COORDENADORES:
Maria Aracy Bonfim (Universidade Federal Do Maranhão)
Elizabeth Hazin (Universidade de Brasília)
Sandra Margarida Nitrini (Universidade de São Paulo)

RESUMO: Existe na Literatura uma especificidade de suma importância a ser atentamente explorada, aquela precisamente que diz respeito ao fato de seu significado também repousar nas conexões que consegue acionar a partir de outras áreas do saber. Centrando-se aqui na obra literária do escritor pernambucano Osman Lins (Vitória de Santo Antão, 1924 – São Paulo, 1978), este simpósio tem como objetivo uma profunda reflexão sobre de que modo o texto literário pode ser modificado pela experiência de seu trânsito em outras áreas. Lê-se em A ideia de ordem, de Ana Paula Pedro que para Vitrúvio a diferença entre o arquiteto e o artesão repousaria na formação do primeiro, que deveria adquirir conhecimento de um conjunto de disciplinas necessárias a sua atividade: literatura, história, filosofia, direito, medicina, astronomia, música, desenho e geometria. Poderia haver algo mais osmaniano? Em entrevista concedida ao Correio da Manhã (Rio), de 17 de setembro de 1966, e publicada em Evangelho na Taba: outros problemas inculturais brasileiros, Osman Lins afirma que seu livro Nove, novena - lançado publicamente em São Paulo, no dia 6 de julho de 1966 - abrange mais áreas de pesquisa do que seus trabalhos anteriores, o que se deve sobretudo ao fato de que seu espírito “permite agora essa aventura”. Dos aspectos formais constitutivos desse livro, chama a tenção o modo como cada uma das nove narrativas se torna foz e confluência de linguagens, ou seja, uma rede tecida no texto com elementos advindos de outros saberes e que a ele adere tão perfeitamente que já não é possível encará-la como um mero conjunto de informações necessárias à construção textual, mas como algo mais esquivo a definições e que instiga no leitor a reflexão. De fato, o diálogo com outros campos do conhecimento que aí se instaura aponta apara um profundo envolvimento com a pesquisa, por parte do autor. Fruto de suas andanças pela Europa (esteve na França em 1961, por seis meses, como bolsista da Alliance Française) que o puseram em contato com a arte medieval, entre tantas outras novidades, tal envolvimento abriu seus horizontes, permeando seu texto de outros saberes: a geometria, a entomologia, a música, a matemática, a paleontologia, a álgebra, a alquimia, a astrologia, o pensamento filosófico, a arquitetura e tantos outros. Assim – ao refletir sobre o conceito de transdisciplinaridade - este simpósio pretende refletir principalmente sobre o seu desdobramento em relação ao texto osmaniano, ou seja, sobre como se dá neste recinto – o do espaço da obra - o diálogo com outras áreas do conhecimento - o que envolve pesquisa também por parte de quem estuda esse autor - e em que medida isso afeta sua criação literária. Pretende, pois, investigar os diversos campos do conhecimento que – a partir de Nove, novena – surgem em seu discurso ficcional, na tentativa de apreender o mecanismo transdisciplinar que subjaz à fatura do texto, tornando-o tão peculiar: alusivo, metanarrativo e possuidor de estrutura que nasce naturalmente dos saberes que participam de sua oficina. Serão aqui acolhidos trabalhos que: 1) ampliem o conceito de transdisciplinaridade e sua relação com a Literatura; 2) apontem o modo como a literatura dialoga com outros saberes e como lança mão de sua aprendizagem na elaboração estética de seu conteúdo; 3) repensem as possibilidades de abordagem de outras áreas de conhecimento a partir do diálogo entre elas e a literatura; 4) apreendam em que medida a influência de outras disciplinas afeta o fazer literário e configura sua rede de significações; 5) aprofundem a relação da escrita com a leitura, da forma com o conteúdo, do real com a ficção, a partir da transdisciplinaridade do texto osmaniano. O aparato teórico poderá ser constituído pelos textos de Edgar Morin sobre a religação dos saberes e o método, mostrando o conhecimento como um fenômeno transdimensional, inseparável e simultaneamente físico, psicológico, cultural e social; de Foucault sobre a arqueologia do saber e a história dos sistemas de pensamento; de Krzysztof Pomian, sobre natureza, história e conhecimento, em que se lê que o conhecimento não pode ser concebido como uma unidade e, finalmente, no que diz respeito a questões que envolvam a narrativa, poderá ser usado como base o livro de Hayden White que se intitula El contenido de la forma (narrativa, discurso e representación histórica).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio: Forense Universitária, 2013. ______. Estética: Literatura e Pintura, Música e Cinema. Rio: Forense Universitária, 2006. LINS, Osman. Evangelho na Taba: outros problemas inculturais brasileiros. São Paulo: Summus, 1979, p. 137. ______. Nove, novena. São Paulo: Martins, 1966. MORIN, Edgar. A religaçãoo dos saberes: o desafio do século XXI. Rio: Bertrand Brasil, 2002. PEDRO, Ana Paula G. A ideia de ordem: Symmetria e Decor nos Tratados de Filarete, Francesco di Giorgio e Cesare Cesariano. São Paulo: EDUSP/FAPESP, 2014, p. 45. POMIAN, Krzysztof. Coleção. Enciclopédia Einaudi I: Memória – História. Porto: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1984, pp. 51-86. WHITE, Hayden. Elcontenido de la forma: narrativa, discurso e representação histórica. Barcelona: Paidós, 1992.

PALAVRAS-CHAVE: Osman Lins; Literatura e Transdisciplinaridade; Literatura e Intertextualidade.

COORDENADORES:
Fernanda Boarin Boechat (Universidade Federal do Pará)
Daniel Martineschen (Universidade Federal de Santa Catarina)
Otávio Guimarães Tavares (Universidade Federal do Pará)

RESUMO: A relação literatura e vida, ou ainda, a tensão entre ficção e realidade, ocupa lugar central em diferentes debates no âmbito da Teoria da Literatura. Tal dicotomia, contudo, também pode ser tomada a partir de uma perspectiva conciliatória, de modo que se destaca certa complexidade presente no tecer e no tecido da obra literária. Assim, compreendemos como ponto de partida interseções entre literatura e vida, também entre ficção e realidade, em diálogo com a abordagem do romanista alemão Ottmar Ette, que reconhece na literatura um caráter transareal. Ette, nesse sentido, destaca que na literatura “[...] origina-se um campo de tensa?o na?o entre ficc?a?o e realidade, mas muito mais entre texto e vida. Ja? que a literatura [...] na?o e? uma realidade representada, mas a representac?a?o litera?ria de realidades vividas e vivenciadas que na?o podem ser reduzidas, como sempre, a uma realidade construi?da. Ou de outro modo: literatura e?, porque ela e? mais do que ela é” (ETTE, 2011, p. 50-51). Investigações voltadas à dimensão comunicativa da literatura, bem representadas no âmbito da Teoria da Literatura pelo trabalho de Wolfgang Iser em O fictício e o imaginário (1996), podem ampliar e aprofundar o debate que envolve a relação literatura e vida, a exemplo do que chama de relação tríplice em literatura – entre real, fictício e imaginário – presente como um mecanismo ou funcionamento. Para além das pesquisas na área de Estudos Literários, podemos observar o contato entre literatura e realidade compreendido a partir da noção de John Austin (1962) de atos de fala, em que as palavras e dizeres afetam e constroem a realidade. Em diálogo com Austin e uma tradição retórica antiga, Barbara Cassin (2019) irá apontar que Górgias, ao escrever o Elogio de Helena, instaura um mundo em que a inocência de Helena é possível. Judith Butler (1997) nota que o discurso de ódio deve ser compreendido não apenas como um ato discursivo semântico, mas como uma agressão ao outro, um ato de violência. Os contornos que podemos traçar destes movimentos apontam para uma ambígua relação em que as fronteiras entre literatura, vida, realidade, ficção não podem ser absolutamente fixadas. Celso Braida irá apontar que a arte não é a concretização de um possível, mas sim que ela instaura o possível: “Uma vez admitido o primado do efetivo sobre o possível, admissão essa de difícil aceitação por implicar a destranscendentalização do artístico, a operação da arte então teria de ser pensada como um ato de ficção que faz ser o que não é, pois seria a ação de tornar possível, em vez de ser uma realização do possível. De ponta a ponta, o artístico se daria por atos de ficção que tornam possível e assim acrescentam outras possibilidades que as existentes” (2018, p. 27). Identificamos que o debate em torno do caráter do texto literário, não raro sobre sua função (social) ou utilidade, e que também envolve a relação realidade e ficção, está presente em diversas políticas e em momentos históricos distintos, seja mesmo em consideração à presença da Literatura como disciplina obrigatória na Educação Básica e orientações nacionais para processos de seu ensino e aprendizagem, seja sua presença robusta em políticas internacionais, como foi na Política de Boa Vizinhança (Good Neighbor Policy) promovida pelos Estados Unidos com a América Latina entre os anos 1933-1945. Quando consideramos as políticas em que o texto literário se insere, no contexto de concepção e recepção, é importante considerar uma rede de associações, aqui em diálogo com Bruno Latour (2012), em que os atores não são somente governantes, escritores, tradutores, intelectuais, mas tambe?m as pro?prias obras. Objetos/atores são considerados como mediadores, ou seja, insta?ncias que na?o somente transportam significados em um social construi?do de associac?o?es, mas como insta?ncias que podem transformar, traduzir, modificar e até distorcer significados em uma “rede em trabalho” ou, como Latour (2012, p. 65) menciona, uma worknet. Dessa forma, a obra com seu caráter polilógico (ETTE, 2011, p. 50-51) é capaz de movimentar discursos não somente por meio da recepção do leitor, mas é vista como ator de uma rede que atua no espaço das relações humanas, quiçá (re)configurando espaços e mesmo “redes em trabalho”. Nesse sentido, vale destacar também políticas de tradução, senão o próprio ato tradutório, como campo de investigação que se volta à relação realidade e ficção em literatura. Em vista dos apontamentos aqui brevemente reunidos, propõe-se no presente simpósio trazer à tona as possibilidades discursivas a partir da investigação do texto literário, com destaque para discussões em torno da natureza e caráter do texto, portanto, que observem a linguagem em literatura e seus desdobramentos nos contextos de produção e recepção.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: AUSTIN, John L. How to do things with words. Cambridge: Harvard University, 1962. BRAIDA, Celso. Arte, ação e ficção do possível. In: VACCARI, Ulisses (Org.). Arte e estética. Marília: Oficina Universitária; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2018. BUTLER, Judith. Excitable speech: a politics of the performative. New York: Routledge, 1997. CASSIN, Barbara. Sophistics, Rhetorics, and Performance; or, how to really do things with words. Tradução de Andrew Goffey. Philosophy & Rhetoric, vol. 42, n. 4. , p. 349-372. 2009. Disponível em: <http://www.jstor.org/stable/25655365. Acesso em: 2 jan. 2019>. ETTE, Ottmar. Insulare ZwischenWelten der Literatur: Inseln, Archipele und Atolle aus transarealer Perspektive. In: WILKENS, Anna E.; PAMPONI, Patrick; WENDT, Helge (Org.). Inseln und Archipele: kulturelle Figuren des Insularen zwischen Isolation und Entgrenzung. Bielefeld: Transcript, 2011. ISER, Wolfgang. O fictício e o imaginário. Tradução de Johannes Kretschmer. Rio de Janeiro: Eduerj, 1996. LATOUR, Bruno. Reagregando o social: uma introduc?a?o à teoria do Ator-Rede. Traduc?a?o de Gilson Ce?sar Cardoso de Sousa. Salvador: EDUFBA, Bauru: EDUSC, 2012.

PALAVRAS-CHAVE: Discurso literário; Linguagem; Performance

COORDENADORES:
Algemira de Macêdo Mendes (Universidade Estadual do Piauí)
geovana quinalha de oliveira (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul)
Lucilene Machado Garcia Arf (Universidade Federal e Mato Grosso do Sul)

RESUMO: A ESCRITA DE AUTORIA FEMININA NA LITERATURA: MEMÓRIA, DECOLONIALIDADE, IDENTIDADE E RESISTÊNCIA Este simpósio propõe congregar reflexões sobre a literatura de autoria feminina. A partir de uma perspectiva decolonial busca-se discutir a dimensão do poder de dominação e exploração do sistema colonial/moderno/capitalista/patriarcal (María Lugones, 2020) perpetrado em distintas sociedades. Desde proposições precedentes das relações gênero-raça, o objetivo é pensar criticamente os modos de sujeição a que as mulheres do Sul global foram submetidas com a efetivação do processo da colonialidade. Tais questões são constantemente atualizadas nos posicionamentos femininos inscritos nas produções literárias vigentes e enriquecidas pelos aportes teóricos e críticos dos estudos feministas decoloniais. Ao aprofundar as pesquisas de Aníbal Quijano, Lugones (2020) preconiza o que chamou de “sistema moderno colonial de gênero” como uma forma de olhar minuciosamente a teorização da estrutura opressiva da modernidade colonial, seu uso de dicotomias hierárquicas e de lógica categorial. Essa postura crítica de escritura/leitura desvela silenciamentos e invisibilidades e, por extensão, denuncia as mais diversas e diferentes formas de opressão e de violência de gênero praticados pelo arranjo colonial. Por meio de uma releitura crítica do passado e de propostas de valoração de epistemologias locais e pluriculturais, como sugerem Yuderkys Miñoso (2020), Julieta Paredes (2018), Ochy Curiel (2020), Françoise Vergès (2020), entre outras feministas, esse simpósio espera reunir pesquisas que tratam criticamente de questões sobre a memória, identidade e alteridade nas produções de mulheres a partir de diferentes lugares de fala. Trata-se de pensar o modo como a escrita de autoria feminina rompe silêncios, preenche lacunas e, por extensão, reescreve a história constituída por colonizações, ditaduras, confronto étnicos, exploração capitalista e relações hierárquicas/dicotômicas de gênero. Por esse viés, a literatura será aqui apreendida como um constructo cultural, cuja potência é representativa do espaço e da voz conquistados ao longo do tempo, permitindo a construção de novas subjetividades nos modos de ser e sentir em uma visão interseccional de categorias como as de classe, raça/etnia, lugar e gênero (Carla Akotirene, 2019). A escrita de mulheres promove, nesse sentido, projetos críticos mais conscientes de nossa condição e, consequentemente, das nossas especificidades de sujeitos colonizados pelo sistema capital/moderno/patriarcal. Como afirma Adrienne Rich (2017), a literatura é um indício de como vivemos, como temos vivido, como nós mulheres temos sido levadas a nos imaginar e, sobretudo, como nossa linguagem tem nos aprisionado ou libertado. Certamente, estudar a literatura de mulheres é uma forma de refletir sobre os dispositivos que regulam a recepção e a circulação de obras definindo quais merecem pertencer ao cânone. Por essa razão, podemos dizer que as questões apontadas até aqui atuam, inevitavelmente, como elementos de articulação em que a autoria feminina pode ser analisada como lugar de des-encontro, deslocamento, diferença e resistência voltados para a compreensão dos procedimentos e das implicações políticas da produção discursiva e simbólica de elementos históricos, culturais, identitários e de alteridades. Como nos ensina bell hooks (2019), a tendência acadêmica de ressignificação radical dessas categorias é enraizada nos esforços antirracistas de libertação negra, o que abre espaço para produções que se enquadram na perspectiva da diferença. Ao pensar sobre identidade, alteridade e diferença, Stuart Hall (2006) coloca em xeque a relação entre natureza e identidade cultural, ressaltando que, embora os indivíduos tendam a tratar as identidades como características genéticas, as culturas nacionais não passam de comunidades imaginadas, produzidas a partir de sistemas de representação que se impõe, não raro, de forma violenta, no afã de mascarar a alteridade e a diferença. Para dizer de forma simples: não importa quão diferentes seus membros possam ser em termos de classe, gênero ou raça/etnia, uma cultura nacional busca unificá-los numa identidade cultural para representá-los todos como pertencendo à mesma e grande família nacional (HALL, 2006, p. 47). Como forma de combater a imposição desse opressivo discurso de identidades homogêneas e hegemônicas instaurado pela colonialidade eurocêntrica, o feminismo decolonial vem atuando em diversos campos como o político, o acadêmico, o social e o cultural. Essa perspectiva crítica que quer revolucionar as práticas cotidianas almeja uma sociedade que se atende para a valoração dos saberes e das epistemologias da diferença e das minorias, a exemplo os dos corpos das mulheres e as muitas pluralidades que os compõe. Na perspectiva exposta acima, esse simpósio busca, portanto, reunir trabalhos e pesquisas de diferentes reflexões críticas e teóricas e de múltiplas áreas do conhecimento que dialogam com memória, decolonialidade, identidade e resistência. Palavras-chave: Autoria feminina; memória; identidade; decolonialidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: AKOTIRENE, Carla. Interseccionalidade. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro, Ed: DPA, 2006. CURIEL, Ochy. Construindo metodologias feministas a partir do feminismo decolonial. Trad. Pê Moreira. HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Pensamento feminista hoje: perspectivas decoloniais. Rio de Janeiro. Bazar do tempo, 2020. HOOKS, bell. Anseios: raça, gênero e políticas culturais. São Paulo: Elefante, 2019. LUGONES, María. Colonialidade e gênero. Trad. Pê Moreira. HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Pensamento feminista hoje: perspectivas decoloniais. Rio de Janeiro. Bazar do tempo, 2020. MIÑOSO, Yuderkys Espinosa. Fazendo uma genealogia da experiência: o método rumo a uma crítica da colonialidade da razão feminista a partir da experiência histórica na America Latina. Trad. Pê Moreira. HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Pensamento feminista hoje: perspectivas decoloniais. Rio de Janeiro. Bazar do tempo, 2020. PAREDES, Julieta. Descolonizar las luchas: la propuesta del feminismo comunitario. Mandrágora, v. 24, n. 2, p. 145-160, 2018. RICH, Adrienne. Quando da morte acordamos: a escrita como re-visão. Tradução de Susana Bornéo Funck. In: BRANDÃO, Izabel; et al. Traduções da cultura: perspectivas críticas feministas (1970-2010). Florianópolis: EDUFAL / Ed. UFSC, 2017. VERGÈS, Françoise. Um feminismo decolonial. Trad. Jamille Pinheiro Dias; Raquel Camargo. Um feminismo decolonial. São Paulo: UBU editora, 2020.

PALAVRAS-CHAVE: Autoria feminina; memória; identidade; decolonialidade.

COORDENADORES:
Andresa Fabiana Batista Guimarães (IFSULDEMINAS)
Gabriela Rodella de Oliveira (UFSB)

RESUMO: Desde o final da década de 1960 e início da de 1970, a Reader-Response Theory e as teorias da recepção da Escola de Constança evidenciam o papel essencial do leitor na construção dos sentidos de um texto. Para Iser (1996, p. 197), o “texto só existe pelo ato de constituição de uma consciência que o recebe”. Stanley Fish, define a noção de “comunidade interpretativa” como uma entidade pública e coletiva, formada por todos aqueles que compartilham das mesmas estratégias de interpretação e, partindo do princípio de que “a habilidade de interpretar não é adquirida: ela é constitutiva do ser humano”, afirma: “o que é adquirido são os modos de interpretação e esses modos podem ser esquecidos, suplantados, complicados ou dispensados” (FISH, 1980, p. 172, tradução nossa). Jauss (1979) entende o leitor como o elemento que garante a historicidade das obras literárias, e defende que uma obra só se converte em acontecimento literário a partir da relação dialógica resultante da interação entre o leitor, suas experiências anteriores e a própria obra. No estabelecimento dessa relação, o saber prévio, ou “horizonte de expectativas” do leitor sobre a obra, será determinante em sua recepção. Para o crítico, a obra suscita expectativas, desperta lembranças, “conduz o leitor a determinada postura emocional e, com tudo isso, antecipa um horizonte geral da compreensão” (JAUSS, 1994, p. 28). Nesse sentido, a historicidade coincide com a atualização da obra literária, e a recepção apresenta-se como um fator social e histórico, pois reações individuais são parte de uma leitura mais ampla de um grupo no qual o sujeito está inserido, o que pode tornar a sua leitura semelhante à de outros homens que vivem sua época. Na atual corrente francesa acerca da didática da literatura, Annie Rouxel (2013) afirma que ao se pensar o ensino de literatura é fundamental livrar-se dos demônios do formalismo e considerar a dimensão subjetiva e as realizações efetivas dos sujeitos leitores (alunos, estudantes, professores). “A implicação do sujeito dá sentido à prática da leitura, pois ela é, ao mesmo tempo, o signo de apropriação do texto pelo leitor e a condição necessária de um diálogo com o outro, graças à diversidade das recepções de uma mesma obra” (p. 23). Dessa forma, delineia-se uma nova perspectiva didática para o ensino de literatura, que se contrapõe à tradição escolar de um trabalho com literatura baseado na leitura analítica (de interpretação de texto com base na análise do professor e/ou dos críticos literários, ou mesmo nas respostas dos livros didáticos) e propõe uma outra perspectiva, a da leitura cursiva (leituras pessoais, autônomas e livres de coerção avaliativa), descrita como “a forma livre, direta e corrente” da leitura. Para a pesquisadora francesa, a prática da leitura literária abarca a da leitura cursiva, torna evidente a importância de se garantir um tempo em sala de aula para a leitura integral das obras, e não se reduz a uma atividade cognitiva, pois o processo de elaboração semântica enraíza-se na experiência do sujeito. Como pontua Rouxel (2012, p. 272-283): O investimento subjetivo do leitor é uma necessidade funcional da leitura literária; é o leitor quem completa o texto e lhe imprime sua forma singular de pensar e sentir. Não se trata, portanto, de renunciar ao estudo da obra em sua dimensão formal e objetiva, mas de acolher os sentimentos dos alunos, incentivando seu envolvimento pessoal com a leitura. Desta maneira, pode-se dizer que a prática da leitura literária possibilita a identificação e convida o leitor a uma apropriação singular das obras, favorecendo assim a construção de uma outra relação com o texto, sendo possível levar em consideração os desejos e interpretações de leitores reais Nesse sentido, no simpósio “A leitura literária, a dimensão subjetiva e o sujeito leitor: dimensões teóricas e práticas” propomos dar sequência à discussão sobre o que seria uma didática para a leitura literária, os desafios que se delineiam para as práticas da leitura de literatura em sala de aula, buscando compartilhar pesquisas acadêmicas, experiências e vivências em sala de aula que estejam voltadas a estas novas perspectivas. No ano passado (Abralic de 2020), este caracterizou-se como um espaço de diálogo com os professores para se pensar as mudanças de foco no ensino da literatura. Em virtude da necessidade e da importância de se manter viva a interação com professores e professoras, almejamos novamente promover um espaço reflexivo levando em consideração estas novas perspectivas. Vale ressaltar que o nosso propósito também é refletir sobre a presença na sala de aula de textos da tradição, de obras importantes da literatura canônica, e das literaturas contemporâneas, bem como das diversas manifestações culturais (como rap, batalhas de rimas e os slams), que fazem o trabalho com a literatura.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: FISH, Stanley. Interpreting the variorum. In: ______. Is there a text in this class? Massachusetts: Harvard, 1980. ISER, Wolfgang. O ato de leitura: uma teoria do efeito estético. Trad. Johannes Kretschmer. São Paulo: Ed. 34, 1996, v. 1 e 2. JAUSS, Hans Robert, et. al. A literatura e o leitor: textos de estética da recepção. Trad. e coord. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. ______. A história da literatura como provocação à teoria literária. Trad. Sérgio Tellaroli. São Paulo: Ática, 1994. ROUXEL, Annie; LANGLADE, Gérard; REZENDE, Neide Luzia. (org.) Leitura subjetiva e ensino de literatura. São Paulo: Alameda, 2013. ROUXEL, Annie. Práticas de leitura: quais rumos para favorecer a expressão do sujeito leitor? In: Cadernos de Pesquisa, v. 42, nº 145, p.272-283, jan./abr. 2012.

PALAVRAS-CHAVE: Ensino de Literatura; Leitura Literária; Sujeito Leitor.

COORDENADORES:
ROGERIO LOBO SABER (Universidade do Vale do Sapucaí)
Ayda Elizabeth Blanco Estupiñan (Universidad Pedagógica y Tecnológica de Colombia)
Julio Cesar França Pereira (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

RESUMO: O diagnóstico realizado por Glennis Byron (2013) enfatiza o potencial difuso do fenômeno gótico e ressalta como, à medida que ingressamos mais e mais em processos culturais globalizantes e em novas dinâmicas de intercâmbio cultural, criativas inflexões têm sido garantidas à arte do excesso e da transgressão (BOTTING, 1996) ou, como designada por Marie Mulvey-Roberts (1998), à arte do mal-estar (un-ease) e da patologia (dis-ease). A passagem do século 20 para o 21 confirmou a plasticidade da literatura gótica — já reforçada por Andrew Smith e Jeff Wallace (2001) — e serviu de momento histórico que deu à luz “novos góticos nacionais e regionais, do gótico Kiwi ao gótico da Flórida, do gótico de Barcelona ao gótico japonês” (BYRON, 2013, p. 1). As obras contemporâneas, quer estabeleçam diálogo estreito ou distanciado com as obras da matriz europeia, se esforçam por recolher seu próprio inventário de “tropos ou estratégias” para garantir seus contrapontos culturais, “por mais diferentemente que sejam modulados por histórias e sistemas de crença específicos” (BYRON, 2013, p. 3). Na esteira do estudo de Byron, Enrique Ajuria Ibarra (2014, p. 6) corrobora que o gótico é um modo ficcional que se caracteriza por seu deslocamento entre “limites geográficos, culturais e artísticos”. Em Tropical Gothic in Literature and Culture, Justin D. Edwards e Sandra Guardini Vasconcelos (2016) analisam também o gótico como fenômeno de transculturação. Tabish Khair (2009) reforça as profícuas possibilidades hermenêuticas resultantes da aproximação entre a literatura gótica e os estudos pós-coloniais, fundamentais à percepção de questões relacionadas à alteridade. Tal abordagem permite que o gótico seja lido como um inventário estético que representa e denuncia a complexidade inerente a conceitos como privilégio e poder, ao colocar frequentemente em cena relações culturais orientadas por uma lógica de pensamento que reconhece o Outro como um “self pronto para ser assimilado” (KHAIR, 2009, p. 4-5). Qualquer que seja o tipo reconhecido como monstruoso escolhido para povoar as obras (demônios, vampiros, bruxas, judeus) é indispensável reconhecer as obras góticas como inventário para exploração dos medos e ansiedades enfrentados coletivamente por determinada cultura. No caso do gótico estadunidense, a figuração do Outro fica inicial e insistentemente a cargo dos nativos indígenas e dos negros. Por sua vez, o gótico canadense marca-se por sua exploração de figuras sobrenaturais folclóricas, e o gótico do Caribe concede espaço para personagens exóticos que protagonizam contos de escravos e de rituais mágicos (SNODGRASS, 2009, p. 6-7). No Brasil, o gótico de Lygia Fagundes Telles se preocupa com questões de opressão feminina (BALDERSTON; GONZALES, 2004). Nota-se, a partir desses exemplos, que o gótico adquire contornos regionais, embora mantenha seu propósito matricial de mergulhar nos medos que assombram a coletividade. Para Byron (2013), o gótico do fim do século 20 e o gótico do século 21 caracterizam-se por ser espaço estético para exploração de ansiedades decorrentes do mundo globalizado e, embora a análise de Ibarra (2014) recaia sobre um objeto cinematográfico da cultura mexicana, é semelhante seu posicionamento ao nos sugerir que o gótico é um instrumento de catarse coletiva, capaz de “explorar diferentes aspectos da nossa psique social e cultural” (IBARRA, 2014, p. 7). A proposta classificatória de Mary Ellen Snodgrass (2005) permite-nos observar com mais atenção o emblemático vilão gótico, figura que, principalmente nas obras do século 18, personifica a alteridade ameaçadora que deve ser extirpada ou assimilada. No entanto, no decorrer dos séculos, o vilão gótico tem permanecido em seu posto de complexo personagem justamente porque a compreensão de suas motivações e ações nos obriga a encarar um território de “ambiguidade moral” (SNODGRASS, 2005, p. 351) que intensifica a dificuldade de qualquer julgamento. Retomados por autores como Isabel Allende e Gabriel García Márquez, temas como violência, vingança, mal, sonambulismo e reencarnação recorrem nas obras góticas latino-americanas, que compõem um portentoso acervo a partir do qual tensões coloniais e pós-coloniais podem ser aprofundadas, tais como “os sofrimentos da classe agrária” (SNODGRASS, 2005, p. 184), que suportou séculos de exploração. O modo literário gótico permanece sendo útil e instigante instrumento para a encenação e discussão de relações interpessoais predatórias e, especificamente no caso da América Latina, o toque sobrenatural entrelaça-se com o plano representacional realista, compondo o que Snodgrass (2005, p. 184) resumiu como “alto drama que une cenários de contos de fadas e pavores supersticiosos com paixão e incidentes acreditáveis”. Na América Latina, sinaliza Snodgrass (2005), as obras despontam por sua remodelagem das convenções góticas e por sua densa carga de comentário social. É objetivo deste GT acolher propostas investigativas que discutam criticamente a literatura gótica produzida por autores das Américas. Embora não haja restrição quanto à abordagem crítica empregada para incursão nas obras, destacamos a promissora aproximação entre o gótico e estudos culturais, que nos convida a aprofundar a compreensão das tensões sociais vivenciadas pelo Canadá, Estados Unidos, América Latina e o Caribe.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BALDERSTON, Daniel; GONZALES, Mike. Encyclopedia of Latin American and Carib-bean Literature 1900-2003. London: Routledge, 2004. BOTTING, Fred. Gothic. London: Routledge, 1996. BYRON, Glennis (ed.). Globalgothic. Manchester: Manchester University Press, 2013. EDWARDS, Justin D.; VASCONCELOS, Sandra Guardini (ed.). Tropical Gothic in litera-ture and culture. New York: Routledge, 2016. IBARRA, Enrique Ajuria. Introduction: Exploring Gothic and/in Latin America. Studies in Gothic Fiction, Cardiff, vol. 3, issue 2, p. 6-12, 2014. KHAIR, Tabish. The Gothic, postcolonialism and otherness: ghosts from elsewhere. Ba-singstoke: Palgrave Macmillan, 2009. MULVEY-ROBERTS, Marie. The handbook of Gothic literature. Basingstoke: Macmillan Press, 1998. SMITH, Andrew; WALLACE, Jeff (ed.). Gothic modernisms. Basingstoke: Palgrave, 2001. SNODGRASS, Mary Ellen. Encyclopedia of Gothic literature. New York: Facts on File, 2005.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura gótica; Gótico nas Américas; Estudos culturais.

COORDENADORES:
Josué Borges de Araújo Godinho (Universidade do Estado de Minas Gerais - UEMG (Carangola))
Alexssandro Ribeiro Moura (Instituto Federal de Goiás - IFG (Aparecida de Goiânia))

RESUMO: Este Simpósio tem por objetivo principal o estudo das relações entre a literatura, o pensamento e a filosofia, ponto em que a língua literária se dá a ler como as “Ideias que o escritor vê e ouve nos interstícios da linguagem, nos desvios da linguagem” (DELEUZE, 1997, p. 16). No prólogo de Crítica e Clínica, Deleuze, com Proust, diz que “o escritor inventa na língua uma nova língua de algum modo estrangeira” (PROUST apud DELEUZE, 1997, p. 9). Afirma, portanto, que a literatura inventa “novas potências gramaticais ou sintáticas”, o escritor desorganiza o status quo da gramática e da sintaxe e as faz delirarem. Há uma potência fora dos caminhos da língua comum que, tensionada e extraída de seu lugar ordinário, mas devolvida a seu interior, apresenta, no ato da escrita literária, o “limite ‘assintático’, ‘agramatical’, ou que se comunica com seu próprio fora”. (DELEUZE, 1997, p. 9). Nesses termos, é importante apontar para a leitura que Rancière faz das relações entre o pensamento de Deleuze e a literatura. A literatura enquanto fórmula, pontua Rancière, é o processo “que desorganiza a vida, uma certa forma de vida. A fórmula corrói a organização racional do estudo e da vida [...], estilhaça as hierarquias de um mundo mas também aquilo que as sustenta” (RANCIÈRE, 1999, p. 2). Lê-se, portanto, a literatura no processo, no movimento de deslizamento da sintaxe e da gramática, “passagem da vida na linguagem” (DELEUZE, 1997, p. 16), que é também o processo de minoração e decomposição da língua maior, oficial, que, levada ao seu limite, a um avesso de si, não pertence a si mesma, mas se dá internamente ao seu próprio sistema. Tais posicionamentos levam-nos a pensar a literatura além do atavismo às teorias miméticas aristotélicas, isto é, além dos postulados aristotélicos e, pensando com Sontag, uma alternativa à interpretação centralizadora dos sentidos e da representação. Em Contra a interpretação, Sontag afirma que a teoria da arte no Ocidente se consagrou na teoria grega “da arte como mimese ou representação” (SONTAG, 1998, p. 12), e que tal teoria é um problema, pois, prossegue a autora, trata-se de um pensamento que antepõe forma e conteúdo e sobrepõe este àquela, tornando-o, o conteúdo, essencial, e ela, a forma, acessória. (SONTAG, 1998, p. 12). Não parecem ser outros os procedimentos que se encontram em textos os mais diversos da literatura brasileira. Nesse sentido uma gama de escritores cujas obras retomam e reelaboram tal herança literária. Nessas, ocorre a problematização da tradição e da fundamentação aristotélica ancorada nas três unidades (sujeito, espaço e tempo), reviradas ao avesso através da experimentação da linguagem ficcional e poética. Essa linhagem experimental, a nosso ver, tem seu ponto de partida em Machado de Assis, passando por Oswald e Mário de Andrade, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Murilo Rubião, os concretos, Manoel de Barros, Carolina Maria de Jesus, Sérgio Sant’Anna, Ana Cristina César, Wilson Bueno, Luiz Ruffato, Maria Esther Maciel, os marginais (tanto os da década de 1970 como os periféricos pós 1990), entre outros. Assim, esses autores seriam agenciadores de uma língua para a qual não só a experimentação é uma tônica, como a familiarização e a contaminação com outros sistemas de linguagens se faz de forma intensa. Exemplos desses procedimentos escriturais são os devires-outros que se leem em Vidas secas, em que o escritor, desorganizando as hierarquias que separam homem e cão, dá a visão, em um devir-intenso, da cachorra Baleia, e o narrador, ao rés do chão, narra como um cão. Também se lê no devir-mulher de “Desenredo”, de Guimarães Rosa, em que narrador e protagonista veem-se desorganizados da hierarquia narrativa estruturada numa história com começo meio e fim e, em um exercício intenso de sintaxe e de pensamento, “amatemático”, o barquinho de papel navega o abismo. São potências de “ruptura da literatura como tal com o sistema representativo, de origem aristotélica, que sustentava o edifício das belas letras” (RANCIÉRE, 1999, p. 2). Assim, interessa-nos, neste simpósio, a literatura em ponto de intensidade, de invenção intensa e torção da sintaxe, processo de produção de uma sintaxe nova, ao ponto de o escritor escrever como um animal, como um outro absoluto, como um burro, um rato, um cão “(Mas um cão não escreve. – Justamente, justamente).” (DELEUZE; GUATTARI, 2014, p. 52).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: DELEUZE, Gilles. Crítica e clínica. Trad. Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1997. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Kafka: por uma literatura menor. Trad. Cíntia Vieira da Silva. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2014. (Coleção Filô/Margens, 4) RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 64.ed. Posfácio de Álvaro Lins. Rio de Janeiro/São Paulo: Record. 1993. RANCIÈRE, Jacques. Deleuze e a literatura. "Encontros Internacionais Gilles Deleuze", no Colégio Internacional de Estudos Filosóficos Transdisciplinares, UERJ, nos dias 10, 11 e 12 de junho de 1996. Trad. Ana Lúcia Oliveira. In: Matraga, n. 2, 1999. Disponível em: www.pgletras.uerj.br/matraga/matraga12/matraga12ranciere.pdf. Acesso em: 27 abr. 2021. ROSA, João Guimarães. Tutameia (terceiras estórias). 3.ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1969. SONTAG, Susan. Contra a interpretação. Trad. Ana Maria Capovilla. Porto Alegre: L&PM, 1987.

PALAVRAS-CHAVE: Teoria da literatura; Literatura menor; Pensamento; Sintaxe; Representação.

COORDENADORES:
Maria Alice Sabaini de Souza Milani (UNIR)
Clarice Zamonaro Cortez (UEM)

RESUMO: A proposta deste Simpósio é discutir a poesia lírica escrita em língua portuguesa, levando em consideração as diferenças teórico-ideológicas e estético-formais que marcam as várias correntes literárias, desde os tempos medievais ao modernismo. O termo lírico tem sua origem na Grécia Antiga, quando os poetas recitavam e cantavam seus versos ao som da lira e os versos associavam-se aos principais atos da vida cotidiana, como as cantigas de ninar, os cantos de pastores, os hinos de vitória ou de adoração, os lamentos de pesar pela morte de alguém, os himeneus e as cantigas de amor. A continuidade deste lirismo se estendeu por todo século XVI em Portugal na produção poética de Camões, Sá de Miranda entre outros. O lirismo renascentista teve a influência de Petrarca, principalmente nos sonetos. O Barroco também privilegiou os sonetos nas produções poéticas de Jerônimo Baía e Francisco Rodrigues Lobo. O lirismo atingiu seu auge tanto em Portugal como no Brasil com o Romantismo. Em Portugal, destaca-se Almeida Garrett e no Brasil Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu e Castro Alves com sua obra Espumas Flutuantes (1870). No século XX, em Portugal, o lirismo se faz presente em Florbela Espanca, Sophia de Mello Breyener Andresen e Eugéneo de Andrade. Ao passo que no Brasil, Manuel Bandeira, Cecília Meireles e Mário Quintana são poetas que no desenvolver de sua produção poética aderiram ao lirismo. Tal digressão demonstra a superioridade do conceito de poesia, que é considerada como uma forma elevada de atividade criadora da palavra. Segundo Candido (1993, p.12) essa atividade criadora da palavra, se deve as “intuições profundas, dando acesso a um mundo de excepcional eficácia expressiva. Por isso, a atividade poética é revestida de um caráter superior dentro da literatura, e a poesia é como a pedra de toque para avaliarmos a importância e a capacidade criadora desta”. O discurso lírico, portanto, é caracterizado pelo sentir em conjugação com o pensar e o sujeito lírico interpreta as tensões e os conflitos que fazem parte do mundo individual e social, discutindo temas variados como o amor e o ódio, a fidelidade e a traição, a paz e a guerra, entre muitos outros. Temas esses representados com uma pluralidade de pontos de vista subjetivos e uma variedade formal dos esquemas estróficos, métricos, rítmicos, em conformidade com a expressão estilística do mundo imagético e metafórico, além do jogo sintático-semântico das antíteses, inversões e trocadilhos – matéria lírica estimuladora da sensibilidade do leitor, espécie de apelo para compartilhar ideias, emoções, sentimentos e atitudes. A poesia lírica cumpre, assim, o seu papel de "satisfazer as necessidades estético-espirituais dos leitores, ao mesmo tempo em que realiza uma tarefa educativa invejável, rivalizando com a música e a pintura" (Moniz, 1997). O poeta lírico, pintor de palavras e músico de sons linguísticos, deve ser considerado um interlocutor e um intérprete privilegiado do mundo real e do imaginário, das frustrações, dos desejos, das utopias, das dúvidas e das angústias de cada época e de cada sociedade a que pertenceu. Quase sempre marginalizado pelas esferas do poder e das influências, valorizado postumamente, o poeta é considerado um "profeta que pregou no deserto". O processo de produção da poesia não deve ser compreendido como um processo individual, particular a esse poeta explicável biograficamente, mas somente do ponto de vista lógico-linguístico, como o processo que ocorre dentro da correlação sujeito-objeto enunciado lírico. Entre os recursos linguísticos que caracterizam o fazer poético, a metáfora se constitui como um suporte na expressão plurissignificativa, por meio da qual “a linguagem deixa de ser um mero meio de comunicação e torna-se fruto da paixão e do prazer” (BORGES, 2000, p.14). Como tal, naturalmente, tem inúmeras formas diferenciadas, cuja distinção produz as possibilidades infinitas da expressão lírica e das consequentes obras de arte, e somente nesse sentido individual é o processo em relação aos diferentes poemas e poetas líricos, bem como em relação aos estilos da época. Assim, na perspectiva de Paz (2012) a história do homem condiciona-se à relação entre as palavras e o pensamento, sendo “o homem um ser de palavras”. Neste sentido, “o poema é criação original e única, mas também é leitura, recitação e participação. O poeta o cria; o povo, ao recitá-lo, recria. Poeta e leitor são dois momentos de uma mesma realidade” (PAZ, 2012, p. 46). Serão aceitos estudos sobre poetas portugueses, brasileiros e africanos, especificamente, propondo discussões sobre o discurso poético, as diferenças teórico-ideológicas e estético formais, entre outros temas da poesia lírica.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ALVES, Castro. Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986. BORGES, Jorge Luis. Esse ofício do verso. Tradução: José Marcos Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. CANDIDO, Antonio. O estudo analítico do poema. São Paulo: Terceira Leitura, 1993. MONIZ, António; PAZ, Olegário. Dicionário breve de termos literários. Lisboa: Editorial Presença, 1997. PAZ, Octavio. O arco e a lira. Tradução: Ari Roitman e Paulina Wacht. São Paulo: Cosac Naif, 2012.

