MEMORIALISMO E EPISTOLOGRAFIA: GÊNEROS HÍBRIDOS II


Coordenadores
Prof. Dr. MARCOS ANTONIO DE MORAES (USP)
Profa. Dra. BRIGITTE HERVOT (UNESP-Assis)
Resumo: O simpósio pretende congregar estudos sobre os gêneros situados na fronteira entre informação e literatura. Em termos mais específicos, são gêneros constituídos pelo relato objetivo (que remete à função referencial da linguagem) e pela elaboração subjetiva (que remete à função poética), equalizados na forma literária. Os objetivos do simpósio incluem: avaliação do contato entre esses relatos e formas mais elaboradas de ficção como o conto, exame de construções psicológicas e de elaborações fragmentárias, estudo do espaço retratado pelos textos, discussões sobre caráter pessoal, documental, coloquial e burocrático, estudo do humor e da ironia dos textos, reflexão sobre os momentos de criação, publicação e leitura, tendo em vista a temporalidade do sujeito e a aproximação aos veículos jornal, livro, arquivo ou acervo e, especialmente, averiguação das capacidades híbridas desses gêneros entre si e de cada um com a história cultural brasileira, levando em conta um dos princípios elementares desses discursos, a saber, a ausência de hierarquia para os assuntos, provando a famosa afirmação de Walter Benjamin segundo a qual "nada do que um dia aconteceu está perdido para a história." "

Subtema: Gêneros literários: fronteiras e ambigüidades

Um sentido telúrico de Pernambuco e do Nordeste
por Afonso Henrique Fávero

Resumo
Nos nossos escritos autobiográficos, é significativa a obra do pernambucano Júlio Celso de Albuquerque Bello, Memórias de um senhor de engenho, publicada em 1939. Como indica o título, a matéria principal compreende o universo rural voltado para a produção do açúcar. A partir desse quadro geral, o autor passa a expor com simpatia e elegância de estilo sua visão a respeito dos aspectos ligados a tal universo, numa narrativa que faz o seu leitor pensar em antecedentes e pósteros ilustres, como o Joaquim Nabuco de Minha formação, entre os primeiros, além de Gilberto Amado e José Lins do Rego com os respectivos História de minha infância e Meus verdes anos, entre os últimos. Conjugada à trajetória pessoal do autor, a obra traz ainda notícias de seus antepassados, de antigos e coevos senhores de engenho, da decadência que estes conheceram, das festas religiosas e folclóricas da região, enfim, de tudo aquilo que costumamos ver num bom livro de memórias.

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"As cartas não mentem jamais": sobre cartas e diários na obra de Ana Cristina Cesar e Sylvia Plath
por Anélia Montechiari Pietrani

Resumo
Esta comunicação se propõe a examinar a questão da subjetividade e suas interações e convergências em/com as cartas e os diários escritos por Ana Cristina Cesar e Sylvia Plath. Busca-se, com isso, discutir o caráter de referencialidade e auto-referencialidade do texto literário, a partir do estudo de um gênero em que confluem, tensamente, a verdade documental e a sinceridade lúdica da literatura, assim como se toca no tênue limite entre vida e arte, confissão e ficção, objetividade e subjetividade.

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As reflexôes literárias na correspondência de Guy de Maupassant
por Brigitte Hervot

Resumo
Partindo da premissa de que as missivas de epistológrafos escritores denotam uma preocupação que vai além do desejo de se comunicar com alguém distante, trata-se, neste artigo, de analisar algumas cartas de Guy de Maupassant (1850-1893) nas quais existe um pensamento crítico e dinâmico da literatura. Usando a correspondência como um espaço onde é possível pensar e escrever sobre a criação artística, o escritor francês, por meio de um diálogo epistolar entre profissionais e outros, constrói sua concepção estética de literatura. Ver-se-á que as reflexões de ordem estética, não raramente, são reencontradas ― às vezes idênticas ― em ensaios e artigos teóricos, passando assim da esfera privada para a pública. É no confronto desses textos de gêneros diferentes que se percebe que Maupassant definiu, antes mesmo de se tornar célebre, a sua concepção de escrita literária e defendeu os mesmos princípios durante a vida toda.

