embora colados um ao outro, cada um vive o próprio destino, marcado pelas circunstâncias funestas que caracterizam sua atuação naquele espaço. Este trabalho objetiva o exame do processo de duplicação com que são caracterizadas essas personagens, fração do projeto maior que permeia a narrativa no Livro I e no Livro II. Para tanto, são examinados os procedimentos narrativos de que lança mão o Escritor português na caracterização dos irmãos e quais os efeitos de sentido deles decorrentes. Com base nestes elementos, é investigado o papel desempenhado por tais personagens no corpo da obra, que tem no pessimismo os fundamentos da cosmovisão peixoteana.

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De bonde para Ítaca
por Luiz Camilo Lafalce

Resumo
Apoiado na análise de elementos estruturais da narrativa “Bonde”, de Dalton Trevisan, o trabalho aponta possíveis linhas interpretativas, ancoradas, em especial, na linguagem que dá forma ao desdobramento da identidade do protagonista, duplicação que se faz na e pela absorção do jogo interdiscursivo. A dupla perspectiva do narrador dá origem a duas linhas de ação simultâneas – o retorno de José a suacasa, espelhado no retorno heróico de umpirata a sua ‘Itaca’ – que, imbricadas na própria sintaxe, se metaforizam mutuamente. Adotando o expediente da onisciência seletiva, o narrador constrói, de forma híbrida, uma dupla percepção da realidade, na qual a mediocridade do mundo urbano transfigura-se em heróica aventura no imaginário da personagem. A metáfora, aqui, assume-se comoprocesso transfigurador, permitindo a reorganização dos dados da realidade sob outra perspectiva. Ao ampliar as possibilidades de percepção do real, acaba por instaurar um processo de significação irônico na medida em que traduz ambiguamente esses mesmos dados: tanto a viagem de bonde do anti-herói da modernidade, quanto a heróica aventura do pirata/argonauta, mescladas, constituem-se como ‘verdades’ emtensão, na trama urdida pelo narrador.

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ZOOMORFFISMO E HIBRIDISMO HUMANO-ANIMAL NA FICÇÃO: SITUAÇÕES E SIGINIFICAÇÕES
por Marcelo Franz

Resumo
A pesquisa que desenvolvemos discute o zoomorfismo como procedimento alegórico e sua polissemia variável no tempo histórico e nas manifestações das correntes de pensamento apreendidas pela criação literária, associadas a diversas compreensões artísticas da condição humana tendo como parâmetro a “condição animal”. Analisaremos três obras de contextos diferentes, assemelhadas na representação da figura do hibridismo humano-animal. São elas o livro de contos O Estranho Hábito de Dormir em Pé, de Paulo Sandrini (2003), o romance O Centauro no Jardim, de Moacyr Scliar (1980) e a narrativa latina antiga O Asno de Ouro de Lúcio Apuleio. Sendo as obras expressões de distintas concepções do literário (o criticismo pós-moderno de feitio alegórico em Sandrini, o fantástico no simbolismo da condição judaica em Scliar e o mitológico como recurso fabulesco em Apuleio), procuraremos, por meio da leitura de comparação, definir as particularidades de cada ocorrência e, no limite, a compreensão de algumas das formas e significados da tematização escolhida, contando com os suportes teóricos fornecidos por Eliade, Todorov e Baktin.

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A intertextualidade entre "Poema da dúvida", de Cecília Meireles e a Bíblia Sagrada
por Maria das Graças Sá Roriz Fonteles

Resumo
O objetivo do presente estudo é a análise do diálogo entre osversos do "Poema da dúvida", da poeta brasileira Cecília Meireles, com o texto bíblico. Mediante a análise intertextual, procurar-se-á o entendimento das diferentes leituras das Escrituras Sagradas expressas pelo eu-lírico. Com vistas a detectar de que modo a intertextualidade do citado poema e das Sagradas Escrituras se processa, estudar-se-ão os mecanismos utilizados pela escritora no processo que leva à intertextualidade: citação, alusão, paráfrase e paródia.