PALAVRAS-CHAVE: Poesia Lírica; Linguagem; Metáfora; Palavra.

COORDENADORES:
CONSTANTINO LUZ DE MEDEIROS (Universade Federal de Minas Gerais - UFMG)
Roberto Acízelo Quelha de Souza (Universade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ)

RESUMO: Na introdução de sua obra clássica, Teoria da literatura, uma introdução, cuja primeira edição data de 1983, Terry Eagleton afirma, de um modo quase enigmático para um livro que se propõe a abordar esse tema, a suposta inexistência de algo denominado teoria da literatura, e que as abordagens teórico-metodológicas que até então haviam se dedicado ao estudo dos fenômenos literários não diziam respeito apenas aos estudos literários (a ênfase é do autor), mas a áreas subjacentes das humanidades (EAGLETON, 2006, p. VII). A essa crise de disciplinas, teorias e métodos no âmbito dos estudos literários somam-se outras questões, de cunho político, ideológico, administrativo, alterando sistematicamente a área de estudos literários, e os departamentos de teoria da literatura e literatura comparada no Brasil e no mundo. Em consequência da denominada virada ou giro linguístico, e do surgimento dos estudos culturais, a partir da segunda metade do século XX, o âmbito dos estudos literários amplia-se e passa a abarcar outros fenômenos discursivos e culturais, e não apenas o literário, criando, por um lado, problemas na configuração de disciplinas, métodos e objetos, mas, por outro lado, possibilitando uma maior riqueza de abordagens, pesquisas e aportes teóricos. Assim, desde a institucionalização da teoria literária, nas primeiras décadas do século passado com os formalistas russos, até as correntes críticas mais atuais e inovadoras, a riqueza de conceitos e aportes teórico-metodológicos apenas reafirma a importância do campo literário no âmbito das Humanidades. Nesse sentido, no alvorecer do século XXI, a teoria literária encontra-se diante do desafio de refletir sobre os rumos a tomar, incorporando novas e importantes questões, sem, no entanto, abrir mão de sua riqueza conceitual e histórica. Do mesmo modo, o despontar de interessantes correntes críticas contemporâneas, como o ecocriticismo, as pesquisas que aproximam literatura e ambientalismo, os estudos sobre gênero e diversidade, entre tantos aportes teóricos atuais, não devem ser contemplados enquanto concorrentes históricos de escolas e correntes críticas que os antecederam, embora devam ter suas especificidades reconhecidas e preservadas – sob pena de cairmos na facilidade do ecletismo –, ao mesmo tempo, devem ser consideradas também nas suas relações tanto de continuidade como de rupturas em relações às orientações crítico-teóricas que as antecederam. A abertura para as mais diversas posições crítico-literárias que se estabelecem após a década de 1960 tem enormes implicações para os programas das disciplinas de estudos literários, em especial da teoria literária. Por um lado, ocorre uma ampliação substancial no escopo de objetos de estudo passíveis de determinação, e, por outro, surgem questionamentos sobre a necessidade de se incorporar teorias e metodologias de áreas afins, como a sociologia da arte, a antropologia cultural, a filosofia, a estética, a história cultural, entre muitas possibilidades. Para alguns estudiosos como Jonathan Culler (1999), uma das consequências dessa ampliação de disciplinas, métodos e objetos é o caráter quase intimidador da disciplina, pois, ainda segundo Culler, “um dos traços mais desanimadores da teoria hoje é que ela é quase infinita” (CULLER, 1999, p. 23). Esse simpósio se propõe a refletir sobre os novos caminhos da teoria literária no século XXI em aproximação recíproca com a história da literatura, a literatura comparada, a crítica literária, a filologia, a retórica, entre outras. O intuito principal é demonstrar que, assim como em outros campos do saber, é imprescindível equacionar novas tendências teórico-metodológicas, novas correntes críticas e aportes teóricos em estreita relação com a rica tradição estabelecida pelo campo dos estudos literários – nesse sentido, a filologia tem demonstrado isso de forma exemplar no uso computacional para a leitura, interpretação, estabelecimento e preservação de manuscritos antigos – de modo a aproximar, teórica e praticamente, disciplinas aparentemente apartadas, enriquecendo e inovando campos de estudo. O benefício dessa aproximação entre passado e presente, entre tradição e modernidade para os estudos literários é mútuo e enriquecedor, tanto para aqueles que estudam a literatura em chave diacrônica, quanto para aqueles que optam por perspectivas distintas. Assim, são bem-vindas pesquisas acadêmicas sobre problemas relacionados à teoria literária; discussões sobre a história, o presente e os rumos futuros do campo literário em geral; reflexões sobre problemas específicos das diversas disciplinas que compõem os estudos literários, tais como a história da literatura, a crítica literária, a filologia, os estudos culturais, os estudos de gênero e identidade, os estudos pós-coloniais, entre outras correntes críticas (antigas e atuais), assim como estudos e pesquisas que visem alinhar o passado e o presente de nossa disciplina, sem excluir as sondagens sobre seu futuro.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: uma introdução. Tradução de Waltensir Dutra. São Paulo: Martins Fontes, 2016. CULLER, Jonathan. Teoria da Literatura: uma introdução. Tradução de Sandra Guardini Vasconcelos. São Paulo: Beca Produções Culturais, 1999.

PALAVRAS-CHAVE: Teoria da Literatura; História da Literatura; Novas Tendências Críticas; Estudos Literários.

COORDENADORES:
ALINE LEAL FERNANDES BARBOSA (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro)
Natalie Lima (Universidade Federal Fluminense)
Paloma Vidal (Universidade Federal de São Paulo)

RESUMO: A concepção da escrita como uma prática rumo ao inacabado, ao informe, ao processual e ao residual, e não como um produto acabado ou uma forma estabelecida, foi partilhada por diferentes teóricos e vem sendo desdobrada pela crítica e pela produção literária mais recentes. Em Crítica e clínica, Gilles Deleuze retomou a noção de devir a fim de liberar o texto literário de uma função representativa e aproximá-lo da ideia de processo. Décadas antes, Maurice Blanchot propôs um conceito de fragmentário que investiu contra a ideia do texto como unidade fechada e permitiu que o lacunar não fosse visto como a simples interrupção de um contínuo, mas como outra possibilidade relacional entre enunciados. Desde o final da década de 1960, e sobretudo em A preparação do romance, Roland Barthes passou a encenar-se como alguém cuja escrita estava ligada a uma produção desejante que precisava ser exibida em seus impasses e fracassos. Também Walter Benjamin teve um projeto inacabado, que, entretanto, tornou-se fundamental para a compreensão de diferentes aspectos de seu pensamento: o trabalho das Passagens, compilação de milhares de fragmentos pesquisados na Biblioteca Nacional da França cujo objetivo era recriar a Paris do XIX, foi uma empreitada arqueológica e arquivística interrompida pela morte de seu autor. Benjamin foi um pensador-catador que trouxe para dentro de sua obra uma prática do arquivo que nos interessa recuperar neste simpósio, na direção de uma reflexão sobre escritas lacunares e projetos inacabados. Cadernos, cartas, listas, notas, bilhetes, fotos – o material em torno de uma obra é múltiplo em suportes, processos e escritas. Pesquisar arquivos significa relacionar a obra publicada com os registros de sua elaboração, revelar a tensão entre arte e vida, a constituição da escrita literária como articulação de fragmentos de diferentes planos da memória coletiva e individual, as condições de produção e circulação dos textos. Destaca-se não somente a história do sucesso, daquilo que tradicionalmente se reconhece como objeto literário, mas também a história do que ficou no meio do caminho, e a interdependência entre essas esferas. Se o arquivo tem lugar no desfalecimento da memória – como diz Derrida, seu "substituto deformado" –, é sempre uma perda em relação ao que arquiva, uma subtração – deliberada ou involuntária – da sua origem. Será trabalho do/a pensador/a-catador/a inserir-se nessas lacunas e cavidades, traçar relações perdidas ou imaginadas, fazer desta subtração uma sobrevivência. Tal gesto ecoa o que diz Raúl Antelo em “O Arquivo e o presente”: os arquivos seriam espaços simbólicos sujeitos a metamorfoses, que por sua vez resultariam da combinação entre acúmulo material e esquecimento. Surge assim o an-arquivista, que abre mão de buscar sincronias entre arquivo e obra e experimenta um desencontro temporal com ambos, numa anacronia que atinge seu presente, “hipertemporalizando-o”. Essa experiência temporal é verificável no contexto latino-americano quando notamos, via Josefina Ludmer, que a pós-autonomia na literatura e os “saltos modernizadores” promovidos na região fazem do arquivo um repositório de tempos não vividos, estancados em repetições e retornos cuja vida póstuma – a Nachleben de Aby Warburg – embaralha linguagens e discursos, referente e ficção. Tendo em vista que as práticas do arquivo podem ser deslocadas e torcidas para diferentes finalidades reflexivas e artísticas, referindo-se, inclusive, a produções não letradas, como apresentou Diana Taylor em Arquivo e repertório, receberemos propostas que abordem escritas num sentido amplo – poético, narrativo, teatral, plástico, vocal, em diferentes suportes – que se esquivam da ideia de totalidade, centro e reiteração, para indicar inacabamento, resíduo, devir, guiando-se pelos seguintes eixos propostos: – escritas lacunares, em que espaços não preenchidos de sentido, com a exibição do processo, dos impasses e até do fracasso da obra, permanecem como potência de leitura e de reescrita, como nas narrativas La novela luminosa, de Mario Levrero, El zorro de arriba y el zorro de abajo, de José Maria Arguedas, Machado, de Silviano Santiago, Dora Bruder, de Patrick Modiano; no ensaio com imagens Cascas, de Georges Didi-Huberman, ou no livro Ensaio geral, de Nuno Ramos; – pensadores/as-catadores/as, em que compreendemos teóricos/as e artistas que trabalham a partir de usos inventivos de arquivos feitos de materiais heterogêneos: Walter Benjamin, Carolina Maria de Jesus, Roland Barthes, Agnès Varda, Bispo do Rosário, Aby Warburg, Jorge Luis Borges, Eduardo Coutinho, entre outros; – projetos inacabados, individuais ou coletivos, artísticos e críticos, que não chegaram a se realizar enquanto produtos, mas mobilizaram possibilidades de invenção e reflexão: A preparação do romance, de Roland Barthes, o trabalho das Passagens, de Benjamin ou o Conglomerado newyorkaises, de Hélio Oiticica; – e encenações do arquivo, quando imagens, listas, diários, espaços e outros materiais aparecem em escritas contemporâneas como coleção aberta e heterogênea: Nove noites, de Bernardo Carvalho, Lorde, de João Gilberto Noll, Arquivo das crianças perdidas, de Valeria Luiselli; dos biodramas de Vivi Tellas e de outras produções documentais do teatro contemporâneo; e de trabalhos de Rosangela Rennó.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ANTELO, Raul. "O arquivo e o presente". Revista Gragoatá, Niterói, v. 12, n.22, 2007, p.43-61. ARGUEDAS, José María. El zorro de arriba y el zorro de abajo. Santiago: Sudamericana, 2003. BARTHES, Roland. A preparação do romance I e II. Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2005. BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 2011. BENJAMIN, Walter. Passagens. Trad. Irene Aron, Cleonice P.B. Mourão. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006. CARVALHO, Bernardo. Nove noites. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. DELEUZE, Gilles. Crítica e clínica. Trad. Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1997. DERRIDA, Jacques. Mal de Arquivo: uma impressão freudiana. Trad. Cláudia de Moraes Rego. Rio de janeiro: Relume Dumará, 2001. DIDI-HUBERMAN, Georges. Cascas. Trad. André Telles. Serrote: Uma Revista de Ensaios, Artes Visuais, Ideias e Literatura, São Paulo, n. 13, p. 99-133, mar. 2013. LEVRERO, Mario. La novela luminosa. Buenos Aires: Mondadori, 2010. LUDMER, Josefina. Aqui América Latina: uma especulação. Trad. Rômulo Monte Alto. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013. LUISELLI, Valeria. Arquivo das crianças perdidas. Trad. Renato Marques. Rio de Janeiro, Alfaguara, 2019. MODIANO, Patrick. Dora Bruder. Trad. Márcia Cavalcanti Ribas Vieira. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. NOLL, João Gilberto. Lorde. São Paulo: Francis, 2004. OITICICA, Hélio. Encontros. (Org. FILHO, César Oiticica, COHN, Sérgio e VIEIRA, Ingrid). Rio de Janeiro: Azougue, 2009. RAMOS, Nuno. Ensaio Geral: projetos, roteiros, ensaios, memórias. São Paulo: Globo, 2007. RENNÓ, Rosangela. O arquivo universal e outros arquivos. São Paulo: Cosac & Naify, 2003. SANTIAGO, Silviano. Em liberdade. Rio de Janeiro: Rocco,1994. SANTIAGO, Silviano. Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. TAYLOR, Diana. O arquivo e o repertório: performance e memória cultural nas Américas. Trad. Eliana Lourenço de Lima Reis. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013. WARBURG, Aby. Histórias de fantasma para gente grande. (Org. WAIZBORT, Leopoldo). Trad. Lenin Bicudo Bárbara. São Paulo: Cia. das Letras, 2010. WARBURG, Aby. Atlas Mnemosyne. Trad. Joaquín Chamorro Mielke. Madrid: Impresos Cofás S.A. 2010.

PALAVRAS-CHAVE: Arquivo; Inacabamento; Escritas lacunares; Pensadores/as-catadores/as.

COORDENADORES:
Cleber Araújo Cabral (Centro Universitário Internacional, UNINTER, Curitiba)
Marcos Antonio de Moraes (Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, IEB-USP, São Paulo)
Reinaldo Martiniano Marques (Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, FALE-UFMG, Belo Horizonte)

RESUMO: O Simpósio tem por objetivo principal debater o atual estado das pesquisas em arquivos literários e no campo dos estudos e edição de correspondências. A proposta se justifica em razão de três fatores: o crescimento do número de instituições destinadas à salvaguarda de documentos referentes à memória material da literatura no Brasil (cf. MARQUES, 2015, 2019); o aumento de trabalhos e publicações, em nível de graduação e de pós-graduação, dedicados a manuscritos e cartas de escritores (cf. MORAES, 2016); o crescente número de periódicos e de publicações que têm como objetos de estudo arquivos e correspondências. Tendo em vista esses fatos, entendemos que os arquivos literários e as correspondências se apresentam como lugares de pensamento e debate para se problematizar a memória cultural, a historiografia, a crítica e a teoria literárias. Uma das muitas histórias ainda por fazer, no Brasil, consiste no exame das condições de emergência de uma tradição historiográfica vinculada ao trabalho com arquivos e correspondências de escritores, bem como das implicações disso no campo dos estudos literários e, tangencialmente, para o traçado da cultura intelectual brasileira. Tal prática estaria vinculada, de certo modo, a três voltas nos parafusos dos estudos históricos e literários brasileiros: 1) o giro linguístico, ou seja, o interesse, no campo das humanidades, pelos estudos sobre a linguagem, considerada agente estruturante das percepções de mundo, gesto que colocará a questão da ficcionalidade da prática historiográfica tensionando, assim, as fronteiras disciplinares entre literatura e história; 2) o giro histórico, advindo da recepção de teorias da nova história cultural francesa e da micro-história italiana entre pesquisadores brasileiros; 3) por fim, uma virada arquivística, ou o encontro dos pesquisadores com os arquivos privados, fruto da instalação de centros de documentação em nosso país (não só arquivos, mas também arquivos-museus), processo que remonta às décadas de 1960 e 1970. De acordo com a historiadora Ângela de Castro Gomes (1998), as três viradas mencionadas são processos recentes, datados dos anos de 1970, na França, e de 1960, no Brasil, com a criação do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo, em 1962. A este segue a implementação de outros centros de documentação – como o Arquivo-Museu de Literatura Brasileira (AMLB), da Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB), em 1972, dentre outros espaços de guarda e de preservação de fontes históricas para o estudo da literatura. Desses deslocamentos de paradigmas interpretativos da realidade emergem outras abordagens dos documentos e fontes, como as “novas” histórias política, social e cultural (Cf. GOMES, 1998, p. 125). No campo da história cultural, nota-se a elaboração de abordagens como a história de intelectuais, centrada nas elites culturais e em suas dinâmicas de sociabilidade. Já no campo dos estudos literários, constata-se o esgotamento de pesquisas embasadas em concepções como nacionalidade e literariedade. Como resposta a esse cenário, ocorre a “pluralização do conceito de literatura” (ROCHA, 2008, p. 151-152), responsável pela (re)valorização de documentos pessoais de escritores, pelo “retorno do escritor”, e pela retomada do interesse no cruzamento da vida com a obra de escritores. Como desdobramento da rotinização das pesquisas com materiais alocados em arquivos de escritores, observa-se o processo de consolidação da crítica epistolográfica no Brasil. Dentre as várias publicações sobre estudos de cartas (Cf. RODRIGUES, 2019, p. 112-117), destacam-se como representativas da constituição desse campo de estudos: o livro Prezado senhor, prezada senhora (GALVÃO; GOTLIB, 2000), coletânea que apresenta uma amostra significativa da pluralidade de abordagens teóricas dedicadas à escrita epistolar no Brasil; e a obra Escrita de si, Escrita da História (GOMES, 2004), que reúne estudos no campo da historiografia dedicados à correspondências de escritores e de intelectuais. A partir das questões levantadas, este Simpósio acolherá estudos que abordem os seguintes temas: exame de arquivos e cartas de escritores, intelectuais e tradutores brasileiros e estrangeiros; cartas como arquivos de criação literária; pressupostos metodológicos, críticos e interpretativos de trabalho com arquivos e correspondências; manuscritos e cartas à luz dos estudos de crítica genética; questões metodológicas e críticas no preparo de edições ou reedições de epistolários; mapeamento de processos e redes editoriais em arquivos e cartas; textos literários que utilizem arquivos e cartas como mecanismos agenciadores da ficção e da poesia; memória e testemunho no gênero epistolar; sociabilidades intelectuais e artísticas; reflexões sobre ideários estéticos; percursos das memórias literária, cultural e histórica no contexto digital.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: GALVÃO, Walnice Nogueira; GOTLIB, Nádia Battella (Orgs.) Prezado senhor, Prezada senhora: Estudos sobre cartas. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. GOMES, Ângela de Castro. Nas malhas do feitiço: o historiador e os arquivos privados. In: Estudos Históricos – Arquivos Pessoais e Arquivos Institucionais. Rio de Janeiro, v.11, n. 21,1998. p. 121-127, 1998. Disponível em: < http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/view/2069>. GOMES, Ângela de Castro. Escrita de si, escrita da História: a título de prólogo. In: GOMES, Ângela de Castro (Org.). Escrita de si, escrita da história. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004. p. 07-24. MARQUES, Reinaldo Martiniano. Arquivos literários: teorias, histórias, desafios. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2015. MARQUES, Reinaldo Martiniano. Acervo de Escritores Mineiros: espaço de saberes nômades. In: MEDEIROS, Elen de; RODRIGUES, Leandro Garcia (Org.). Acervo de Escritores Mineiros: memórias e histórias. Belo Horizonte: LABED/FALE/UFMG, 2019, p. 247-265. MORAES, Marcos Antonio de. Questões de método: edição de 'correspondência reunida' de escritores. In: III Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literários, 2014a, Maringá. Anais do III Colóquio internacional de Estudos Linguísticos e Literários. Maringá: Universidade Estadual de Maringá, 2014. Disponível em: < http://cielli2014.com.br/media/doc/e9ede673d432feb5bac06397c50c1d4c.pdf >. MORAES, Marcos Antonio de. Correspondências à deriva: por uma história das edições de carta no Brasil. In: HOLLANDA, Bernardo Buarque de; MAIA, João Marcelo Ehlert; PINHEIRO, Claudio Costa. (Org.). Ateliê do pensamento social: métodos e modos de leitura com textos literários. 1ed.Rio de Janeiro: FGV Editora, 2016, v. 1, p. 139-163. ROCHA, João Cezar de Castro. A epistolografia como desafio à história e à teoria literária. In: ____________. Exercícios críticos: leituras do contemporâneo. Chapecó: Argos, 2008. p. 145-155. RODRIGUES, Leandro Garcia. Pensando a epistolografia. In: MEDEIROS, Elen de; RODRIGUES, Leandro Garcia (Org.). Acervo dos Escritores Mineiros: memórias e histórias. Belo Horizonte: LABED/FALE/UFMG, 2019, p. 103-120.

PALAVRAS-CHAVE: Arquivos Literários; Correspondências; Historiografia Literária; Teoria da Literatura.

COORDENADORES:
Herasmo Braga de Oliveira Brito (UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ/UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ)
Alan Bezerra Torres (INSTITUTO FEDERAL DO CEARÁ)
Edilson Floriano Souza Serra (IFMT)

RESUMO: A Literatura Brasileira Contemporânea tem se firmado cada vez mais tanto nas produções ficcionais - sejam elas de ordem prosaica ou poética, quanto no desenvolvimento da crítica sobre ela. Questionáveis estigmas como aqueles que a entendiam como sendo uma literatura menor comparada à tradição têm sido desfeitos. Diversos pesquisadores, de dentro e fora das universidades, têm eleito a literatura contemporânea como mote principal para os seus estudos. Dessa forma, abrir espaços para trocas de ideias sobre a Literatura Contemporânea na prosa e na poesia, além de enriquecer aqueles que dela participam, também promove a divulgação de importantes pontos de investigação na questão comparativa. Sendo assim, o propósito do Simpósio se coloca como este espaço mediador e de divulgação da rica produção literária brasileira recente. Analisar os elementos que configuram as diversas tendências da Literatura Brasileira Contemporânea tais quais a autoficcção, o romance histórico, o neorregionalismo, o ecce homo fictus, o niilismo, a poesia marginal, a poesia hermética, a poesia urbana ou a poesia de cordel, entre outros, constitui um dos cernes do simpósio. Importante lembrar que as tendências acabam servindo como base para a compreensão da Literatura Brasileira hodierna com natural exigência para que a crítica literária saia das suas discussões consolidadas e partam para novos desafios em busca do entendimento das obras atuais. Outro ponto a ser destacado ao se analisar as tendências literárias recentes se encontra nas contribuições para o cenário não só nacional, mas até mesmo global da Literatura Contemporânea - seja na prosa ou na poesia - diante da suntuosidade em relação aos diálogos não só dos pontos de vistas sócio-históricos vigentes, mas com as diversas artes e ciências alavancando uma rica construção ficcional. Podemos ilustrar as misturas produtivas com o cinema, a filosofia, a crítica literária, a antropologia, a sociologia, a pintura, a música. Reconhecemos que esses diálogos da Literatura não são novidades, pois desde as primeiras manifestações ficcionais estiveram presentes, todavia, a singularidade do momento se encontra na intensidade e no maior amalgamento destes campos distintos nos textos. Completa-nos Lucaks em Teoria do romance (2000) quando diz: “O homem contemporâneo se assemelha a uma abelha, voando contra uma janela de vidro, enxergando o mundo do outro lado, mas incapaz da atravessá-lo”. Isso indica-nos o mundo labiríntico no qual nos deparamos cotidianamente. Aqueles que gozam de melhor compreensão ajudam os “perdidos e inquietos”. Percebemos assim a Literatura como meio de pelos menos fissurar esse vidro da realidade e, através dessas pequenas rachaduras, sentir o que nos é apresentado e não compreendido. Além dessa ação perceptiva, a produção literária promove dois efeitos relevantes em que um havia sido perdido e outro estagnado. O primeiro condiz com a centralidade da literatura. Não tem sido incomum diversos agentes sociais estarem se utilizando de textos literários contemporâneos para oferecerem maior profundidade nas suas exposições e debates. Não mais se cita apenas autores consagrados, que de certa maneira já foram aludidos reiteradas vezes, mencionam-se autores e poetas do momento presente para o incorporarem às discussões sociais públicas, sejam nas produções de temática sobre afro-descendentes, homoafetivos, de direitos humanos, ou de outras problematizações sociais. Promovem desta maneira discussões produtivas sem caírem na vinculação da literatura como reflexo puro da sociedade, algo danoso não só para a literatura como para vida social. Outro ponto relevante se encontra na formação de novos leitores. Castro Rocha nos diz que “o leitor é um sujeito que assimila um outro modo de ser, transformando-se no processo de assimilação, ampliando assim seu horizonte existencial” (2015, p. 41). Essa constituição de alteridades em que o leitor forma o indivíduo auxilia na compreensão das imagens, do mundo, das pessoas e, no caso dos textos ficcionais, completa-nos. Castro Rocha: “A leitura de textos literários é o meio privilegiado para recuperar ritmos mais lentos de cognição, pois sua própria materialidade exige uma pausa em meio à vertigem do cotidiano globalizado” (2015, p. 43). Essa desaceleração nos retira também do automatismo do cotidiano, no caso do texto ficcional contemporâneo, por uma questão até mesmo de compreensão no que se refere ao horizonte temporal, é mais fácil jovens se identificarem com obras que contemplam o seu momento e que parecem mais próximas das suas vivências do que com produções poéticas e em prosa dos séculos anteriores. Com base em estudos como ARAÚJO (2010, 2013), AZEVEDO (2013), BAUMGARTEN (2000), BRANDÃO (2013), BRITO (2017), DALCASTAGNÉ (2012), PERRONE-MOISÉS (2016), SANTINI (2014), SCHOLLHAMMER (2011), entre outros importantes teóricos, apresentamos a nossa proposta de Simpósio: As novas tendências da Literatura Contemporânea na prosa e na poesia como instrumento de mediação dos estudos sobre as produções literárias do momento presente.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ARAÚJO, Humberto Hermenegildo de & OLIVEIRA, Irenísia Torres de (orgs.). Regionalismo, Modernização e Crítica Social na Literatura Brasileira. São Paulo: Nankin, 2010. ARAÚJO, Humberto Hermenegildo de. Leituras sobre regionalismo e globalização. In: Imburana – revista do Núcleo Câmara Cascudo de Estudos NorteRio-Grandense/UFRN. N.7, jan./jun, 2013. AZEVEDO, Luciene. Autoficção e literatura contemporânea. In: VIOLA, Alan Flavio. (org.). Critica literária contemporânea. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013. BRANDÃO, Luis Alberto. Teorias do espaço literário. São Paulo: Perspectiva; Belo Horizonte, MG: FAPEMIG, 2013. BAUMGARTEN, A. G. Estética: a lógica da arte e do poema. Trad. Miriam Sutter Medeiros. Rio de Janeiro: Vozes, 1993 BRITO, Herasmo Braga de Oliveira. Neorregionalismo Brasileiro: análise de uma nova tendência da Literatura Brasileira. Teresina: EDUFPI, 2017. CASTRO ROCHA, João Cezar. Por uma esquizofrenia produtiva (Da prática à teoria). Chapecó: Argos, 2015. DALCASTAGNÉ. Literatura brasileira contemporânea: um território contestado. 1ª ed. Rio de Janeiro, Vinhedo: Editora Horizonte, 2012. PERRONE-MOISÉS, Leyla. Mutações da literatura no século XXI. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. LUKÁCS, Georg. A Teoria do Romance. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2000. SANTINI, Juliana. O Realismo Regionalista e a Narrativa de Ronaldo Correia de Brito. In: DIOGÉNES, André V. M. (org.) Memórias de Borborema 2: internacionalização do regional. Campina Grande: Abralic, 2014. SCHOLLHAMMER, Karl Erik. Ficção brasileira contemporânea. 2. Ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.

PALAVRAS-CHAVE: A Literatura Brasileira Contemporânea tem se firmado cada vez mais tanto nas produções ficcionais - sejam elas de ordem prosaica ou poética, quanto no desenvolvimento da cr&

COORDENADORES:
JOANA DE FÁTIMA RODRIGUES (UNIFESP)
Mayra Coan Lago (Centro Universitário Fundação Santo André, CUFSA, Santo André)
Cesar Augusto Garcia Lima (UFRJ)

RESUMO: Nos últimos vinte anos, assistimos a um crescimento de publicações de caráter biográfico ou autobiográfico, composto por diários, correspondências, biografias e autobiografias no Brasil e no exterior. Segundo a historiadora Angela de Castro Gomes, apesar do interesse de um público mais amplo em obras deste caráter, estudos científicos utilizando estas fontes ainda não tem sido tão numerosos em nosso país. No campo dos estudos literários, a produção científica tem se aproximado de forma expressiva junto a esses gêneros textuais, justamente devido a um crescimento significativo de obras ficcionais, que tem lançado mão de tais escritas como gênero literário. Por outro lado, a difusão de estudos sobre a temática das escritas de si, como aponta a crítica argentina Leonor Arfuch, igualmente tem provocado na comunidade acadêmica análises e reflexões sobre o reconhecimento, a relevância e a contribuição de tais gêneros textuais para a sociedade. Também no Brasil esse movimento vem conseguindo maior expressividade, em particular junto aos estudos a respeito das correspondências, mediante um grupo de pesquisadores em que figura Marco Antonio de Moraes, responsável pela continuidade dos primórdios desses estudos desenvolvidos por Telê Ancona Lopez. No âmbito da História, a sua valorização é fruto de um amplo empreendimento historiográfico, gerado especialmente a partir da década de 1980, que reconheceu a importância dos indivíduos e de suas ações na história. Este empreendimento incorporou fontes autorreferenciais - diários, autobiografias, cartas, testemunhos e relatos de viagem - que antes eram consideradas como “complementares” e/ou “informativas”, mas modificou a sua condição. Atualmente, todas elas são consideradas modalidades das escritas de si e, cada vez mais, são utilizadas como fontes e objetos principais dos mais diversificados estudos científicos. Apesar do reconhecimento mais recente das escritas de si, sabemos que, pelo menos desde os tempos modernos, homens e mulheres, indivíduos públicos ou anônimos, elaboram e utilizam as escritas de si para narrar as motivações mais íntimas de suas ações, para expressar seus sentimentos e angústias, para manifestar seus anseios, entre tantas outras possibilidades de falar sobre si, sobre o outro, o que lhes envolve junto à sua época. A (re) constituição das subjetividades e o acompanhamento das relações estabelecidas entre os diversos indivíduos propiciou a emergência de novas fontes, objetos de pesquisa, teorias e metodologias para a Literatura e para a História. Especificamente no caso do espaço ibero-americano, as coletâneas organizadas por Walnice Nogueira Galvão e Nádia Gotlib, por António Gómez e Verónica Sierra Blas e Ana Cristina Mignot, Maria Helena Bastos e Maria Teresa Cunha evidenciam a diversidade e ajudam a acompanharmos o “estado da arte” das escritas de si na região. Os estudos mais específicos, como os de Donna Guy, Fabiana Fredrigo, Joana Rodrigues e Mariana Ruivo, Jorge Ferreira, Mayra Coan Lago, Ana Gallego Cuinãs, Brigitte Díaz e Verónica Sierra Blas contribuem para revelar as potencialidades das escritas de si no que diz respeito à compreensão dos fenômenos ibero-americanos. Tais estudos também endossam a importância do pesquisador ter maior cuidado teórico-metodológico, especialmente para não cair no que a historiadora Angela de Castro Gomes denominou “as malhas do feitiço”, que envolve os mitos da “espontaneidade”, “autenticidade” e “ilusão da verdade” das escritas de si, algo que também foi alertado por C. Prochasson, G. Levi e P. Levillain. Na mesma linha de argumentação, os estudos literários vêm apontando que tais escritas reúnem, como nos aponta Leonor Arfuch, um estreito diálogo ao contemplar a memória, a subjetividade e a política. Somam-se a Arfuch outros estudiosos como Nora Bouvet e Vanessa Massoni da Rocha no endosso desse reconhecimento e ajuste nos esmeros teórico-metodológicos dos pesquisadores e suas mais recentes análises. É a partir deste diálogo entre Literatura e História que propomos este Simpósio, cujo objetivo é propiciar um espaço de reflexão e compreensão das escritas de si e das escritas da História no espaço ibero-americano, pelos mais variados sujeitos e formas, entre os séculos XIX a XXI e das escritas literárias. Estimulamos trabalhos que abordem as produções de escritas de si, as experiências e conjunturas vivenciadas, as relações sociais e/ou políticas com outros sujeitos, o cotidiano, entre outros. Também consideraremos estudos que tratem dos indivíduos que dialogaram diretamente, mas também com aqueles que dialogaram indiretamente, como os que ordenaram, arquivaram e legitimaram a produção escrita ou narrada (editores, memorialistas, arquivistas, entre outros). Esperamos, assim, que este diálogo interdisciplinar venha à luz como contribuição no sentido de ampliar a capacidade crítica sobre tal temática, sobre tais estudos, além da difusão de novos olhares inter e multidisciplinares lançados para esse campo das Ciências Humanas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ARFUCH, L. El espacio biográfico, dilemas de la subjetividad contemporánea. Buenos Aires: FCE. 2002. BOUVET, Nora Esperanza. La escritura epistolar. Buenos Aires: Eudeba, 2006. BLAS, Verónica Sierra. Cartas Presas. La correspondencia carcelaria en la Guerra Civil y el Franquismo. Madrid: Marcial Pons Historia, 2016. CUIÑAS, Ana Gallego y MARTÍNEZ, Erika (eds). Queridos todos. El intercambio epistolar entre escritores hispanoamericanos e españoles del siglo XX. Bruselas: Peter Lang, 2013. DIAZ, Brigitte. O gênero epistolar ou o pensamento nômade. Tradução Brigitte Hervot e Sandra Ferreira. São Paulo: Edusp, 2016. FERREIRA, Jorge. Trabalhadores do Brasil: o imaginário popular 1930-1945. Rio de Janeiro: FGV, 2011. FREDRIGO, Fabiana de Souza. Guerras e escritas: a correspondência de Simón Bolívar (1799-1830). São Paulo: Ed. Unesp, 2010. GALVÃO, Walnice Nogueira; GOTLIB, Nádia Batella (org). Prezado senhor, prezada senhora: estudos sobre cartas. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. GOMES, Angela de Castro (org.). A escrita de si, a escrita da história. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004. GÓMEZ, Antonio Castillo; BLAS, Verónica Sierra. Cinco Siglos de Cartas: Historia y prácticas epistolares en las épocas moderna y contemporánea. Huelva: Universidad de Huelva, 2014. GUY, Donna J. La construcción del carisma peronista. Cartas a Juan y Eva Perón. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Biblos, 2017. LAGO, Mayra Coan. Exmo Sr. Getúlio Vargas, Mi Querido General Perón: imaginários populares no varguismo e no peronismo. 2021. 305f. Tese (Doutorado) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (Departamento de História), Universidade de São Paulo, São Paulo, 2021. LEVI, Giovanni. “Usos da biografia”. In: FERREIRA, Marieta de Moraes; AMADO, Janaína. Usos e abusos da história oral. 8.ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2006. LEVILLAIN, Philippe. “Os protagonistas: da biografia”. In: RÉMOND, René (Org.) Por uma história política. 2. ed. Rio de janeiro: FGV, 2003. p. 141-84. MORAES, Marcos Antonio de. Epistolografia e crítica genética. Ciência e Cultura (SBPC), São Paulo, v. 59, n. 1, p. 30-32, jan.-mar. 2007. ______________________ . Sobrescrito.Teresa: revista de literatura brasileira/área de Literatura Brasileira. Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade de São Paulo n. 8/9. São Paulo: Editora 34, 2008. MIGNOT, Ana Cristina; BASTOS, Maria Helena; CUNHA, Maria Teresa. Destino das letras: história, educação e escrita epistolar. Passo Fundo: UPF, 2002. PROCHASSON, C. “Atenção: verdade! Arquivos privados e renovação das práticas historiográficas”. Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 11, n. 21, p. 105-119, 1998. RUIVO, Marina; RODRIGUES, Joana de Fátima. “Entre cartas e cadernetas latino-americanas: contribuições para a reflexão sobre arquivos de escritores”, Eixo Roda, v. 28, n. 4, p. 367-394, 2019.

PALAVRAS-CHAVE: escritas de si; estudos literários; história; fontes autorreferenciais; interdisciplinaridade.

COORDENADORES:
Fernanda Aquino Sylvestre (Universidade Federal de Uberlândia)
Claudia Fernanda de Campos Mauro (Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho (Unesp- Araraquara))
Cynthia Beatrice Costa (Universidade Federal de Uberlândia)

RESUMO: As narrativas insólitas, em seus mais variados modos, têm envolvido tanto leitores quanto espectadores – um fenômeno de longa data, que descende das narrativas orais de cunho maravilhoso, como contos de fada e outras manifestações do folclore, o que abarca vampiros, bruxas, monstros, gênios, dragões, demônios, seres mitológicos e outras tantas personagens intrigantes, misteriosas e assustadoras que habitam um universo no qual nos confrontamos com o impossível (ROAS, 2014). A literatura, o cinema e a televisão têm se apropriado desse universo e o subvertido, desdobrando-o em um sem-número de facetas: da repulsiva criatura do Frankenstein de Shelley aos robôs da ficção científica de Asimov, do Nosferatu de Murnau às recentes releituras de Drácula; dos horrores de Maupassant e Poe, passando pelas figuras mágicas de Tolkien, à fantasia contemporânea de Salman Rushdie, Neil Gaiman, Ian McEwan, Kazuo Ishiguro e tantos outros, provando que o interesse pela fantasia reiventa-se cultural e historicamente ao longo do tempo.Nos anos 2010 e 2020, uma forte safra de criações, geradora tanto de enorme popularidade quanto de marcado interesse acadêmico, demonstra a atual renovação da fantasia (STEPHAN, 2016) como um largo espectro abrangente e subversivo de histórias que não se prestam a leituras puramente realistas (JACKSON, 1981) e que são povoadas por personagens humanas e não humanas às vezes em harmonia, mas com frequência em confronto e beligerância. A releitura de personagens já consagradas pelo tempo no imaginário popular, assim como a construção de figuras insólitas inéditas, abre possibilidades renovadas de interpretação, dando voz aos marginalizados e inserindo-os em contextos mais condizentes com os conflitos da realidade contemporânea, entre os quais questionamentos feministas e dilemas identitários e étnico-raciais. Em tempos pandêmicos, o escapismo tem funcionado como uma alternativa ao mundo “real”, intensificando ainda mais a produção de obras de viés fantástico, entendido aqui em sentido lato, como modo (FURTADO, 2018). Não à toa, TVs por assinatura e plataformas de streaming têm produzido e veiculado obras de diversas nacionalidades caracterizadas pela presença da fantasia e por personagens insólitas envolvidas em situações igualmente impalpáveis – o sucesso comercial de séries já consolidadas como Game of Thrones, Doctor Who, Stranger Things, Outlander,Black Mirror, Once Upon a Time e Dark parece ter desencadeado uma onda de produções recentes bastante diversificadas quanto à sua expressão do maravilhoso, do fantástico, do gótico e da ficção científica, tais como a turca Você já viu vagalumes?, a brasileira Cidade invível, a italiana Curon, a inglesa Os irregulares de Baker Street, a anglo-polonesa The Witcher e até mesmo a americana The Mandalorian, da Disney, entre dezenas de outras. Dentre os elementos que ajudam a construir essas narrativas audiovisuais que rompem com o sólito, instaurando o metaempírico (FURTADO, 2018), estão as personagens sobrenaturais, extraterrestes e/ou com estreitas ligações com um mundo que não nos pode ser cientificamente explicado. Diante das experiências vividas e/ou provocadas por elas, o público pode reagir com medo ou empatia; pode achar cômico ou sério, repulsivo ou cativante; pode, inclusive, identificar-se (CESERANI, 2006). Como agem essas personagens? Como se estruturam dentro das narrativas? Que papel desempenham para com o mundo insólito? Como se relacionam com os outros elementos que corroboram para a construção do fantástico na narrativa? Como atuam de modo a contribuir para a verossimilhança e ajudam a instaurar o fantástico? No caso das releituras, é interessante que se discuta em quais aspectos as personagens insólitas atuais aproximam-se ou afastam-se das personagens tradicionais, entendidas aqui como as primeiras, as “originais” das narrativas maravilhosas, como a madrasta má da Branca de Neve, o excêntrico Barba Azul, a repulsiva Fera de A Bela e a Fera, o hipnotizador Flautista de Hamerlin e o gênio de As mil e uma noites. Como e por qual motivo elas foram reconfiguradas nas narrativas contemporâneas? Que relação estabelecem com as narrativas revisitadas? Os questionamentos aqui apresentados funcionam apenas como sugestão para que se pense essas personagens, estando os proponentes livres para tratar quaisquer outras indagações concernentes ao viés aqui proposto. É possível também se trabalhar de maneira comparativa, contrastando as personagens ligadas ao mundo metaempírico com outras que compõem narrativas literárias e audiovisuais. Trabalhos que remetam a temáticas como feminismo, racismo, medo e distopia, entre outras tantas possibilidades, também serão acolhidos, desde que ligados de alguma maneira às personagens insólitas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: CESERANI, Remo. O fantástico. Trad. Nilton Cezar Tridapalli. Curitiba: Ed. UFPR, 2006. FURTADO, Filipe. Demônios íntimos. A narrativa fantástica vitoriana (origens, temas,ideias). Rio de Janeiro: Dialogarts, 2018. JACKSON, Rosemary. Fantasy: The Literature of Subversion. London: Routledge, 1981. ROAS, David. A ameaça do fantástico: aproximações teóricas. Trad. Julián Fuks. São Paulo: Editora da Unesp, 2014. STEPHAN, Matthias. Do you believe in magic? The Potency of the Fantasy Genre. Coolabah, Universitat de Barcelona, n. 18. 2016, p. 3-15.