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A estrutura narrativa de 'Das Echolot', de Walter Kempowski, relacionada à memória coletiva.
por Claire Parot de Sousa

Resumo
A extensa obra Das Echolot (O ecobatímetro), de Walter Kempowski, obteve um grande sucesso de vendas no lançamento de seus primeiros volumes, em 1993, fato que resultou na publicação de mais seis volumes do mesmo projeto. A inovadora forma narrativa provavelmente contribuiu para tal êxito: são colagens de textos individuais autênticos sobre a Segunda Guerra Mundial, formando um diário coletivo com diversas perspectivas sobre um mesmo acontecimento histórico. Não há um narrador que una os textos ou comente-os, cabendo ao leitor interpretar a junção e o valor dos testemunhos. O presente trabalho procura relacionar a estrutura narrativa de Das Echolot e a mudança de representação literária da Segunda Guerra Mundial. Considera-se uma nova perspectiva atual deste evento histórico, decorrente da memória coletiva do grupo social sobre um acontecimento passado, da qual a literatura incorpora elementos. A época e o local em que a obra literária é escrita refletem valores do grupo no presente, mas ainda com influências de experiências passadas formadoras da memória coletiva, que é mutável, pois retém do passado o que ainda vive na consciência do grupo.

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Uma literatura vista das margens
por Edmar Ávila

Resumo
Em 1994, na revista número 36 do IEB, Marlene G. Mendes apresentou o “diálogo” entre Mário de Andrade e o “Tio Pio” (Pio Lourenço Corrêa). A curiosidade maior acerca do tema que esse trabalho pretende desenvolver reside na própria forma do seu registro: notas de margem num exemplar (que pertenceu ao “Tio Pio”) da primeira edição de “ Amar, Verbo Intransitivo ” que hoje se encontra no acervo do IEB/USP. Como as notas constam de um único exemplar, todas as anotações se articulariam com o próprio texto de ficção e constituem uma “grande carta” onde as bases de discussão sobre a gênese textual, bem como sobre o estabelecimento do texto que vigoraria nas edições posteriores, aparecem escancaradas, revelando os bastidores de um fazer literário no qual a própria noção de autoria é colocada em evidência, dando origem a uma “nova obra”. O presente trabalho é parte de uma dissertação em andamento, que busca investigar a trajetória de “ Amar, Verbo Intransitivo ” , levando em conta todas as singularidades do processo de sua criação.

 
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Monteiro Lobato e o “Grande Opilado”: cartas a Alberto Rangel
por Emerson Tin

Resumo
Em dez cartas e cinco anos de correspondência (1919-23), Monteiro Lobato (1882-1948) traça a Alberto Rangel (1871-1945) – que, membro do corpo diplomático brasileiro, vivia então na França –, com pinceladas de vários matizes, um retrato do Brasil. Desde o convite a Rangel para colaborar na Revista do Brasil, formulado na primeira carta, de 06 de janeiro de 1919, passando pelas discussões em torno dos artigos a serem publicados naquele periódico, até a derradeira mensagem, de 09 de junho de 1923, Lobato desenvolve a tese de que “o Brasil é uma delícia... de longe” – alusão óbvia à condição de exilado voluntário de Rangel. Pretende-se, assim, analisar essa correspondência – depositada no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro –, apontando como Lobato retrata o país como o “Grande Opilado”, maneira como alcunha o Brasil em carta de 09 de abril de 1919.