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"GRANDE SERTÃO: VEREDAS" E “RAPPACCINI’S DAUGHTER”: ENCONTROS INUSITADOS
por Maria Márcia Matos Pinto

Resumo
A perspectiva inovadora que Guimarães Rosa imprimiu à sua obra não o afastou do legado da tradição. É inegável que suas produções dialogam com imagens e temas da literatura de todos os tempos, adequando-os a um novo contexto espacial, temporal e lingüístico, mas mantendo o caráter essencial que permite ouvir os ecos do passado. Desse ponto de vista, portanto, é possível relacionar a sua maior criação, o romance Grande sertão: veredas, com a obra de um destacado escritor norte-americano do século XIX: Nathaniel Hawthorne. Se a ficção de ambos envereda por caminhos distintos, há elementos que, buscados nos níveis mais profundos da elaboração diegética, certamente os unem. Neste sentido, procuraremos mostrar como em Grande sertão: veredas é possível detectar imagens e reflexões sobre vida e morte presentes naquele que é considerado pela crítica o conto mais complexo de Hawthorne, “Rappaccini’s daughter”.

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José Saramago y sus dos tradiciones novelescas
por Miguel Alberto KOLEFF

Resumo
En esta comunicación me gustaría trazar una línea transversal que sin quebrar los parámetros de la periodización de la novelística saramaguiana permita establecer algunos cortes que me ayuden a sostener teóricamente mi punto de vista. En este sentido, pretendo concentrarme en la novela Todos los Nombres (1997) que –a esta altura del derrotero novelístico del autor- pauta una especie de cúspide en su carrera intelectual. Me interesa detenerme en un fenómeno puntual y derivar algunas conclusiones que hoy me resultan certeras después de una aguda reflexión. Es imposible disociar la aparición de este texto en 1997 sin vincularlo al Premio Nobel de Literatura que su autor ganaría un año después. Si bien es cierto que a través de esta distinción se premia la obra completa de un escritor y no un texto en particular, elementos relevantes ponen en sospecha esta presunción y proponen subsidios para una lectura diferente. La hipótesis que me guía en este punto es que esta obra le permitió a José Saramago obtener el Premio Nobel por ser la más europea de todas las producciones hasta ese momento escritas. Quiero aclarar –por supuesto- que esta lectura no pone en duda la calidad de ésta ni de ninguna de las otras novelas que –consideradas en esta perspectiva- le posibilitarían una y otra vez el reconocimiento recibido en 1998. Lo que me resulta curioso –y empiezo a desarrollar mi idea- es el camino seguido por la ficción saramaguiana y que ya he indicado en un texto anterior ( Apuntes saramaguianos II (EDUCC, Córdoba,2005) cuando marqué algunos hitos en su producción narrativa: el reconocimiento nacional con Levantado del suelo (1980), el reconocimiento europeo con Memorial del Convento (1982) y la polémica que lo colocó en el ojo de la tormenta en 1991 con El Evangelio según Jesucristo. ¿Qué destaca el texto de 1997 en este marco que acabo sucintamente de reseñar? Lo destaca la presencia de Europa a través de la conjunción de dos tradiciones novelescas de relevancia en el Viejo Mundo, la inaugurada por Cervantes con el Quijote y la propuesta al inicio del siglo XX por Franz Kafka. Todos los Nombres es un brillante texto de ficción que pone en diálogo estos dos referentes indisociables de la historia y la literatura europea. Al imbricarse de manera tan prolija en una construcción estética contemporánea, la Academia sueca quedó deslumbrada por la novedad que se le ofrecía y no pudo menos que dejarse interpelar por ella.

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Lamartine e seu simulacro brasileiro: Carlos Sussekind e o diário íntimo
por REGINA MARIA SALGADO CAMPOS

Resumo
Trata-se de analisar em que medida a publicação de "Le manuscrit de ma mère" (1871), compilação do diário íntimo da mãe do poeta Lamartine, serve de intertexto em "Armadilha para Lamartine" (1975) de Carlos & Carlos Sussekind. A dupla autoria pretende garantir a autenticidade do "Dário da varandola-gabinete", parte significativa do livro, atribuída a seu pai pela personagem Lamartine. Assim como o poeta francês em relação à mãe, a personagem fictícia brasileira utiliza-se do manuscrito paterno para compor seu texto. Veremos como Sussekind constrói sua paródia, deixando agora ao leitor a reflexão sobre a criação literária e suas relações com o real.