PALAVRAS-CHAVE: Narrativas Insólitas; Personagens insólitas; Fantástico Modo

COORDENADORES:
Flávio Adriano Nantes (UFMS)
Cláudia Maria Ceneviva Nigro (UNESP)

RESUMO: Comecemos com uma nota explicativa: o simpósio ora apresentado pelos pesquisadores é o mesmo proposto no ano passado (ABRALIC 2020) em razão do número de desistências, assim, os que não puderam participar – por diferentes questões – poderão se inscrever, ademais, de outros pesquisadores que queiram compartilhar seus trabalhos. Italo Calvino (2006) afirma que o texto literário materializa-se – para o bem ou para mal – sempre como um gesto político, um posicionamento a favor ou contra a ordem social vigente. Para o mal, porque há um conjunto de escritos literários que endossa a violência contra a existência de determinados corpos. Existem autores que compactuam com o sexismo, o machismo, o patriarcado, o fascismo, as ditaduras, a lgbtfobia, etc. E na contramão deste pensamento, há uma quantidade expressiva de textos que colocam em evidência e reivindicam a existência de corpos historicamente lançados à escuridão social. A literatura, então, como um gesto político, encontra meios, no interior das ciências humanas, para denunciar práticas sociais que inibem, silenciam e invisibilizam determinados corpos. Entre eles, o corpo negro, o corpo indígena, o corpo pobre, o corpo feminino, o corpo com deficiência, o corpo gordo, o corpo envelhecido, o corpo com dificuldade de aprendizagem, o corpo contaminado pelo HIV, o corpo LGBTQIA+. E por quais razões a literatura, bem como outros constructos artísticos, trata desses corpos? O artifício literário trata desses corpos, cf. antedito, como um gesto político, com o intuito de dar-lhes voz, desterritorializá-los da margem e reterritorializá-los em um lugar que lhe é de direito no interior da sociedade. Trata desses corpos porque a eles a vida deve ser vivível, respirável, pois são corpos que importam (Butler, 2019). Trata desses corpos porque são pauta urgente na agenda estatal e devem, também, ser protegidos pelo Estado-nação. Achille Mbembe, intelectual camaronês, em seu Necropolítica (2018), afirma de forma categórica que é de competência do Estado-nação a decisão dos corpos que merecem viver e dos que devem ser eliminados letalmente. Quais são os critérios utilizados pela nação? Quais corpos devem ser eliminados e quais são eleitos para viver? Talvez encontremos possíveis respostas quando nos inteiramos que o Brasil ocupa o 1? lugar no ranking mundial em assassinatos a corpos transexuais; matamos mais que em países onde a homossexualidade é crime de morte. Ou ainda, quando pensamos no constante genocídio praticado contra as populações negra e indígena. No contexto das Américas, o Brasil, segundo dados estatísticos da Anistia Internacional, é o país que mais mata ativistas e/ou militantes seja na defesa dos direitos humanos ou na proteção do meio ambiente. Ademais, o Brasil, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, ocupa o 5? lugar entre os demais países do globo em violência – leia-se assassinatos no contexto doméstico e familiar – contra a mulher, ficando atrás apenas para El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia. De acordo com o Geledés – Instituto da Mulher Negra, as mulheres negras e pardas durante o parto recebem menos anestesia que as mulheres brancas. O que esses dados indicam? Que há vidas específicas que estão sob uma violência estatal estrutural e não "merecem" a proteção do Estado-nação. Pensar nas políticas sexuais e nos direitos reprodutivos, por exemplo, seria outra forma de indicar a intervenção do Estado sobre o corpo dos cidadãos. A criminalidade em relação ao aborto extirpa da mulher o direito de decisão sobre o seu próprio corpo. A decisão de uma gravidez indesejada não é de competência da mulher, mas da Nação, assim, o que há de mais privado – o corpo – não é verdadeiramente privado. Pessoas do mesmo sexo passaram a oficializar a relação civil somente a partir de 2011, com a declaração da legalidade de união civil estável feita pelo Supremo Tribunal Federal, e somente em 2013, o Conselho Nacional de Justiça publicou uma resolução permitindo o casamento homoafetivo, bem como proibindo os cartórios de se recusarem a efetivá-lo. Neste sentido, fica evidente que o Estado-nação se incumbe da efetivação formal da união civil entre os cidadãos. A partir destas proposições elencadas, convocamos pesquisadores cujo objeto de investigação seja a relação entre a literatura e a corporeidade, i. e., pensar o texto literário por intermédio dos Gender Studies, das políticas sexuais, dos feminismos plurais, das masculinidades e feminilidades, entre outras proposições. Serão privilegiados textos que confiram voz, tirem da invisibilidade, demonstrem conhecimentos e o modus vivendi de corpos que historicamente estiveram/estão à margem dos processos democráticos, dos direitos conferidos a toda pessoa humana, da acessibilidade a recursos básicos para uma vida vivível.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: CALVINO, Italo. "Usos políticos certos e errados da literatura". In: CALVINO, Italo. Assunto encerrado: discursos sobre literatura e sociedade. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. BUTLER, Judith. Corpos que importam: os limites discursivos do “sexo”. São Paulo: N-1 Edições, 2019. MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: N-1 Edições, 2018.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura e corporeidade; Literatura e Gender Studies; Políticas do corpo.

COORDENADORES:
Ceila Maria Ferreira (UFF)
Pedro Theobald (PUCRS)
Viviane Arena Figueiredo (Doutora pela UFF)

RESUMO: A Crítica Textual, assim como a Literatura Comparada, trabalham, com frequência, no espaço da transdisciplinaridade. E, quando nos reportamos à Literatura Comparada, estamos nos referindo outrossim aos Estudos de Tradução e à Tradução de obras literárias e sobre literatura. É dessa interface que surge nossa proposta: a partir de estudos da história da transmissão textual, abrangendo sua tradição indireta, como é o caso das traduções, que contribuem para a divulgação e para a formação da fortuna crítica de um número expressivo de obras, sem nos esquecermos da teoria e da metodologia da Crítica Textual/Filologia de preparação de tipos especiais de edição, conforme Cambraia (2005, p. 87-107), convidamos as e os colegas a pensarem e dialogarem conosco acerca dos papéis da Crítica Textual Tradicional e Moderna, assim como da Tradução, no resgate de textos, nomes de autoras e de autores, como também de leituras, que ficaram registradas em periódicos, livros, cartas, guardados em arquivos, bibliotecas, universidades, institutos públicos ou com particulares, mas que foram emudecidos e invisibilizados pela ação da censura, como política de Estado, e/ou pela propagação de correntes de investigação que não colocaram entre suas preocupações a questão da historicidade, assim como do contexto de produção, transmissão e recepção de obras literárias e/ou sobre literatura, sejam elas ensaios de crítica literária e/ou de história da literatura. Para tal, propomos dialogar com o resgate da História dos Vencidos e com o “escovar a história a contrapelo”, conforme escreveu, em 1940, Walter Benjamin, em Sobre o conceito da história (2012, p. 245), num país com passado colonial e escravagista, como é o Brasil, numa época de profunda crise do Capitalismo, de revival de discursos anticomunistas, de crescimento e de fortalecimento da extrema-direita, na contemporaneidade, em que estão afiadas as armas da necropolítica, na acepção dada a esse termo por Achille Mbembe (2018, p. 5). E tal contribuição, para o resgate de textos, de leituras, de nomes de autoras, de autores, de críticas e de críticos literários, além de historiadoras e de historiadores da literatura, abrange discussões acerca de questões relacionadas inclusive a gênero, raça e classe, assim como modo e época de produção e de divulgação de obras literárias e sobre literatura. Tais temáticas contemplam também indagações acerca da contribuição do trabalho da Crítica Textual e da Tradução para a formação de um público leitor mais crítico. Serão bem-vindas igualmente reflexões sobre a crítica ao Historicismo, realizada por Benjamin em texto acima mencionado (2012, p. 241-252), discussão que entendemos como fundamental para a Crítica Textual, assim como para a Literatura Comparada, e para a maior divulgação da Crítica Textual nas univerisidades brasileiras. Vale destacar que esta proposta de Simpósio reivindica um lugar de destaque para a Crítica Textual nos Estudos de Literatura, já que, sem os pressupostos teóricos e metodológicos da Crítica Textual não são colocadas em discussão ou o são, mas sem dialogar com toda uma tradição de estudos relacionados à transmissão textual, questões relacionadas a problemas de trasmissão de obras literárias, de materialidade textual, de mudança de suportes textuais e uma série de problemáticas relevantes para o estudo da transmissão de textos, assim como para sua edição e recepção, o que de cerca forma é abordado por Roger Chartier em A mão do autor e a mente do editor (2014). Em relação a tais problemáticas, faz-se necessário mencionar a constituição da Comissão Machado de Assis, aqui no Brasil, no final da década de 1950, para a edição da obra daquele que dá nome à referida Comissão, além da formação. Acerca da obra de Machado de Assis, também gostaríamos de discutir a “perda do sentido do tempo, ou de um sentido mais seguro do lugar que as pessoas ocupam num continuum histórico […]” (GLEDSON, 2003, p. 219). Voltando às equipes de edição crítica, em Portugal, há o Grupo de Trabalho para o Estudo do Espólio e Edição Crítica da Obra Completa de Fernando Pessoa, coordenado por Ivo Castro, e a Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós, coordenada por Carlos Reis. Nossa proposta também passa pela discussão do conceito de literatura e do engajamento em literatura, na acepção dada a essa última expressão nos termos propostos por Sartre, em Que é a literatura?, que recebeu nova edição, no Brasil, pela Editora Vozes, em 2019, lembrando que em 2021 as Conferências Democráticas do Cassino Lisbonense e a Comuna de Paris completam 150 anos, sendo que Eça participou do Programa das Conferências e escreveu sobre a Comuna no último capítulo das versões de O crime do padre Amaro (REIS/CUNHA,2000). Vale lembrar que trabalhar com Crítica Textual é também possibilitar o desenvolvimento e a divulgação de estratégias de combate ao apagamento da historicidade da produção, da transmissão e da recepção das obras literárias.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras Escolhidas I. Tradução Sérgio Paulo Rouanet. 8 ed. São Paulo: Brasiliense, 2012. CAMBRAIA, César Nardelli. Introdução à crítica textual. São Paulo: Martins Fontes, 2005. CHARTIER, Roger. A mão do autor e a mente do editor. Tradução George Schlesinger. São Paulo: Editora da UNESP, 2014. GLEDSON, John. Machado de Assis: ficção e história. Tradução Sônia Coutinho. 2 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2003. MBEMBE, Achille. Necropolítica. Biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. Tradução Renata Santini. São Paulo: n-1 edições, 2018. REIS, Carlos/CUNHA, Maria do Rosário (eds). O crime do padre Amaro. Edição crítica das obras de Eça de Quierós. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2000. SARTRE, Jean-Paul. Que é a literatura? Tradução Carlos Felipe Moisés. Petrópolis: vozes, 2019.

PALAVRAS-CHAVE: Crítica Textual; Filologia; Tradução; Literatura Comparada; Historicidade.

COORDENADORES:
Ricardo Postal (UFPE)
Imara Bemfica Mineiro (UFPE)
Daniel Conte (FEEVALE)

RESUMO: Se o termo “decolonial” tem sido usado em escala ampla, nos questionamos sobre quais são as bases teóricas que promovem sua promulgação dentro dos textos acadêmicos e quais trânsitos teóricos ocorrem entre pesquisas que tem, apesar de seus variados objetos, um mesmo vetor de interesse, a saber, a provocação desde as frestas do sistema hegemônico de pensar (e suas estruturas de poder), de um movimento constante de reformulação de teorias e práticas para o desestabelecimento do modo eurocentrado hetero-cis-patriarcal branco de conceber o mundo, a alteridade e a racionalidade. Como sinalizou Achille Mbembe, o “grande acontecimento” ou a “experiência fundamental de nossa época” reside no processo no qual a Europa deixa de ser o “centro de gravidade do mundo” (2018, p.11). Como atestado dessa experiência emergem diversas perspectivas teóricas que colocam em xeque a elaboração mítica da modernidade que permeou o discurso eurocentrado a respeito da história, da racionalidade e dos campos de saber, questionando o lugar da Europa como berço da modernidade e bastião dos principais alicerces da civilização (DUSSEL, 1994). Desvelada a falácia da neutralidade e universalidade dos saberes tidos por hegemônicos - que Santiago de Castro-Gómez denominou “hybris do ponto zero” (2003) -, é explicitado o caráter situado de todo conhecimento (HARAWAY, 1988) e torna-se imperativa a necessidade de “provincializar” (CHAKRABARTY, 2008) os discursos apresentados como universais. Na emergência de perspectivas teóricas que convidam a outros olhares através das frestas do pensamento hegemônico são questionadas as múltiplas hierarquias que caracterizam o sistema-mundo excludente - porque baseado em fundamentos racistas, machistas, heteronormativos, patriarcais e capitalistas (QUIJANO, 2005, GROSFOGUEL, 2009). Olhares esses que sabem-se situados e “encarnados”, conscientes de que partem e de e incidem sobre corpos e localidades, olhares que desafiam os parâmetros naturalizados da racionalidade compreendida como produto exclusivo do iluminismo, e que se interrogam sobre os alicerces de um projeto de modernidade que oculta sua contrapartida, o lado perverso da colonialidade (MIGNOLO, 2017). Nesse sentido, a ideia/imagem de Sul emerge na condição de categoria que evidencia a geopolítica do conhecimento ao mesmo tempo em que recusa a posição “minorizada” ou “subalternizada” a que é relegada pela narrativa da modernidade ocidental eurocêntrica. Pensar o Sul e suas agências implica, portanto, pensar a partir de referenciais epistêmicos mais dilatados e generosos, que contemplem a alteridade como condição mesma da coexistência, reconhecendo a pertinência das questões etnico-raciais, de gênero, sexualidade, espiritualidades e cosmologias para a reflexão sobre a contemporaneidade e seus (nossos) horizontes de expectativas. As perspectivas decoloniais (assim como a teoria queer) tornam “o questionamento, a desnaturalização e a incerteza como estratégias férteis e criativas para pensar qualquer dimensão da existência. A dúvida deixa de ser desconfortável e nociva para se tornar estimulante e produtiva. As questões insolúveis não cessam as discussões, mas, em vez disso, sugerem a busca de outras perspectivas, incitam a formulação de outras perguntas, provocam o posicionamento a partir de outro lugar.” (LOURO, 2001) Pensadas a partir das perspectivas elaboradas acima, as obras literárias oriundas de localidades do sul global, vítimas do processo colonial, precisam ser analisadas a partir de ferramentas conceituais que não esqueçam a atuação da “colonialidade do saber” (QUIJANO, 2005) que lhes é incontornável, e que seja ressaltado o quanto elas se lançam num combate decolonial pela vontade mesma de manifestarem as vozes dos que foram por séculos silenciados. Interessa-nos discutir os mecanismos de manutenção da colonialidade através de imaginários e discursos para, a partir de um olhar crítico, apresentar o estado da arte da agência decolonial tornada literatura. Cabe pensar tanto nas formulações escritas a partir de fronteiras e espaços transculturais, promotoras de hibridismos vários, como também no alargamento dos conceitos mesmos do literário e poético provocados por ações periféricas de ruptura do cânone, bem como pela inserção de novos falares e cenários na tão homogênea espacialidade do imaginário norte-ocidental. Sabendo de tais movimentos, que propõem utopias para além do estado estagnado a que a colonialidade insiste em manter o espaço epistêmico do sul, pensamos nas encruzilhadas de saberes, tradicionais, acadêmicos, orais, eruditos, ancestrais e inovadores que as vozes subalternas vem impulsionando organicamente para uma emergência urgente de exposição, compreensão e reiteração nas pesquisas das humanidades. Sendo assim, esse simpósio se propõe a acolher comunicações que pesquisem tanto articulações teóricas das perspectivas decoloniais Sul-Sul, análises de práticas decoloniais coletivas que gerem representações literárias, bem como análises de narratividades e poéticas que materializem formas dissidentes de pensar suas agências político-identitárias esteticamente, abraçando, portanto, teoria literária e teoria social imbricadas numa proposta de comparatismo contemporâneo que entenda a literatura e seu contexto politicamente motivado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: CASTRO-GÓMEZ, Santiago. La Hybris del Punto Cero: Ciencia, Raza e Ilustración en la Nueva Granada (1750-1816). Bogotá: Editora Pontificia Universidad Javeriana, 2003. CHAKRABARTY, Dipesh. Al margen de Europa.Pensamiento póscolonial y diferencia histórica. Barcelona: Tusquets, 2008. DUSSEL, Enrique. 1492 - El Encubrimiento del Otro: Hacia el Origen del ‘Mito de la Modernidad’. La Paz: Plural Editores, 1994. GROSFOGUEL, Ramón. Para Descolonizar os Estudos de Economia Política e os Estudos Pós-coloniais: transmodernidade, pensamento de fronteira e colonialidade global. In: SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula (Org.). Epistemologias do Sul. Coimbra: Edições Almedina, 2009. HARAWAY, Donna. Situated Knowledges: the Science Question in Feminism and the Privilege of Partial Perspective. Feminist Studies. v.14, n.3, p. 575-599, 1988. LOURO, Guacira Lopes. Teoria Queer - Uma Política Pós-identitária para a educação. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 9, n.2, p. 541-553, 2001. MBEMBE, Achille. Crítica da Razão Negra. São Paulo: N-1, 2018. MIGNOLO, Walter. Colonialidade, o lado mais escuro da modernidade. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 32, n. 94, jun. 2017. QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do Poder, Eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo. A colonialidade do saber, eurocentrismo e Ciências Sociais. Buenos Aires, Clacso, 2005. p. 107-130.

PALAVRAS-CHAVE: EPISTEMOLOGIAS DO SUL; PÓS-COLONIAL; PERSPECTIVAS DECOLONIAIS

COORDENADORES:
Marcio Markendorf (UFSC)
FERNANDA MÜLLER (Colégio de Aplicação - UFSC)
Renata Philippov (UNIFESP)

RESUMO: Em 1926, no ensaio “Sobre estar doente”, Virginia Woolf reclamou que não havia, até aquele momento, um aparato metafórico e um trabalho literário mais detido sobre as enfermidades, o que – na conclusão da escritora – remeteria a uma incapacidade de a doença conter o sublime. O breve ensaio poético, contudo, ignorava um conjunto de obras concebidas sobre o tema nas mais diversas perspectivas – do real ao fantástico, do literal ao alegórico. Ensaio crítico de maior fôlego viria a público apenas em 1978, quando Susan Sontag escreve Doença como metáfora, no qual são descritos e problematizados os usos (e abusos) cometidos pela mídia e pelo senso comum ao empregarem as enfermidades como viés metafórico para se referir a todo tipo de mazelas de ordem social, política ou econômica, como: “o desemprego é o câncer da sociedade”. O estudo atuava no universo cultural, esvaziando o sistema metafórico de representação, a fim de proteger a subjetividade dos enfermos, especialmente dos que lutavam contra o câncer. Tal abordagem é retomada dez anos mais tarde, em A AIDS e suas metáforas, quando Sontag coloca em xeque, a partir da pandemia de HIV dos anos 1980, os elementos presentes no imaginário relacionado à contaminação e o modo como essas representações afetavam os enfermos. Aos trabalhos de Sontag somamos os estudos sobre a abjeção (KRISTEVA, 1980; BUTLER, 2013), o que inclui a natureza simbólica e estética do monstro (COHEN, 2000; NAZÁRIO, 2003; CARROL, 1999) e permite estabelecer paralelos entre enfermidade e monstruosidade, problematizando comportamentos sociais diante de situações de contágio e contaminação, bem como a imaginação acerca do corpo doente. Passando para o campo da literatura propriamente dito, podemos ver esse intenso debate político reverberar na elaboração de obras como a coletânea Tente entender o que tento dizer – Poesia + HIV/AIDS, organizada por Ramon Nunes Mello, ou o romance Tribunal da quinta-feira, de Michel Laub. Embora sejam textos contemporâneos, dialogam com o romance reportagem de Um diário do ano da peste, Daniel Defoe (Reino Unido, 1722), o caráter filosófico de A peste, Albert Camus (França, 1947), o realismo mágico de O amor nos tempos do cólera, Gabriel García Márquez (Colômbia, 1985) ou as colagens e deslocamentos de O mez da grippe, de Valêncio Xavier (Brasil, 1998), uma vez que todas tomam como ponto de partida doenças e epidemias reais, com surtos historicamente situados. Há também uma vertente contemporânea mais metafórica ou alegórica, tributária de uma tradição mais atrelada à estética romântica do século XIX, marcada pela exploração de elementos fantásticos, horríficos ou insólitos presentes em contos de Edgar Allan Poe e Guy de Maupassant, ou ainda em romances como O último homem, de Mary Shelley (Inglaterra, 1826), a qual ecoaria no século seguinte em obras como Eu sou a lenda, de Richard Matheson (Estados Unidos, 1954), Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago (Portugal, 1995), Os anões, de Luis Andre Nepomuceno (Brasil, 2009) e Nêmesis, de Philip Roth (Estados Unidos, 2010) e Corpos secos, obra multiautoral de Luisa Geisler, Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado (Brasil, 2020). Se a temática da doença, não raro atrelada à estética do grotesco e ao domínio da abjeção, já somava farto repertório literário e crítico, com a deflagração da pandemia de Covid-19, no início de 2020, nota-se um crescente interesse do público por narrativas sobre epidemias, fenômeno que alçou à condição de best-seller anacrônico obras como o romance A peste, de Albert Camus, e alçou o filme Contágio (Contagion, Steven Soderbergh, 2011) ao status de hit no serviço de streaming. O interesse por narrativas como essas foi responsável, inclusive, pelo relançamento de O mez da grippe, de Valêncio Xavier, livro ganhador do Prêmio Jabuti, que se encontrava esgotado no mercado editorial desde 1998. De modo geral, obras que tratam sobre a doença e suas consequências coletivas, epidemias e pandemias, estimulam reflexões teóricas sobre o sistema de feixes metafóricos das enfermidades, o frequente emprego de sinais cósmicos que prenunciam pragas, a ascensão de discursos nacionalistas e xenofóbicos, formas de preconceito radical contra infectados, a busca de remédios milagrosos ou curas mágicas para os males, relações entre o problema coletivo e a noção bíblica de pecado, a gestão governamental das situações de crise sanitária, o sensacionalismo midiático, o extermínio de animais, a imposição da quarentena, o debate sobre os direitos individuais, a crise econômica, a necessidade de subsistência da população e o consequente colapso social, sanitário e funerário. Dado o exposto, este simpósio pretende abarcar trabalhos que reflitam sobre contextos de epidemias – reais ou imaginárias – e/ou de representação de doenças na ficção, a fim de formar uma gama bastante diversificada de abordagens, da estética à política, do surto à pandemia, da alegoria à necropolítica, do objeto ao abjeto, do jornalístico ao insólito, do horror artístico ao horror social.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ARTAUD, Antonin. O teatro e a peste. In: ARTAUD, Antonin. O teatro e seu duplo. São Paulo: Martins Fontes, 1999. BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 6 ed. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013. CAMUS, Albert. A peste. 19. ed. Tradução de Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro: Record, 2009. CONTÁGIO (Contagion). Direção de Steven Soderbergh. Roteiro de Scott Z. Burns. Coprodução Emirados Árabes, Estados Unidos e Hong Kong. 2011. 1h46 min. Color. CARROL, Nöel. A filosofia do horror ou os paradoxos do coração. Tradução de Roberto Leal Ferreira. Campinas: Papirus, 1999. COHEN, Jeffrey Jerome. A cultura dos monstros: sete teses. In: SILVA, Tomaz Tadeu da (Org.). Pedagogia dos monstros: os prazeres e os perigos da confusão de fronteiras. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva. Belo Horizonte: Autêntica, 2000, p. 23-60. DEFOE, Daniel. Um diário do ano da peste. Tradução de E. San Martin. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2002. GEISLER, Luisa; FERRONI, Marcelo; POLESSO, Natalia Borges; MACHADO, Samir Machado de. Corpos secos. Rio de janeiro: Alfaguara, 2020. KRISTEVA, Julia. Pouvoirs de l’horreur: Essai sur l’abjection. Paris: Éditions du Seuil, 1980. LAUB, Michel. O tribunal da quinta-feira. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. MARQUEZ, Gabriel García. O amor nos tempos do cólera. Tradução de Antonio Callado. São Paulo: Record, 1985. MATHESON, Richard. Eu sou a lenda. Tradução Delfin. São Paulo: Aleph, 2015. MELLO, Ramon Nunes. Tente entender o que tento dizer – Poesia + HIV/AIDS. Rio de janeiro: Bazar do tempo, 2018. NAZARIO, Luiz. Da natureza dos monstros. São Paulo: Arte & Ciência, 2003. NEPOMUCENO, Luís André. Os anões. Rio de janeiro: 7 Letras, 2009. ROTH, Philip. Nêmesis. Tradução de Jorio Dauster. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. SHELLEY, Mary. O último homem. Tradução de Marcella Furtado. São Paulo: Landmark, 2007. SONTAG, Susan. Doença como metáfora, AIDS e suas metáforas. Tradução de Rubens Figueiredo e Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. WOOLF, Virginia. Sobre estar doente. In: WOOLF, Virginia. O sol e o peixe: prosas poéticas. Seleção e tradução Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015. p. 67-84. XAVIER, V. O Mez da Grippe e outros livros. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

PALAVRAS-CHAVE: Doença; Epidemias; Imaginário; Representação; Literaturas.

COORDENADORES:
Klaus Friedrich Wilhelm Eggensperger (Universidade Federal do Paraná, UFPR)
Márcio Matiassi Cantarin (Universidade Tecnológica Feral do Paraná, UTFPR)
Rita do Perpétuo Socorro Barbosa de Oliveira (Universidade Federal do Amazonas, UFAM)

RESUMO: O presente simpósio pretende constituir-se como um amplo fórum de discussões sobre textos literários – aos quais podem juntar-se obras de outros campos semióticos, tais como o cinema, artes plásticas, performances, produções em vídeo ou graphic novel, entre outras, ficcionais ou não –, que apresentem, em primeiro plano, questões ecológicas e tematizem a profunda crise nas relações humano-natureza. Na tradição literária ocidental, o mundo não-humano serve, na maioria das vezes, apenas como pano de fundo em tramas cujo foco principal está nos conflitos psicológicos e/ou sociais, na diversidade das relações de poder, de gênero e de etnia humanos. Contudo, existe também uma herança literária que foi capaz de dar voz a animais e vegetais, de pôr em cena ambientes naturais moldados culturalmente, de modo a problematizar a dicotomia natureza-cultura, questionando, inclusive, essa própria partição entre os registros do que sejam o natural e o cultural. No mundo anglo-americano existe uma forte tradição voltada para a chamada nature writing, preocupada em imaginar e reconstituir, no âmbito do texto literário, experiências autênticas com um determinado ambiente natural. O encontro literário com o outro que não somos (e ao mesmo tempo somos, como seres vivos) implica no domínio e manejo de um repertório de técnicas retóricas e narrativas que proporcione o envolvimento dos leitores de forma sensual, emocional e intelectual com os entes não-humanos representados. Análises críticas deste tipo de literatura podem proceder, por exemplo, de leituras baseadas em tropos tais quais os propostos por GARRARD (2006), como a Pastoral, o Mundo Natural (wilderness) ou o Apocalipse. Podem, ainda, abordar discussões relativas à representação de animais em literatura e outras artes ou aspectos concernentes ao especismo; enfim, todos os tipos de problematizações fundamentais sobre a relação humanidades - natureza - meio ambiente. Quando pesquisadores norte-americanos proeminentes, como Lawrence Buell e Ursula Heise, destacam a interdisciplinaridade, a pluralidade e o ecleticismo dos estudos literários ecocríticos, caracterizados por um “spirit of environmental concern not limited to any one method or commitment” (BUELL/HEISE/THORNBER, 2011, p. 418), documentam de certa forma a politização do seu campo de estudos. Textos literários repercutem aquilo que se entende, ou já se entendeu, por “natureza” em contextos histórico-culturais diferentes. Ao imaginar, encenar e refletir tais discursos, a literatura ganha em relevância social, considerando que seus modos estéticos de criação e técnicas de representação artísticas podem abrir perspectivas novas para a compreensão dos problemas ecológicos sistêmicos oriundos da assimetria nas relações entre humanos e mundo natural (CLARK, 2019). No antropoceno contemporâneo, a ideia do antagonismo cultura versus natureza, tão enraizado no pensamento ocidental desde a filosofia clássica grega, está se desfazendo. Atualmente, as relações das artes com o meio ambiente físico têm alcançadas grande importância para o pensamento estético. A natureza no antropoceno “não pode mais ser vista sem que, radicalmente, esteja em colapso e/ou em reconstituição” (BOGALHEIRO, 2018, p. 53). Assim, ela deixa de representar o outro mundo, a alteridade não-humana, para tornar-se o espaço vivo e dinâmico que compartilhamos com todas as outras espécies, muitas delas extremamente ameaçadas pelas ações antropogênicas. Na América Latina e no Brasil, parte das tarefas de uma ecocrítica comparada reside em mapear as linhas concretas de desenvolvimento que as relações entre humanos e meio ambiente têm percorrido nos últimos quinhentos anos, enquanto a natureza tem sido objeto de imaginação e exploração (neo-)coloniais. O extrativismo não somente modificou radicalmente os ecossistemas do continente, mas deixou seus rastros no imaginário coletivo: há muito tempo, “as sociedades latino-americanas, sobretudo as elites, carregam nos genes uma espécie de DNA extrativista” (ACOSTA; BRAND, 2018, p. 28). No escopo das humanidades ambientais, um projeto ecocrítico decolonial deve contribuir com críticas ao modelo predatório de desenvolvimento em vigor, além de discutir propostas que ressignifiquem e valorizem os modos de ser e pensar nas culturas originárias dos povos colonizados. Atualmente continua prevalecendo o modelo extrativista altamente destrutivo, enquanto uma literatura brasileira que incentiva sensibilidades ecológicas ainda se faz pouco presente. Um pensamento ecocrítico brasileiro que leva o conceito de crítica a sério, necessariamente deve estar ligado a questões de justiça e de transformação sociais. Assim, também procuramos estabelecer, no simpósio, um diálogo entre a ecocrítica literária ocidental e o pensamento decolonial oriundo do continente americano.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ACOSTA, Alberto; BRAND, Ulrich. Pós-estrativismo e decrescimento: saídas do labirinto capitalista. São Paulo: Elefante, 2018. BOGALHEIRO, Manoel. O fim da natureza: paradoxos e incertezas na era do antropoceno e do geo-construtivismo. In: RCL – Revista de Comunicação e Linguagens no. 48, 2018, pp. 48-66. BUELL, Lawrence; HEISE, Ursula K; THORNBER, Karen. Literature and Environment. In: Annual Review of Environment and Resources 36, 2011, pp. 417-440. CLARK, Timothy. The Value of Ecocriticism. Cambridge; New York: Cambridge University Press, 2019. GARRARD, Greg. Ecocrítica. Brasília: Ed. UnB, 2006.

PALAVRAS-CHAVE: Ecocrítica; Ciências humanas ambientais; Decolonialidade; Antropoceno.

COORDENADORES:
VALDINEY VALENTE LOBATO DE CASTRO (UERJ)
Alan Victor Flor da Silva (CMBEL)
Yurgel Pantoja Caldas (UNIFAP)

RESUMO: Segundo Robert Darnton (2010), os autores constituem um segmento de um circuito de comunicação associado a muitos outros elementos, como os editores, os tipógrafos, os livreiros, os leitores, entre outros. Esse circuito demonstra que os escritores não são os únicos envolvidos nos processos de produção e circulação de impressos. Muito pelo contrário, são completamente dependentes dos demais agentes do circuito de comunicação e estão à mercê das influências intelectuais, da conjuntura econômica e social e das sanções políticas e legais. Do mesmo modo, Roger Chartier (1999) afirma que os autores também estão constantemente sujeitos a uma série de tensões que delimitam a atividade da escrita, pois quase sempre são obrigados a atender as exigências implícitas ou explícitas impostas pelos editores, pelo suporte material onde se materializam os textos, por uma ou várias comunidades de leitores e, de um modo bem mais geral, por um mercado de circulação de impressos. Sendo assim, a compreensão acerca do cenário literário construído na entronização de um escritor expande-se como um processo de aceitação para além da mera relação entre autor e público: Bourdieu (1996) destaca afinidade do escritor com seus pares como elemento singular no processo de canonização. Nesse sentido, todos esses segmentos do circuito de comunicação interferem diretamente não apenas na atividade de produção literária, como também no estatuto do qual desfruta um escritor na sociedade na qual está inserido. Em razão do papel que esses agentes desempenham, alguns autores desfrutam de um espaço privilegiado no meio artístico-literário, enquanto outros são relegados ao esquecimento. Reconstruir, portanto, o processo de canonização de um determinado escritor é remontar todos os seus passos percorridos ao longo dos anos para alcançar um lugar de relevo no cânone literário, o lugar ao qual pertence o grupo seleto dos autores mais representativos de uma determinada nacionalidade. Segundo Marisa Lajolo (2001) e Márcia Abreu (2004), um escritor, para alcançar esse lugar de prestígio, deve passar pelo número máximo de instâncias de legitimação ou consagração, a exemplo das universidades, dos suplementos culturais dos grandes jornais, das revistas especializadas, dos livros didáticos, das histórias literárias, entre outros. Essas instâncias, de modo geral, apresentam a tarefa de julgar e hierarquizar o conjunto de textos que circulam em meio a uma determinada sociedade e, consequentemente, são as responsáveis pelo estatuto social atribuído aos autores, pois têm o poder institucional de declarar escritores e obras como pertencentes ao cânone literário. A (não) canonização implica, além da avaliação da qualidade estética e literária das obras, diversas consequências mais concretas. Os autores canonizados, por exemplo, desfrutam de um espaço muito mais privilegiado no cenário literário, pois são estudados por diversos críticos e especialistas e apresentam uma extensa fortuna crítica, assim como também as obras desses literatos possuem várias e diferentes edições (para todos os gostos e, sobretudo, para todos os bolsos) e, por conseguinte, podem ser lidas por um público leitor muito mais amplo e diversificado. Os não canonizados, em contrapartida, possuem pouco espaço no cenário literário, pois carecem de críticos e especialistas, de referências bibliográficas, de fortuna crítica, de edições para suas obras e, principalmente, de leitores. Em alguns casos não muito raros, até mesmo informações biográficas a respeito de escritores que ficaram à margem do cânone são difíceis encontradas, a exemplo do ano de nascimento e morte, naturalidade, bibliografia, entre outras. As pesquisas em periódicos, por exemplo, revelam uma série de escritores brasileiros que produziram durante os séculos XIX e XX, mas hoje são completamente desconhecidos dos leitores deste século, isso porque os impressos desenharam a imagem da leitura: periodicidade, diversidade de temas, atualidade e propagação mudaram as práticas de produção e leitura do texto literário, o que produziu uma democratização da leitura devido o acesso fácil tanto no que concerne ao barateamento dos custos quanto às condições de manuseio do suporte. Com isso as folhas públicas passam, então, a desenhar a imagem da leitura e as relações que por ela se estabelecem entre os sujeitos que cooperam para a circulação do texto literário. Desse modo, a proposta deste simpósio temático é congregar trabalhos que procurem traçar aspectos da trajetória de consagração ou de esquecimento de autores e obras de qualquer nacionalidade e de qualquer século. Para tanto, esses trabalhos devem considerar o papel da crítica literária, das história literárias, das universidades, das editoras, das livrarias, dos jornais, entre tantos outros.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ABREU, Márcia. Cultura letrada: literatura e leitura. UNESP, 2004. BOURDIEU, Pierre. As Regras da Arte: Gênese e Estrutura do Campo Literário. 1 ed. Trad. Maria Lúcia Machado. São Paulo. Companhia das Letras, 1996. CHARTIER, Roger. A ordem dos livros: leitoras, autores e bibliotecas na Europa entre os séculos XIV e XVIII. Trad. Mary Del Priori. Brasília: Editora da Universidade de Brasília,1999. DARNTON, Robert. A questão dos livros: passado, presente e futuro. Trad. Daniel Pellizzari. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. LAJOLO, Marisa. Literatura: leitores e leitura. São Paulo: Moderna, 2001.

PALAVRAS-CHAVE: Cânone literário; Processo de canonização; Instâncias de legitimação; Autores; Obras.