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Experiências, conhecimentos, responsabilidades. Sobre o papel do autor na recepção de obras ficcionais e autobiográficas
por Helmut Galle

Resumo
Desde as origens do estudo científico da literatura, o autor foi considerado uma categoria indispensável para a compreensão da obra. A partir do fim da Segunda Guerra estabeleceu-se um novo paradigma que desvinculou cada vez mais o texto do seu produ­tor, culminando nos ensaios de Barthes e Foucault de 1969. Durante os últimos anos, porém, casos como os Fragmentos de Binjamin Wilkomirski (pseudônimo de Bruno Doesseker) (e vários outros) mostraram que a situação atual é insatisfatória. A atrasada confissão autobiográfica que Guenter Grass fora membro da Waffen-SS lançou uma luz completamente nova àqueles livros sobre a Alemanha nazista que o autor publicara há quase 50 anos. A comunicação pretende analizar esse caso da literatura alemã (e diversos outros) para determinar os elementos que, na nossa compreensão de uma obra literária, necessariamente, estão vinculados à pessoa e à vida do seu autor. A primeira hipótese é que existem regras pertencentes à produção e à recepção que definem o que um autor “pode” e “deve” escrever. A segunda hipótese é que essas regras ainda diferem entre obras ficcionais e autobiográficas.

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Os relatórios de Graciliano Ramos
por Marcos Falchero Falleiros

Resumo
Northrop Frye, que em “Anatomia da crítica” acolhe intensa erudição para responder ao que é literatura, mostra a dificuldade de circunscrever seu objeto quando define a linguagem por duas direções: a direção para a literatura, interna, centrípeta, e a direção para a referência fatual, externa, centrífuga. Os textos “externos” freqüentemente sobrevivem em razão de seu estilo ou de sua configuração verbal atraente, depois que sua funcionalidade para a representação dos fatos se perdeu. A respeito de alguns sermões, o discurso de Lincoln, a fala de Vanzetti, as falas de 1940 de Churchill, diz que mesmo sem terem intenção primacialmente literária, e teriam falhado a seu propósito inicial se tivessem tido, tornaram-se entretanto literários. Vêm à mente do leitor brasileiro os casos riquíssimos dos sermões de Vieira e de Os sertões, de Euclides da Cunha – este, um ensaio de história, geografia, sociologia dado irrefutavelmente à literatura como não-romance. Em menor escala podemos considerar assim também os relatórios do prefeito Graciliano Ramos , cuja aplicação de âmbito mais prosaico, e reduzido a dois anos (1928-1929) de administração em Palmeira dos Índios, faz deles peças, em sua pequenez de funcionalidade externa, mais ainda significativas para o campo literário.

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De Ronald a Mário: epistolografia literária
por Mirhiane Mendes de Abreu

Resumo
Ao tematizar criação artística e crítica literária, a correspondência de Ronald de Carvalho a Mário de Andrade permite diferentes configurações de personagens, temas e cenários do momento modernista no Brasil. O objetivo deste trabalho é tentar compreender as reflexões estabelecidas por Ronald nas suas cartas, as quais desenham um roteiro intelectual simultaneamente íntimo e coletivo: íntimo porque, ao rebater e/ou comentar as observações do seu amigo paulista, o poeta carioca expõe o seu próprio percurso criativo; e coletivo porque encontram-se nelas documentados os problemas e as estratégias de crítica e divulgação da arte vigentes no país naquele momento.

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Infância e experiência
por Mona Lisa Bezerra Teixeira

Resumo
O presente trabalho tem como objetivo analisar a presença da infância na obra de Clarice Lispector , observando de que maneira esse período da vida da autora é apresentado e transfigurado em alguns dos seus contos, como “Felicidade Clandestina”, “Cem anos de perdão” e “Restos do Carnaval”. Esses textos representam bem mais do que simples recordação de um determinado período cronológico vivido pela autora e atingem uma formalização estética única em nossa literatura. Há um caráter dialético na relação entre os contos e as memórias que a autora relata, em algumas de suas crônicas e entrevistas, sobre seus tempos de infância no Recife. Esse estudo articula-se, portanto, no interesse em problematizar a presença da infância como forma literária em potencial, sublinhando a atenção para a ótica desmistificadora apresentada por concepções modernas como a de Philippe Ariès, assim como a do pensamento de Giorgio Agamben, para quem o conceito de infância está ligado à experiência vivida e à transfiguração dela pela linguagem, para se chegar à essência das coisas em sua plenitude.