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A intertextualidade intratextual em António Lobo Antunes
por Alexandre Claudius Fernandes

Resumo
A narrativa densa e feérica, do escritor português António Lobo Antunes, revela-se como um grande mosaico de discursos especulares. As obras dialogam-se e insinuam-se umas às outras. Provocam-se. A proposta da comunicação é refletir sobre os rumores e ruídos entre as obras do autor. A sedução do corpo textual nos romances encanta pelo hermetismo de sua escrita e escritura. Rememorações, lembranças e escavações em memórias, por vezes perdidas, levam as personagens a grandes revelações: descobrem-se. Contudo, a intertextualidade configura-se no processo de busca dessas reminiscências; os silêncios, os traumas e as mágoas são fios de Ariadne, que conduzem seres pelos labirintos de seus passados e seus afetos. Ontem não te vi em Babilónia e O Manual dos Inquisidores são romances, cujos rastros da escrita, formam uma rede interna, um palco intratextual de intertextos, ontologicamente, dilacerados.


Memória, mitos e narrativa:um olhar sobre a novela Órfãos do Eldorado, de Milton Hatoum.
por Ana Lúcia Trevisan Pelegrino

Resumo
O trabalho estuda a elaboração discursiva da memória presente na novela Órfãos do Eldorado (2008), de Milton Hatoum. Nessa novela as imagens dos mitos amazônicos surgem em meio a uma estruturação narrativa que remete ao relato oral e, dessa forma, configura uma obra ficcional em que a forma e o conteúdo tornam-se um binômio indissociável e harmônico. A intertextualidade também se expressa no nível formal quando os sentidos implícitos às narrativas míticas são referendados no relato da personagem Arminto Cordovil, que conta sua história, reconstrói sua memória e, logo, elabora uma face de sua identidade. Quando a memória se transforma em relato surge o pacto com cada leitor, que toma seu lugar e escuta a trajetória da personagem, delineada na velocidade e na ambivalência permitidas pela lembrança. O diálogo entre os mitos e o cotidiano e entre a oralidade e a escritura revela que a busca pelo Eldorado se re-configura na eterna busca humana pela legitimação de seus desejos. Em meio à multiplicidade étnica de Manaus, o tempo dos mitos e o tempo histórico se conjugam em sua essência formal e temática e, dessa forma, observamos o surgimento dessa Cidade Encantada de Milton Hatoum. O mito particularizado é ao mesmo tempo universal e, uma vez rearticulado no texto contemporâneo, torna-se tradutor de conflitos humanos modernos e atemporais.


O cais das merendas: uma releitura do “Êxodo” do Velho Testamento
por Carlos Alberto Vechi

Resumo
Em nossa comunicação, pretendemos fazer uma leitura do romance de Lídia Jorge a partir do estabelecimento de uma intersecção entre o texto bíblico e o literário, apoiada em dois pontos observáveis em ambas as narrativas: o espaço da opressão e a promessa de uma nova terra. Espaços da opressão: para os hebreus, o Egito, para os portugueses, A Redonda. Terras prometidas: Canaã e o Alguergue, hotel de luxo na praia das Devícias, respectivamente. A travessia para a terra prometida é liderada por Moisés (“Êxodo”) e por Sebastião Guerreiro, o Sebastião Cagaça, protagonista do romance. Moisés leva seu povo a atravessar o Mar Vermelho; Sebastião Cagaça faz seu povo atravessar numa rodovia recém-construída que liga Portugal ao restante da Europa. Analisado o paralelismo entre os textos, iremos demonstrar que o romance da escritora portuguesa Lídia Jorge se constrói como paródia do texto bíblico, que lhe serve de mote para narrar ironicamente a história recente de Portugal.


Confluências de discursos verbais e não-verbais nos contos de Sérgio Sant'Anna
por MARIA LUIZA GUARNIERI ATIK

Resumo
Com o advento das vanguardas européias as relações entre as artes plásticas e a literatura tornaram-se mais estreitas. Poetas e pintores partilhavam um ideal comum de renovação estética: os poetas assimilando as técnicas pictóricas e os pintores assumindo as idéias filosóficas e poéticas veiculadas por ensaios e manifestos. As afinidades entre pintura e literatura assumem feições variadas ao longo do século XX, envolvendo desde temas similares até a absorção de técnicas e motivos formais. Segundo Mikhail Bakhtin, a linguagem literária pode ser considerada como um diálogo de linguagens que se conhecem umas às outras e se compreendem entre si. E esse diálogo entre as artes, que contempla as relações entre literatura, artes plásticas e teatro pode ser apreendido na ficção brasileira contemporânea. Em nossa análise, privilegiaremos alguns contos de Sérgio Sant’Anna com o objetivo de examinar os procedimentos narrativos marcados por um exercício contínuo de experimentação, invenção e plasticidade, pois como afirma o próprio escritor, as artes plásticas e o teatro sempre foram “uma provocação” no processo de criação do seu texto ficcional, como se apreensão da realidade surgisse filtrada pela representação.