COORDENADORES:
Gabriela Lopes Vasconcellos de Andrade (Universidade Federal da Bahia e Universidade Federal de Minas Gerais)
Antonia Torreão Herrera (Universidade Federal da Bahia)
Livia Laene Oliveira dos S. Drummond (Universidade Federal da Bahia)

RESUMO: A escrita do sujeito em crise perpassa a trajetória e a obra de Antonin Artaud. O livro, A Perda de si: cartas de Antonin Artaud, organizado por Ana Kieffer (2017), é um compilado das cartas do autor. Tal escrita epistolar tece a arte como experiência radical e cruel do substrato da vida, que aparece na correspondência como uma tentativa de sistematização do sofrimento que o acomete. Os textos poéticos de Artaud apresentam uma negação radical do centro até no uso da forma – do espaço físico –, eles empreendem uma torturante busca pelo espaço em suspensão da própria crise, do mal, da doença, da crueldade que atravessam o ser e o ser-escrita, não como representação, mas como absurdo e loucura da vivência cruel. O que fica evidente é como essa escrita da crise, um sujeito à margem do pensamento, no flerte com a “loucura”, se dispersa nos próprios limites da escrita e da língua. A crise acontece justamente por uma consciência da própria língua como uma moldura indissociável do pensamento e da vivência humana. A crise, do corpo em falência, da mente em retalhos, impede uma escrita pela consciência da falência da própria língua. Não é por acaso que Artaud ensaia a criação de uma língua própria, na qual as palavras são antes de tudo sons e imagens, uma língua que não comunica sentidos, mas evoca o ilimitado, o impossível da experiência interior do sujeito em crise. O impasse da escrita e da língua é abordado por Jean Starobinski (2011) em Jean-Jacques Rousseau: a transparência e o obstáculo. O autor analisa a questão da mediação da linguagem em Rousseau – o oblíquo do significante e do significado. A fala traz a espontaneidade da manifestação imediata do pensamento, enquanto a escrita opera na ausência do falante, é estética e deformada. Um signo enganador. Um signo que desloca, descentra e emaranha-se. Escrever é um acréscimo, uma completude de algo que falta, uma doença da fala. A escrita estetiza o agora, torna-se um encadeamento infinito, que se multiplica ilimitadamente. Artaud, em sua carta à Jacques Rivière, após a recusa da publicação da sua poesia, descreve uma escrita permeada pelo sofrimento de uma doença, um mal que lhe impede a formulação, que põe em suspensão a língua. Artaud desenha sobre si a crise do sujeito enquanto uma crise da escrita. Questionado sobre a veracidade desta crise, principalmente porque a sua escrita epistolar e teórica é tão profícua, Ele responde: “Existe algo que destrói o meu pensamento; algo que não me impede de ser isso que eu poderia ser, mas que me deixa, se assim posso dizer, em suspensão. Algo furtivo que rouba as minhas palavras [...] que destrói ao fim e ao cabo, na sua substância, a massa do meu pensamento” (ARTAUD apud KIFFER, 2017, p. 27). Peter Pál Pelbart (2019), em Ensaios do Assombro, afirma que Artaud vive a impossibilidade do pensamento. Para o autor, o pensar não é um mecanismo automático e natural, mas sim um corpo-objeto artificial, atravessado por diversas formas, que impedem um automatismo livre. “Se o pensamento é impossível, para Artaud, é porque em seu espírito a forma foi quebrada. Portanto, nem formas, nem imagens, nem representações, nada daquilo que prenderia ou escamotearia as flutuações intensivas do ser” (PÁL PALBERT, 2019, p. 278). Segundo Pelbart, o pensamento de Artaud, no seu impasse com a linguagem, busca fluxos que abandonam os limites de organização do corpo, justamente porque a crise fratura a economia das formas. A crise questiona a linguagem como instância de relação e de significado, que mitifica todas as coisas. E por isso, a escrita da crise recusa a linguagem como representação, em sua fragilidade da designação e do seu oblíquo. “Os signos, em Artaud, são linhas finas, flutuantes, em movimento. E a aspiração de Artaud é tornar-se uma linha impalpável, mas poderosa, indeterminada. Tornar-se uma linha em vez de ocupar o espaço” (PÁL PALBERT, 2019, p. 280-281). Nesse sentido, o presente simpósio propõe a seguinte discussão: o que pode uma escrita da crise? E assim, outras questões desdobram-se: quais os processos de suspensão da linguagem que transbordam em um sujeito em crise? Quais os atravessamentos de uma escrita permeada pela perda dos limites das estruturas e das organizações racionais? Dessa forma, utilizando o pensamento de Artaud como uma elaboração inicial, mas não limitado a ele, buscam-se trabalhos que abordem o tema da escrita da crise – uma escrita que rompe os limites da linguagem – e os desdobramentos de um sujeito em sofrimento, em dissociação com a realidade. A partir dessa temática, espera-se a eleição e análise de diversos autores e produções poéticas e artísticas que coloquem em cena o sujeito em crise e suas escritas impossíveis.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: KIFFER, Ana (org). A perda de si: cartas de Antonin Artaud. Tradução de Ana Kiffer e Mariana Patrício Fernandes. Rio de Janeiro: Rocco, 2017. PELBART, Peter Pál. Ensaios do Assombro. São Paulo n-1 edições, 2019. STAROBINSKI, Jean. Jean-Jacques Rousseau: a transparência e o obstáculo. Tradução de Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

PALAVRAS-CHAVE: Escrita; Crise; Sujeito; Antonin Artaud; Linguagem;

COORDENADORES:
Adeítalo Manoel Pinho (Universidade Estadual de Feira de Santana)
Maria de Fátima Gonçalves Lima (PUC-Goiás)

RESUMO: Esta proposta é a continuação de simpósio realizado nos Congressos Abralic de 2015, Belém- PA, a 2019, Brasília. Dado o êxito das apresentações e discussões naquelas oportunidades e por ser do âmbito do Projeto Procad/Capes PUC-Rio/UNEBSalvador/UEFS-Bahia/PUC-Goiás, consideramos esta proposta decisiva para as atividades do projeto. A continuação da proposta e realização do simpósio expressam a consolidação de um grupo de trabalho multi-institucional e em instância nacional. Para delinear os desafios presentes no título deste Simpósio, e aqui propostos para seguir como um convite instigador a pesquisadores interessados na atualidade das práticas culturais, artísticas e teórico-críticas, elegemos, no pequeno e exitoso ensaio de Giorgio Agamben, uma das postulações a O que é o contemporâneo: "Contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro." A imagem potente de um "escuro" do tempo delineia metaforicamente a problemática a ser compartilhada pelos pesquisadores, em vertentes ou perspectivas compatíveis com seus objetos de investigação. Tal imagem se impõe quando se constata que, nas últimas décadas, na área dos estudos literários como nas ciências humanas, ocorreram alterações que reconfiguraram os pilares do território disciplinar, abalando o domínio de objetos previsto, o elenco de instrumentos, métodos e o corpo das proposições aceites como horizonte teórico dos estudos de literatura, outras artes e da cultura. Tais alterações repercutiram predominantemente na diluição de fronteiras entre as disciplinas, na multiplicação inovadora das questões e temas de investigação plausíveis para cada uma delas e na ampliação dos instrumentos conceituais e técnicas que as singularizam. Em paralelo às alterações no plano epistemológico, são expressivas também, nas últimas décadas, as alterações que ocorrem no âmbito da cultura e no campo artístico, especialmente no domínio do literário. No primeiro caso, a noção de "cultura" alargou-se, extrapolando a legitimidade que lhe atribuíram – igualmente, mas em circunstâncias diversas – o empreendimento civilizacional iluminista, o Estado nacional moderno e as elites cultas na alta modernidade estética, tornando a cultura e, principalmente, o valor cultural focos de instabilidade, conflito e disputa, por forças que saíram dos bastidores e passaram a disputar a significação cultural. Os dois eixos da significação e valor que atravessaram a área de Letras, afetando o âmbito dos estudos comparados: por um lado, problematiza-se a ligação mutuamente legitimadora entre literatura e nacionalidade, parte do processo de constituição dos estados modernos e matriz de toda a historiografia que por um século pautou os estudos da literatura; por outro, dá-se a contestação ao confinamento do valor cultural à esfera erudita, às artes canônicas e, consequentemente, à separação entre arte, cultura e o que pensadores como Edward Said e Stuart Hall designaram como a "mundanidade".Em grande parte, emanam deste cenário de mudanças epistemológicas e culturais o "escuro do tempo" ou os desafios do contemporâneo, que constituem o campo temático do debate aqui proposto, que deverá confrontar-se com o caráter intempestivo, insurgente da contemporaneidade, sistematizando e provendo instrumental teórico e crítico para lidar com as suas diversas dimensões ou concreções. O deslocamento ou a recusa de hierarquias instituídas tanto na dimensão epistemológica quanto na dimensão artísticocriativa geram a oportunidade para que estejam sob o foco deste Simpósio – como desafios que emergem das zonas de sombras do contemporâneo – as formas, expressões e domínios de experiência recalcados ou preteridos e sua potência intempestiva, tais como: (a) o corpo, em sua materialidade e enquanto superfície de inscrição e energia ético-estética; (b) os afetos, enquanto força disruptora a dar ensejo a outras formas de representação das vivências; (c) o comum e o cotidiano enquanto categorias transversais da cultura, a mobilizar uma rede de significados que remetem a espaços periféricos, tanto no cenário político e sociocultural quanto nos cenários textuais e artísticos; (d) a violência, a exclusão e a cidade como figurações do presente que convulsionam os limites da representação ao instaurarem, em diversas linguagens artísticas; (e) a lógica do testemunho, do biográfico e do documental, em flagrante desafio à compreensão estabilizada do que seria próprio do domínio ficcional. Ao acolher as perspectivas dos estudos de literatura e de outras linguagens artísticas, bem como dos estudos de produções, práticas e políticas da cultura, incorporando as dimensões de materialidade, de performatividade e de insurgência, próprias das estratégias criativas da atualidade, este Simpósio ambiciona empreender não apenas uma discussão estética e política que possibilite a acolhida analítica das forças e das formas artísticas e culturais do presente, mas – e principalmente – acentuar uma potência inovadora e transformadora que possa afetar práticas investigativas, formativas e educacionais na sociedade brasileira contemporânea.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: AGAMBEM, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Chapecó: Editora Argos, 2009. HALL, Stuart. Da diáspora. Org. Liv Sovik. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2003. SAID, Edward. Cultura e imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura. Contemporaneidade. História. Identidade. Memória. Multidisciplinaridade.

COORDENADORES:
Fernanda Aparecida Ribeiro (Universidade Federal de Alfenas)
Maria de Fatima Alves de Oliveira Marcari (Universidade EStadual Paulista)
Alexandra Santos Pinheiro (Universidade Federal da Grande Dourados)

RESUMO: Os estudos da literatura de expressão feminina partem do pressuposto de que a sociedade sempre valorizou a visão masculina como a “universal” e “oficial”, e, com isso, a voz feminina foi silenciada e subordinada à voz masculina. Tais estudos assumem, dessa forma, o papel de desmascarar a repressão dos papeis femininos legitimados pela ideologia dominante na sociedade e pela literatura canônica. Em 1994, Heloisa Buarque de Hollanda publica a coletânea Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura, reunindo estudiosas e teóricas que chamam a atenção para a importância da desconstrução do cânone literário (Ria Lemaire); da ginocrítica (Elaine Showalter); da alteridade (Gayatri Spivak); do conceito de gênero (Teresa Lauretis); dentre outros debates. A expansão da literatura de autoria feminina ocorre nas últimas décadas do século XX, refutando cada vez mais o conceito do patriarcado e em busca de uma identidade própria. Na América Latina, escritoras como Isabel Allende, Laura Esquivel, Gioconda Belli, Ana Miranda, entre muitas outras, se destacam por sua escrita voltada à problemática da mulher na sociedade, cujos temas abordam a construção, a manutenção e a transformação de práticas sociais e culturais que reverberam o conceito do patriarcado, salientando a sobreposição, a hibridização e a variação dessas práticas de modo que continuamente são revisitadas pela literatura para (re)construir identidade(s) a partir de diversas noções que se interseccionam: classe, etnia, gênero e outros. A professora Márcia Hoppe Navarro (1995, p. 53) propôs a nomenclatura Nova literatura feminista latino-americana para a fase em que a mulher escritora ganha autonomia para escrever, destacando os aspectos que foram determinados pelo movimento de liberação da mulher. Dez anos depois, em um artigo sobre a literatura latino-americana atual, a pesquisadora enfatiza que “o sentido de feminino [...] não como algo pejorativo, que se opõe à feminista, mas sim como algo que soma, recupera e adiciona um lado esquecido da história” (NAVARRO, 2005, p. 197). Diante do exposto, o presente simpósio inspira-se nestas vozes de mulheres pioneiras ao propor pensar os conceitos de identidades, histórias e memórias a partir da análise da literatura de escritoras latino-americanas. Uma temática que exige pensar nas raízes do patriarcado e em sua herança, ainda disseminada pelos discursos religiosos, políticos, escolares e familiares. A ficção de autoria feminina tem resgatado experiências até então não cartografadas de personagens femininas que avançam a partir do espaço íntimo familiar até a esfera pública. O principal objetivo das escritoras é a recuperação, por meio de suas obras, de eventos silenciados por uma realidade social e política opressora, por meio de uma linguagem desestabilizadora do logos patriarcal, criando um discurso de resistência e posicionando-se por meio de sua linguagem. Desse modo o presente simpósio visa reunir trabalhos que analisem as relações entre história, identidade e memória na narrativa de autoria feminina, em especial da América Latina, observando como a escrita é utilizada como um meio para articular as vozes da periferia – dos excluídos por gênero, classe ou raça –, e, em particular, das mulheres como sujeitos próprios de seu discurso, tendo como base aquilo que Medeiros-Lichem (2006, p.15, tradução nossa) disserta em seu livro: “a causa primordial da voz da mulher na literatura latino-americana tem sido ampliar e redefinir a compreensão do desenvolvimento social e do papel da mulher no acercamento cultural à alteridade. Ao incorporar as vozes múltiplas do outro, a narrativa feminina está entretecendo uma imagem pluri-identitária da mulher, da sociedade e da realidade latino-americana”. Convidamos professores(as) e pesquisadores(as) a enviarem artigos que contemplem análises de obras literárias de escritoras latino-americanas sob a perspectiva dos estudos de gênero e da crítica literária feminista, e desenvolvidos a partir das seguintes perspectivas norteadoras: a) Representações identitárias e de gênero na literatura feminina; b) Escritas de si femininas; c) Vozes poéticas femininas; d) A narrativa histórica de escritoras latino-americanas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: HOLLANDA, H. B. de (Org.). Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de janeiro: Rocco, 1994. MEDEIROS-LICHEM, M. T. La voz femenina en la narrativa latinoamericana: una relectura crítica. Santiago: Editorial Cuarto propio, 2006. NAVARRO, M. H. (Org.) Rompendo o silêncio: gênero e literatura na América Latina. Porto Alegre: UFRGS, 1995. NAVARRO, M. H. Re-escrevendo o feminino: a literatura latino-americana atual em perspectiva. In: LIMA, T. M. O.; MONTEIRO, M. C. (Org.). Figurações do feminino nas manifestações literárias. Rio de Janeiro: Caetés, 2005. p. 197-217.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura e Mulher; Crítica Literária Feminista; Literatura de Autoria Feminina.

COORDENADORES:
Laura Barbosa Campos (uerj)
Anna Faedrich (uff)
Silvina Liliana Carrizo (ufjf)

RESUMO: Pretende-se examinar a manifestação da resistência na literatura produzida por mulheres, de todas as épocas, das mais variadas nacionalidades, tendo em vista as diferentes formas de enfrentar as intempéries da trajetória intelectual e literária feminina. Visamos dar continuidade às discussões empreendidas por este simpósio em 2021. A ideia central é abrir espaço para o diálogo entre pesquisadores que investigam variadas autoras, cujas obras expressam traumas e/ou dificuldades de existir, enquanto escritoras e mulheres pensantes, em uma sociedade patriarcal e hostil. A repercussão da contribuição literária feminina ensejou reações de escritores – homens – que revelam os jogos de poder e suas implicações sobre a fortuna das carreiras de 62 mulheres no mundo das letras. Virgínia Woolf, em Um teto todo seu, anotou que a “indiferença do mundo, que Keats, Flaubert e outros homens geniais achavam tão difícil de suportar, não era, no caso d[a mulher], indiferença, mas hostilidade” (Woolf, 2014, p. 78). Sendo assim, interessa-nos o estudo dos mecanismos sociais de exclusão da literatura de autoria feminina do cânone literário e das histórias literárias brasileiras e estrangeiras, bem como as estratégias utilizadas pelas escritoras como enfrentamento dos espaços que lhe foram reservados – o doméstico e desvalorizado, para as mulheres; o público e prestigioso, para os homens. É possível identificar estratégias do feminino que se impõem como procedimentos evidentes para adentrar o meio – predominantemente masculino – das letras. Reedições dos romances, poemas e crônicas dessas autoras têm sido realizadas com intenção de facilitar o acesso aos leitores, já que muitas dessas obras se encontram em raras bibliotecas, em situações de deterioração, beirando ao desaparecimento. Uma vez aferidos os valores estéticos das obras de autoria feminina – que em termos literários não ficam aquém das escritas por homens – buscamos compreender os mecanismos sociais de exclusão das escritoras. Após anos de estudos – relembramos o trabalho das pesquisadoras e pesquisadores do Grupo de Trabalho (GT) Mulher e Literatura, que, desde os anos 1980, vêm contribuindo com os estudos literários, abrindo espaço para análise e consideração de obras escritas por mulheres –, está comprovado que se trata de uma exclusão por viés de gênero. Ao analisar a masculinidade como nobreza, em A dominação masculina, Bourdieu esclarece que “a definição de excelência está, em todos os aspectos, carregada de implicações masculinas” (Bourdieu, [1998] 2002, p. 78). O homem como dominante reconhece o seu modo particular de ser como universal. Um modo que, segundo tal perspectiva, uma mulher jamais atingirá. Ou melhor, um modo de ser que uma mulher jamais terá a chance de atingir. Sem chances de atingir a “nobreza” masculina, as escritoras são vítimas da sofisticação dos mecanismos de exclusão realizada – consciente ou inconscientemente – pelos historiadores e críticos literários, que perpetuam as mesmas listas de eleitos para figurar a História da Literatura. Naturaliza-se essa exclusão no ensino e nas histórias de literatura que alunas e alunos aprendem nas universidades, antes de se tornarem correias de transmissão das mesmas exclusões, nas ementas que organizam para o alunado também das escolas de formação préuniversitária. Este consenso e naturalização devem ser permanentemente questionados, tendo em vista que a relação do campo literário com a literatura de autoria feminina é socialmente construída. Nesse sentido, a produção das escritoras só pode ser devidamente compreendida quando se explicitam as expectativas sociais, em particular as expectativas de escritores homens sobre a escrita literária. Como postulou o sociólogo francês Émile Durkheim (1895), essas expectativas coletivas são usualmente tão naturalizadas que, como uma segunda natureza, sequer são percebidas, exceto 63 quando desafiadas ou quando se lhes tenta alterar o curso. Trata-se de uma coerção doce, porque sua força, embora se exerça de modo permanente, não se percebe. E, sendo coletiva, não é produto de vontades individuais, embora se manifeste nas ações de cada um. A luta da volição individual contra a expectativa do coletivo é desigual. O coletivo dispõe de recursos de coerção de toda sorte, quando vê a norma desafiada. Hoje desafiamos o que nos foi paulatinamente naturalizado, tornando possível a alteração do curso. Embora nosso objeto de estudo seja literário – literatura de autoria feminina –, e não interdisciplinar ou cultural, acredito ser possível dialogar com os estudos culturais, sem abrir mão da teoria literária e do exercício crítico. Se a história da literatura reproduziu seleções arbitrárias, por sua índole essencialmente falonarcísica e patriarcal, ela também é um instrumento para reconstruir narrativas em novas perspectivas. Tal reconstrução é um trabalho literário e político. O que se espera é que os trabalhos apresentados no Simpósio abordem questões voltadas tanto para a estética das obras escritas por mulheres, quanto para questões sociológicas pertinentes ao âmbito da teoria feminista para pensar a exclusão das escritoras – segundo uma visão falonarcísica e um princípio androcêntrico – e as estratégias do feminino no intuito de romper com a expectativa de gênero.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Tradução de Maria Helena Kühner. 2ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002. DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. Tradução Paulo Neves. 3a ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007. (Coleção Tópicos) ELEUTÉRIO, Maria de Lourdes. Vidas de romance: as mulheres e o exercício de ler e escrever no entresséculos (1890-1930). Rio de Janeiro: Topbooks, 2005. TELLES, Norma. “Escritoras, escritas, escrituras”. In: DEL PRIORE, Mary. História das mulheres no Brasil (Org.). 10 ed., 2ª reimpressão. São Paulo: Contexto, 2013, p. 401-442. WOOLF, Virginia. Um teto todo seu. Tradução de Bia Nunes de Sousa, Glauco Mattoso. São Paulo: Tordesilhas, 2014.

PALAVRAS-CHAVE: Escritoras; resistência; trauma; feminismo; cânone literário

COORDENADORES:
Andréa Moraes da Costa (Universidade Federal de Rondônia - UNIR)
Válmi Hatje-Faggion (Universidade de Brasília - UnB)

RESUMO: Redefinições críticas envolvendo gênero e tradução sob a perspectiva dos Estudos Culturais, especialmente a partir da década de 1970, têm ampliado as possibilidades de pesquisa no campo dos Estudos da Tradução, uma vez que objetos de pesquisa, até então preteridos no universo acadêmico, passaram a ser percebidos com atenção especial, sendo, então, incluídos em suas investigações. Como um dos resultados dessa dinâmica, houve, por exemplo, um movimento no sentido de redefinir a própria concepção de tradução. A ação de traduzir passou a ser compreendida como o ato de reescrever, e o tradutor, por sua vez, passou a ser considerado como reescritor. Assim, passaram a importar, por exemplo, investigações voltadas para o contexto de produção e comercialização de obras traduzidas. O interesse nesse contexto deve-se ao fato de que as condições de produção de determinadas obras estão condicionadas a vários fatores políticos, ideológicos e culturais propensos a polêmicas, como subalternidades e questões de gênero vigentes na cultura receptora. No que tange especificamente ao gênero, o empenho em tais investigações provocou novos questionamentos e novas problemáticas advindos de diferentes esferas de onde a mulher se situa, tais como classe social, profissão, dentre outras. Os debates colocando ao centro o sexo da autoria passam a dar lugar a discussões “involving gender signs encoded in the text” [envolvendo marcas inscritas no texto], como atesta Susan Bassnett (1992, p. 63). Atem-se, então, paralelamente a isso, à compreensão de feminino para além da visão que o define como contraposição ao masculino. Nesse contexto, as publicações de Translating and Gender (1997), Translating Women (2011) e Translating Women: Different Voices and New Horizons (2017), da canadense Luise von Flotow, servem de ilustração no que diz respeito a possíveis estudos orientados pela associação das temáticas tradução e gênero. Nessa última obra, por exemplo, a pesquisadora oferece ampla discussão considerando políticas identitárias aplicadas à tradução, ao feminismo, ao gênero e à teoria queer. Assim sendo, no processo tradutório a atuação dos tradutores se mostra diretamente relacionada ao modo de sua leitura para compreender, interpretar e reescrever o texto de partida em suas diversas possibilidades. Nessa reescritura revelam-se tomadas de decisão, escolhas e estratégias que permitem a reflexão sobre as questões levantadas pelo texto que envolvem feminismo, poder e uso da linguagem em momentos históricos e lugares diversos que asseguram a sobrevida/pervida do texto de origem (BENJAMIN, apud HEIDERMANN, 2001). Ainda, é possível refletir acerca de que textos adicionados, na tradução publicada, como os prefácios assinados pelos tradutores, anunciam o surgimento de uma outra presença discursiva, “the presence of a second hand”, a inscrição de duas assinaturas, uma “double signature” (SIMON, apud BASSNETT; LEFEVERE, 1990, p. 111), resultando na pluralidade de vozes inscritas no texto traduzido. Desse modo, a tradução reconhecida em seu valor intrínseco e como elemento de difusão literária e prática legitimada contribui para produzir uma história cultural que se escreve em diferentes dimensões e modulações, as quais revelam dados importantes de dada época e lugar. Por isso, a relevância de analisar o texto traduzido – cotejado com seu texto de partida –, como procedimento literário e manifestação cultural, bem como a interferência que provoca em cada novo polissistema que o recebe (CARVALHAL, 2003, p. 255). Nesse âmbito, a (in)visibilidade das tradutoras, relevante no escopo dos estudos da tradução feminista, permite a análise da presença da pluralidade de vozes, da linguagem (não) sexista, das normas vigentes para explorar novos espaços de prolongamento de dada obra. Observa-se, portanto, que nesta proposta se evidencia a relação intrínseca entre os Estudos da Tradução e os Estudos de Gênero, visto que ambos os estudos são interligados ao sujeito da linguagem a qual, assim como suas múltiplas manifestações, ocupam papel fundamental no que diz respeito à promoção da visibilidade de tradutoras e suas traduções. Nesse sentido, em diálogo com os aspectos abordados aqui, este Simpósio aceita propostas que contemplem a análise de traduções publicadas com relação aos seguintes aspectos: – modelos de tradução utilizados nas tomadas de decisões das tradutoras; – processo tradutório e uso da linguagem; – tradução feminista comentada; – discursos paratextuais e suas possíveis implicações; – tradução e (in)visibilidade da tradutora; – tradução feminista sob a perspectiva do polissistema literário; – a (auto)representação da tradutora; – crítica, tradição e história da tradução e da tradutora.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BASSNETT, SUSAN. Writing in no man’s land: questions of Gender and Translation. In: Ilha do Desterro. Florianópolis, n. 28, 1992. pp. 63-74. BENJAMIN, Walter. A tarefa–renúncia do tradutor. Tradução de Suzana K. Lages. In: HEIDERMANN, Werner (Org.). Clássicos da teoria da tradução. Florianópolis: USFC, Núcleo de Tradução, 2001, p. 189-215. (Antologia bilíngüe, alemão–português, 1) CARVALHAL. Tania Franco. O próprio e o alheio. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2003. SIMON, Sherry. Translating the will to knowledge: prefaces and Canadian literary politics. In: BASSNETT, Susan; LEFEVERE, André (Ed.). Translation, history and culture. London and New York: Cassell, 1990. p.111-117. VON FLOTOW, Luise. Translating and Gender. Ottawa: University of Ottawa Press, 1997. VON FLOTOW, Luise. Translating Women. Ottawa: University of Ottawa Press, 2011. VON FLOTOW, Luise. Translating Women: Different Voices and new horizons. London and New York: Routledge, 2017.

PALAVRAS-CHAVE: Gênero; Estudos da Tradução; Paratextos; Tradutores; Uso de linguagem.

COORDENADORES:
Valeria Silveira Brisolara (UNISINOS)
Paulo Roberto de Souza Ramos (UFRPE)

RESUMO: No cenário contemporâneo de globalização, muitos se engajam em e interagem através de traduções e não é preciso um olhar minucioso para se constatar a ubiquidade da tradução na vida diária das pessoas em diferentes contextos. A partir disso, a prática tradutória tem ganhado visibilidade no cenário mundial nas últimas décadas e o campo denominado como Estudos da Tradução tem tido crescente importância, especialmente após 1990, com o advento de novas tecnologias e formas de interação, que levaram ao surgimento de novas possibilidades de tradução e, consequentemente, de novas teorias. Correntes teóricas como a Escola da Manipulação, vem ganhando espaço e colocando uma maior ênfase em aspectos culturais e sociais ligados às traduções. Teorias de cunho ideológico, cultural e sociológico, como a feminista e, mais recentemente, a teoria queer, tem tomado o lugar de teorias de ênfase mais textual. Pesquisadores têm ampliado o foco de suas investigações, levando em conta o contexto cultural e social em que as traduções são feitas e circulam, deixando de se concentrar unicamente nos textos em si, mas em suas circulações e repercussões, como se pode observar nas teorias dos autores que embasam esta proposta, tais como Lawrence Venuti, Antoine Berman e Itamar Even-Zohar, e a visão de tradução e literatura que compartilhamos, enquanto práticas sociais que têm uma natureza política e ideológica (VENUTI, 1995, 1998). Assim, este simpósio alinha-se a essas teorias contemporâneas da tradução, nas quais a tradução não é mais vista como uma atividade secundária, mas sim tomada como uma prática social e autoral situada na medida em que as escolhas do tradutor são vistas como uma intervenção cultural com impacto no polissistema literário (EVEN-ZOHAR, 1990) ou campo literário maior (BOURDIEU, 2015) e a literatura como um elemento relevante poderoso na sociedade. (EVEN-ZOHAR, 1990). A tradução é parte relevante de um sistema literário maior e está ligada a engrenagens desse sistema do qual faz parte, mas dentro do qual tem grande influência (EVEN-ZOHAR, 1994). Nessa perspectiva, surgem questionamentos sobre o papel da tradução e o papel do tradutor na sociedade contemporânea. Nesse contexto, surgem indagações relevantes sobre que textos ou discursos devem ser traduzidos, por quem devem ser traduzidos, como e onde devem ser traduzidos e, ainda, para quem devem ser traduzidos. Da mesma maneira, ainda tomando a perspectiva de Venuti, a tradução é governada pelo objetivo de manter uma relação com o texto original (VENUTI, 1998, p. 44), sendo, no entanto, um outro original, o que a caracteriza como uma prática autoral; com isso, Venuti chama atenção para o frequentemente ignorado papel de quem traduz. Ainda, por conta do já referido contexto de globalização e da multiplicidade de perspectivas nos estudos da tradução, parece propício revisitar à questão de normatividade em tradução (TOURY, 1985/1995; HERMANS, 1996; DARWISH, 1999) e se discutir o peso das normas tradutórias vistas, conforme Hermans (1996, s.p.) “como realidades sociais e culturais, bem nos moldes que os sociólogos e antropólogos poderiam usá-las” na ações e concepções de quem traduz e nos produtos resultantes destas, considerando o impacto das escolhas ou decisões tradutórias. Assim, interessa-nos enfocar os “princípios e objetivos da tradução” ? (VENUTI, 1998, p. 3), que têm sido objeto de nossas pesquisas recentes. O objetivo do simpósio é acolher trabalhos que reflitam sobre o cenário atual da tradução no Brasil, ou seja, o que está sendo traduzido no Brasil, para quem está sendo traduzido, onde está sendo traduzido e como está sendo traduzido, ou seja, o impacto e lugar das traduções no cenário literário e social. São de especial interesse do simpósio os trabalhos que analisem traduções enfocando as estratégias de tradução (domesticação/estrangeirização) (VENUTI, 1995; SCHLEIERMACHER, 2011) adotadas, a literatura brasileira em tradução e retradução; as retraduções e temporalidade das traduções (BERMAN, 2007); a tradução e o plágio; as questões éticas associadas à tradução; ghost-translating; os paratextos e os espaços para a voz do tradutor; a normatividade em tradução; os trabalhos utilizando teorias contemporâneas da tradução, como a Tradução queer, a tradução queerificadora; os trabalhos que lidem com questões relacionadas à Visibilidade/invisibilidade do tradutor, ou seja, a presença discursiva do tradutor; e o tradutor como “agente social” (BOURDIEU, 2004); assim como os papéis e as identidades do tradutor no cenário atual de tecnologia com uso de ferramentas, sistemas e programa de tradução.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BERMAN, Antoine. A Tradução e a Letra ou o Albergue do Longínquo. Tradução de Marie-Heléne Catherine Torres, Mauri Furlan e Andreia Guerini. Rio de Janeiro; 7Letras/ PGET, 2007. BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2015. DARWISH, A. Towards a Theory of Constraints in Translation – A work in progress. 1999. Disponível em: <https://www.researchgate.net/publication/290195054_Towards_A_Theory_of_Constraints_in_Translation>. Acesso em: 25 Abr. 2021. EVEN-ZOHAR, Itamar. Polysystem studies. Poetics Today. Durham: Duke University Press, v.11, n.1, 1990. EVEN-ZOHAR, Itamar. A Posição da literatura traduzida dentro do polissistema literário. Translatio, n. 3, 2012, Porto Alegre. EVEN-ZOHAR, Itamar. Literature as goods, literature as tools. Neohelicon XXIX, 2002, v. 1, p.75–83. HERMANS, T. Norms and the Determination of Translation. A Theoretical Framework. 1996. Disponível em: <https://pdfs.semanticscholar.org/59b7/f08e71d148e627ca3e676a14bb1252fb24d0.pdf> Acesso em: 25 Abr. 2021. HERMANS, T. Translation and Normativity. 1998. Disponível em: <https://pdfs.semanticscholar.org/365b/847ce77aa8e3177a119ea45c44763c411dec.pdf> Acessado em: 25 Abr. 2021. SCHLEIERMACHER, Friedrich. Über die verschiedenen Methoden des Übersetzens / Sobre os diferentes métodos de tradução / Sobre os diferentes métodos de traduzir / Dos diferentes métodos de traduzir. Tradução de Margarete von Mühlen Poll, Celso R. Braida, Mauri Furlan. Scientia traductionis, nº 9. Florianópolis: UFSC, 2011. TOURY, Gideon. Descriptive Translation Studies and Beyond. John Benjamins Publishing Company. 1995. VENUTI, Lawrence. The translator’s invisibility: a history of translation. London/New York: Routledge, 1995. VENUTI, Lawrence. The Scandals of Translation: towards an ethics of difference. New York: Routledge, 1998.

PALAVRAS-CHAVE: Tradução; Autoria; Visibilidade; Normatividade; Ética.

COORDENADORES:
REGIS AUGUSTUS BARS CLOSEL (UFSM)
John Milton (USP)
Fernanda Teixeira de Medeiros (UERJ)

RESUMO: As obras de William Shakespeare (1564-1616) continuam a estimular estudos que ensejam diálogos, questionamentos, revisões, atualizações. Novas mídias e formas de transmissão de conteúdo colaboram para que incontáveis espaços ao redor do mundo sejam alcançados e a relevância dos textos seja sempre colocada à prova. Ao contrário de um falso senso comum, muito do que se produz atualmente sobre a obra e os tempos de Shakespeare e de seus contemporâneos é composto de ricos materiais —variando em sua abrangência, metodologia, corpus e objetivos de análise— que proporcionam novas rotas críticas para se pensar obras praticamente inesgotáveis. É natural que Shakespeare e suas mais de quarenta peças acabem por ser um imã para diversas teorias literárias tanto pela diversidade do conjunto dramático quanto por sua abertura polissêmica, sua vasta amplitude temática e sua imensa representação de tipos humanos. Séries especializadas, como “Shakespeare and Theory” (Arden Shakespeare, 2015-atual) e a abrangente “Shakespeare Oxford Topics” (Oxford University Press, 2001-atual), atestam a flexibilidade de se refletir, questionar e se aproximar do texto shakespeareano. Ambas refletem sobre o que tem sido feito em cada área de concentração especializada, e fornecem análises que aplicam o aparato teórico discutido a peças, sonetos e poemas narrativos (Brown, 2015; Egan, 2004; Harber, 2018; Hawkes, 2015; Laroshe, 2017; Marlow, 2017; Martin, 2015; Novy, 2017; Parvini, 2017; Singh, 2019; Taylor, 2001; Sanchez, 2019; Hollifield, 2017). Este simpósio pretende reunir diversos campos ligados à pesquisa shakespeareana para estimular a troca de reflexões, sobretudo com recurso a linhas teóricas que transitam entre diferentes abordagens, como história, geografia, história da emoção, psicanálise, composição textual, adaptação, gênero, história das performances e do texto, tradução, recepção, economia, poesia e cinema. Tanto abordagens emergentes —por exemplo, ecocrítica, ecofeminismo, geocrítica, nova crítica econômica, estudos de atribuição, teoria pós-humanista e estudos sobre o espaço— como linhas teóricas já estabelecidas — como os estudos de adaptação, os estudos de tradução, a teoria fílmica, os estudos de gênero, os estudos textuais, os estudos queer, a teoria psicanalítica, a crítica econômica, a crítica marxista, os estudos pós-coloniais, o materialismo cultural e o novo historicismo — são bem-vindas para promover o debate e a reflexão sobre os múltiplos olhares acerca de um objeto comum. A diversidade de encontros de disciplinas e a fluidez de interpretação dos objetos de análise são inerentes à condição de universalidade atribuída às peças de Shakespeare. A última década testemunhou novas direções na composição daquilo que forma o conjunto da obra ou em sua expressão mais tradicional, ainda que limitante, “o cânone” (Taylor & Loughnane, 2017) shakespeareano com a publicação da New Oxford Shakespeare (2016) e o crescimento de estudos especializados sobre o período do início da idade moderna, por exemplo, as muitas séries como a Cambridge Studies in Early Modern History, Early Modern Cutural Studies, Early Modern Studies, Early Modern Literary Geographies, Arden Shakespeare Intersections, Arden Performance Editions, entre muitas outras, atestam a profundidade acadêmica dedicada ao período. Convidamos propostas de comunicações sobre Shakespeare, em qualquer linhagem teórica, para debatermos juntos, ao longo deste simpósio, questões como: Como o crítico (re)constrói o(s) sentido(s) a partir do aparato teórico?; Qual via deve ser utilizada ou evitada em sala de aula?; A existência de diversas teorias auxilia ou dispersa?; A divergência de conclusões é fruto da análise ou da natureza “shakespeareana” (ou instável) do texto?; Uma abordagem específica necessariamente anula/contradiz outra? Cabe ao crítico literário se especializar em uma abordagem ou não?; Quais cruzamentos entre linhas críticas devem ou não ser feitos?; Como deve ser interpretada a variedade de teorias lançadas para uma mesma obra, como um objeto inesgotável, saturado ou uma via segura para se pensar a produção da crítica literária?; Por que algumas teorias são desenvolvidas em língua portuguesa enquanto outras não? Portanto, convidando a presença de uma malha crítica diversificada, este simpósio procura, por meio da variedade de abordagens, estimular o diálogo entre diversas formas e percursos de se pensar os estudos sobre Shakespeare desenvolvidos tanto no Brasil como no exterior.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: TAYLOR, Gary and LOUGHNANE, Rory. ‘Canon and Chronology’, in TAYLOR, Gary and EGAN, Gabriel. New Oxford Shakespeare Authorship Companion. Oxford: Oxford University Press, 2017. SHAKESPEARE, William et al. New Oxford Shakespeare, ed. by Gary Taylor, et al.. Oxford: Oxford University Press, 2016. SHAKESPEARE, William et al. William Shakespeare and Others: Collaborative Plays, ed. by Jonathan Bate and Eric Rasmussen (Basingstoke: RSC, 2013). BROWN, Carolyn. Shakespeare and Psychoanalytic Theory. Shakespeare and Theory. Arden Shakespeare. London: Bloomsbury, 2015. EGAN, Gabriel. Shakespeare and Ecocritical Theory. Shakespeare and Theory. Arden Shakespeare. London: Bloomsbury, 2015. EGAN, Gabriel. Shakespeare and Marx. Oxford: Oxford University Press, 2004. HARBER, Karen. Shakespeare and Post-Humanist Theory. Shakespeare and Theory. Arden Shakespeare. London: Bloomsbury, 2018. HAWKES, David. Shakespeare and New Economic Criticism. Shakespeare and Theory. Arden Shakespeare. London: Bloomsbury, 2015. LAROSHE, Rebeca et MUNROE, Jennifer. Shakespeare and Ecofeminist Theory. Shakespeare and Theory. Arden Shakespeare. London: Bloomsbury, 2017. MARLOW, Christopher. Shakespeare and Cultural Materialist Theory. Shakespeare and Theory. Arden Shakespeare. London: Bloomsbury, 2017. MARTIN, Randall. Shakespeare & Ecology. Oxford Shakespeare Topics. Oxford: Oxford University Press, 2015. NOVY, Marianne. Shakespeare and Feminist Theory. Shakespeare and Theory. Arden Shakespeare. London: Bloomsbury, 2017. PARVINI, Neema. Shakespeare and New Historicist Theory. Shakespeare and Theory. Arden Shakespeare. London: Bloomsbury, 2017. SINGH, Jyotsna. Shakespeare and Post-Colonial Theory. Shakespeare and Theory. Arden Shakespeare. London: Bloomsbury, 2019. TAYLOR, Michael. Shakespeare Criticism in the Twentieth Century. Oxford Shakespeare Topics. Oxford: Oxford University Press, 2001. SANCHEZ, Melissa. Shakespeare and Queer Theory. Shakespeare and Theory. Arden Shakespeare. London: Bloomsbury, 2019. HOLLIFIELD, Scott. Shakespeare and Film Theory. Shakespeare and Theory. Arden Shakespeare. London: Bloomsbury, 2017.

PALAVRAS-CHAVE: Shakespeare; Teoria Literária; Crítica Literária.