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"Depois daquela carta:"
por Nelson Luís Barbosa

Resumo
O estudo propõe uma leitura do conto “Carta para além do muro”, de Caio Fernando Abreu, publicado originalmente no “Suplemento Literário Minas Gerais” em 29/5/1971, não coletado em livro pelo autor em vida e reeditado após sua morte em "Caio 3D, Década de 70", estabelecendo um cruzamento com as suas quatro crônicas publicadas no Caderno 2 do jornal "O Estado de S. Paulo": “Primeira carta para além do muro” (21/8/1994), “Segunda carta para além dos muros” (4/9/1994), “Última carta para além dos muros” (18/9/1994) e “Mais uma carta para além dos muros” (24/12/1995), reunidas posteriormente em "Pequenas epifanias", analisando-os da perspectiva da confluência de gêneros entre conto, crônica e carta, amalgamados pelo “gênero” da “ autoficção ”, depois retomados, reprocessados e derivados na composição do último conto escrito pelo autor “Depois de agosto”, do livro "Ovelhas Negras" (1995).

 
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Entre livros e leituras: um estudo de cartas de leitores
por Raquel Afonso da Silva

Resumo
A presente comunicação tratará de “ correspondência de leitores a autores”. O estudo deste subgênero epistolar é feito a partir de três acervos de cartas de leitores a escritores infanto-juvenis brasileiros: Monteiro Lobato (1882-1948), Pedro Bandeira e Ana Maria Machado. A análise destes conjuntos epistolares permite adentrar a questão da recepção literária das obras destes autores pelo público leitor alvo, considerando os relatos e práticas de leitura presentes nas cartas, sujeitos, por sua vez, à interferência da instituição escola r (mediadora e incentivadora da leitura , instância de legitimação literária, locus potencial de circulação da literatura para crianças e jovens, educadora do gosto estético dos leitores ). Contemplando períodos históricos distintos (décadas de 1930/40, décadas de 1980/ 90, anos de 2000 a 2005), tal mostra de cartas permitirá, no interior das discussões sobre Sistema Literário, esboçar um quadro panorâmico da recepção, leitura e apropriação da obra de exponenciais escritores da literatura infanto-juvenil brasileira .

 
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Inaugurando o Brasil Contemporâneo: "Batismo de Sangue", gênero híbrido?
por Rogério Silva Pereira

Resumo
Batismo de Sangue (BS), de Frei Betto, publicado originalmente em 1982, mistura gêneros. Reúne em si, dentre outros, resenha histórica, depoimento e biografia, tudo isso, muitas vezes, amarrado em chave romanesca. Não é, bem entendido, um romance, mas algumas categorias romanescas especificamente ficcionais são recorrentemente instrumentalizadas em sua configuração. Em consonância com esses aspectos, BS é também esforço de tornar público aspectos da realidade da guerrilha clandestina do Regime Militar, esta eminentemente privada. Usando os conceitos de público e privado (Arendt), de metáfora (White), de personagem do romance (Candido; Rosenfeld), e de romance público (Bakhtin), discutiremos os aspectos híbridos que envolvem a narrativa de BS.

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João Antônio: correspondência como arquivamento de si
por Telma Maciel da Silva

Resumo
A correspondência trocada entre o escritor João Antônio e o amigo Jácomo Mandato apresenta diversas facetas, que vão desde o documento histórico-cultural até o escrito literário. Destas tantas faces, coloco em discussão neste trabalho o aspecto mais material, qual seja, o da utilização do suporte como forma de arquivar informações importantes, seja do ponto de vista histórico, seja no que concerne a memória pessoal. Nas cartas de João Antônio, essa prática arquivística aparece de várias maneiras; ora o encontramos “ensaiando” textos que posteriormente seriam utilizados em suas composições literárias, ora o vemos “guardar” documentos que lhe pareciam importantes para a posteridade. Observamos, assim, que o escritor promove em sua correspondência com Mandato uma espécie de cópia de arquivo, uma vez que transformou seu interlocutor em um fiel depositário de parte significativa daquilo que foi dito na imprensa a seu respeito. Trato, dessa forma, da carta como espaço de um arquivo fragmentário, que une documentos díspares em relação às suas categorias e sentidos, porém, irmanados em seu caráter funcional.