O horror da familiaridade: o lugar do eu no arenoso solo dos clichês
por Maria Thereza Martinho Zambonim

Resumo
Em Longe da água, de Michel Laub, uma história antiga é relatada pelo protagonista, que, à moda de segredos, se revela ao leitor e define a si próprio. Na busca de pontos de referência para a trama de sua história pessoal, dialoga passo a passo com ecos de receitas de aprendizado. O leitor percorre o caminho cuidadosamente preparado pelo narrador – habituado ao jogo discursivo pela leitura diletante do adolescente e do jovem profissional - no seu trabalho de tatear o sentido que poderia ir dando a cada uma de suas recordações, configurando-lhe abertamente a natureza de versão. Na travessia conduzida pela disposição de unir as duas pontas da vida - a lembrança da implacável experiência próxima é atada à já longínqua -, o leitor passa por processo idêntico ao vivenciado pela personagem - ver-se medido por clichês e iludido por falsas aparências, até a prova derradeira de enunciar uma justificativa para o que se é, ou se pensa ser, por força de um passado que está sempre ali. Neste trabalho, busca-se delinear o modo como emerge a dicção pessoal do narrador no continuado entrelaçamento que seu discurso estabelece quer com os chavões que o habitam, quer com outras versões de si e dos fatos.


Mito bíblico na estrutura d'"O Edifício" de Murilo Rubião: a (des)continuidade.
por Ricardo Iannace

Resumo
Aborda-se o conto "O Edifício" de Murilo Rubião com vistas ao mito bíblico Babel. Nessa releitura, o autor de Os Dragões e Outros Contos reelabora a narrativa inscrita no Livro Sagrado valendo-se de um "formato" estrutural de que constam, seguidas do prólogo anunciando a existência do projeto de um arranha-céu que deverá apresentar oitocentos andares, dez seções subdivisoras do texto. Seus títulos admitem repensar, à luz dos estudos contemporâneos dos gêneros discursivos, o lugar e a natureza da palavra e da escrita nesses segmentos: "A lenda", A advertência", "O relatório", "Os discursos". No mais, "O Edifício" de Murilo Rubião abre-se para um diálogo, por injunção do tema, com outros de seus contos que apostam no "fantástico" evento da multiplicação (malograda), como, ainda, com produções que vieram a sucedê-lo: o ensaio do filósofo franco-arlegino contemporâneo Jacques Derrida, denominado Torres de Babel, e mais recentemente o filme Babel, dirigido pelo mexicano Alejandro G. Iñárritu.


O leitor e o multidiálogo intratextual em Maria Gabriela Llansol
por Sônia Helena Oliveira Raymundo Piteri

Resumo
Tomando como ponto de partida as narrativas “Um beijo dado mais tarde” (1991), “ Parasceve” (2001) e “O jogo da liberdade da alma” (2003), de Maria Gabriela Llansol, o objetivo deste trabalho é analisar as relações intratextuais aí configuradas em função desses textos discutirem interinamente o seu próprio fazer artístico, tanto é que uma das figuras mais presentes na obra da escritora é justamente a “rapariga que temia a impostura da língua”, que nos direciona para a problemática da linguagem, em especial os constrangimentos do sistema lingüístico e a necessidade de burlá-los. Alia-se a esse aspecto, a reestruturação por que passam as categorias tradicionais da narrativa em Llansol. Esse tipo de texto em que o processo, e não o contar, vem à tona, é visto por Hutcheon (1991) como um paradoxo, pois, ao mesmo tempo em que ele volta para si próprio, texto ‘narcisisticamente auto-reflexivo, exige a participação direta do leitor, sua atuação como co-criador. E o paradoxo se complexa, pois a co-criação não significa atingir o cerne ou a origem pensados por esse ‘Narciso’ textual, mas sim buscar outras pistas que não devolvam o leitor a pousos conhecidos; trata-se de uma criação da criação ou leitura crítico-criativa.