COORDENADORES:
Maria Ivonete Santos Silva (Universidade Federal de Uberlândia)
Carlos-Germán van der Linde (Universidad de La Salle)
Tatiele da Cunha Freitas (Universidade Federal de Uberlândia)

RESUMO: A proposição deste simpósio, pautado na teoria sistêmica do físico austríaco Fritjof Capra (2005), objetiva promover o diálogo entre os estudos literários e os demais campos do saber, em uma visão integrada da literatura nas manifestações culturais inseridas em um contexto mais amplo do qual é interdependente. A teoria sistêmica de Fritjof Capra (2003, 2005, 2006, 2014) e Pier Luigi Luisi (2014) parte do pressuposto de que o mundo possui uma lógica fundamentada em interrelações cuja compreensão mecanicista de causa e efeito que os modelos sociais e científicos de base cartesiana têm imposto à sociedade se torna ineficiente em demonstrar e explicar o mundo. Para o físico, a vida, em sentido amplo, funciona como uma teia, como uma rede, cabendo aos seres modificar-se e renovar-se de forma que haja continuidade. Em suas próprias palavras: É essa a chave da definição sistêmica da vida: as redes vivas criam ou recriam a si mesmas continuamente mediante transformação ou substituição dos seus componentes. Dessa maneira, sofrem mudanças estruturais contínuas ao mesmo tempo que preservam seus padrões de organização, que sempre se assemelham a teias. A interpretação do mundo e da vida em si como redes vivas em processos de criar-se e recriar-se é a chave para entender a teoria sistêmica. Compreender e pensar sistemicamente leva ao reconhecimento do “ser” em seu contexto (CAPRA, 2005, p. 27). De acordo com Capra, a percepção que ele propõe do mundo se pauta na tomada de consciência deste estado de interdependência próprio dos fenômenos físicos, psicológicos, biológicos, sociais e culturais. Como salientado na citação, o físico percebe os sistemas como totalidades integradas que não podem ser reduzidas a unidades menores. Se o sistema for fragmentado e seus elementos forem analisados isoladamente, as propriedades sistêmicas desaparecem. O teórico usa a imagem de uma “árvore sistêmica” para representar as relações existentes entre os diferentes níveis, com o objetivo de demonstrar que essas interligações e interdependências se encontram presentes e que podem transitar tanto de forma ascendente quanto descendente. A maioria dos sistemas vivos exibem modelos de organização em múltiplos níveis, caracterizados por muitos e intrincados percursos não-lineares, ao longo dos quais se propagam sinais de informação e transação entre todos os níveis, tanto ascendentes quanto descendentes. (...) [a] árvore [é o] símbolo mais apropriado para a natureza ecológica da estratificação nos sistemas vivos. Assim como uma árvore real extrai seu alimento tanto através das raízes como das folhas, também a energia numa árvore sistêmica flui em ambas as direções, sem que uma extremidade domine a outra, sendo que todos os níveis interagem em harmonia, interdependentes, para sustentar o funcionamento do todo (CAPRA, 2006, p.274). A teoria proposta por Capra e Luisi, especialmente na obra A visão sistêmica da vida (2014), relaciona-se à literatura quando fornece uma compreensão para a análise literária ligada à realidade visando a compreensão tanto do mundo como das ações do sujeito, exigindo do leitor um olhar aguçado, uma vez que se trabalha com conceitos e modelos interligados, envolvendo os fenômenos das mais variadas esferas da vida. Além disso, a visão sistêmica provoca uma gama de ricas reflexões, pois a literatura deixa de se configurar apenas como um conjunto de textos, e passa a abarcar um agrupamento de atividades que, como um todo, constitui um sistema interagindo com outros sistemas. Ainda, a partir da visão sistêmica, estudantes, leitores e pesquisadores são levados a ter uma visão social e cultural ampla, quando vislumbram elementos simbólicos como bens materiais, valorizados pelas diferentes instituições. Tal postura implica repensar os textos como construções de um agente, inseridos em determinado contexto social, por sua vez relacionados a um discurso de poder construído a partir de certo repertório aceitável e legitimado por distintas instituições. Desse modo, a teoria sistêmica rompe com uma tradicional hierarquização da leitura, para a qual há modelos “interpretativos” que pressupõem a imanência dos textos, não sendo necessário questioná-los ou investigá-los em sua materialidade, restando somente decifrar seus segredos. O rompimento de hierarquias não rompe com o respeito e o prestígio dos poetas pertencentes ao cânone; mas muda a abordagem de análise, estudando as obras canônicas sob uma perspectiva mais ampla porque propicia questionar a influência que determinado autor causou no sistema, o repertório do qual se apropriou e a recepção da sua obra tanto na época de sua publicação como nos dias de hoje. Tais questionamentos permitem a inserção de um conjunto de questões econômicas, políticas e culturais no processo interpretativo, sem que a abordagem relativa ao estudo da tradição impeça a reflexão sobre o presente, porque o sistema literário não é uma realidade homogênea; seus elementos e funções configuram-se sistemas não hierarquizados.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: CAPRA, Fritjof. A Teia da Vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. 8ª ed. São Paulo: Cultrix, 2003. CAPRA, F. As conexões ocultas: ciência para uma vida sustentável. São Paulo: Cultrix, 2005. CAPRA, Fritjof. et al. Alfabetização ecológica – a educação das crianças para um mundo sustentável. Michael K. Stose; Zenobia Barlow (Org.). São Paulo: Cultrix, 2006. CAPRA, Fritjof e LUISI, Pier Luigi. A visão sistêmica da vida: uma concepção unificada e suas implicações filosóficas, políticas, sociais e econômicas. São Paulo: Cultrix, 2014.

PALAVRAS-CHAVE: Capra e Luisi; Visão Sistêmica; Estudos Literários; Literaturas e Outros saberes.

COORDENADORES:
Jean Pierre Chauvin (USP)
Marcelo Lachat (UNIFESP)
Marcus De Martini (UFSM)

RESUMO: Os estudos retóricos e poéticos vêm recebendo uma atenção renovada nos últimos anos, na academia, seja na esteira de trabalhos que procuraram resgatar a importância da disciplina de Retórica – como os de John Bender e David E. Wellbery (The Ends of Rhetoric), Olivier Reboul (Introduction à la Rhétorique), George A. Kennedy (Classical Rhetoric and Its Christian and Secular Traditions) e Brian Vickers (In Defence of Rethoric) – seja, principalmente, na relação dessa com a crítica literária, na tentativa de retomar uma relação íntima com as poéticas anteriores à Modernidade. Se a crítica humanista e estilística de meados do século XX já alertava para a importância de uma reconstrução histórica das formas de escritura, como já se notava em Erich Auerbach, em seu clássico Mimesis, ou ainda no monumental Literatura Europeia e Idade Média Latina, de Ernest Robert Curtius, seria necessário ainda um pouco mais de tempo para que, no Brasil, houvesse um redirecionamento dos estudos literários nesse sentido. Sinais do interesse global que tem azeitado a produção da pesquisa científica em tais domínios ocorrem com a maturidade manifesta dos altos estudos acerca da obra de escritores emblemáticos das letras luso-brasileiras, como o padre Antonio Vieira e o poeta Gregório de Matos. Assim, trabalhos como os de João Adolfo Hansen (A Sátira e o Engenho) e Alcir Pécora (Teatro do Sacramento) são fundamentais para os estudos poéticos e retóricos no Brasil. Também é notório o desenvolvimento da pesquisa sobre a obra teológica de Vieira, na condição de réu do Tribunal do Santo Ofício, realizada pela profa. Adma Muhana, grandeza na qual se inclui a edição dos “Autos do processo” de acusação a que o padre foi submetido durante décadas do século XVII, pela Inquisição de Portugal, e a publicação de textos proféticos do autor luso-brasileiro). Desse modo, esses trabalhos, dentre outros, foram emblemáticos para o resgate dessas formas de representação, já que apontam para a necessidade de reconstruir "arqueologicamente", nos dizeres de Hansen, textos anteriores ao final do século XVIII, que, não raro, eram lidos pela crítica sob viés anacrônico, ou, pior ainda, considerados de pouca ou nenhuma relevância para o leitor contemporâneo. Essa renovação tende a romper um círculo vicioso de desinteresse e desconhecimento das letras escritas antes que vigorasse a concepção dita “moderna” nas artes, pontualmente antes de meados do século XVIII, quando, como se sabe, todo a forma mentis e a escrita foram profundamente alteradas e mesmo rompidas. Observam-se, neste sentido, incentivos no mundo editorial, traduzido na publicação de numerosas obras jamais editadas, colocadas presentemente no circuito comercial de venda de livros, bem como estímulos no âmbito da pesquisa acadêmica, em alguns (poucos) nichos dos estudos clássicos e classicistas, para se recorrer a dois termos generalizantes, presentes na história literária. Isto posto, a tendência é que os estudos sobre as práticas retóricas e os fazeres de poéticas reconquistem algum espaço nos currículos escolares, no debate científico, no mercado livreiro, nas instituições globais de produção e disseminação dos saberes, como bibliotecas, institutos, academias e universidades - domínios de que vêm sendo predominantemente alijados por razões várias, cuja compreensão, debate e rejeição fazem parte do interesse deste Simpósio da Abralic, dentre outros mecanismos de ação reflexiva. Assim, este Simpósio de "Estudos Retóricos e Poéticos" pretende discutir trabalhos nos campos da poética e da retórica, especialmente voltados para corpora das letras antigas e modernas (até o final do século XVIII), tendo como objetivos principais: elaborar um panorama das atividades de pesquisa realizadas no Brasil sobre preceptivas e produções retóricas e poéticas; estabelecer redes associativas de conhecimento e divulgação dessas pesquisas e de seus objetos; definir mecanismos institucionais para a troca de informações; agregar pesquisadores de temáticas afins com objetivo de divulgação de resultados de trabalhos; vitalizar a produção acadêmica brasileira nos domínios dos estudos retóricos e poéticos. Para tanto, propõem-se os seguintes eixos temáticos em que podem se inserir as propostas de comunicação: - Retórica e poética nas letras clássicas ou antigas; - Retórica e poética nas letras modernas; - Manuscritura, história do livro e da cultura letrada; - Relações entre as letras e o discurso da história; - Retórica e poética e as disciplinas humanísticas; - Retórica, poética e filosofia; - Recepção de tratados de retórica e poética; - Retóricas e poéticas medievais; - Retórica e poética nas letras portuguesas e luso-brasileiras dos séculos XVI, XVII e XVIII. - Presença dos preceitos de Retórica e Poética nos séculos XIX e XX. Espera-se que os trabalhos deste Simpósio mostrem antes ruínas letradas do que construções atemporais anacronicamente idealizadas, recorrendo-se àquilo que enforma essas práticas letradas em seus próprios tempos, em especial, às technai retórica e poética e às matérias elaboradas tecnicamente, para que se compreendam melhor as especificidades de tempos que não são os da “modernidade literária”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: AUERBARCH, Erich. Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental. 4ª ed. Vários Tradutores. São Paulo: Perspectiva, 1998. BENDER, Johh; WELLBERY, David E. The Ends of Rhetoric: History, Theory, Practice. Stanford: Stanford University Press, 1990. CURTIUS, Ernst Robert. Literatura Europeia e Idade Média Latina. Trad. Paulo Rónai; Teodoro Cabral. São Paulo: Edusp; Hucitec, 1996. KENNEDY, George A. Classical Rhetoric and Its Christian and Secular Traditions. 2a ed. North Carolina: University of North Carolina Press, 1999. HANSEN, João Adolfo. A Sátira e o Engenho: Gregório de Matos e a Bahia do Século XVII. 2ª ed. Cotia: Ateliê; Campinas: Editora da Unicamp, 2004. MUHANA, Adma. Os Autos do Processo de Vieira na Inquisição (1660-1668). 2ª ed. São Paulo: Edusp, 2008. PÉCORA, Alcir. Teatro do Sacramento: a unidade teológico-retórico-política dos sermões de Antônio Vieira. 2ª ed. Campinas: Editora da Unicamp; São Paulo: Edusp, 2008. REBOUL, Olivier. Introdução à Retórica. Trad. Ivone Castilo Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2000. VICKERS, Brian. In Defence of Rethoric. 4a ed. Oxford: Oxford University Press, 2002.

PALAVRAS-CHAVE: Retóricas; Poéticas; Letras luso-brasileiras; Historiografia Literária.

COORDENADORES:
André Carvalho (Universidade Federal de Santa Catarina)
Guilherme de Figueiredo Preger (Universidade Estadual do Rio de Janeiro)

RESUMO: FABULANDO O REAL UTÓPICO “Realismo capitalista” é o termo de Mark Fisher (2009) para resumir o estilo da exaustão, da esterilidade cultural e do esvaziamento da imaginação transformadora no presente. Franco Berardi (2011) percebe que o século XX foi definido pela crença no futuro, estilizado nas poéticas de diversos modernismos. “Os modernos ainda acreditavam que poderia se conhecer o futuro e fazê-lo obedecer a vontade humana”, escreve o filósofo italiano (2011, p. 38). No entanto, após as sucessivas crises econômicas, sociais e psíquicas promovidas pelos governos “sem alternativas” de Thatcher, Reagan e outros, além da derrocada da alternativa soviética, Berardi nos situa no “pós-futuro”, um cenário que veta a antecipação do vindouro. Ele afirma que estamos vivendo uma “asfixia” e que precisamos de uma “insurreição da linguagem” (2020). Dardot e Laval vaticinam na abertura de Comum: “o futuro parece bloqueado” (2018, p. 12). Darko Suvin define a utopia como “um gesto de apontar” (1977, p. 37) e “uma violação dos limites” (1977, p. 32). Raymond Williams liga utopia à declaração consciente de um desejo e ao soar de um alerta (1978, p. 203), atos performativos que dependem da crença no porvir. Mas, se o futuro está bloqueado, como as utopias podem se articular? A imaginação utópica se esvaiu? Utopia e movimento socialista estão profundamente conectados. As utopias literárias do final do século XIX (BELLAMY, 1890; MORRIS, 1908) são a sublimação ficcional de um período de imaginação utópica fervente, por vezes concretizado em experimentos sociais como os de Saint-Simon e Fourier. Durante o período do socialismo real, autores da URSS produziram utopias ficcionais, como Hard to be a God (STRUGATSKY; STRUGATSKY, 2015) e Red Star (BOGDANOV, 1984). Mesmo após a derrocada do regime, o “experimento” soviético ainda é tema de especulação ficcional, como no romance Red Plenty (SPUFFORD, 2010), e a Revolução Cultural chinesa é pano de fundo para a trilogia de ficção científica de Liu Cixin (2014). Em 1890, Edward Bellamy (1890) já imaginava uma rede de comunicação orientada por emissores e receptores conectados por válvulas a vácuo. Vladmir Khlebnikov (1987) escreve em 1921 sobre “o rádio do futuro”. Tais autores pressentem a utopia da “sociedade em rede”, que nos anos 2000 era defendida por autores como Manuel Castells (2000) e Kevin Kelly (2002). Hoje, o “socialismo digital” (MOROZOV, 2018) permanece uma questão em aberto, conforme é cercado por monopólios de vigilância, empacotamento e venda de dados privados. Mesmo assim, existem aqueles que ouvem o chamado de uma forma diferente de comunicação, capaz de alterar a consciência do possível, como no conto “Story of Your Life” (CHIANG, 2016). O ativismo ecológico organizado na obra de Rachel Carson, Silent Spring (2002) dá origem à Ecotopia (CALLENBACH, 1975), que funda o gênero de “ficção (científica) climática”. Kim Stanley Robinson continua e atualiza o tema, com The Ministry for the Future (2020), obra que mistura tratado científico e ficção especulativa, ampliando o cenário de sua obra anterior (2017) para imaginar formas alternativas de organização coletiva frente à ameaça do aquecimento global. Por outro lado, o transumanismo acredita no momento da “singularidade” quando a humanidade sofrerá um “upgrade” para Homo sapiens 2.0 (O’CONNELL, 2018) ou para Homo Deus (HARARI, 2016). É uma fantasia antiga, que vai desde Frankenstein (SHELLEY, 1818) à série de jogos eletrônicos Deus Ex (2013). Fredric Jameson, que analisara o conceito e o gênero da utopia (2005), agora se dispõe a apresentar um programa, An American Utopia (2016), que daria conta de conciliar as esferas da “necessidade” e da “liberdade” sem a mediação do mercado. O marxista Erik Olin Wright (2010) fala em “utopias reais”, com programas concretos para o presente. Nessa linha, Anton Benanav (2020) discute propostas de realização da abundância articulado à automação do trabalho, sem as ilusões de que a tecnologia e a evolução maquinal resolverão as contradições do capital. Dardot e Laval (2018) recuperam o conceito de “comum” como o gatilho de um movimento político, enquanto Manu Saadia (2016) mobiliza a economia de Star Trek (ou “trekonomia”) como modelo de um futuro possível. Esses são alguns exemplos das articulações teóricas e fabulações literárias que o conceito de utopia ainda pode gerar. Como disse Robert Scholes (1975), “não há mais mimesis, apenas poiesis”: para conhecer a realidade precisamos distorcê-la pela criação ficcional. Esperamos, no simpósio, acolher trabalhos que fabulem sobre a persistência do espírito utópico em nossa época, compreendendo o termo tanto no sentido específico de utopia “literária”, quanto como “princípio” ou “impulso” (BLOCH, 2005) presente nas manifestações cotidianas e em obras insuspeitas. Se a realidade capitalista distorcida se tornou distópica e asfixiante, a fabulação da utopia pode ser a atmosfera que nos retorne à respiração vital.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BELLAMY, E. Looking Backward: 2000–1887. Chicago: F. J. Schulte & Co, 1890. BENANAV, A. Automation and the Future of Work. London: Verso, 2020. BERARDI, F. After the Future. Tradução de Ariana Bove et al. Chico: AK Press, 2011. ______. Asfixia: Capitalismo financeiro e a insurreição da linguagem. Tradução de Humberto Do Amaral. São Paulo: Ubu, 2020. BLOCH, E. (1959) O princípio esperança. v. 1. Tradução de Nélio Schneider. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005. BOGDANOV, A. Red Star: The First Bolshevik Utopia. Bloomington: Indiana University Press, 1984. CALLENBACH, E. Ecotopia. Berkeley: Banyan Tree, 1975. CARSON, R. (1962) Silent Spring. Boston: Houghton Mifflin, 2002. CASTELLS, M. The Rise of the Network Society. Oxford: Blackwell, 2000. CHIANG, T. (2002) Stories of Your Life and Others. New York: Vintage Books, 2016. CIXIN, L. (2006) The Three-Body Problem. Tradução de Ken Liu. New York: Tor, 2014. DARDOT, P.; LAVAL, C. Comum: ensaios sobre a revolução no século XXI. Tradução de Mariana Echalar. São Paulo: Boitempo, 2018. DEUS Ex. Jogo digital multiplataforma. Montreal: Eidos Interactive, 2013. FISHER, M. Capitalist Realism: Is There No Alternative? Winchester: Zero Books, 2009. HARARI, Y. Homo Deus: Uma breve história do amanhã. Tradução de Paulo Geiger. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. JAMESON, F. An American Utopia. London: Verso, 2016. ______. Archaeologies of the Future: The Desire Called Utopia and Other Science Fictions. London: Verso, 2005. KELLY, K. God Is the Machine. Wired, [S. l.], v. 10, n. 1.2, 2002. KHLEBNIKOV, V. The Radio of the Future. In: ______. Collected Works of Velimir Khlebnikov: Letters and theoretical writings. Tradução de Paul Schmidt. Cambridge: Harvard University Press, 1987. p. 392. MOROZOV, E. Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política. Tradução de Claudio Marcondes. São Paulo: Ubu, 2018. MORRIS, W. News from Nowhere. London: Longmans, Green, and Co., 1908. O’CONNELL, M. How to Be a Machine. London: Granta Books, 2018. ROBINSON, K. S. New York 2140. London: Orbit, 2017. ______. The Ministry for the Future. London: Orbit, 2020. SAADIA, M. Trekonomics: The Economics of Star Trek. San Francisco: Pipertext Publishing, 2016. SCHOLES, R. Structural Fabulation: An essay on fiction of the future. Notre Dame: University of Notre Dame Press, 1975. SHELLEY, M. W. Frankenstein, or the Modern Prometheus. London: Lackington, Hughes, Harding, Mavor & Jones, 1818. SPUFFORD, F. Red Plenty. Minneapolis: Greywolf Press, 2010. STRUGATSKY, A.; STRUGATSKY, B. (1964) Hard to be a God. Tradução de Olena Bormashenko. London: Gollancz, 2015. SUVIN, D. Metamorphoses of Science Fiction: On the Poetics and History of a Literary Genre. New Haven: Yale University Press, 1977. WILLIAMS, R. Utopia and Science Fiction. Science Fiction Studies, Greencastle, IN, v. 5, n. 3, p. 203–214, nov. 1978.

PALAVRAS-CHAVE: utopia; ficção científica; distopia; ficção utópica

COORDENADORES:
Alexandre Villibor Flory (Universidade Estadual de Maringá)
Renato Oliveira de Faria (Universidade de São Paulo)
Tomaz Amorim Fernandes Izabel (Universidade Estadual de Campinas)

RESUMO: A três anos de completar o centenário de sua morte, Franz Kafka (1883-1924) segue como um dos escritores mais lidos e estudados no mundo. São incontáveis as adaptações e as referências à sua obra, a seus personagens e às vezes ao próprio escritor como personagem, nas mais variadas formas de ficção, de adaptações literárias e cinematográficas até, mais recentemente, o videogame. Essa presença aponta para a atualidade de sua obra e para a permanência social de muitos dos seus temas. O período histórico chamado de Modernidade, caracterizado sobretudo pela ruptura com condições econômicas, sociais e estéticas anteriores, encontra na obra de Kafka uma reflexão e uma representação à altura. O escritor aparece como intérprete da Modernidade no duplo sentido desse conceito: como autor da geração expressionista, ele participa da demolição estética moderna das normas artísticas clássicas (Modernidade estética); concomitantemente, sua obra reflete sobre os processos sociais de modernização que desencadearam em ritmo vertiginoso múltiplas experiências de crise (Modernidade social). Os efeitos psíquicos da modernização, que ao longo do século XX foram repetidamente descritos como experiências de um mundo tornado então estranho, insólito, opaco, impenetrável, coisificado, são motivos que atravessam a obra de Kafka e que se tornaram sinônimo de “kafkiano”. Nos protagonistas de seus romances, O desaparecido (Amerika), O processo e O castelo, está refletida a condição do sujeito moderno – ratlos, desorientado, sem o conselho da tradição (BENJAMIN, 1996) – diante de máquinas burocráticas de funcionamento opaco e onipresentes (ANDERS, 1969), tanto na intimidade das relações afetivas e do lar (ROBERT, 1963), quanto na vida profissional e pública. A representação total de instituições opressoras, através de uma técnica de “deformação precisa” (BENJAMIN, 1992) que foi além da representação realista, rendeu críticas vindas da esquerda de comentadores como Bertolt Brecht (BRECHT, 1990) e Georg Lukács (LUKÁCS, 1969), ainda que posteriormente ambos tenham revisto sua posição. Por outro lado, outros comentadores também enxergaram na obra possibilidades de resistência (LÖWY, 2005), de linhas de fuga (DELEUZE; GUATTARI, 1977), de reinvenções das relações corporais, sociais e políticas (BUTLER, 2013). As correntes críticas mais recentes também têm se debruçado sobre a obra, em narrativas como Na colônia penal, “Josefina, a cantora” e “Um relatório para uma academia”, oferecendo reflexões sobre elementos raciais e pós-coloniais (THOMPSON, 2016) e de gênero (GROSS, 1985). Além de contista e romancista, Kafka figura também entre os grandes diaristas do século. Ele tratou seus diários tanto como espaço de relato cotidiano, quanto de laboratório literário, embaralhando os limites entre a escrita de si e a ficção, antecipando debates teóricos importantes sobre autoficção e os limites difíceis entre vida e obra (como mostram também suas cartas). Para além de sua posição como judeu assimilado em um centro da periferia da Europa, também as experiências profissionais de Kafka (KAFKA, 2004: Amtliche Schriften) possibilitaram ao escritor uma posição única como testemunha dos grandes processos de transformação social, que se iniciaram no século XIX e culminaram na “catástrofe original” do século XX (MOMMSEN, 2004), a Primeira Guerra Mundial, responsável pela dissolução da antiga ordem europeia. A propósito, convém lembrar que as experiências como funcionário do Instituto de Seguros contra Acidentes dos Trabalhadores em Praga propiciaram a Kafka não apenas uma percepção privilegiada da luta cada vez mais encarniçada entre capital e trabalho (e das consequências negativas da vertiginosa modernização do mundo do trabalho) como também do fato de que as devastações da Primeira Guerra Mundial não se restringiam, de modo algum, aos campos de batalha, mas abarcavam também o chamado “front doméstico”, configurando assim o que se convencionou chamar de “guerra total”. Tragicamente, sua obra também foi lida a posteriori a partir dos horrores da Segunda Guerra Mundial, como uma espécie de antecipação da experiência do sujeito submetido a mundos totalitários (ADORNO, 1998), o que rendeu a Kafka o epíteto de profeta e a sua obra uma proximidade com a chamada “literatura de testemunho”. Para além da proximidade temática, a inovação formal de sua obra, com a retomada de formas e gêneros clássicos da tradição, parodiados, esvaziados ou virados contra si mesmo (DERRIDA, 2010), inspiraram escritores fundamentais do século XX (como Borges e Beckett). A experiência moderna encontrou em sua obra um dos primeiros momentos de grande expressão, o que não se deu sem ambivalência na recepção, como mostram as inúmeras querelas entre sionistas, marxistas, psicanalistas, entre outros. Que correntes críticas tão diversas tenham se batido até hoje em busca de uma interpretação justa mostra a diversidade e a seminalidade dessa obra. Serão aceitos trabalhos motivados por elementos dessa ementa ou que lidem com a obra de Kafka levando em conta o contexto moderno, que estabeleçam comparação com outros escritores, que reflitam sobre adaptações para a literatura ou outras artes, que reflitam sobre as intersecções entre vida e obra nos diários, cartas e textos estritamente literários ou que comentem leituras das diversas correntes críticas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ADORNO, Theodor. “Anotações sobre Kafka”. In: Prismas: crítica cultural e sociedade. Trad. de Augustin Wernet e Jorge de Almeida. São Paulo: Ática, 1998. ANDERS, Günther. Kafka: pró e contra. Trad. e introdução de Modesto Carone. São Paulo: Perspectiva, 1969. BENJAMIN, Walter. Benjamin über Kafka: Texte, Briefzeugnisse, Aufzeichnungen. Org. por Hermann Schweppenhäuser. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1992. BENJAMIN, Walter. “O narrador”. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad. de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1996. BRECHT, Bertolt. “Über die moderne tschechoslowakische Literatur”. In: Schriften zur Literatur und Kunst II. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1990. BUTLER, Judith. “A quem pertence Kafka?”. Terceira Margem (online). Trad. de Tomaz Amorim Izabel. Ano XVII, N. 28, Julho-Dezembro de 2013. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/tm/article/download/10767/7937. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Kafka: por uma literatura menor. Trad. de Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1977. DERRIDA, Jacques. Força de Lei. Trad. de Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010. GROSS, Ruth. V. “Of Mice and Women: Reflections on a Discourse in Kafka's Josefine, die Sängerin oder Das Volk der Mäuse”. In: The Germanic Review, N. 60, 1985. KAFKA, Franz. Amtliche Schriften. Org. por Klaus Hermsdorf e Benno Wagner. Frankfurt am Main: Fischer, 2004. LÖWY, Michael. Franz Kafka, sonhador insubmisso. Trad. de Gabriel Cohn. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2005. LUKÁCS, Georg. Realismo Crítico Hoje. Trad. da edição francesa de Ermínio Rodrigues. Brasília: Coordenada-Editora de Brasília Ltda, 1969. MOMMSEN. Wolfgang. Die Urkatastrophe Deutschlands: der Erste Weltkrieg 1914-1918. Stuttgart: Klett-Cotta, 2004. ROBERT, Marthe. Franz Kafka. Trad. de José Manoel Simões. Lisboa: Editorial Presença, 1963. THOMPSON, Mark. Kafka’s Blues: Figurations of Racial Blackness in the Construction of an Aesthetic. Evantson: Northwestern University Press, 2016.

PALAVRAS-CHAVE: Franz Kafka; Modernidade estética; Modernidade social; Crítica da modernização; Literatura comparada.

COORDENADORES:
ANA CLARA MAGALHAES DE MEDEIROS (Universidade Federal de Alagoas)
Augusto Rodrigues da Silva Junior (Universidade de Brasília)
Willi Bolle (Universidade de São Paulo)

RESUMO: Walter Benjamin, circunscrito a um período de “mal-estar na cultura e na civilização” (FREUD, 2011), propôs “imagens do pensamento” (BENJAMIN, 1986, p. 143) que congregam novas formas de apreensão da modernidade na literatura, nas artes e no discurso ocidental. Atuando no âmbito da geopoesia, propomos uma renovação da crítica diante de mudanças tão drásticas na humanidade perpetradas pela pandemia. No Brasil, a movimentação político-social também nos desafia: entre a literatura e o literário, a crítica e o inacabamento, a etnografia e a etnoflânerie, buscamos formas atualizadas de pensar o nosso milênio. Ensejamos tecer uma crítica plurivocal e inacabada (BAKHTIN, 2006), que move e demove um painel de brasis liminares, evocando sempre a palavra do outro. Assim, agregamos trabalhos que comunguem poemas e canções, prosas e dramas, relatos e arquivos que de tão longe vêm vindo – e que para um futuro incerto se direcionam. A teoria da geopoesia alvorece como uma grande cartografia de poéticas e estéticas: “nasce do encontro de topografias” (SILVA JUNIOR, 2018, p. 55). Territorialidades, vocalidades, corporalidades e performances advindas do Sertão, da Amazônia, do Cerrado, da Caatinga e dos Pampas compõem polifonia que convoca o olhar responsável dos estudiosos deste Simpósio – que observam e se movimentam num país de dimensões continentais. Busca-se constituir e ampliar as literaturas de campo, distantes do mar, reveladoras de brasis: sertanejo, caipira, indígena, quilombola, centroestino, “do mato”, “do norte”, “da floresta”, enfim, da palavra viva. Surge, com esta proposta, a possibilidade de reescrever histórias. Contadas oralmente, experimentadas performaticamente, continuadas por leitores e autores de rincões e veredas, buscamos, neste encontro, sério e festivo, enformar uma imensa etnocartografia de territórios literários e territorialidades de etnoflâneurs e andarilhos, de navegantes e ambulantes, flâneurs sertanejos e flâneuses revolucionárias, foliões e mascarados. O literário, com suas vozes, autores, leitores, críticos e pensadores, recusa a palavra autoritária e o discurso monológico – ensinam-nos Mikhail Bakhtin (2010) e Paulo Bezerra (2005). A geopoesia passa por grandes sertões, imensos vãos, longínquas varedas. Enfim, movimenta pesquisas e inquietações que abordam manifestações da literatura oral e escrita no campo da poesia, da prosa, do teatro, da performance, do cinema literário, da literatura de viagens, da cyberflânerie e de vocalidades várias. Nossos passos também estabelecem correspondências com viajantes lusitanos e de outras paragens: ibéricos, holandeses, alemães, jesuítas, judeus, aventureiros que respondem à travessia colonial dos tempos de formação do que a Europa chamou de América. Tratamos, ainda, dos deslocamentos e migrações que levaram à ascensão de uma brasilidade desde Machado de Assis a Lima Barreto, passando por Euclides da Cunha e Mário de Andrade. A crítica polifônica (MEDEIROS; SILVA JR., 2015) arranja-se com fazedores do cotidiano, como os goianos/brasiliários Cora Coralina, José Godoy Garcia, Anderson Braga Horta, Cassiano Nunes, Santiago Naud, Hermenegildo Bastos e Augusto Niemar; prosadores das gentes e das tropas demigrantes – sempre ameaçadas –, a exemplo de Hugo de Carvalho Ramos, Graciliano Ramos, Bernardo Élis, Dalcídio Jurandir, Milton Hatoum, Cristino Wapichana, Eliane Potiguara, Dorrico Julie, dentre outros. Além de cantores e versistas populares, narradores orais quilombolas e indígenas, centroestinos e norte-nordestinos apagados pela historiografia, com obras perpetuadas nas entoações de festejos, celebrações populares e cordéis. No universo plural de raízes, rizomas e raizamas de um país de culturas várias espraiadas por veredas, vales, vãos, recôncavos, planaltos, altiplanos, rios, quilombos, aldeias (espaços de resistência), os estudos de cultura popular aqui desenvolvidos estabelecem diálogos com investigadores brasileiros, tais como Josué de Castro, Carlos Rodrigues Brandão, Hermilo Borba Filho e Vicente Cecim, e viajantes que percorreram/percorrem muitos brasis: Guimarães Rosa, Willi Bolle e Darcy Ribeiro, dentre tantos que nos levam por veredas de uma teoria carnavalizada da literatura (pensando-se a carnavalização com Bakhtin, 2008). As funções da geopoesia, enfim, são: enfrentar o preconceito literário, renovar as perspectivas do cânone e da história da literatura e apresentar autores esquecidos, desconhecidos e/ou pouco estudados. Ao mesmo tempo, seu papel fundamental é agregar não apenas as relações entre autor, obra e público, mas também o contato entre corpo, voz e performance (conforme Zumthor, 2010). Para tal, o território, o espaço e a cidade (GOMES, 2008) apresentam-se como paradigmas de vidas em obras, de obras em vida (e na morte). O direito ao literário (CANDIDO, 2011) foi uma premissa da modernidade benjaminiana (BENJAMIN, 1994) e continua sendo para os estudos da geopoesia. Assim como a visão autoconsciente da literatura permitiu a constituição da crítica polifônica enquanto campo de estudo, a consolidação da geopoesia como ferramenta acadêmica faculta a emergência do povo, dos silenciados, dos rincões do país no seio universitário. Enfim, neste Simpósio, abrimos uma “moldura teórica que questiona a tradição e o patrimônio cultural literário” (BOLLE, 1986, p. 9), para provocar inquietações e redefinições dos campos entre literatura, da crítica literária e convidar ao perene exercício da etnoflânerie.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. 4. ed. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2006. BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. 6. ed. Trad. Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Hucitec; Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2008. BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski. Trad. Paulo Bezerra. 5.ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. BENJAMIN, Walter. Documentos de cultura, documentos de barbárie: escritos escolhidos. Seleção e apresentação: Willi Bolle. Tradução de Celeste Ribeiro de Sousa et al. São Paulo: Cultrix/Editora da Universidade de São Paulo, 1986, p. 182-198. BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. v. 1. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. BEZERRA, Paulo. Polifonia. In: BRAIT, B. (Org). Bakhtin: conceitos-chave. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2005, p. 191-200. BOLLE, Willi. Apresentação. In: BENJAMIN, W. Documentos de cultura, documentos de barbárie: escritos escolhidos. Seleção e apresentação: Willi Bolle. Tradução de Celeste Ribeiro de Sousa et al. São Paulo: Cultrix/Editora da Universidade de São Paulo, 1986, p. 9-14. CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: CANDIDO, Antonio. Vários Escritos. 5 ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul/ São Paulo: Duas Cidades, 2011. GOMES, R. Cordeiro. Todas as cidades, a cidade: literatura e experiência urbana. 2. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2008. FREUD, Sigmund. O mal-estar da civilização. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Penguin Classics: Companhia das Letras, 2011. MEDEIROS, Ana; SILVA JR., Augusto. Poética da criação verbal: a crítica polifônica nos estudos da linguagem literária. Anuário de Literatura. Florianópolis, v. 20, n. 1, 2015, p. 228-245. Disponível em: https://antigo.periodicos.ufsc.br/index.php/literatura/article/view/2175-7917.2015v20n1p228/29688. Acesso em: 12 abr 2021. SILVA JUNIOR, Augusto Rodrigues. Centroestinidades e geopoesia: casa de morar niemar é a poesia. In: MEDEIROS, Ana Clara; GANDARA, Lemuel [et al; Org.] Parceiros de Águas Lindas. Goiânia: R&FEditora, 2018. p. 53-80. ZUMTHOR, Paul. Introdução à poesia oral. Tradução de Jerusa Pires, Maria Lúcia Pochat, Maria Inês de Almeida. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.

PALAVRAS-CHAVE: Geopoesia; Etnoflânerie; Literaturas Brasileiras; Crítica Polifônica; Narradores.

COORDENADORES:
Silvia Maria Azevedo (Universidade Estadual Paulista - UNESP/Assis)
Maria Eunice Moreira (PUCRS)

RESUMO: Ao longo das últimas décadas, observa-se uma tendência de recusa às posições essencialistas no que se refere à concepção do cânone e de seus critérios. Durante muito tempo, a discussão teórica sobre a formação do cânone negligenciou a historicidade dos critérios utilizados, representada pelo componente de exclusão, ou seja, “os traços de violência inerentes a todo gesto de escolha e seleção estética.” (KLEIN, 2013, p. 113) A tomada de consciência do potencial de violência inerente às estratégias de composição canônica tem levado ao exercício de revisão do cânone, pautado pelo que foi chamado de “política da memória”, a implicar decisões sobre “o que deve ser lembrado e o que pode ser esquecido.” (GUINSBURG, 2008, p.105) À ausência de consenso, entre os teóricos da literatura, no que diz respeito à formação do cânone soma-se ainda o questionamento sobre a própria validade e circulação do valor estético, em função das aberturas promovidas na incorporação de representatividades culturais, até então excluídas do cânone ocidental, a incorrer, segundo alguns críticos, como Andreas Huyssen, na diluição da atividade teórica e metodológica: “Em uma época em que se espera dos estudos literários que cubram cada vez mais territórios, geográfica e historicamente, o perigo é a disciplina perder a coerência como campo de pesquisa, atolar-se em estudos de casos locais ou tornar-se superficial, negligenciando a necessidade de manter um projeto metodológico e teórico.” (2002, p. 18) No cenário cultural contemporâneo, reafirmar os valores e os nomes do cânone implica, para alguns críticos, incorrer numa posição problemática, por desconsiderar que a arte deve ser democratizada tanto no consumo quanto na produção, enquanto para outros, como Leyla Perrone-Moisés, os apelos para essa democratização na verdade são fruto de uma geração para a qual “a globalização econômica não revelou os problemas nacionais em termos gerais e igualitários, e o multiculturalismo se transformou em enfretamento de particularismos.” (2016, p. 40) Essas questões dizem respeito às mutações que os conceitos e as formulações teóricas vêm sofrendo ao longo do tempo, em função das concepções e normas que regem a constituição do sistema literário. Ao mesmo tempo que essas concepções orientam a construção do arranjo discursivo conhecido como literatura, interferem também na avaliação e na organização desse mesmo arranjo. Diferentemente, portanto, do historiador do passado, o historiador (narrador) do presente envolve-se com uma série de questionamentos que comprova a fertilidade das reflexões teóricas sobre a literatura e sobre a história da literatura, em particular, atingindo a formação do cânone, entre outros aspectos. Nesse sentido, questionam-se os períodos históricos, os diferentes gêneros literários e até mesmo o conceito de literatura. Esse novo paradigma mostra que a história da literatura não está assentada sobre um discurso unívoco em torno de uma unidade nacional, mas é formada por diferentes vozes, provenientes de estratos variados. A discussão sobre a história da literatura (e da história da literatura brasileira, em especial) recai sobre o alargamento de conceitos como história, literatura, gêneros, cânone; sobre a intervenção ou a ausência das instâncias de recepção que provocam efeitos no discurso historiográfico; o papel dos sujeitos responsáveis pela escrita do discurso da história da literatura. Entende-se, portanto, que estamos em um terreno sujeito a alterações, em mutação e passível de múltiplas leituras, o que comprova a dinamicidade desse campo dos estudos literários, e que veio pôr em xeque certa posição conservadora adotada pelas Histórias da literatura brasileira, escritas a partir de 1970, na observação de João Alexandre Barbosa: “Mesmos autores, mesmas obras, na sucessão de quadros canônicos seculares, acrescidas, aqui e ali, mas sem maiores repercussões de análise literária, pelo próprio tempo histórico, e em decorrência dos métodos historiográficos adotados. Não aquela adição ao cânone advinda de uma releitura capaz de pôr em xeque as fables convenues da historiografia tradicional.” (1996, p. 57) No que se refere à literatura brasileira, por conta desse movimento revisionista, vem ocorrendo nos últimos tempos o resgate de autores e obras literárias que ficaram à margem do cânone, assim também de crônicas, cartas, diários, autobiografias, histórias literárias, quer na forma de estudos e pesquisas, quer na forma de reedição de textos inéditos. Uma vez que o exercício de revisão implica muito mais do que a substituição e agregação de autores e obras marginalizados, o objetivo do simpósio é abrir espaço para a discussão dos critérios de exclusão e revisão na constituição da história literária brasileira.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BARBOSA, João Alexandre. “A biblioteca imaginária ou o cânone na história da literatura brasileira. In: _______. A biblioteca imaginária. São Paulo: Ateliê, 1996, p. 56-57. GUINSBURG, Jaime. “O valor estético: entre universalidade e exclusão”. In: Alec. Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas, Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, v. 10, n. 1, 2008, p. 98-107. HUYSSEN, Andreas. “Literatura e cultura no contexto global”: In: Valores: Arte: Mercado e Política. MARQUES, R.; VILELA, L. H. (orgs.) Tradução de Júlio Jeha. Belo Horizonte, UFMG, 2002, p. 15-36. KLEIN, Kelvin Falcão. “Cânone e exclusão”. In: Em Tese, Belo Horizonte, v. 19, n. 2, 2013, p. 112-121. PERRONE-MOISÉS, Mutações da literatura no século XXI. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

PALAVRAS-CHAVE: Cânone; Exclusão; Revisão

COORDENADORES:
Lyslei de Souza Nascimento (UFMG)
Nancy Rozenchan (Universidade de São Paulo)

RESUMO: Primo Levi, em É isto um homem?, relata as atividades das mães apesar da situação-limite em que se encontravam com seus filhos: “Cada um se despediu da vida da maneira que lhe era mais convincente. Uns rezaram, outros se embebedaram; mergulharam alguns em nefanda, derradeira paixão. As mães, porém, ficaram acordadas para preparar com esmero as provisões para a viagem, deram banho nas crianças, arrumaram as malas, e, ao alvorecer, o arame farpado estava cheio de roupinhas penduradas para secar. Elas não esqueceram as fraldas, os brinquedos, os travesseiros, nem todas a pequenas coisas necessárias às crianças e que as mães conhecem tão bem. Será que vocês não fariam o mesmo? Se estivesse para ser mortos amanhã, com seus filhos, será que hoje não lhes dariam de comer?” (p. 15). Georges Perec em As coisas: uma história dos anos 60, adverte: “E houve o sabão em pó, a roupa que seca, a roupa que é passada. O gás, a eletricidade, o telefone. As criança. As roupas e as roupas de baixo. A mostarda. As sopas em pacote, as sopas em lata. Os cabelos: como lavá-los, como pintá-los, como mantê-los, como fazê-los brilhar. Os estudantes, as unhas, os xaropes para a tosse, as máquinas de escrever, os adubos, os tratores, as diversões, os presentes, a papelaria, a linha branca, a política, as autoestradas, as bebidas alcoólicas, as águas minerais, os queijos e as conservas, as lâmpadas e as cortinas, os seguros, a jardinagem. Nada do que era humano lhe foi alheio.” (p. 27). Coisas e objetos habitam, como se vê nas citações de Levi e Perec, de forma singular, a literatura judaica. O arrolamento, as listas e as enumerações são, nesse sentido, estratégias ficcionais da tentativa de resgate, de elaboração e de compreensão do mundo a partir de fragmento, itens, ruínas. Em estado de dicionário, como queria Carlos Drummond de Andrade, que parecem trazer de longe, ou de não tão longe na história, “entre o ser e as coisas”, vozes que não podem ser apagadas, as coisas e os objetos inanimados citados no texto literário constituem escopo de reflexão deste simpósio. Objetiva-se, nesse recorte, receber propostas de comunicação que: efetuem uma reflexão sobre a literatura judaica que deixe vislumbrar como os objetos, as coisas e suas relações com a memória, na dupla tensão entre lembrar e esquecer, parece trazer o humano, muitas vezes, destituído de sua individualidade, ou humanidade. O principal desafio dessas comunicações será aproximar o pendor da escrita, enciclopédica, como queria Umberto Eco, a narrativas estruturadas sobre a condição da traduzibilidade precária da memória, às vezes à contrapelo, como nos ensina Walter Benjamin. Já, a partir de Jorge Luis Borges, a lista de coisas e objetos pode, ser levada a extremos, como uma máxima exploração dos recursos da memória, mas cada vez mais absurdos. Ler e escrever entre escombros é, assim, um das múltiplas faces da presença de coisas e objetos que mobíliam o mundo encenado na ficção. Não afeito à monumentalidades, os escritores que fazem da estratégia de elencar coisas e objetos em sua ficção, partem do pequeno, do ínfimo, da história vista de baixo. Por isso, “o que se poderia tomar por simples catálogo de dicionário parece antes sintetizar a rememoração profunda de uma cultura, um lugar, um longo período”, como queria Viviane Bosi. As coisas e os objetos, portanto, fazem ouvir vozes que anseiam sair do estado de dicionário e vir habitar nossa memória. Ler, portanto, a “escrita das coisas”, na esteira da “arqueologia das coisas”, como queria Michel Foucault, esperamos atentar para o desejo dos escritores de fazer falar fazer os objetos nos textos literários. Essa proposta, portanto, propõe uma reflexão que surge no estudo das coisas e dos objetos, potencializando um recorte teórico, de acordo com Beatriz Sarlo, para pensar a “arte da memória”, em contraposição, talvez, de um “dever da memória”. A estratégia de se construir uma a memória a partir de itens (coisas e objetos) de uma lista ou enumeração, às vezes como verbetes de uma “enciclopédia intertextual”, constitui-se de “um arquivo aberto” em que cada item instaura possibilidades de fazer confluir sentidos que podem ser acessados pelo leitor. Essa capacidade da coisa ou do objeto vir nesses textos apresenta-se entre a exatidão e a multiplicidade, como queria Italo Calvino. Essa inscrição da coisa ou objeto na narrativa contemplará, nesta proposta, comunicações que se dediquem à análise e à interpretação das vozes desses elementos na prosa ou na poesia judaica.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ANDRADE, Carlos Drummond. Antologia poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. ANDRADE, Carlos Drummond. Lição de coisas. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. BENJAMIN, Walter. Walter Benjamin: Obras escolhidas. Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho e José Carlos Martins Barbosa. São Paulo: Brasiliense, 1993. BORGES, Jorge Luis. Jorge Luis Borges: Obras completas I. Vários tradutores. São Paulo: Globo, 1998. BOSI, Viviana. Lição de coisas: “Gerir o mundo no verso”. In: ANDRADE, Carlos Drummond. Lição de coisas. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 103-118. ECO, Umberto. A vertigem das listas. Trad. Eliana Aguiar. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2010. LEVI, Primo. É isto um homem? Trad. Luigi Del Re. Rio de Janeiro: Rocco, 1988. PEREC, Georges. As coisas: uma história dos anos sessenta. Trad. Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. SARLO, Beatriz. Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva. Trad. Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo/Belo Horizonte: Companhia das Letras/Editora UFMG, 2007.