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VOLUMES I E II DO DIETARIO DO MOSTEIRO DE SÃO BENTO DA BAHIA
por Alícia Duhá Lose

Resumo
O Dietario das vidas e mortes dos Monges, q faleceráo neste Mosteiro de S. Sebastião da Bahia da Ordem do Principe dos Patriarchas S. Bento traz informações sobre toda a história do Mosteiro de São Bento da Bahia. Esta história é contada através do resumo da vida de cada monge que passou por ali ao longo desses anos. O hábito de registrar as história s de vida dos antecessores religiosos é compartilhado entre muitos mosteiros seculares, sendo que, para os monges beneditinos, esse documento desempenha a função primordial de legar à própria comunidade a memória daqueles predecessores, entendendo essa prática enquanto reverência aos mais velhos e associando-a ao sufrágio dos mortos. Tendo em vista que o Dietário consiste numa narração histórica, feita em ordem cronológica, pode-se compreendê-lo como uma crônica. O Dietário é diariamente lido e é redigido até os dias atuais. Neste trabalho, pretende-se apresentar as características textuais dos dois primeiros volumes desse documento, que apresentam diferenças significativas entre si, o primeiro escrito a cinco mãos, ao longo de vários séculos e o segundo produzido por Dom Clemente da Silva Nigra, que, além de copiar e ampliar o texto anterior, reordenou todo o documento para facilitar a leitura.


Impressos que não têm preço – o valor de alguns elementos extra-literários para a compreensão da atividade literária
por Tâmara Abreu

Resumo
Num tempo em que ainda não havia computadores, escrever e publicar um livro eram atividades cujas negociações dependiam quase que exclusivamente de cartas. Assim, para além de um gênero literário, estudar a correspondência ou o arquivo de um escritor significa entrar nas minúcias do percurso editorial de uma obra (inscrita em um tempo e um lugar), desde a sua criação até a sua circulação e recepção; significa ver a carta como suporte textual híbrido por excelência, onde se misturam registros estilísticos e protocolares, de ordem pessoal ou profissional. Paralelamente às cartas, sejam elas publicadas ou não, elementos como artigos em jornais e revistas, contratos jurídicos, documentos institucionais diversos, anúncios em catálogos de editoras, entre outros, nos indicam a relação de interdependência existente entre o texto literário e seus veículos de publicação, divulgação, crítica e conservação. Dentro de uma perspectiva comparatista, pesquisar os arquivos históricos de homens de letras como Monteiro Lobato, Lourenço Filho, Paul Faucher e Adolphe Ferrière nos permite iluminar questões sociais, políticas e econômicas que se entrelaçam na feitura de um livro tanto no Brasil quanto na França da primeira metade do século XX


Do cru ao polido: cartas do exílio republicano espanhol.
por Valeria De Marco

Resumo
Trata-se de caracterizar as singularidades discursivas do vasto território textual constituído pela correspondência de intelectuais espanhóis que deixaram a Espanha ao final da guerra civil. Como em vários casos conservam-se cartas anteriores ao conflito, é possível observar um padrão de composição espistolar transformar-se a partir da vivência daqueles eventos e de suas conseqüências. O perfil individualizado dos correspondentes, a frase coloquial entre cúmplices que partilham projetos, clichês do distanciamento entre mestres e principiantes ou a sintaxe argumentativa do ensaio das polêmicas são marcas de uma estabilidade cultural que se estilhaça. Nas trocas de cartas entre os republicanos espanhóis exilados ou nas entre estes e os que viviam na asfixia da ditadura de Franco, observam-se instáveis combinações entre o discurso cru e o polido. A indeterminação transfigura o missivista e o destinatário, dando-lhes perfil de “coletivo”; a crueldade das condições materiais ou culturais pode deslizar da frase invectiva ou do xingamento para o ritmo polido do poema, posteriormente recolhido em livros; a polêmica desdobra-se em soma de afirmações, pois com freqüência elide-se o argumento político que a motiva; a polidez escamoteia a indiferença, castra-se a frase afetiva e a cumplicidade fica restrita às reticências.