PALAVRAS-CHAVE: Memória; Inventário; Coleção; Coisas; Objetos.

COORDENADORES:
Luciana Eleonora de Freitas Calado Deplagne (UFPB)
Karine Simoni (UFSC)

RESUMO: Este simpósio tem o objetivo de ser um espaço de encontro, debates, articulações e produção de conhecimento sobre as mulheres nos períodos que abrangem a chamada Idade Média e o Renascimento, considerando-as dentro da perspectiva dos Estudos Feministas e de Gênero sob a ótica multi/inter/transdisciplinar da Literatura, Estudos da Tradução, Filosofia e História. Entendemos a amplitude cronológica dos termos “Idade Média” e “Renascimento”, e os vemos, sobretudo, não presos num determinado tempo, mas pensados na dialética entre passado e presente, no qual o conhecimento deve ser construído, transformado e aperfeiçoado. No caso da história das mulheres, apesar de todos os avanços conseguidos ao longo do tempo em busca de sua visibilidade e da garantia de seus direitos, as sociedades atuais assistem a muitos questionamentos e retrocessos conduzidos por grupos conservadores e extremistas que, nas suas brutais campanhas pela manutenção do poder, têm atacado sobretudo as áreas das chamadas humanidades que se debruçam sobre os Estudos de Gênero, distorcendo os discursos e as experiências das mulheres para legitimar a permanência do pensamento misógino e neutralizar/ normalizar as várias formas de violência contra elas. Tanto a Literatura quanto os Estudos da Tradução, a Filosofia e a História constroem caminhos para a reflexão e militância, em diversos engajamentos, sejam eles na sala de aula, nas ruas, no campo, nos movimentos sociais, na arte, nas escolhas sobre o que e como traduzir e editar, etc. Portanto, é a partir de nossa prática acadêmica, de cunho feminista, que surge a proposta de refletir sobre a importância do legado das mulheres medievais e renascentistas para vários campos do conhecimento, inclusive para a História do feminismo. É importante ressaltar que, embora o androcentrismo característico da historiografia tradicional tenha buscado o apagamento da contribuição das mulheres ao longo dos séculos, seus próprios escritos atuaram como espaços de memória e de valorização dos legados das antepassadas. Dessa forma, se faz urgente o resgate das obras produzidas por mulheres, como um elemento fundamental para se pensar a emergência de uma consciência feminista, desde a Idade Média, bem com o desenvolvimento do sentido de sororidade (LERNER, 1993; PELLEGRIN, 2010; DEPLAGNE; BROCHADO, 2018). Impulsionada pelos estudos feministas e decoloniais (DEPLAGNE, 2019), a visibilidade de obras escritas por mulheres em séculos anteriores ao XIX, por meio de traduções, edições, estudos, vem interrogando historiografia tradicional, redefinindo problemáticas relacionadas às questões de gênero naquele período, à condição das mulheres, suas produções e atuações na sociedade como sujeito histórico, proporcionando, assim, o reconhecimento do legado feminino nas mais variadas áreas do conhecimento. Destacamos, por ora, o exemplo de Hildegarde de Bingen (século XII), abadessa, compositora, música, pintora, poetisa e cientista, cuja existência foi retirada dos porões da história somente no século XX (PERNOUD, 1996). Se até meados do século XX sua obra esteve silenciada e distante de um público mais amplo, com a divulgação de seus escritos, cânticos e iluminuras, e ter sido proclamada Doutora da Igreja, em 2012, é notável o interesse por suas obras e o reconhecimento de seu legado entre pesquisadoras/pesquisadores em Teologia, Literatura, Música, Medicina holística, Ecologia integrativa, Psicologia junguiana, Musicoterapia, etc. Suas receitas e tratamentos foram adotados em várias clínicas especializadas da França, Portugal, Bélgica, Alemanha, Espanha nos dias atuais. Além de sua história ter servido de inspiração para o filme Visions, dirigido por Margarethe von Trotta, em 2009, suas composições foram gravadas em CDs e facilmente podem ser encontrados nas grandes redes de distribuições em todo mundo. Em pleno século XXI, a obra hildegardiana vem, portanto, tornando-se fonte de inspiração para o pensamento ocidental e re-ocupando um espaço de relevância, assim como fora no século XII. Como Hildegarde, outras mulheres medievais e renascentistas, como Gaspara Stampa, Moderata Fonte, Christine de Pizan, Marie de Gournay vêm sendo pesquisadas, traduzidas e seus pensamentos parecem ter em comum refletir o papel ativo que desempenharam na construção do conhecimento e na busca por direitos. Suas biografias e suas obras retratam resistência, persistência e esperança, aqui entendida não como um lugar de espera, mas como um espaço de luta, como ensinou Paulo Freire (1987). Dar voz e visibilidade a elas através de uma abordagem multidisciplinar e dialógica é, portanto, fundamental, sobretudo porque, ainda segundo Paulo Freire, todo diálogo “Nasce de uma matriz crítica e gera criticidade”, fundamental para as mudanças que queremos, ao mesmo tempo em que “Nutre-se do amor, da humildade, da esperança, da fé, da confiança. Por isso, só o diálogo comunica. E quando os dois polos do diálogo se ligam assim, com amor, com esperança, com fé um no outro, se fazem críticos na busca de algo” (1992, p. 115). Convidamos, assim, pesquisadoras e pesquisadores de História, Literatura, Estudos da Tradução, Filosofia, a compartilharem seus espaços de existência e resistência, para que na alegria da partilha multipliquem-se as possibilidades e as conquistas dos direitos de todos, todas, todes nós.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: DEPLAGNE, Luciana; BROCHADO, Cláudia. Vozes de mulheres da Idade Média. João Pessoa: Editora da UFPB, 2018. DEPLAGNE, Luciana Eleonora de Freitas Calado. A contribuição dos escritos de mulheres medievais para um pensamento decolonial sobre Idade Média. Revista Signum, 2019, vol. 20, n. 2. FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1992. FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. LERNER, Gerda. La creación de la consciencia feminista: Desde la Edad Media hasta 1870. Trad. Ivana Palibrk. Iruñea-Pamplona: Katakrak Liburuak, 2019 [1993]. PELLEGRIN, Nicole (org.) Écrits féministes de Christine de Pizan à Simone de Beauvoir. Paris: Éditions Flammarion, 2010. PERNOUD, Régine. Hildegarde de Bingen. A consciência inspirada do século XII. Trad. Eloá Jacobina. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.

PALAVRAS-CHAVE: Mulheres; Idade Média; Renascimento; Legado; Estudos de Gênero.

COORDENADORES:
Cristina Henrique da Costa (UNICAMP)
Ana Cristina de Rezende Chiara (UERJ)

RESUMO: A proposta do simpósio é contribuir na definição do campo, específico dos estudos literários, da “leitura de mulheres”. Ora, na tentativa da definição, é a imprecisão do genitivo que fala mais alto: leitura feita por mulheres, leitura feita de textos de mulheres ou ainda leitura das representações de mulheres que estão sob a guarda da literatura ? O grupo informal Mulherando, reunindo-se regularmente no IEL (UNICAMP) optou por trabalhar com a ambiguidade, sem recusar os problemas teóricos da área, no sentido de construir o “nós” que se esconde e revela na “leitura”. Na vivência das mulheres, a afirmação da diversidade das experiências femininas é um dos desafios à construção de um “nós” qualquer. No âmbito da prática teórica e literária, outros problemas surgem: uma vez posta entre parênteses a relação realista de causa a efeito entre uma autora e seu discurso, o que resta de mulher no texto de mulher? De uma forma geral, certa fatalidade inerente à mobilização da própria linguagem conceitual parece conduzir o universo tradicional dos estudos literários a igualar neutralidade de gênero, critério estético e ferramenta teórica. De uma forma mais específica, a maldição do neutro também divide as feministas. Enquanto Monique Wittig, Gayle Rubin e Adrienne Rich advogam pelo desaparecimento do próprio conceito opressivo de mulher, feministas diferencialistas tais que Luce Irigaray insistem na necessidade de uma definição da sujeita feminina por si-própria. O conflito literário entre Kamuf (alcançar olhar “além do nome próprio”) e Miller (a necessidade da prática da resistência do termo “mulher escritora”) retoma as polaridades da questão teórica. Nesta perspectiva, são as próprias fragilidades das posições/oposições feministas que talvez exijam hoje de nós um esforço de reflexão sobre o significado das teorias nos estudos literários. Entretanto, se fazer o diagnóstico acerca dos limites do campo teórico parece estratégico para as mulheres, paradoxalmente não é certo que a reação contra o teórico, em nome das práticas ou dos lugares e das falas, sirva à causa dos estudos literários de mulheres. Por isso precisamos pensar melhor: é hoje interessante buscar apoio em ferramentas da hermenêutica crítica (Ricœur, Sedgwick) ou da teoria da imaginação poética (Bachelard) a fim de não reduzirmos a importância literária da tarefa, mantendo o vínculo com as múltiplas e irredutíveis facetas do “nós”. É na própria prática leitora, regulada por alguns princípios comuns, que o nós circula livremente entre os textos e os vivos, estreitando os laços subjetivos existencialmente fortes da literatura: leitora que lê leitora tem cem anos de leitura. Do texto literário se espera, em retorno, um enriquecimento do conhecimento necessariamente experiencial, acerca do ser mulher. O que vem a significar que o campo da leitura de mulheres precisa assumir o postulado do círculo hermenêutico tal como foi primeiro pensado no âmbito da hermenêutica filosófica, embora pretenda ressignificá-lo: é preciso ler como mulher para definir a literatura de mulheres, mas é preciso definir a literatura de mulheres para ler como mulher. Os trabalhos esperados podem tanto realizar concretamente leituras críticas inéditas de textos literários, lendo mulheres e/ou lendo com(o) mulheres, quanto apresentar questões teóricas pertinentes ao campo, quanto ainda discutir aplicações de teorias ao texto de literatura, numa perspectiva que reflita sobre as resistências do literário e seu interesse para a definição de uma leitura de mulheres.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BACHELARD, Gaston.: A Poética do Espaço. Trad. Antônio de Pádua Danesi. Martins Fontes. São Paulo, 2008. IRIGARAY, Luce.: Ce sexe qui n’en est pas un. Collection Critique, 1997. KAMUF, Peggy.: “Writing like a woman”. In: Sally McConnell-Ginet; Ruth Borker; Nelly Furman (eds) Women and Language in Literature and Society, New York, Praeger, 1982. KAMUF, Peggy.: “Replacing feminist Criticism”. In: HIRSCH, Marianne; KELLER, Evelyn Fox (eds): Conflicts in Feminism, New York/London, Routledge. 1990. MILLER, Nancy K.: “The Text’s Heroine: A Feminist Critic and Her Fictions”. In: HIRSCH, Marianne; KELLER, Evelyn Fox (eds): Conflicts in Feminism, New York/London, Routledge. 1990. RICH, Adrienne.: “Heterossexualidade compulsória e existência lésbica”. Tradução: Carlos Guilherme do Valle. Bagoas - Estudos gays: gêneros e sexualidades, v. 4, n. 05, 27 nov. 2012. RUBIN, Gayle.: “O tráfico de mulheres: notas sobre a ‘economia política do sexo’”. Trad. Christine Rufino Dabat Edileusa Oliveira da Rocha Sonia Corrêa. S.O.S Corpo. Recife, 1983. RICOEUR, Paul.: Do Texto à Ação: Ensaios de Hermenêutica. Trad. Alcino Cartaxo e Maria José Sarabando. RÉS- Editora. Porto, 1978. SEDGWICK, Eve Kosofsky.: “Leitura paranoica e leitura reparadora, ou, você é tão paranoico que provavelmente pensa que este ensaio é sobre você.” Trad. Ruggieri, M., Nogueira, C., Romão, L., Saldanha, F., Natali, M., & Melo, R. (2020). Remate De Males, 40(1), 389-421. Jan/jun 2020. WITTIG, Monique.: “The Straight Mind” In. The Straight Mind and Other Essays. Beacon Press. Boston, 1992.

PALAVRAS-CHAVE: leitura de mulheres; hermenêutica de mulheres; autoras; Mulherando

COORDENADORES:
Davi Pinho (Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ))
Maria Aparecida de Oliveira (Universidade Federal da Paraíba (UFPB))
Nícea Helena de Almeida Nogueira (Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF))

RESUMO: Em “A torre inclinada” (1940), revelando seu esforço para pensar o futuro da vida e da arte em meio à destruição em massa da Segunda Guerra Mundial, Virginia Woolf conclui que “a literatura não é terreno particular de ninguém; a literatura é terreno de todos. Não foi retalhada em nações; lá não há guerras” (p. 463). E conclama a todos os intrusos — como aqueles que ouviram essa palestra para a Associação Educacional dos Trabalhadores (Workers’ Educational Association) em 1940, os outsiders do Império: “Transgridamos livremente e sem medo e encontremos por nós mesmos nosso próprio caminho” (WOOLF, 1940, p. 463). Woolf esteve em confinamento intermitente não apenas por conta das guerras de seu tempo e de suas crises de depressão, mas também devido à pandemia de gripe espanhola que dizimou milhões de pessoas mundialmente antes, durante e depois do auge de 1918-1919, deixando marcas profundas em sua produção, como elabora Elizabeth Outka (2020) ao comentar o romance Mrs Dalloway (1925) e o ensaio “Sobre estar doente” (1926/1930), no qual Woolf nos convoca a reimaginar a tradição por meio da linguagem “primitiva, sutil, sensual, obscena” do corpo doente (WOOLF, 1926/1930, p. 187). Essa procura por uma nova linguagem mantém vivo o impulso de “reunir as partes separadas” (“A Sketch of the Past, 1976) e de “preservar e criar” (“A torre inclinada”, 1940). Este simpósio propõe que, agora que nossos corpos estão em isolamento, continuemos o debate que se iniciou na Abralic de 2019, quando propusemos pela primeira vez que leitoras/es de Virginia Woolf se reunissem para pensar, coletivamente, as marcas que as obras ficcionais, ensaísticas e auto/biográficas de Woolf deixaram na ficção, na teoria e na crítica contemporâneas, especialmente no que se refere ao dito formalismo modernista e às questões de gênero. De sua primeira recepção, e sua ênfase na forma, aos estudos feministas da década de 70 e além, o nome “Virginia Woolf” constituiu por vezes uma assinatura modernista que ora fechou sua obra completamente no vocabulário dos formalistas de Bloomsbury, ora no vocabulário do feminismo estadunidense, ou ainda na esteira da desconstrução de Derrida e dos saberes rizomáticos de Deleuze. No entanto, como vêm revelando os estudos woolfianos recentes, a questão estética em Woolf está inextricavelmente entrelaçada à questão política que figura em sua obra, o que lança a autora em busca de novas formas de escrita em movimento de eterno devir-outro, como pensa Rosi Braidotti (2011). É justamente essa oscilação produtiva entre o estético e o político que faz com que pesquisadoras/es contemporâneas/os, como Madelyn Detloff (2016), deem privilégio aos hibridismos encenados por Woolf por meio da ficção, sua ferramenta para atravessar diferenças e reorganizar mundos, o que sempre nos permite reavaliar e revalorar sua escrita. Filiando o poético ao material, vale pensar hoje como as leituras de Virginia Woolf do século passado não se excluem mutualmente, mas são complementares no pensamento woolfiano, que é centrífugo por excelência, como pensa Judith Allen (2010). Voltar à escrita de Virginia Woolf nos permite achar os pontos de conexão no mosaico de perspectivas de seus intérpretes, atentando sempre para os sentidos que sua forma deixa escorregar para o nosso presente. Continuando a virada estético-política dos estudos woolfianos (Goldman, 1998 & 2004), convidamos trabalhos que se debrucem sobre releituras de toda e qualquer questão que sua vasta obra suscite – da forma do conto, ensaio e romance modernistas à escrita de si ou a uma filosofia queer e/ou feminista. Se levarmos a sério os choques de realidade que Virginia Woolf diz sentir ao escrever (cf. “A Sketch of the Past”), entenderemos que sua escrita está sempre dentro e fora de seu tempo, uma escrita contemporânea no sentido agambeniano (2006), sempre referida ao passado do passado mas também à sua presença, como antes formulou T. S. Eliot (1919). Hoje, muito do que se anuncia na produção tardia da autora parece mais uma vez ativar quadros de guerra incessantes, e por isso não podemos ainda temer Virginia Woolf. Desse modo, almejamos acolher trabalhos que contemplem os seguintes temas, ou quaisquer outros que estejam em diálogo com a vida, a obra e/ou o tempo de Virginia Woolf: - Woolf e o modernismo, as artes e/ou o Bloomsbury Group; - Woolf e o pós-modernismo, o pós-estruturalismo e/ou a filosofia; - Woolf e os estudos feministas, queer e/ou transfeministas; - Woolf e o trauma, a guerra e/ou o fascismo; - Woolf e a pandemia e/ou a doença; - Woolf e a educação, os movimentos sociais e/ou o materialismo histórico; - Woolf e/em tradução e/ou adaptação; - Woolf e o Império e/ou os estudos pós-coloniais; - Woolf e a ecocrítica; - Woolf transnacional, transcultural, transtemporal; - Woolf e a teoria crítica e/ou a psicanálise; - Woolf leitora/ leitores de Woolf.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: AGAMBEN, Giorgio. What is the Contemporary?. In: AGAMBEN, G. What is an Apparatus? and Other Essays. Tradução de D. Kishik e S. Pedatella. Stanford: Stanford University Press, 2009. [2006] P. 39-54. ALLEN, Judith. Virginia Woolf and The Politics of Language. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2010. BRAIDOTTI, Rosi. Nomadic Theory: The Portable Rosi Braidotti. New York: Columbia University Press, 2011. DETLOFF, Madelyn. The Value of Virginia Woolf. Cambridge: Cambridge University Press, 2016. ELIOT, T. S. Tradition and the individual talent. In: KERMODE, Frank (ed.). Selected prose of T. S. Eliot. Londres: Faber & Faber, 1975 [1919] p. 37-44. GOLDMAN, Jane. Modernism, 1910-1945: Image to Apocalypse. Basingstoke: Palgrave MacMillan, 2004. GOLDMAN, Jane. The Feminist Aesthetics of Virginia Woolf: Post-Impressionism and the Politics of the Visual. Cambridge: Cambridge University Press, 1998. OUTKA, Elizabeth. Viral Modernism: The Influenza Pandemic and Interwar Literature. New York: Columbia University Press, 2020. WOOLF, Virginia. A Sketch of the Past. In: WOOLF, V. Moments of Being. Ed. Jeanne Schulkind. Londres: Harcourt Brace and Company, 1985. [1976] p. 64-159 WOOLF, Virginia. A torre inclinada. In: WOOLF, Virginia. O valor do riso e outros ensaios. Tradução de Leonardo Fróes. São Paulo: Cosac Naify, 2014. [1940] p. 427-463. WOOLF, Virginia. Sobre estar doente. In: WOOLF, Virginia. O valor do riso e outros ensaios. Tradução de Leonardo Fróes. São Paulo: Cosac Naify, 2014. [1926/1930] p. 184-203.

PALAVRAS-CHAVE: Virginia Woolf; Modernismo; Contemporaneidade.

COORDENADORES:
Rafael Eisinger Guimarães (Universidade de Santa Cruz do Sul)
Gérson Werlang (Universidade Federal de Santa Maria)
Roniere Silva Menezes (Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais)

RESUMO: As reflexões que colocam em diálogo a literatura e a música têm conquistado bom espaço na pesquisa acadêmica contemporânea. Tal constatação pode ser feita ao observamos o intenso e estimulante debate acerca das aproximações e dos distanciamentos existentes entre essas duas manifestações, seja a partir de musicalização de poemas, de referências musicais em textos narrativos, dramáticos e poéticos, seja na menção, mais ou menos explícita, de obras literárias nas letras de canções ou peças eruditas. Podemos também pensar no exemplo da citação e recriação de versos, quadras e cantigas do campo oral, popular folclórico, no âmbito da música popular urbana, erudita e mesmo no espaço da escrita literária. Isso sem contar nos diversos diálogos existentes entre literatura, música, cinema e teledramaturgia. Ultimamente têm surgido trabalhos inovadores aproximando texto literário, leitura, criações rítmico-sonoras do universo popular oral e tecnologias digitais. As produções que aproximam a linguagem literária e a musical fazem parte de uma rede em contínuo movimento e expansão. Nesse sentido, se é fato inegável que a literatura, ao menos no contexto ocidental, teve sua origem marcada por um vínculo muito forte com a música (pensamos aqui, em especial, na poesia lírica da Grécia antiga), não há como ignorar que, ao longo dos séculos, essas duas linguagens – a escrita e a sonora – distanciaram-se bastante uma da outra, muito embora, não raras vezes, o ancestral vínculo que as une insista em deixar-se entrever. Tendo em mente as questões teóricas propostas recentemente pelos mais distintos nomes, sobretudo na esfera do comparatismo, debruçar-se sobre as similaridades e contrastes existentes entre produções literárias e musicais revela-se um exercício interpretativo que resulta em iluminação mútua. Na esteira dessas observações, este simpósio se propõe a ampliar o debate iniciado com as apresentações que tiveram lugar no ST “Dissonâncias e consonâncias entre literatura e música: temas, personagens, espaços e linguagens em diálogo transdisciplinar”, ocorrido no Congresso Internacional ABRALIC 2020. Tomando como base para as nossas reflexões a ideia de literatura em campo expandido (KIFFER e GARRAMUÑO, 2014), a concepção de literatura pós-autônoma (LUDMER, 2007) e imaginação pública contemporânea (PEDROSA et all, 2018), dentre outras produções que problematizam as concepções de especificidade e essência das manifestações artísticas e culturais, parece ser mesmo possível, em alguns casos, propor um questionamento dos limites que separam a literatura e a música. As investigações sobre esses diálogos interartes podem tanto sugerir o apagamento de fronteiras entre o literário, o musical e o cancional como possibilitar, de forma complementar, reflexões sobre em que medida, e sob que aspectos, a linguagem literária contribui para a elaboração do objeto musical e vice-versa. Salientamos que, em se tratando de estudos sobre transdisciplinaridade, guiamo-nos por pensadores que questionam a noção de hierarquia de saberes como Edgar Morin (2006); quanto a debates contemporâneos em torno da literatura comparada, trabalhamos com autores como Ottmar Ette (2018). Com vistas a contribuir para a problematização proposta e para o olhar em direção às relações entre as linguagens literária e musical, mostram-se bastante relevantes as contribuições de José Miguel Wisnik (2004), Luiz Tatit (2002), Murray Schaffer (2011), Paul Zumthor (1993), Ruth Finnegan (2008) e Solange Ribeiro de Oliveira (2002), dentre outros nomes que têm contribuído para uma compreensão dos elementos estéticos que envolvam a materialidade sonora e linguística. Diante desses aspectos, este simpósio receberá trabalhos que busquem, a partir de uma perspectiva comparatista e transdisciplinar, analisar trânsitos existentes entre literatura e música, por meio de relações intertextuais, temáticas e técnicas, por exemplo a partir da análise de canções, de investigação acerca da presença de elementos musicais na construção de obras poéticas, narrativas, dramáticas e ainda a por meio da utilização de traços literários na concepção musical, entre outras possibilidades. Deve-se ressaltar que temas, perspectivas e estruturas literárias possibilitaram o surgimento de ricas criações em diversos campos artísticos. Como descrito, o simpósio tem como objetivo acolher distintas colaborações para o debate sobre os diálogos transdisciplinares existentes entre literatura e música. Nesse sentido, estamos abertos a propostas que tragam reflexões sobre arte, cultura, literatura e música no âmbito popular tradicional, o popular urbano, massivo e erudito, e sobre o intercâmbio entre esses gêneros e lugares discursivos. Textos que se propõem a discutir, em termos teórico-conceituais - ao menos em parte do trabalho - a própria questão transdisciplinar e comparatista relativa ao trânsito literário e sonoro são também bem vindos ao simpósio.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ETTE, Ottmar. Escrever entre mundos: literaturas sem morada fixa.Curitiba, PR: Ed. UFPR, 2018. FINNEGAN, Ruth. O que vem primeiro: o texto, a música ou a performance? In: TRAVASSOS, Elizabeth; MATOS, Cláudia Neiva; MEDEIROS, Fernanda Teixeira de. Palavra Cantada: ensaios sobre poesia, música e voz. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2008. KIFFER, Ana e GARRAMUÑO, Florencia (Orgs.). Expansões contemporâneas: literatura e outras formas. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2014. LUDMER, Josefina, 2007. Literaturas postautónomas 2. Revista Z cultural. Ano IV. Vol.I Disponível online: http://revistazcultural.pacc.ufrj.br/literaturas-postautonomas-2-0-dejosefina-ludmer/. MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 11. ed. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2006. OLIVEIRA, Solange Ribeiro de. Literatura e música. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2002. PEDROSA, Celia, KLINGER, Diana, WOLFF, Jorge, CÁMARA, Mario (Orgs.). Indicionário do contemporâneo. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2018. SHAFFER, Murray. O ouvido pensante. 2a. ed. São Paulo: Ed. UNESP, 2011. TATIT, Luiz. O cancionista: composição de canções no Brasil. 2. ed. São Paulo: EDUSP, 2002. WISNIK, José Miguel. O som e o sentido: uma outra história das músicas. 3a. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. WISNIK, José Miguel. Sem receita: ensaios e canções. São Paulo: Publifolha, 2004. ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz: a “literatura” medieval. Tradução de Amálio Pinheiro, Jerusa Pires Ferreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

PALAVRAS-CHAVE: literatura; música; canção; transdisciplinaridade; crítica comparada.

COORDENADORES:
Francisco Pereira Smith Júnior (Universidade Federal do Pará)
Valdeci Batista de Melo Oliveira (Universidade Estadual do Oeste do Paraná)
Silvia Helena Benchimol Barros (Universidade Federal do Pará)

RESUMO: A Literatura Comparada é uma episteme cujo aparato teórico-crítico possui a importante habilidade de abertura e acolhimento de outras áreas que permitem ao pesquisador, no seu trabalho de hermeneuta, ampliar as condições de leitura do texto literário. Esta “fenda” se acentua quando nos dedicamos à atividade de tradução de um texto literário, pois ainda que não seja um texto literário, sabemos que os sentidos deslizam em todas as matrizes da linguagem. Assim, traduzi-los para outra língua é uma tarefa que requer a habilidade de criador para além do sentido literal, já que nenhuma linguagem é diáfana, como aponta Bosi (1988). O trabalho do interpress nos estudos literários de tradução pode alcançar maiores resultados se o método for o do diálogo entre as epistemes. Dessa parceria podem nascer uma hermenêutica profícua em (des)obnubilar os refolhos do texto literários em suas lacunas intervalares entre o dizer e o dito. Ao perceber a importância da Literatura Comparada propõe-se neste simpósio a reflexão de pesquisas que demonstrem o encontro de duas emergentes para entender o campo literário: a literatura comparada e os estudos literários da tradução. Carvalhal (1986) apresentou a classificação de “estudos literários comparados” para muitas investigações variadas, que adotam diferentes metodologias e que, pela diversificação dos objetos de análise, concedem à literatura comparada um vasto campo de atuação, demonstrando que os estudos comparados e a tradução se enveredem por caminhos que por vezes se encontram no campo metodológico. Para Eco (2003) e Bloom (2001), é necessário que a leitura literária tenha um significado para o leitor, pois ela permite identificação. Portanto, procura-se abarcar em nossa prática de leitura literária tanto a forma quanto a temática, presentes nos textos, valorizando o prazer do texto, a fruição do texto literário, o seu poder de se relacionar com outros textos literários. Na área da tradução, sabe-se que ainda há muito para ser feito no que diz respeito à aproximação entre os estudos da tradução e a literatura comparada. Neste sentido, as reflexões desencadeadas sobre o papel da tradução, entendida como comunicação intercultural, no âmbito da Literatura e dos Estudos Culturais têm como objetivo despertar para a compreensão de cenários pós-colonialistas e pós-estruturalistas. A Tradução Cultural sob o prisma histórico-antropológico de Burke (2009) ou sob viés crítico de Bhabha (1998) aproximam a atividade tradutória dos pressupostos antropológicos e ideológicos que se revelam nos textos literários com suas imagens revestidas pela visada estética e que suscitam o prazer no leitor. Tal ótica é convidativa às análises tradutórias que têm como objeto o deslocamento migratório e o transporte [tradução] cultural destes povos e suas simbologias para as novas ambiências por meio dos processos de hibridização, de assimilação e de ressignificação. As relações de poder, resistência e opressão são igualmente contempladas sob as lentes interdisciplinares que intercomunicam de forma vigorosa a Literatura e os Estudos da Tradução. Os Polissistemas propostos na teoria de Even-Zohar (1990) corroboram o alinhamento de diferentes ambiências cultural-literárias que sob a perspectiva tradutória podem revelar tendências significativas considerando-se fatores de temporalidade e de localização. Em concomitância, os Estudos de Recepção vêm agregar reveladores movimentos de convergência e divergência entre povos e entre línguas, que por meio do texto literário nos permitem identificar fenômenos impactantes no contato intercultural, em que o leitor assume posição incólume. A reflexão que o texto literário pode oportunizar nas revisitações de fatos históricos em comparação com outras produções que abordam eventos contemporâneos consolida o exercício de reflexividade da Histoire Croisée (WERNER; ZIMMERMANN, 2003), fenômeno de densa capilaridade para os Estudos da Tradução. Não obstante as lacunas aqui pontuadas de forma exordial, se percebe um movimento de abertura para essa aproximação e para a ampliação deste espaço gnosiológico no Brasil. Costa (2015) ao perceber que, nos congressos da ABRALIC, a tradução tem ocupado um espaço cada vez maior, como a ABRALIC/Belém, PA, de 29 de junho a 3 de julho de 2015, em que a tradução esteve presente não apenas nos simpósios, mas fez parte do próprio lema do congresso: “Fluxos e correntes: trânsitos e traduções literárias”. Por fim, entende-se que este simpósio dará continuidade a um diálogo crescente entre os estudos de Literatura Comparada e da Tradução e servirá de facilitador de discussões de vários pesquisadores que vêm nessa relação teórica o caminho para a interpretação literária.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BLOOM, Harold. Como e porque ler. Tradução José Roberto O?Shea. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. BOSI. Alfredo. Céu, inferno. In: BOSI. Alfredo. Céu, inferno. Ensaios de crítica literária e ideológica. São Paulo: Ática, 1988. BHABHA, H. O Po?s-colonial e o Po?s-moderno. In:_BHABHA, H. O Local da Cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1998c. BURKE, Peter. A Tradução Cultural. São Paulo: UNESP, 2009 CARVALHAL, Tânia Franco. Literatura comparada. São Paulo: Ática, 1986. COSTA, Walter Carlos. Estudos da Tradução e Literatura Comparada: conflito e complementaridade.Cad. Trad., Florianópolis, v. 35, n. esp. 1, p. 31-43, jan./jun. 2015. ECO, Umberto. Sobre a Literatura. Ensaios. Rio de Janeiro: Record, 2003. EVEN-ZOHAR, Itamar. Translation and transfer. In: Polysystem Studies. PoeticsToday, Duham: USA, vol.11, n.1.p. 73-78. Disponível em https://www.tau.ac.il/~itamarez/works/books/Even-Zohar_1990--Polysystem%20studies.pdf. Acesso em 19 de abril, 2021. WERNER, Michael e ZIMMERMANN, Bénédicte. Pensar a história cruzada: entre a empiria e a reflexividade. In: Textos de História, vol. 11, n° 1/ 2, 2003. p. 89-127.

PALAVRAS-CHAVE: Comparativismo; Tradução; Diálogos; Literatura; interculturalidade.

COORDENADORES:
Cássia Maria Bezerra do Nascimento (Universidade Federal do Amazonas)
MIRELLA MIRANDA DE BRITO SILVA (Universidade Federal de Roraima)
ADRIANA HELENA DE OLIVEIRA ALBANO (Universidade Federal de Roraima)

RESUMO: O debate sobre a Amazônia, nos mais variados campos do saber, se intensificou no último século. Termo cercado de exotismo, equívocos e inexatidões, mesmo do ponto de vista físico-geográfico, a Amazônia é geralmente enunciada como sinônimo da Região Norte do Brasil, mas abrange outras regiões, se fazendo presente em Estados do Centro-oeste e Nordeste brasileiro, para além dos países fronteiriços, que concentram parte considerável de sua área. A porção brasileira da Amazônia chamou a atenção do mundo inicialmente durante a Revolução Industrial, funcionando como a maior fonte de matéria-prima de borracha, que supria as demandas das fábricas inglesas, que então começavam a operar (FILHO, 2015, p. 330). No governo de Getúlio Vargas, a chamada “colonização da floresta” passou a ser vista como estratégica para os interesses nacionais, na chamada “Marcha para o Oeste”. Desde então, em busca de diferentes el dorados, a região passou por vários boons migratórios, com impactos diversos. Entretanto, apesar de todo o tempo transcorrido, a Amazônia ainda é um espaço cujos limites e definição permanecem em constante remanejamento, obnubilando-se no imaginário nacional como o céu da floresta, via de regra encoberto pelas densas nuvens que sacodem os aviões que a sobrevoam, ou envolta na escura fumaça das queimadas. Vítima dos factoides propagados nas redes sociais e do criminoso descaso governamental, a Amazônia brasileira voltou à berlinda e às manchetes dos noticiários do mundo inteiro. Euclides da Cunha (1999) já declarara que a Amazônia esteve por muito tempo à margem da história, ressaltando que os interesses nacionais e internacionais estavam muito mais voltados para as potencialidades naturais da biodiversidade da fauna e flora amazônica, do que para o homem da região e sua cultura. Nesse sentido, estamos de acordo com Ana Pizarro (2006, p. 98-99), quando defende que o espaço amazônico não existe somente como reservatório de diversidade biológica, mas consiste também em receptáculo cultural e fonte da constução de parte dos modos de seu imaginário. É sobre a literatura aí produzida, em seu discurso construtor/problematizador das imagens formadas acerca do que é a Amazônia (ou Amazônias), de suas relações com o resto do continente, e com o mundo, que optamos por dar destaque a olhares que tratem sobre a Amazônia complexa, abordada por Djalma Batista (2007), na perspectiva do paradigma da complexidade de Morin (2015) e residual conforme as orientações de Pontes (1999, 2020), além de estudos que se estabelecem com o diálogo entre diferentes épocas e espaços acerca da literatura e da cultura híbrida amazônica. Ao pensar em literatura de autoria ou de expressão amazônica, reconhecemos que, na literatura produzida na(s) e sobre a(s) Amazônia(s), se entrecruzam e se entrechocam duas percepções fundamentais, intensificadas pelos litígios atuais: de um lado, uma Amazônia risonha, que acena com a possibilidade do achamento do El dorado de riquezas infindáveis; de outro, a imagem terrificante do “inferno verde”, da selva que destrói corpos e ânimos de quem tenta dela tirar seu sustento; perspectiva nascida dos relatos dos viajantes, que ganhou corpo na propaganda institucional dos governos militares, sobretudo a partir do programa de interiorização getulista, que afirmava “O destino brasileiro no Amazonas”, plasmando em definitivo o imaginário nacional a ideia de que a apropriação capitalista mais intensiva e predatória da floresta é o passo que falta para alçar o Brasil à condição de nação superdesenvolvida. É a Amazônia de el dorados e muiraquitãs, largamente representada pelas expressões literárias locais e nacionais, em obras clássicas ou contemporâneas, como também na poética oral das inúmeras comunidades indígenas da região. A segunda visada, frequentemente nascida da experiência do migrante, se solidifica nas obras que tratam especificamente da vida na região amazônica e que elaboram a expressão poética mais conhecida do que é a Amazônia e o que significa viver ali, como em A Selva, de 1930, de Ferreira de Castro, ou em Inferno Verde, de 1908, de Alberto Rangel, como explora Synésio Filho (2001), a título de exemplo. Em um contexto histórico em que são retomadas explicitamente práticas que prescindem de qualquer projeto de desenvolvimento sustentável para a região e em que os flagrantes de desrespeito aos direitos mais fundamentais dos povos indígenas e demais comunidades tradicionais se multiplicam, é urgente a intensificação deste debate. É, pois, diante desse complexo cenário histórico (teórico e crítico) que propomos este Simpósio para pensar a literatura de autoria e de expressão amazônica, da literatura produzida na(s) e sobre a(s) Amazônia(s), com ênfase às propostas que a focalizem em diálogo com a literatura mundial. Portanto, serão acolhidos trabalhos na seara da literatura comparada, da teoria da literatura, da história da literatura, dos estudos culturais, das relações entre literatura e cinema, da complexidade e da residualidade literária e cultural, do ensino de literatura, do letramento literário, desde que centrados no contexto da Amazônia, nas suas literaturas escritas, orais, poéticas indígenas e ribeirinhas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BATISTA, Djalma. O Complexo da Amazônia: Análise do processo de desenvolvimento. 2. Ed. Manaus: EDUA; Valer; INPA, 2007. CUNHA, Euclides da. À Margem da História. 1 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999 (Temas Brasileiros). CASTRO, Ferreira de. A Selva. Fundação Cultural do Estado do Acre: Rio Branco, 1999. FILHO, Synesio. Navegantes, bandeirantes, diplomatas – Um Ensaio Sobre a Formação de Fronteiras no Brasil, edição Revista e Atualizada, Brasília, 2015, p. 330. FILHO, Synesio. Inferno verde: cenas e cenários do Amazonas. 5 ed. Manaus: Valer/Governo do Estado do Amazonas, 2001. MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre : Sulina, 2015 PONTES, Roberto. “Lindes Disciplinares da Teoria da Residualidade”. Manaus: Revista Decifrar. V. 7 n. 14, p. 11-20, jul-dez 2019. ISSN 2318-2229. Disponível em <Periodicos.ufam.edu.br/índex.php/decifrar/articule/view/7555/> Acesso em: 28 set PONTES, Roberto. “Pródromos Conceituais da Teoria da Residualidade”. In: PONTES, Roberto; MARTINS, Elizabeth; NASCIMENTO, Cássia Maria Bezerra do (orgs) et al. Matizes de Sempre-Viva: Residualidade, Literatura e Cultura. Macapá: UNIFAP, 2020. PIZARRO, Ana. O sul e os trópicos. Niterói: EdUFF, 2006 RANGEL, Alberto. Inferno verde: cenas e cenários do Amazonas. 5 ed. Manaus: Valer/Governo do Estado do Amazonas, 2001.

PALAVRAS-CHAVE: Amazônia; Complexidade; Transdiciplinaridade; Residualidade Literária e Cultural.

COORDENADORES:
Simone Maria Bacellar Moreira (UERJ/FFP)
Francois Weigel (Universidade federal do Rio Grande do Norte)
Stela Maria Sardinha Chagas de Moraes (UERJ)

RESUMO: O desenvolvimento dos meios de difusão e, em particular, da imprensa, além da consequente ampliação do público leitor ocorrida no século XIX, parecem ter não só acentuado, mas também alargado o campo dessa manifestação artística a que convencionamos chamar literatura. Considerando a arte literária como um processo, desde o advento da palavra escrita, não podemos esquecer as mudanças que ocorreram e continuam a ocorrer no que tange, por exemplo, aos gêneros do discurso e à relação com outras áreas e suportes textuais. No último encontro da ABRALIC, tivemos a oportunidade de debater o estudo da narrativa em diversos campos, tais como, romances, relatos, contos, fábulas, crônicas, diários. Nesta edição de 2021, intentamos dar continuidade a essas reflexões, sempre abertos para o diálogo com outros textos, de outras disciplinas das ciências sociais, como história, antropologia, sociologia, psicologia, filosofia, de forma a melhor podermos investigar as imbricações e indagações propiciadas pela narrativa literária em outras áreas do saber e, inversamente, de que maneira os questionamentos suscitados pelos textos dessas outras disciplinas proporcionam debates e/ou embasamento para os textos literários. De fato, se a questão que alicerça nosso simpósio é a que intitula uma das obras-mestras de Sartre (1947) – “Qu´est-ce que la littérature?”, reconhecemos que se trata de uma indagação que se desdobra em uma série quase infinita de outros questionamentos que, por sua vez, se prestam cada vez mais a respostas múltiplas e variadas. Em um mundo em que a tecnologia parece reger não só a circulação de ideias e a troca de influências, mas também a implantação de “verdades absolutas” e a “negação da ciência”, ainda há lugar para a literatura? Em que medida os novos suportes e abordagens da escrita e leitura são elementos enriquecedores para a literatura? Esses novos suportes e as novas abordagens da escrita são elementos suficientes para a constituição de uma nova linhagem de leitores? Quais as fronteiras entre literatura digital e literatura digitalizada? Em que medida obras literárias produzidas na e para a rede apontam para um novo leitor? Até que ponto podemos estabelecer relações entre os estudos literários e demais artes ou disciplinas das ciências sociais no sentido de sedimentar conhecimentos ampliando o campo da visão? É pertinente falar em relações transdisciplinares? Essa troca de olhares entre o mesmo e o outro direciona o foco de nosso simpósio também para estudos de interfaces com as artes, cênicas e visuais, além de histórias em quadrinho e música, dentre outras possibilidades. Pretendemos dialogar com pesquisas relacionadas aos conceitos de subjetividade, ficcionalidade, gênero e imaginário, abrangendo narrativas da modernidade a partir do século XIX, confrontando textos estrangeiros e brasileiros, na interpretação literal da oposição mesmo/outro, bem como na concepção metafórica de outro, que abrange a questão de gênero, culturas, etnias, sempre a partir do ponto de vista do cruzamento de olhares, entre o mesmo e o outro. Levando em conta as nossas experiências literárias do passado, como fazer face às textualidades contemporâneas, no diálogo com as literaturas e teorias europeias, americanas, latino-americanas, africanas...? É importante assinalar que o recente desaparecimento de Alfredo Bosi nos leva, mais do que nunca, a reflexões sobre a literatura brasileira, desde sua gênese, passando por suas múltiplas manifestações e suportes e apontando para o seu futuro. A questão de base - “Como entendemos a literatura no Brasil, hoje?”- apesar de sua aparente simplicidade, nos parece de grande pertinência, bem como seus desdobramentos. Em um mundo em que, graças à tecnologia, categorias como tempo e distância tomam feições cada vez mais fluidas e em que a circulação de ideias e a troca de influências são cada vez mais instantâneas, cabe ainda falar em literaturas nacionais e, de maneira mais específica, em literatura brasileira? Qual a função do estudo da literatura, hoje, na escola e na universidade? Os jovens de hoje leem? O que leem? Por quê? Novos pressupostos teóricos seriam necessários para podermos estudar as mudanças comportamentais na produção e recepção das obras literárias em meio digital? Caberia pensarmos em um cruzamento de olhares entre as obras produzidas e difundidas pelas mídias digitais e aquelas que, circulando na rede, utilizam a Internet como veículo de difusão? Dentre tantas questões, duas parecem primordiais considerando a retomada das aulas no Brasil pós-pandemia: o e-letramento capacitará realmente os usuários da rede à leitura das obras literárias em meio digital? E como formar novos leitores? Tais questões nos parecem de vital importância para refletirmos tanto o papel da literatura quanto o da internet na educação atual, além da relevância da troca de olhares no estudo da narrativa. O debate e a reflexão sobre esses temas podem não nos trazer respostas concludentes, mas, com certeza, trarão avanços em direção a uma maior compreensão desta questão que nos instiga: o que é e para que serve a literatura no mundo de hoje.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: SARTRE, Jean-Paul. Qu´est-ce que la littérature?. Paris: Éditions Gallimard, 1947.

PALAVRAS-CHAVE: NARRATIVA; CRUZAMENTO DE OLHARES; LITERATURA EM MEIO DIGITAL; TRANSDISCIPLINARIDADE.

COORDENADORES:
Yuri Jivago Amorim Caribé (Universidade Federal de Pernambuco (UFPE))
MARIA SUELY DE OLIVEIRA LOPES (Universidade Estadual do Piauí (UESPI))
João Batista Martins de Morais (Universidade Federal do Agreste de Pernambuco (UFAPE))

RESUMO: Desde a década de 1950, quando foram publicadas as primeiras obras relacionadas diretamente aos Estudos Culturais, pesquisadores desse campo também incluíram em sua pauta o estudo da literatura como uma prática cultural específica. Passaram ainda a relacionar a literatura com outros discursos, algo que, segundo Culler (1999), é importante para os Estudos Literários. Ademais, entendemos que, ao examinar os papéis culturais em obras literárias diversas, reafirmamos o estudo da literatura como um fenômeno intertextual complexo. Podemos perceber que as pesquisas envolvendo literatura e cultura ampliaram o cânone literário de forma a incluir textos de outros grupos historicamente marginalizados. Essas pesquisas também fomentaram o interesse por obras que representam uma gama de experiências culturais e de formas literárias (CULLER, 1999). Nesse sentido, este simpósio pretende promover o diálogo entre pesquisadores que se interessam pela análise de obras literárias como objetos culturais, considerando ainda uma ampliação do conceito de “literário” e, portanto, de alguns paradigmas estéticos. Logo, à essa proposta, interessam não apenas objetos classificados como gêneros literários mais conhecidos (romances, contos, novelas, poemas e peças), mas também importam outros formatos não tradicionais, tais como filmes, quadrinhos, graphic novels, fan fictions e séries, dentre outros. Isso nos leva a perceber um diálogo entre objetos culturais e a ideia de intermidialidade, conforme conceito de Müller (2012), que considera as materialidades, os formatos ou gêneros e os significados das mídias, além do conteúdo. Sabemos ainda que, no tocante a essa inclusão de textos sobre temas e grupos historicamente marginalizados, alguns trabalhos foram, ao longo das décadas, considerados como reconhecidamente basilares para as discussões que ora propomos. A pesquisa de Bhabha (1998) sobre questões que envolvem identidade e cultura, além da problemática da pós-colonialidade é uma delas. Em trabalho anterior, Bhabha (1991, p. 184) já se debruçava sobre esses temas, especialmente sobre as “formas de discurso colonial ou suas descrições, escritas a partir do fim do século XIX até o presente”. Nessa mesma reflexão afirmou que o discurso colonial pretende “construir o colonizado como população de tipo degenerado, tendo como base uma origem racial para justificar a conquista e estabelecer sistemas administrativos e culturais” (BHABHA, 1991, p. 184). Assim, traz efeitos de classe, gênero, ideologia e formações sociais diferentes. Temos ainda o trabalho de Fanon (2008), que nos permite perceber o quanto a prática de negação da humanidade não apenas se restringiu aos territórios colonialmente ocupados, mas também se configurou como eixo estruturante da própria modernidade, como enfatiza: “Sim! A civilização europeia e seus representantes mais qualificados são responsáveis pelo racismo colonial”. (FANON, 2008, p. 88-89). O colonialismo em Fanon é um aspecto da realidade social que se mostra como exterioridade concreta aos sujeitos, não se resumindo, em hipótese alguma, a um regime de verdade ou a uma visão de mundo, mas sim, conformando as condições de possibilidades para as representações (distorcidas, diga-se, e não apenas inventadas) de colonizadores e colonizados. Outra questão relevante é aquela levantada por Davis (2016), quando trata do racismo sofrido por mulheres negras nos Estados Unidos da América e de questões como o estupro e a negação de direitos fundamentais. Davis aprofundou estudos sobre a situação dos negros nos Estados Unidos desde o período da escravatura, até a abolição em 1863 e seus reflexos na sociedade contemporânea. Simultaneamente, nos convoca a refletir sobre o machismo, as relações de classe e o caminho percorrido pelas mulheres negras na política, na cultura, na produção de novas análises e questionamentos. Nesse pensamento, o entendimento da universalidade na definição dos conceitos de homem e de mulher fragiliza-se diante da diversidade cultural, sexual e política. De forma mais exata, os fatores raciais/étnicos, socioeconômicos e de gênero que se destacam na obra da autora, não podem ser descuidados, uma vez que são preponderantes para a desconstrução do conceito universalizante de mulher. Em suma, este simpósio pretende promover debates oportunos sobre questões diversas que relacionam literatura e cultura. Desse modo, serão recebidos recortes de pesquisas que envolvam obras literárias (considerando a amplitude do termo “literário”), sejam brasileiras ou estrangeiras, em que figuram temas caros aos Estudos Culturais, tais como o debate sobre identidade e cultura, multiculturalismo, globalização, cibercultura, agenda cultural, o pós-colonialismo, questões étnicas, questões raciais, a subalternidade, questões de gênero e sexualidade ou ainda sobre a problemática do pós-modernismo, etc. Por isso, o arcabouço teórico dessas pesquisas (a depender do tema abordado na obra literária em questão) deverá estar relacionado aos Estudos Pós-Coloniais, ou aos Estudos de Gênero e Sexualidade (incluindo a Crítica Literária Feminista e os Queer Studies), além dos Estudos Subalternos e Estudos Étnicos e Raciais, dentre outras possibilidades.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BHABHA, Homi K. A questão do “outro”: diferença, discriminação e o discurso do Colonialismo. Tradução de Francisco Caetano Lopes Júnior. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de (org.). Pós-Modernismo e Política. Rio de Janeiro: Rocco, 1991. p. 177-203. BHABHA, Homi K. O Pós-Colonial e o Pós-Moderno: A Questão da Agência. In: BHABHA, Homi K. O Local da Cultura. Tradução de Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis e Glaucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: UFMG, 1998. p. 239-273. CULLER, Jonathan. Teoria Literária: uma introdução. Tradução de Sandra Vasconcelos. São Paulo: Beca, 1999. p. 48-58. DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. Tradução de Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2016. FANON, Frantz. Pele Negra, Máscaras Brancas. Tradução de Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008. MÜLLER, Jürgen Intermidialidade revisitada: algumas reflexões sobre os princípios básicos desse conceito. Tradução de Anna Stegh Camati e Brunilda Reichmann. In: DINIZ, Thais Flores Nogueira; VIEIRA, André Soares (orgs.). Intermidialidade e Estudos Interartes: desafios da arte contemporânea. v. 2. Belo Horizonte: Rona Editora e FALE/UFMG, 2012. p. 75-95.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura; Estudos Culturais; Objetos Culturais; Minorias; Contemporaneidade.

COORDENADORES:
André Dias (Universidade Federal Fluminense)
Felipe Gonçalves Figueira (Instituto Nacional de Educação de Surdos)
Rauer Ribeiro Rodrigues (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul)

RESUMO: A proposta do simpósio é examinar a manifestação da dissonância em diferentes obras literárias das mais variadas nacionalidades, com vistas a compreender o modo pelo qual alguns autores se constituíram, através dos discursos literários, como vozes questionadoras de seus tempos, sociedades e condições existenciais. A ideia central é abrir espaço para o diálogo entre pesquisadores que investigam variados autores, cujas obras expressam inquietações e questionamentos, tanto na esfera social quanto na ideológica, na existencial ou na estética. O que se espera é que os trabalhos apresentados no âmbito do Simpósio Literatura e Dissonância discutam, entre outras questões, o problema teórico do intelectual frente às variadas ideologias, quer sejam elas hegemônicas ou não, e o problema histórico dos escritores diante do status quo, manifestado na esfera da política, dos costumes, da economia, da cultura, da tecnologia, etc. Mikhail Bakhtin, falando sobre o grande tempo histórico e o trabalho dos escritores, chama atenção para o seguinte fato: “o próprio autor e os seus contemporâneos veem, conscientizam e avaliam antes de tudo aquilo que está mais próximo do seu dia de hoje. O autor é um prisioneiro de sua época, de sua atualidade. Os tempos posteriores o libertam dessa prisão, e os estudos literários têm a incumbência de ajudá-lo nessa libertação.” (BAKHTIN, 2003, p. 364). Sendo assim, ao abordarmos a temática Literatura e Dissonância, temos clareza de que todo autor, para o bem e para o mal, é antes de tudo um homem de seu tempo. Desse modo, aos que se ocupam da investigação literária cabe a tarefa de, dialogicamente, atualizarem os diversos discursos literários produzidos nos mais variados tempos e espaços históricos. Agindo assim, os estudiosos da literatura contribuirão para manter a vivacidade de distintos autores e obras. Sobre a criação romanesca, o pensador russo adverte que “o autor-artista pré-encontra a personagem já dada independentemente do seu ato puramente artístico, não pode gerar de si mesmo a personagem – esta não seria convincente” (BAKHTIN, 2003, 183-184). Em outras palavras, nenhuma personagem é fruto do gênio criador de um autor adâmico, pois a matéria de memória da literatura está no mundo social, local de onde os escritores extraem os motivos para criar. De maneira análoga, a palavra do outro é fundamental para a tomada de consciência de si e do mundo, segundo aponta ainda Bakhtin: “como o corpo se forma inicialmente no seio (corpo) materno, assim a consciência do homem desperta envolvida pela consciência do outro” (BAKHTIN, 2003, p. 374). Dessa forma, as premissas bakhtinianas apresentadas aqui fundamentam o desenvolvimento das nossas reflexões e ajudam a ampliar os sentidos das análises. O fórum, observada a perspectiva da dissonância no campo dos estudos literários e do comparativismo, acata propostas que vão desde o enfoque do ensino da literatura, passando pela questão do trabalho crítico, até chegar à discussão teórica das experiências literárias e dos diálogos transdisciplinares. Seja no espaço das territorialidades, cujos limites se esvaem diante da instantaneidade das comunicações globais, seja no âmbito do regional esvaziado no mesmo diapasão, procura-se o dissonante na antiga ordem hierarquizada, no finado mundo bipolar ou no universo multilateral que se instaura. Há que se considerar, ainda, estudos comparativos entre autores que, mesmo distantes no tempo e no espaço, fixam a seu modo o questionamento de valores hegemônicos e não hegemônicos. Tais autores, independente se no âmbito da prosa ou no da poesia, acabam por constituir uma aproximação literária mediada pelo estado de permanente inquietação. Do ponto de vista da historiografia literária, qualquer que seja o modo analítico proposto, os problemas se sucedem, pois os últimos anos têm sido de deslocamentos incessantes dos postulados teóricos. Tais deslocamentos transformaram em cada vez mais inglórios os embates com o mundo concreto, considerando a acelerada mutabilidade das circunstâncias sociais, políticas, históricas e das representações simbólicas, no âmbito das artes em geral e da literatura em particular. Assim sendo, no estudo da circulação e dos sentidos construídos a partir da literatura cabe, inclusive, questionar as significações do conceito de literariedade. Tal questionamento pode incorporar novas e dissonantes acepções ao termo, tanto na perspectiva dos cânones consagrados, quanto dos cânones emergentes. Levantar questionamentos, de preferência contundentes, e, eventualmente, produzir alguma conclusão, ainda que provisória, é o que se espera alcançar com o presente Grupo de Trabalho, cuja sequência de participações na Abralic, sempre com intensa adesão dos colegas, indica a importância e a pertinência do debate proposto.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Trad. Paulo Bezerra. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura; Prosa; Poesia; Análise de discursos.

COORDENADORES:
ADAUTO LOCATELLI TAUFER (UFRGS)
Cristiane Côrtes (CEFET-MG)
DANIELA FAVERO NETTO (UFRGS)

RESUMO: A necessidade de pensar especificidades do ensino literário nas escolas de educação básica e tecnológica do país – considerando o(a) profissional que assume cargo docente ser, necessariamente, também pesquisador(a) – origina este simpósio. Configura-se a simbiose desejada, mas rara, do(a) professor(a) de educação básica e produtor(a) de conhecimento acadêmico, obtendo-se a concretização do que fora preconizado por Freire (1996, p. 14), “Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino”. Entretanto, a conjunção dos papéis de professor(a) e pesquisador(a) enfrenta desafios, entraves. Na academia, a educação básica é vista, geralmente, como menor, o que fica provado, muitas vezes, na exclusão do(a) docente das listas de concessão de bolsas, no ingresso aos Programas de Pós-Graduação das IES ou na identificação do(a) professor(a) da educação básica como pesquisador(a), para solicitação de fomento. Nas escolas técnicas, o(a) professor(a) das disciplinas propedêuticas, como Literatura, invariavelmente, fica relegado(a) ao grupo de conhecimentos menores, por não se dedicar ao “ensinar a fazer”. Ademais, ao(à) professor(a)-pesquisador(a) é latente o anacronismo existente entre currículos de literatura, discussões e pesquisas relacionadas à teoria literária, desencadeando um abismo entre pesquisa acadêmica e prática educacional. A lei 11.892/08 se erige como possibilidade de ponte entre a academia e o “chão da escola”. Em 2008, a lei 11.892/08 instituiu a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, viabilizando o espaço pedagógico que se configura, hoje, como significativa possibilidade para atrelar resultados de pesquisas acadêmicas à prática de sala de aula. Isso porque Institutos Federais de Educação e Colégios de Aplicação têm em sua gênese a indissociabilidade entre ensino, extensão e pesquisa. Não se pode negar, porém, que o ensino técnico brasileiro surgiu de três pilares que vão de encontro às disciplinas subjetivas e reflexivas: treinamento das classes mais pobres ao mundo do trabalho; influências do modelo tecnicista americano associadas à repressão vivenciada durante o regime militar; visão capitalista que reforça a submissão da classe subalterna à classe dominante (MARTINS, 2000, p. 105). Os pilares identificados por Martins (2000) revelam que “a educação pode ser instrumento para convencer as pessoas de que o que é indispensável para uma camada social não o é para outra” (CANDIDO, 1995, p. 173). Essa lógica alienante segue na contramão do que Candido aponta como função da literatura em seu caráter humanizador (cf. Ibidem, p. 176). Ou seja, o espaço que deveria possibilitar enlace entre teoria, pesquisa e prática de sala de aula, por vezes, não consegue se estabelecer. Ao se considerar o estudo da literatura, atesta-se a necessidade de se educar para o pensar, mas a respeito desse ensino, Cosson (2016, p. 20) afirma que “o lugar da literatura na escola parece enfrentar um de seus momentos mais difíceis”, apontando à “falência do ensino da literatura” (COSSON, 2016, p. 23); já Antunes destaca a tendência dos professores da educação básica a reproduzirem “na sua atuação profissional aquilo que receberam na universidade” (ANTUNES, 2015, p. 16). Essa perspectiva também ecoa nas reflexões de Todorov (2010). Na formação técnica, amplia-se a reflexão sobre capitalismo, globalização e revolução tecnológica, exigindo atenção dos profissionais envolvidos com educação e evidenciando desafios da profissão, já que a “literatura pode incutir em cada um de nós um sentimento de urgência de tais problemas” (CANDIDO, 1995, p. 184). Cresce, então, o interesse pelos debates acerca do ensino de literatura, haja vista a grande procura por simpósios e mesas-redondas em congressos com esse tema. Dessa maneira, este simpósio busca promover reflexões, relatos de experiência, projetos, programas e propostas que, partindo da reflexão acadêmica, atravessem a ponte e rompam fronteiras do espaço acadêmico aportando na prática em sala de aula. Serão bem-vindos trabalhos que discutam: a) práticas de sala de aula fundamentadas em pesquisas acadêmicas e tccs, dissertações, teses sobre práticas de sala de aula; b) pesquisas sobre modificações e/ou questionamentos do currículo de literatura, para incorporar pesquisas acadêmicas; c) desenvolvimento de pesquisas com estudantes da educação básica, no modelo de iniciação científica, por exemplo; d) atividades de extensão promotoras da produção acadêmica e projetos estimuladores da formação do leitor; e) apresentação de projetos, grupos, linhas de pesquisa e programas que se dediquem ao ensino da literatura e à interlocução com outras áreas, como cinema e teatro, por exemplo, na EBTT e na educação básica em geral; f) projetos que se valham do texto literário como meio para debater gênero e etnia na escola; g) problematização das questões relacionadas à literatura, ao ensino e à formação de professores; h) reflexões/relatos sobre distanciamento entre teorias literárias e ensino de literatura; i) reflexões/relatos sobre seleção e escolha de textos literários ao trabalho educativo no espaço das EBTTs e da educação básica; e j) extensões, pesquisas, programas, reflexões, relatos que contemplem estratégias, a partir da Pandemia da COVID-19, voltadas à mediação de leitura, à formação de leitores e à viabilidade do Ensino de Literatura em modalidade remota.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ANTUNES, Benedito. O ensino da literatura hoje. FronteiraZ, Revista Digital do Programa de Estudos Pós-Graduados em Literatura e Crítica Literária, PUC-SP, n. 14, jul./2015. CANDIDO, Antonio. Vários escritos. 3. ed. rev. e ampl. SP: Duas Cidades, 1995. COSSON, Rildo. Letramento literário: teoria e prática. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2016. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. SP: Paz e Terra, 1996. MARTINS, Marcos Francisco. Ensino técnico e globalização: cidadania ou submissão? Campinas, SP: Autores Associados, 2000. TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Trad. Caio Meira. 3ª. Ed. Rio de Janeiro: DIFEL, 2010.

PALAVRAS-CHAVE: Ensino de Literatura; Educação Básica; Formação do Leitor; Projetos de Pesquisa; Projetos de Extensão.

COORDENADORES:
Wellington Furtado Ramos (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul)
ANA CRELIA PENHA DIAS (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
Rosana Cristina Zanelatto Santos (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul)

RESUMO: Nas últimas décadas, impulsionados substancialmente pela reflexão sobre as literaturas infantil e juvenil, os estudos sobre ensino de literatura se expandiram e se diversificaram, por meio de produções científicas que refletem, sobretudo, sobre o contexto formal de seu ensino na Educação Básica, mas também no Ensino Superior e em contextos extraescolares. Inúmeras têm sido as publicações sobre o tema em periódicos e livros, bem como a organização de pesquisadores em projetos, grupos e linhas de pesquisa que se fazem notar nos eventos da área, por meio de simpósios e correlatos. É neste contexto que se insere a proposta do Simpósio "LITERATURA E ENSINO: Tal Brasil, qual ensino de literatura/educação literária?", promovido pelo Grupo de Trabalho "Literatura e Ensino" da ANPOLL (Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em letras e Linguística), que busca congregar pesquisadores, professores da Educação Básica, professores universitários e acadêmicos de pós-graduação das mais variadas origens, perfis e alinhamentos teóricos a fim de refletir sobre as práticas de leitura literária e sua conversão (ou não) em políticas de leitura literária em diferentes eixos e contextos, escolares ou não. O primeiro eixo visa discutir o binômio “ensino de literatura” e “educação literária”, buscando congregar trabalhos que residam na tensão dialética entre as noções de “educação” e de “ensino” e suas implicações para o campo, tanto do ponto de vista teórico quanto de seu impacto nas práxis. O segundo eixo agrupará trabalhos que se dediquem à revisão (crítica) dos postulados teóricos sobre o ensino de literatura em contexto escolar e suas diversas implicações, tais como: abordagens metodológicas, questões de historiografia e cânone literário, representações de grupos, sujeitos e temas, seleção de textos e autores, tradições vernáculas e estrangeiras e cultura “de massa” e cultura popular. Por fim, o terceiro eixo abrangerá trabalhos que busquem depreender das experiências reflexões aprofundadas sobre o sentido da leitura literária na contemporaneidade, seu papel no cotidiano, sua inserção no ambiente escolar e não-escolar, bem como o mapeamento de diretrizes e estratégias bem-sucedidas (ou não) para a fixação ou diversidade de modelos de ensino e de educação literária. Desta feita, o Simpósio visa a reunir vozes dissonantes sobre o tema “Literatura e Ensino”, colocando em tensão as proposições mais diversas, não com vistas a um discurso totalizante, mas com o anseio de, na diversidade, reunir uma amostra do pensamento e da produção contemporâneas sobre a questão, objetivando fomentar o debate e subsidiar a atuação pedagógica e política do GT Literatura e Ensino. No Simpósio deste ano, buscam-se problematizar como questões de fundo para a promoção do debate os seguintes aspectos ao relacioná-los ao ensino de literatura, no escopo de sua escolarização, e à educação literária: i) a “obsessão” do sistema literário nacional institucionalizado em representar uma ideia de nação unificada para o Brasil, noção essa importada do Romantismo europeu e reverberante na história literária nacional; ii) a atualidade/o vigor/a vigência do que foi observado por Flora Süssekind (1984) em sua obra ao qual o título deste Simpósio faz direta analogia, que observou na tradição literária romanesca brasileira até o Séc. XX uma forte tendência realista-naturalista; iii) a manutenção de uma tensão entre uma ideia de identidade nacional brasileira e a emergência de vozes historicamente minorizadas, a das mulheres, a dos negros, a dos povos originários indígenas, a dos homossexuais, lésbicas e pessoas trans, dentre outras. Em outras palavras, o Simpósio visa discutir criticamente os valores diacronicamente dispostos na história literária brasileira que são veiculados, desestabilizados ou atualizados no horizonte do ensino de literatura, em termos da sua escolarização, por um lado, e, de modo mais abrangente, na educação literária, por outro. As discussões perpassarão a hipótese/polêmica sobre a constituição/construção de uma identidade nacional hegemônica que é importada de valores românticos europeus, mas que parece não se sustentar na dinâmica cultural plurivocal brasileira, ocasionando uma constante convulsão de valores na criação artística/literária que impactam diretamente (n)a ideia de literatura que se (visa a) ensina(r)/educar. Assim, cabe ressaltar que os trabalhos submetidos a este Simpósio devem, explicitamente, se alocar em um dos três eixos acima mencionados, mas não precisam necessariamente se voltar para/focar essa discussão proposta como “pano de fundo”, ou com ela concordar; incentiva-se, no entanto, que, na medida do possível, busquem articular essa polêmica ao debate que promove(re)m.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: SÜSSEKIND, Flora. Tal Brasil, Qual romance? Uma ideologia estética e sua história: o naturalismo. Rio de Janeiro: Achiamé, 1984.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura e Ensino; Educação Literária; Literatura Brasileira; Formação de Leitores; Leitura Literária.

COORDENADORES:
Epaminondas de Matos Magalhães (Instituto Federal de Mato Grosso)
Marinei Almeida (Universidade do Estado de Mato Grosso)
Renata Beatriz B. Rolon (Universidade do Estado do Amazonas)

RESUMO: O simpósio Literatura e outras linguagens em diálogos transdiciplinares: Afrodescendências, Africanidades, Oralidades, Trânsitos e Engajamentos tem por objetivo colocar em debate questões crítico-literárias em torno da produção dos países africanos, com destaque para Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Interessa-nos, também, abrigar estudos que discutam temas da literatura afrodescendente brasileira, evidenciando a sua diversidade. Serão aceitos trabalhos que se debruçam sobre o papel da memória na construção da identidade negra, aqui e no além-mar, considerando a importância dessa memória que “transcende o presente, resgata o passado, desvenda as relações entre Colônia, o Império e a República, lança raízes na África, busca o quilombo e Zumbi, manifesta-se no protesto e na revolta” (IANI, 1988, p.98. Seja nas articulações entre a memória, a história e/ou as experiências individuais e coletivas, na literatura e outras áreas de conhecimentos, leva-se em consideração que o mergulho nesse universo elucida questões que ajudam a fortalecer as lutas contemporâneas dos movimentos sociais de negritude porque descortinam trajetórias de indivíduos e comunidades, servem, portanto, para iluminar reflexões sobre problemas que foram “sistematicamente esquecidos ou varridos para debaixo do tapete” (SAID, 2005, p. 25,26) histórico. Pretende-se, portanto, que o Simpósio abrigue diálogos que envolvam o comparatismo entre as literaturas produzidas em outros espaços africanos, em outras línguas e com a afro-brasileira. Também, serão bem-vindos trabalhos voltados para o comparatismo entre literaturas africanas e afro-brasileiras em diálogo com outras artes como o cinema, o teatro, a dança, a pintura, bem como aqueles que incidam o seu olhar na interdisciplinaridade. Desde os primeiros movimentos na direção da independência política, a literatura produzida no continente africano conquista uma posição de inegável importância para a constituição da ideia de nação, não só pela veemente contestação à empresa colonial (ASHCROFT, GRIFFITHS e TIFFIN, 1989) como também pelos projetos identitários que formulava (MATUSSE, 1993). As décadas que se seguiram à fundação dos estados nacionais, entretanto, foram marcadas por um certo desencanto perante as realidades em curso, seja pela ineficácia das classes dirigentes locais (MBEMBE, 2001), seja pelas pressões da conjuntura internacional, do que resultou o surgimento de imagens distópicas da nação. Em meio a um cenário povoado por rupturas e continuidades de natureza vária, a vinculação entre literatura e a criação da nação, a nível temático e institucional, continua a estar na ordem do dia nas produções do continente. Em se tratando de literaturas desiguais, radicadas em territórios diferenciados entre si a nível histórico e demográfico, cultural e linguístico, social e político, os repertórios afirmam-se pela pluralidade de vozes (escritas e orais) e de itinerários, não só a nível continental como também dentro das próprias fronteiras nacionais. Rupturas, subjetividades, diálogos, sob o foco de diferentes áreas de conhecimento, são motes de numerosas construções literárias e artísticas. Assim, as imagens da nação inscritas por ditas produções ao longo das últimas décadas, bem como, em sentido inverso, a ideia que a literatura ganha no seio de cada uma das nações e, em específico, junto de suas elites políticas, são também marcadas pela heterogeneidade, podendo mesmo tocar opostos, tais como o apoio ou a desconfiança incondicionais. Ao mesmo tempo, estas produções visam diferenciados públicos, consoante a língua em que são escritas (e/ou as orais), coincidindo apenas no fato de que o horizonte de recepção se encontra normalmente distante dos territórios tematizados. O espaço da nação, sob múltiplo olhar, enquanto categoria abstrata, apta a contínuas revisões e mediações, ocupa um lugar complexo e central neste debate. A proposta visa, também, abordar o “questionamento sobre a identidade e a função da literatura nacional pelo filtro da articulação entre sistema textual específico em que se configura e os elementos de recepção que a sustentam e legitimam, de onde não se podem ausentar conceitos como valor, comunidade, instituições culturais e história” (MENDONÇA, 2008). É importante, também, ao refletirmos sobre o momento tão movediço, agressivo e particular que ora não só nos envolve (nos referimos não somente à esfera política nacional, como à essa indescritível calamidade mundial ocasionada pela Pandemia do Covid-19 que atravessa e desestrutura o mundo), como nos move ou deve nos mover, este Simpósio considera a importância do diálogo entre esses diferentes modos de pensamentos, fazeres e subjetividades, como um instrumento fundamental de enfrentamento e de (re)organização do ser frente a esse “ mundo que se despedaça”, para lembrarmos o mote do romance do escritor nigeriano Chinua Achebe (2009). Assim, o Simpósio objetiva promover, portanto, através do comparatismo, as conexões artísticas que possibilitem o acesso ao mundo que se abre à política, à sociologia, à história, à linguística, à antropologia, e às artes em geral, etc. Em face disso, é importante realinharmos textos que captem a realidade particular, transmitam a percepção deste particular a outras esferas e mantenham a excelência na sua realização formal.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ACHEBE, Chinua. O mundo se despedaça. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. ASHCROFT, Bill; GRIFFITHS, Gareth; TIFFIN, Helen. The empire writes back. Theory and practice in post-colonial literatures. Londres; Nova Iorque: Routledge, 1989. IANI, Octavio. Literatura e consciência. Revista de Estudos Brasileiros da USP. São Paulo, 1988. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/rieb/article/view/70034/72674 - Acesso em 16 de abril de 2021. MATUSSE, Gilberto. A construção da imagem da moçambicanidade em José Craveirinha, Mia Couto e Ungulani Ba Ka Khosa. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, 1993. MBEMBE, Aquille. As formas africanas de Auto-Inscrição. Estudos Afro-Asiáticos, ano 23, n. 1, 2001. MENDONÇA, Fátima. Literaturas emergentes, identidade e cânone, in M. C. Ribeiro e M. P. Meneses (orgs.), Moçambique: das palavras escritas. Porto: Afrontamento, 2008. SAID, Edward. Representações do Intelectual. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

PALAVRAS-CHAVE: Literaturas Africanas de Língua Portuguesa; Literatura Afro-Brasileira; Comparatismo; Diálogos transdisciplinares.

COORDENADORES:
João Cesário Leonel Ferreira (Universidade Presbiteriana Mackenzie)
Alex Villas Boas (Universidade Católica Portuguesa)
Marcos Aparecido Lopes (UNICAMP)

RESUMO: No Ocidente contemporâneo, a religião é um fenômeno que constantemente suscita debates acalorados por sua expansão e diversidade nas principais esferas da vida social. Sensíveis ao impacto moral, político e, mais precisamente, às formas de produção das subjetividades modernas e das identidades pessoais e coletivas, as áreas de humanidades (a antropologia, a sociologia, a história em seus diversos matizes, a psicologia, as artes em suas múltiplas linguagens, além da própria ciência da religião) fazem da religiosidade um dos seus focos de pesquisa, construindo no ambiente acadêmico certa acumulação crítica, que se traduz na constância de alguns núcleos temáticos e na estabilidade de um aparato conceitual para a análise do fenômeno (NOGUEIRA, 2015). No século 20, com a suposta autonomia de um campo específico dos estudos literários, alguns críticos e intelectuais se dedicaram à compreensão do fenômeno religioso na sua interface com os diversos gêneros literários (KUSCHEL, 1999; JASPER, 2009; VILLAS BOAS, 2016). Mas, em geral, a regra tem sido um silêncio obsequioso ou, paradoxalmente, uma tolerância à diferença sem a pesquisa vigorosa do que é irredutível e comum aos dois “objetos”. No entanto, é fato que a religião e suas expressões ocupam espaço relevante, tanto na literatura mundial (FRYE, 2004, p. 9-10), quanto nas literaturas de língua portuguesa (GUIMARÃES; LEONEL, 2018). As raízes da própria ideia de literatura, tal como a conhecemos hoje, se encontram interligadas com o sagrado e a religiosidade. Assim, a mélica e a épica gregas, por exemplo, não podem ser plenamente compreendidas, se não considerarmos suas relações com o imaginário religioso em seus contextos originais de produção. Momentos importantes da história da literatura ocidental estabelecem conexões com a religiosidade: os poemas barrocos de Quevedo e Gôngora; o teatro de Shakespeare; a épica tardia de Camões, em Os Lusíadas; a prosa extraordinária de James Joyce; o universo mítico africano recriado por Mia Couto ou os contos sedutores de Jorge Luis Borges são alguns dos exemplos possíveis dessa relação instigante. No caso específico da literatura brasileira, é possível percebermos o diálogo fecundo entre poesia, representação ficcional e religiosidade, que já se inicia entre nós, por exemplo, nas práticas letradas de José de Anchieta e de Gregório de Matos, perpassa o arcadismo, o romantismo (CANDIDO, 2009, p. 227-229) e o realismo, com especial destaque, neste último, para a obra de Machado de Assis (QUEIROZ, 2008). Ao longo dos séculos XX e XXI, a literatura brasileira continuará esse diálogo nas obras de escritores como Jorge de Lima, Augusto Frederico Schmidt, Cecília Meireles, João Guimarães Rosa, Jorge Amado, Ariano Suassuna, Milton Hatoum, Adélia Prado, Hilda Hilst, Conceição Evaristo, entre tantos outros que poderiam ser citados. Considerando, pois, o desafio teórico e crítico para a constituição de um campo interdisciplinar nas relações entre literatura e religião, ou entre literatura e espiritualidade, este Simpósio discutirá as seguintes questões: (1) de que modo se manifesta e como é representada a experiência religiosa nas obras literárias; (2) como se estabelecem as relações intertextuais entre poesia, romance, conto, drama e textos religiosos; (3) como se estabelecem as relações intertextuais entre textos literários de diferentes tradições; (4) em que medida as manifestações poéticas do sagrado são uma reserva semântica para a crítica à modernidade; (5) as políticas de identidade, que discutem raça e gênero, estabelecem que pactos hermenêuticos com a religião e a literatura, (6) que questões teóricas devem ser repensadas para abarcar o estudo desses objetos; (7) como elementos advindos do campo literário, externos às obras, modificam ou condicionam a publicação dessas obras e, por fim, (8) qual o estatuto da memória em textos religiosos e literários. A abordagem proposta não se inscreve diretamente nas áreas de estudos que tratam da religião, seja a teologia ou as ciências da religião, uma vez que elege o tema da religiosidade e investiga sua presença na literatura a partir de teorias e análises próprias ao campo. Todavia, o alcance crítico e especulativo desse campo se amplia e se consolida no diálogo vigoroso com as humanidades. O simpósio Literatura e Religiosidade, que esteve presente nos três últimos congressos da ABRALIC, tem participado efetivamente da identificação e aplicação de referenciais teóricos relevantes para os estudos vinculados a seu campo de pesquisa em contexto nacional. A apresentação de comunicações e o contato entre pesquisadores e pós-graduandos se constituem em fórum estimulante para o desenvolvimento da área.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. FAPESP; Ouro sobre Azul: São Paulo; Rio de Janeiro, 2009. FRYE, Northrop. O código dos códigos: a Bíblia e a literatura. São Paulo: Boitempo, 2004. GUIMARÃES, Alexandre Huady Torres; LEONEL, João (Orgs.). Literatura e religiosidade. São Paulo: Editora Mackenzie, 2018. JASPER, David. The Study of Literature and Religion: An Introduction. 2nd. Ed.Eugene: Wipf and Stock Publishers, 2009. KUSCHEL, Karl-Josef. Os escritores e as escrituras: retratos teológico-literários. São Paulo: Loyola, 1999. NOGUEIRA, Paulo Augusto de Souza (Org.). Religião e linguagem: abordagens teóricas interdisciplinares. São Paulo: Paulus, 2015. QUEIROZ, Maria Eli de. Machado de Assis e a religião. Considerações acerca da alma machadiana. Aparecida (SP): Ideias e Letras, 2008. VILLAS BOAS, Alex. Teologia em diálogo com a literatura: origem e tarefa poética da teologia. São Paulo: Paulus, 2016.

PALAVRAS-CHAVE: Religiosidade; Valor Literário; Teorias Literárias; Interdisciplinaridade; Intertextualidade.

COORDENADORES:
Cássia Dolores Costa Lopes (Universidade Federal da Bahia)
Lisa Carvalho Vasconcellos (Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais)
Sandro Ornellas (Universidade Federal da Bahia)

RESUMO: Esse simpósio abarca discussões sobre a literatura brasileira e as estrangeiras, tendo em vista os seus encontros com outras manifestações artísticas, seja a fotografia (BRIZUELA, 2014), o cinema (VASCONCELOS, 2015), a música (OLIVEIRA, 2002), a pintura (GIL, 2015), as artes plásticas (CASA NOVA, 2008), a dança (GIL, 2005) e o teatro (SARRAZAC, 2013). Nesse encontro múltiplo de saberes e de olhares, consoante as diferentes tessituras das linguagens em seus processos de experimentação e composição textual e discursiva, a escrita literária transita pelo suporte do livro, bem como por campos expandidos, exteriorizando-se e adquirindo variados contornos e configurações (SANTOS, REZENDE, 2011), conforme uma época marcada por intenso desenvolvimento tecnológico, com intensificação de redes informacionais, com o uso constante da Internet, dos computadores, dos celulares, dos tablets, no visível apelo para emergência de outros suportes artísticos, atentos a esse contexto de acelerado incremento técnico e de produção de informação (SANTAELLA, 2002, 2005, 2016). No caso específico da dramaturgia, por exemplo, abre-se espaço de reflexão sobre procedimentos de interseção entre as diversas funções e meios que hoje configuram o campo das práticas dramatúrgicas. Além de sua tradicional associação com as artes cênicas, tais práticas vêm sendo enriquecidas por novas relações entre criadores e receptores, graças à crescente demanda lançada por outros meios audiovisuais, que abrem possibilidades antes insuspeitadas para a experimentação de novos formatos para comunicação das obras dramatúrgicas. Ao mesmo tempo, a complexidade e a rapidez de difusão dessa praxis interpela decisivamente, em inúmeras questões, o conhecimento construído pela tradição teórico-crítica do drama, da literatura e de outras formas de arte (CÍCERO, 2012). Assim, esse simpósio abre-se para pesquisas cujos olhares investigam desde os diversos processos de composição dramática na contemporaneidade – como adaptações de textos, escrita e tradução de peças e roteiros para o palco, TV, vídeo, rádio e cinema – até estudos de teoria, história e crítica do drama e do cinema, no diálogo com artistas pensadores e teóricos das artes na contemporaneidade, considerando a diversidade de interlocuções de vozes sobre o encontro das linguagens artísticas. O quadro das articulações teórico-críticas, debruçadas sobre as composições artísticas contemporâneas, não pode ficar indiferente aos apelos dessa nova pauta de escritores e artistas, com suas invenções e reinvenções de processos criativos, exigindo de seus leitores e interlocutores diferentes aparatos interpretativos, que pedem um olhar sensível ao papel da imagem no seu aspecto multiforme, com a dinâmica do visual, no jogo com diferentes geografias teóricas, atentas às diferentes temporalidades históricas e processos de subjetivação que acabam por fazer do exercício de leitura textual um operador crítico de demandas políticas de nosso tempo, voltadas para diversos sujeitos e vozes que compõem o espaço social. (DIDI-HUBERMAN, 2010, 2013) A prática de leitura dos textos, sejam eles que formato tiverem, exige também uma crítica de valores estéticos, pautados na pesquisa de uma geografia de saberes e de poderes, que coloca o horizonte do artista também inserido numa agenda de reflexão política sobre a sociedade e suas práticas de socialização de seus produtos artísticos. Daí que o simpósio pensa em encontros, por exemplo, como os da literatura de testemunho ou da poesia com a fotografia (SELIGMANN-SILVA, 2014; NAVAS, 2017), da poesia escrita com a imagem cinemática (MARTELO, 2012; ROWLAND, BÉRTOLO, 2015) ou com o livro de artista (CADÔR, 2012), da encenação teatral com a escrita performática (ZUMTHOR, 2007), da polifonia literária com a polifonia musical (GARCIA JUNIOR, 2018), da instalação com a literatura (SANTOS, 2015), dentre outros possíveis trânsitos transdisciplinares. Para tanto, ambiciona-se um olhar comparatista que atribua aproximações e distanciamentos, experimentações e fluxos, indeterminações e zonas cinzentas, arquivos e especulações entre textos, linguagens, gêneros, formas, materialidades, discursos, numa geopolítica dos valores das leituras em face de contextos sociais específicos que reveem paradigmas interpretativos numa abordagem inter e/ou transcultural (JOBIM, 2019). Pretende-se construir, portanto, diálogos artísticos que conjuguem o ético, o poético e o estético, a partir de um mapeamento de questões do pensamento filosófico, político e teórico-crítico. Tal pensamento se assenta em um olhar lançado às realidades contemporâneas como modo de entender as artes em contextos de acelerada circulação de informações, agressivas tramas de sentidos político-culturais e exaustão dos tradicionais lugares de resistência, tudo sob o signo de um capitalismo de crise (COMITÊ INVISÍVEL, 2016, 2017). Pelas experiências teórico-críticas dessas pesquisas sobre o encontro da literatura com outras artes, ambiciona-se não pensar as linguagens artísticas como modulações disciplinares, mas espaços para usos comuns (AGAMBEN, 2007) da literatura, entendida como um campo transversal de instabilidades e potencialidades da arte, da linguagem e do pensamento (DERRIDA, 2014).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: AGAMBEN, Giorgio. Profanações. São Paulo: Boitempo, 2007. BRIZUELA, Natália. Depois da fotografia. Uma literatura fora de si. Rio de Janeiro: Rocco, 2014. CADÔR, Amir Brito. Enciclopedismo em Livros de artista: um manual de construção da Enciclopédia Visual. Belo Horizonte: Escola de Belas Artes da UFMG, 2012. CÍCERO, Antônio. Forma e sentido da poesia contemporâneo. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2012. COMITÊ INVISÍVEL. Aos nossos amigos. Crise e insurreição. São Paulo: N-1, 2016. COMITÊ INVISÍVEL. Motim e destituição agora. São Paulo: N-1, 2017. DERRIDA, Jacques. Essa estranha instituição chamada literatura: uma entrevista com Jacques Derrida. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014. GARCIA JÚNIOR, Pedro Alaim Martins. Processologia: multiplicidade, descentramento e organização em Finnegans Wake, Grande Sertão: Veredas e Galáxias. Salvador: Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia, 2018. GIL, José. O corpo e a dança. São Paulo: Iluminuras, 2005. _______. Poderes da Pintura. Lisboa: Relógio D’Água, 2015. DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Editora 34. 2010. ________. Diante da imagem: Questão colocada aos fins de uma história da arte. São Paulo: Editora 34. 2013. JOBIM, José Luís. Geopolítica da comparação. In: Circulação, tramas e sentidos na literatura. XVI Congresso ABRALIC. Rio de Janeiro: Bonecker, 2019. P. 239-248. MARTELO, Rosa Maria. O cinema da poesia. Lisboa: Documenta, 2012. OLIVEIRA, Solange Ribeiro de. Literatura e música: modulações pós-coloniais. São Paulo: Perspectiva, 2002. ROWLAND, Clara, BÉRTOLO, José (org.). A escrita do cinema: ensaios. Lisboa: Documenta, 2015. SANTAELLA, Lucia et al (Org.). Mídias e artes: o desafio da arte no século XXI. São Paulo: Unimarco, 2002. ________. As ciências normativas (a ética; a estética). In: SANTAELLA, Lúcia. Matrizes da linguagem e pensamento. São Paulo: Iluminuras/FAPESP, 2005. ________. Temas e dilemas do pós-digital: a voz da política. São Paulo: Paulus, 2016. SANTOS, Roberto Corrêa dos, REZENDE, Renato. No contemporâneo. Arte e escritura expandidas. Rio de Janeiro: FAPERJ, Circuito, 2011. SANTOS, Roberto Corrêa dos. Cérebro-ocidente. Arte, escrita, vida, pensamento, clínica, tratos contemporâneos. Rio de Janeiro: FAPERJ, Circuito, 2011. SARRAZAC, Jean-Pierre. Sobre a fábula e o desvio. Rio de Janeiro: 7 Letras: Teatro pequeno gesto. 2013. ______ (Org.) Léxico do drama moderno e contemporâneo. São Paulo: Cosac Naify, 2012. SELIGMANN-SILVA, Marcio. Imagens precárias: inscrições tênues de violência ditatorial no Brasil. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea. No.43, Brasília: UnB, Jan./Jun. 2014. VASCONCELOS, Maurício Salles. Jean Luc Godard: histórias da literatura. Belo Horizonte: Relicário, 2016. ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

PALAVRAS-CHAVE: Estudos Interartes e de Intermidialidades; Diálogos; Transdisciplinaridade; Literatura Comparada.

COORDENADORES:
Vinícius Carvalho Pereira (Universidade Federal de Mato Grosso)
Andréa Catrópa da Silva (Universidade Anhembi Morumbi)
Rejane Cristina Rocha (Universidade Federal de São Carlos)

RESUMO: Debates sobre literatura e tecnologia têm crescido em todo o mundo, ainda que mais lentamente no Brasil do que no Hemisfério Norte ou em outros países latino-americanos. A longa história da aproximação entre esses dois campos do saber já foi retraçada em publicações acadêmicas sobre o tema, as quais retomam a ambiguidade do termo tékhne no pensamento aristotélico, que designa o artificial ou técnico em oposição à physis. É comum que os primeiros gêneros elencados como significativos dessa ambiguidade sejam as narrativas utópicas ou distópicas sobre a relação homem-máquina, produzidas desde o Renascimento. Posteriormente a ficção científica passa a se destacar nesse âmbito, especialmente nos sistemas literários inglês e estadunidense a partir do século XIX. A discussão das imbricações entre literatura e tecnologia pode – entre tantos outros percursos distintos – partir dessa literatura sobre a máquina para uma análise da literatura como máquina, no que ganham destaque os movimentos de vanguarda e neovanguarda do século XX, como a escrita automática surrealista, os jogos tipográficos concretistas, ou a linguagem como potência algorítmica do grupo Oulipo. Sob a superfície variada desses experimentalismos, observa-se um vetor comum que aproxima a arte verbal de uma certa engenharia da palavra, em associação ou não com a imagem, favorecendo projetos artísticos de rigor formalista ou algebrismos insuspeitos. As relações entre a literatura e a tecnologia podem, ainda, ser mapeadas a partir dos suportes em que os signos são produzidos, circulados ou consumidos. Nesse âmbito, observa-se a evolução das materialidades da literatura – com destaque para a invenção do livro – para os processos de escritura com ou para os aparatos eletro-eletrônicos, nos séculos XX e XXI, sejam as máquinas de escrever elétricas, os softwares editores de texto, ou os dispositivos digitais de leitura (e-readers), entre tantos outros que vêm se multiplicando nos últimos anos. Ainda nesse contexto, cumpre destacar o espaço crescente da “literatura eletrônica”, “literatura cibernética/ciberliteratura” ou “literatura digital”. Muito embora se reconheça que cada um desses adjetivos atrelados ao substantivo “literatura” denota a especificidade do campo por uma associação particular (respectivamente, ao eletrônico, em oposição ao elétrico; ao cibernético, por referência à comunicação entre máquinas; e ao digital, em oposição ao analógico), o conjunto de obras recobertas pelos três termos é praticamente o mesmo, o que justifica seu uso intercambiável neste contexto. Para fins de clareza, pode-se utilizar, porém, a definição de literatura eletrônica postulada pela Electronic Literature Organization (maior grupo mundial de estudos sobre o tema): textos que contêm “um aspecto literário importante que aproveita as capacidades e contextos fornecidos por um computador independente ou em rede” (HAYLES, 2009, p. 21). Ou, ainda, recorrer à definição proposta por Carolina Gainza (2021), que compreende a literatura digital como aquela que experimenta com o código ou com a mídia digitais, referindo-se não apenas a obras construídas pela programação de softwares e linguagens de programação, mas também àquelas produzidas pelo aproveitamento criativo de redes sociais e plataformas de comunicação, em um movimento descrito por Arlindo Machado (2007) como "desprogramação da técnica”. Há que se destacar, por fim, que nenhum dos eventos que pontuam a história das associações entre literatura e tecnologia pode ser compreendido de forma dissociada dos fenômenos sociais, políticos e econômicos da modernidade e da contemporaneidade. Devem, pois, ser entendidos como parte de um processo maior de mudança social, e não como produto de um determinismo tecnológico ou estético, o qual alienaria o código de sua função precípua: a expressão humana. É o que postulam estudos e desenvolvidos por estudiosos oriundos de países periféricos no que tange ao desenvolvimento tecnológico, como é o caso de Kozak (2013, 2019) e Gainza (2018), por exemplo. Nesse contexto, propomos o presente simpósio, já em sua segunda edição, com vistas a congregar estudos sobre as relações que podem ser estabelecidas entre os campos da literatura e da tecnologia, atentando para os pontos mencionados ao longo deste resumo, ou para outros que possam se mostrar pertinentes à temática. Nosso objetivo é fomentar e ampliar as discussões sobre o campo, relevante não só pelo rendimento estético dos produtos literários que o integram, mas também pelas provocações que coloca, sobretudo no que diz respeito às definições de escrita, texto, autoria, leitura – isto é, alguns dos pilares sobre os quais se assenta o entendimento do fenômeno literário.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: GAINZA, C. Narrativas y poéticas digitales en América Latina Producción literaria en el capitalismo informacional. México/Santiago: Centro de Cultura Digital/Editorial Cuarto Própio, 2018. GAINZA, C. Nuevos escenarios literarios: hacia una cartografía de la literatura digital latinoamericana. In: MÜLLER, G.; GUERRERO, GUSTAVO; LOY, BENJAMIN (Eds.). World editors: Dynamics of Global Publishing and the Latin American Case between the Archive and the Digital Age. Berlim/Boston: De Gruyter, 2021. p. 331–349. HAYLES, K. Literatura eletro?nica: novos horizontes para o litera?rio. Sa?o Paulo: Global, 2009. KOZAK, C. Del modo de existencia de los objetos técnico-literarios. Pequeño diccionario personal ilustrado de literatura digital. In: GERBAUDO, A.; PRÓSPERI, G.; TOSTI, I. (Eds.). IX Argentino de Literatura. Santa Fé: Universidad Nacional del Litoral, 2013. ___. Poéticas/políticas de la materialidad en la poesía digital Latinoamericana. Perífrasis. Revista de Literatura, Teoría y Crítica, v. 10, n. 20, p. 71–93, 2019. MACHADO, A. Arte e Mídia. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura e tecnologia; Máquina; Experimentalismos; Materialidades; Códigos.

COORDENADORES:
Marcelo Ferraz de Paula (UFG/CNPq)
WILBERTH SALGUEIRO (UFES/CNPq)
Marcelo Paiva de Souza (UFPR/CNPq)

RESUMO: Contemporaneamente, a noção de testemunho vincula-se à chamada “literatura do Holocausto”, como a narrativa de Primo Levi e a poesia de Paul Celan, por exemplo, mas também à literatura eslava – polonesa e russa, em especial – sobre o Gulag, como as obras de Gustaw Herling-Grudzi?ski e Varlam Chalámov, entre outros. Na América Latina, destaca-se um amplo e variado conjunto de textos voltados à memória e à denúncia de fatos reveladores do viés autoritário, discriminatório e excludente de nossas sociedades, abrangendo desde Graciliano Ramos e Rigoberta Menchú a Ferréz, desde Miguel Barnet aos Racionais MC’s. A proposta do simpósio é estudar as relações entre literatura e testemunho, a partir de alguns traços e textos que caracterizam este “gênero”, como, por exemplo: registro em primeira pessoa; compromisso com a verdade e a lembrança; desejo de justiça; vontade de resistência; valor ético sobre o valor estético; representação de um evento coletivo; forte presença do trauma; vínculo estreito com a história; etc. A ideia é, portanto, “manter um conceito aberto da noção de testemunha: não só aquele que viveu um ‘martírio’ pode testemunhar” (SELIGMANN-SILVA, 2003, p. 48), entendendo, assim, que “testemunha também seria aquele que não vai embora, que consegue ouvir a narração insuportável do outro e que aceita que suas palavras levem adiante, como num revezamento, a história do outro” (GAGNEBIN, 2006, p. 57). Pensar o que há de testemunho na literatura significa, a um só tempo, pensar as intrincadíssimas teias entre verdade e ficção, entre ética e estética, entre história e forma. Percebe-se que a existência da “literatura de testemunho”, na sua salutar diversidade conceitual, promove um inevitável abalo na noção de cânone e de valor literário, além de alterar o quadro dos agentes ou produtores de literatura: textos e registros de presos, torturados, crianças de rua, favelados, empregados domésticos, prostitutas, sem-teto, povos tradicionais, enfim, todo um grupo “subalternizado” depõe e se expõe não só em nome próprio, mas também em nome de muitos. Nesse sentido, é preciso destacar que “o estudo do testemunho articula estética e ética como campos indissociáveis de pensamento. O problema do valor do texto, da relevância da escrita, não se insere em um campo de autonomia da arte, mas é lançado no âmbito abrangente da discussão de direitos civis, em que a escrita é vista como enunciação posicionada em um campo social marcado por conflitos, em que a imagem da alteridade pode ser constantemente colocada em questão” (GINZBURG, 2012, p. 52). O Simpósio pretende reunir, em suma, pesquisadores interessados na problemática do testemunho e suas relações com o literário, apresentando [a] estudos teóricos que discutam os limites e as confluências entre estes discursos (o literário, tradicionalmente ligado à estética; e o testemunho, produzido a partir de um propósito primordialmente ético) e mormente [b] estudos que analisem obras específicas que exemplifiquem ou provoquem tais relações – quer obras já consagradas nesta perspectiva do testemunho, quer obras menos conhecidas ou mesmo não analisadas à luz do paradigma testemunhal. No XII Congresso Internacional da Abralic, ocorrido em 2011, em Curitiba, este Simpósio teve a sua primeira edição. Desde então mantém sua regularidade nos congressos da Abralic: teve a sua segunda edição em 2013, em Campina Grande; a terceira em 2015, em Belém; a quarta em 2017, no Rio de Janeiro; a quinta em Uberlândia, em 2018; a sexta em Brasília, em 2019; e a sétima na versão online de 2020. Nestes encontros, além de questões eminentemente teóricas, o debate envolveu nomes como Alan Pauls, Alex Polari, Ana Maria Gonçalves, Art Spiegelman, Bernardo Élis, Bernardo Kucinski, Boris Schnaiderman, Cacaso, Caio Fernando Abreu, Carlo Levi, Carlos Drummond de Andrade, Carolina Maria de Jesus, Clarice Lispector, Conceição Evaristo, Chico Buarque, Czes?aw Mi?osz, Davi Kopenawa & Bruce Albert, Eduardo Galeano, Eliane Potiguara, Elie Wiesel, Elisa Lucinda, Ferréz, Franz Kafka, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, João Antônio, Kaka Werá Jecupé, Lídia Tchukóvskaia, Lima Barreto, Luis Fernando Verissimo, Luiz Alberto Mendes, Manuel Alegre, Mario Benedetti, Miron Bia?oszewski, Noemi Jaffe, Paulo Ferraz, Paulo Leminski, Paulo Lins, Pedro Tierra, Primo Levi, Racionais MC’s, Reinaldo Arenas, Renato Tapajós, Ricardo Aleixo, Roberto Bolaño, Ruth Klüger, Sérgio Sampaio, Sérgio Vaz, Stefan Otwinowski, Svetlana Aleksiévitch, Ungulani Ba Ka, W?adys?aw Szlengel e W. G. Sebald. A ideia é estender o debate, seja em relação a estes nomes, como, naturalmente, incorporar outros autores e textos em que o problema da literatura e do testemunho se deixe perquirir. REFERÊNCIAS: GAGNEBIN, Jeanne Marie. Memória, história, testemunho. Lembrar, escrever, esquecer. São Paulo: Ed. 34, 2006, p. 49-57. GINZBURG, Jaime. Linguagem e trauma na escrita do testemunho. Crítica em tempos de violência. São Paulo: Edusp, Fapesp, 2012, p. 52. SELIGMANN-SILVA, Márcio. Apresentação da questão. História, memória, literatura: o testemunho na era das catástrofes. SELIGMANN-SILVA, Márcio (org.). Campinas: Editora da Unicamp, 2003, p. 45-58.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: GAGNEBIN, Jeanne Marie. Memória, história, testemunho. Lembrar, escrever, esquecer. São Paulo: Ed. 34, 2006, p. 49-57. GINZBURG, Jaime. Linguagem e trauma na escrita do testemunho. Crítica em tempos de violência. São Paulo: Edusp, Fapesp, 2012, p. 52. SELIGMANN-SILVA, Márcio. Apresentação da questão. História, memória, literatura: o testemunho na era das catástrofes. SELIGMANN-SILVA, Márcio (org.). Campinas: Editora

PALAVRAS-CHAVE: Testemunho. Literatura. História. Memória. Trauma.

COORDENADORES:
Eliane Aparecida Galvão Ribeiro Ferreira (Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" - UNESP)
Diana Navas (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC)
DIÓGENES BUENOS AIRES DE CARVALHO (Universidade Estadual do Piauí- UESPI)

RESUMO: A produção literária brasileira para crianças e jovens, na atualidade, apresenta um volume de lançamentos muito representativo no mercado editorial, o que representa a força dessa literatura no âmbito do campo literário, na perspectiva de Pierre Bourdieu (cf. A Economia das Trocas Simbólicas. Trad. Sérgio Miceli et al. Introdução Sérgio Miceli. São Paulo: Perspectiva, 1992; cf. As Regras da Arte: Gênese e Estrutura do Campo Literário. Trad. Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1996; cf. O Poder Simbólico. Trad. Fernando Tomaz. 2.ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998 ), bem como a constituição de um habitus que a conforma como um subcampo, o da literatura infantil e juvenil. A partir desse locus, tal produção está cercada de diferentes agentes sociais e culturais, tais como a família, a escola, a editora, a livraria, a biblioteca, que a legitimam, a colocam em circulação, e propiciam o diálogo entre autor, obra e leitor, configurando um sistema literário, na acepção de Antonio Candido (cf. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. Belo Horizonte: Itatiaia, 1993. v.2), que teve como origem o projeto editorial de Monteiro Lobato, na década de 1920, com a publicação da obra "Reinações de Narizinho", direcionada inicialmente para o público escolar. Seus sucessores, como Ruth Rocha, Marina Colasanti, Lygia Bojunga Nunes, Ana Maria Machado, Roger Mello, entre outros, ajudaram a consolidar esse sistema. Entre esses escritores, muitos romperam fronteiras com sua produção literária e foram reconhecidos com o Prêmio Hans Cristhian Andersen, considerado o Nobel da literatura infantil e juvenil. Nesse circuito literário ocorre uma efervescência de vozes que resulta numa polifonia, consoante aos estudos de Mikhail Bakthin (cf. Problemas da poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1981), que conferem sustentação a uma multiplicidade de experiências literárias a partir dos diferentes aspectos em torno da criação e da recepção literárias. Isso implica em experimentações artísticas cada vez mais sofisticadas, que desafiam tanto o autor no seu fazer literário, quanto o leitor no ato da leitura. Por conseguinte, essa produção apresenta textualidades que rompem barreiras linguísticas, estilísticas, e temáticas em que: a) o continuum oralidade e escrita propicia o transito entre tais modalidades da língua, b) as experimentações linguísticas revelam diferentes estilos de composição poética e narrativa, c) não há mais assunto que não possa ser abordado, desde os mais corriqueiros aos mais polêmicos, pois tudo pode ser dialogado com o leitor infantil e juvenil, d) a materialidade da obra significa. Muitas dessas obras inovadoras quanto ao projeto gráfico-editorial também exploram a diversidade de linguagens (verbal, visual, sonora) em suportes impressos e virtuais, que exigem do leitor um domínio de tais linguagens, visto que ocorre uma simultaneidade dessas modalidades de linguagem que desafiam a uma produção coerente de efeitos de sentidos por parte do receptor. Diante desse contexto, o presente simpósio pretende colocar em pauta uma discussão que envolve tanto o processo de criação quanto de recepção, haja vista que as experiências literárias envolvem especificidades e particularidades engendradas pelo autor no seu fazer literário, que parece ser para os menos avisados um processo solitário, quando, na verdade, giram em torno dele um conjunto de atores como editores, revisores, tradutores e ilustradores que, igualmente, interferem no produto final, o livro. No que tange à questão da autoria, tem-se uma situação em que esta não é definida apenas pelo trabalho do autor do texto verbal, mas também do autor do texto imagético e do tradutor, que nem sempre é a mesma pessoa, muito embora tenhamos exemplos de sujeitos que assumem a dupla autoria, como Roger Mello e André Neves. Essa múltipla autoria é, conforme Roger Chartier (cf. As revoluções da leitura no ocidente. In: ABREU, Márcia (Org.). Leitura, história e história da leitura. Campinas: Mercado de Letras, 1999 ), percebida na produção literária eletrônica, já que exige uma vasta infraestrutura tecnológica e humana para materializar o literário numa perspectiva virtual, logo a textualidade que essa literatura digital propicia é marcada pela hipertextualidade e pela hipermídia, a exemplo das criações digitais de Angela Lago e Sérgio Capparelli. Além disso, acarreta mudanças no processo de recepção, que, inicialmente, segue um percurso linear, para, posteriormente, seguir um percurso não linear, quebrando, assim, a lógica tradicional da leitura do texto literário. É um repensar do papel do leitor diante dessas novas textualidades, que exigem dele novas competências e habilidades para navegar por espaços movediços e virtuais, assumindo a posição de leitor imersivo, de acordo com Lúcia Santaella (cf. Navegar no Ciberespaço: o perfil cognitivo do leitor imersivo. São Paulo, Paulos, 2004).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1981. BOURDIEU, Pierre. A Economia das Trocas Simbólicas. Trad. Sérgio Miceli et al. Introdução Sérgio Miceli. São Paulo: Perspectiva, 1992. ______. As Regras da Arte: Gênese e Estrutura do Campo Literário. Trad. Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. ______. O Poder Simbólico. Trad. Fernando Tomaz. 2.ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998. CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. Belo Horizonte: Itatiaia, 1993. v.2 CHARTIER, Roger. As revoluções da leitura no ocidente. In: ABREU, Márcia (Org.). Leitura, história e história da leitura. Campinas: Mercado de Letras, 1999. SANTAELLA, Lúcia. Navegar no Ciberespaço: o perfil cognitivo do leitor imersivo. São Paulo, Paulos, 2004.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura infantil e juvenil contemporânea; Formação de leitores; Campo literário.

COORDENADORES:
Regina Silva Michelli Perim (UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro)
Beatriz dos Santos Feres (UFF - UNiversidade Federal Fluminense)
Nataniel dos Santos Gomes (UEMS - Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul)

RESUMO: A Literatura potencialmente destinada a crianças e jovens ocupa um espaço de investigação que permite ações multidisciplinares. A área é privilegiada por reflexões críticas que emergem de diferentes aspectos do conhecimento humano, abrangendo os estudos literários e linguísticos, a psicologia, a história, a antropologia, as artes visuais, etc. De certa forma, o objeto de estudo também se apresenta múltiplo em sua configuração, acionando diferentes linguagens imagéticas, verbais e não verbais, que permeiam a literária e seus recursos poéticos, linguísticos, semióticos. Destinadas a crianças e jovens, sem se limitarem a esse público, há produções que abrangem gêneros literários e artísticos diversos, como a poesia, a narrativa, o teatro, o livro de imagens, as ilustrações e o design, a história em quadrinhos, a animação, os filmes cinematográficos ou em séries televisas, os livros digitais, estabelecendo diálogos com as artes plásticas, a música, o teatro, o cinema, as multimídias. As interlocuções estabelecidas com os diferentes campos do saber no estudo da Literatura Infantil/ Juvenil, bem como a perspectiva de observar as linguagens que circulam nos textos dessa literatura não só enriquecem as discussões, como atestam a abertura do gênero a variadas possibilidades de estudo. A literatura Infantil/Juvenil abrange ainda questões referentes a seus processos de produção, circulação, recepção, envolvendo vários agentes sociais e culturais, numa trama de conexões importantes em que atuam família, escola, biblioteca, editoria (com editores, revisores, tradutores, artistas plásticos, designers, ilustradores), mercado editorial, livraria. Se por vezes esses agentes legitimam e promovem a circulação das obras, outras vezes observam-se a restrição e a imposição de padrões ideológicos tentando balizar a Literatura Infantil/Juvenil, ameaçada por leituras unívocas que tentam afastá-la da multifacetada experiência literária, capaz de ensejar diferentes vozes e pontos de vista no ato da leitura crítica, lembrando a polifonia sustentada por Bakthin (1981). Destacam-se ainda, nestas questões, a mediação na formação do leitor literário, as releituras e as adaptações aos textos, a focalização de temas sensíveis, “fraturantes” (RAMOS, 2010), as imposições do mercado, os projetos de entidades governamentais, a reação nas mídias sociais. O homem se compreende por meio da narrativa. A ação de contar e ouvir histórias, além do prazer que pode proporcionar a contadores e ouvintes, cumpre a função de permitir que o ser humano organize seu mundo interno e compreenda o contexto que o cerca. Não existe povo que não tenha gosto por histórias, seja criando ou se apropriando de uma para acrescentar-lhe detalhes, retirar alguns, trocar por outros. Os contos maravilhosos ou de fadas metamorfosearam em novas histórias, recontadas por diferentes escritores ao longo dos tempos, atestando a vitalidade do gênero. Ao fazerem isso, não apenas criam contos instigantes, que exigem conhecimentos prévios de seus leitores ao estabelecer diálogos intertextuais, como renovam os anteriores, de forma que Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, Rapunzel, o Pequeno Polegar, lobos, porquinhos e tantas outras personagens continuam transitando pelo nosso universo cultural. Todo texto literário é atravessado, de forma clara ou velada, por outros textos que o precederam ou lhe são contemporâneos: tem-se a noção de que cada texto constitui uma tessitura urdida por um conjunto de vozes e notas diversas, uma multivocidade, caracterizando o discurso literário como essencialmente dialógico e polifônico constituindo uma textualidade própria formada por essa rede de textos que não reclamam originalidade, hierarquia ou um espaço próprio, mas um olhar atento de análise e crítica. Avulta, por vezes, a apropriação de narrativas literárias da tradição e o processo de adaptação/recriação que as envolve nesse diálogo intertextual, gerador de novas obras, impressas ou publicadas em outras linguagens e mídias, geralmente reelaborando estereótipos e representações sociais. O olhar a esse corpus ficcional para crianças e jovens não se restringe especificamente ao diálogo com a tradição e releituras contemporâneas, alargando-se a novas produções. A pesquisadora Teresa Colomer, em Introdução à literatura infantil e juvenil atual, atenta para a diversidade de tendências literárias e artísticas que delineiam a literatura infantil/juvenil contemporânea, como a narrativa psicológica, a renovação do folclore e a “fantasia moderna”, as formas audiovisuais da narrativa, a utilização de recursos narrativos pós-modernos, além da ampliação do destinatário a novas idades, a criação de novos tipos de livros e novas formas de ficção. Emergem estratégias discursivas e hipermidiáticas que exigem novas habilidades e competências de leitura. Assim, o objetivo do simpósio é agregar pesquisadores em torno da literatura infantil e juvenil, perspectivando aspectos pertinentes a esse campo, visitado por diferentes teorias multidisciplinares e propiciador de variada produção, de um ponto de vista teórico, voltado a abordagens que incluem reflexões teóricas, leituras críticas e práticas docentes.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1981. COLOMER, Teresa. Introdução à literatura infantil e juvenil atual. São Paulo: Global, 2017. RAMOS, Ana Margarida. Tendências contemporâneas da literatura portuguesa para a infância e juventude. Porto: Tropelias & Companhia, 2012.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura infantil/juvenil; Múltiplas linguagens; Reflexões teóricas; Leituras críticas; Práticas docentes.

COORDENADORES:
Gabriela Silva (Universidade Federal de Lavras, UFLA, MG)
Ilse Maria da Rosa Vivian (Universidade Federal de Santa Maria- UFSM)
Tainara Quintana da Cunha (Universidade Federal do Rio Grande- FURG)

RESUMO: O simpósio Literatura portuguesa: perspectivas estético-culturais contemporâneas contempla a literatura portuguesa a partir da diversidade de vozes que emergem no Portugal contemporâneo, considerando, conforme afirma Eduardo Lourenço (2001, p.16), que “a contemporaneidade de Portugal, em particular na sua expressão cultural, a sua atualidade ou as raízes dela começaram precisamente com a Revolução de Abril”. Com a alteração do antigo contexto, que dilacerava-se em opções ideológicas conflitivas mas interligadas pelo primado ideológico, a paisagem cultural portuguesa modificou-se. Após um movimento de expressiva produção literária que, rejeitando o passado, ambicionou as representações afastadas de qualquer temporalidade, “uma geração nem obcecada, nem afetada, mesmo a título de melancolia, pelo sentido da história e que vai refazer, por sua conta, como quem joga, todo o passado como se fosse presente” (LOURENÇO, 2001, p.18), o cenário literário português caracteriza-se por estabelecer outros modos de relações com a história. A nova cultura portuguesa, multiforme, desierarquizada, que toma sua configuração nos anos 80, constitui-se, no plano literário, pelas construções que, com proximidade ou distanciamento, questionam a representação dos temas históricos e as questões identitárias, trazendo à pauta a concepção do sujeito português. Nasce uma literatura que busca a revisitação de seus temas, deslocamento que se expressa, para além da permanente reavaliação histórica, a partir das novas vozes erigidas como contraponto e sustenção das representações do passado e seu diálogo com o presente. No pós-colonialismo, considerando que “a perspectiva pós-colonial parte da ideia de que, a partir das margens ou das periferias, as estruturas de poder e de saber são mais visíveis” (SANTOS, 2010, p.26), pensar a literatura portuguesa contemporânea demanda perceber a construção literária como constitutiva, atuante de forma ativa e/ou passiva, dos processos culturais ocorridos desde o último quartel do século XX, cujas geopolíticas engendram a flexibilização das fronteiras epistemológicas e, consequentemente, uma nova consciência, a qual desloca-se e reavalia-se em relação a si mesma e a sua própria cultura. A observação e análise das transformações identitárias torna-se relevante na medida em que se pode, pelo desvelamento de suas figurativizações, discutir e repensar as especificidades de enunciações que confrontam os espaços discursivos de colonizadores e de colonizados, pois, assim como afirma Boaventura de Sousa Santos (2010, p.41), “nas lutas anticoloniais houve solidariedades e cumplicidades importantes entre os que lutavam nas colónias e os que lutavam na ‘metrópole’ e também essas solidariedades e suas evoluções estão por avaliar.” Nesse recorte temporal, as representações têm sido demarcadas e estudadas sob diversos enfoques, evidenciando, ao mesmo tempo, a diversidade, a singularidade e a pluralidade como componentes da construção poética da literatura portuguesa. A literatura atual, por um lado, tem potencializado o real, transgredindo a temporalidade e permitindo analogias, intertextualidades e outras maneiras de integração entre momentos históricos e condições do sujeito nas suas relações com os diferentes contextos contemporâneos; por outro, embora tenha desaparecido o antigo reflexo ressentido da literatura com o seu passado, há uma vasta produção que manifesta, pelas indiferenças com a história e seu diálogo com os problemas culturais do presente, a revitalização de um imaginário de dimensão coletiva. É justamente a dinâmica dessas representações, seus enquadramentos e perspectivas que se objetiva iluminar nos espaços do presente Simpósio, bem como as variadadas formas de contato e diálogos entre as obras. É primordial, portanto, a discussão e a apresentação dessa literatura, considerando as condições multifacetadas de um cenário em que convivem a consciência da utopia cultural em relação às novas ordens mundiais e as necessidades de fixação das especificidades que motivam novos estatutos culturais. A literatura portuguesa contemporânea, sem dúvida, cresce, com os diversos pontos de vista, cujos olhares põem em questão a cristalização de ideários, discutindo a gestão e a vivência cultural que fomentou determinadas hegemonias e que, ainda hoje, incidem sobre a constituição das identidades. Das perspectivas da intertextualidade, do cânone, da experimentação e do comparatismo, esse simpósio recebe propostas de comunicação que visem à discussão e à atualização de temas na literatura produzida em Portugal da segunda metade do século XX ao século XXI. No âmbito de pesquisas concernentes ao universo da ficção contemporânea que compreende deslocamentos de estruturas, memórias, paródias e/ou revisitações de temas já conhecidos, além de estudos sobre poéticas, vertentes, vozes, percepções do sujeito e temáticas voltadas para a compreensão da realidade histórica contemporânea, são também aceitas propostas de comparação com obras de épocas anteriores, bem como trabalhos que incidam sobre as relações estabelecidas entre a obra literária e outros objetos culturais artísticos, como o teatro e o cinema e/ou outras manifestações artísticas que integram e dialogam com a literatura e que compõem o seu campo de conhecimento.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: SANTOS, Boaventura de Sousa. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. V.4. Porto: Edições Afrontamento, 2010. LOURENÇO, Eduardo. A nau de Ícaro e Imagem e miragem da lusofonia. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

PALAVRAS-CHAVE: : literatura portuguesa; contemporâneo; pós-colonialismo; identidades

COORDENADORES:
Lilian Cristina Barata Pereira Nascimento (Universidade Federal do Pará)
Marie Helene Catherine Torres (Universidade Federal de Santa Catarina)
Joaquim Martins Cancela Júnior (Universidade Federal do Pará)

RESUMO: Apresentada e representada em vários tempos e espaços, a gigantesca Hileia, como foi chamada a floresta amazônica pelo naturalista alemão Alexander von Humboldt (1769-1859), sempre foi tema de muitas obras literárias (escrita por estrangeiros e nativos), difundidas em vários gêneros da poética literária (HARDMAN, 2009). Desde as mais remotas crônicas dos viajantes europeus do século XVI às atuais produções, a Amazônia é, na maioria das vezes, a descrição do fascínio pela exuberância da fauna e da flora, da intensa irradiação solar, das chuvas torrenciais e dos colossais rios que, no geral, marcam a presença desse espaço e a construção do seu discurso (PIZARRO, 2012). Considerando a riqueza de diversidade das identidades amazônicas que marcam as obras literárias, o interesse principal desse simpósio é oferecer visibilidade às essas obras literárias traduzidas para várias línguas, sejam de qualquer origem, para fazê-las circular não só no Brasil, mas também em outros países, uma forma de compreender um pouco mais sobre a cultura Pan-amazônica, na medida em que amplia o horizonte de perspectiva sobre a região afora dos limites nacionais e/ou culturais, já que além das muitas línguas indígenas, também as línguas espanhola, portuguesa, inglesa, francesa e neerlandesa são faladas na grande região. E as traduções dessas poéticas amazônicas muitas vezes só se interessam (e reforçam) os estereótipos já cristalizados sobre a referida região, principalmente a partir da visão de estrangeiros. Há dois grandes movimentos neste processo sobre o estudo em particular das traduções em várias línguas das obras literárias amazônicas: uma é de produzir massa crítica e informativa sobre aspectos novos da grande região e o outro é de se aproximar de um movimento mais geral de tradução unida à tradução ética ou d’a letra (BERMAN, 2013) a partir de traduções inéditas ou retraduções de obras esquecidas no tempo. Por exemplo, a literatura amazônica é cada vez mais traduzida na França. De fato, a representação da Amazônia na literatura, seja no imaginário não somente francês, seja em outras culturas, sempre seduziu os leitores, conforme relatos de viagens de estrangeiros na Amazônia através dos tempos, alguns recentemente publicados em tradução no Brasil na revista “Cadernos de Tradução: Traduzindo a Amazônia” em 2021. Os autores mais traduzidos em francês são o belenense Edyr Augusto e os manauenses Márcio Souza e Milton Hatoum, e no mundo hispanófono é a obra La Vorágine (1924), de José Eustasio Rivera, que foi traduzida para vários idiomas: inglês em 1928, francês em 1930, russo em 1925, português em 1935, além de alemão, italiano, japonês e polonês. Ainda Daniel Munduruku que recebeu prestigiosos prêmios como o Jabuti ou o Prêmio Tolerância da UNESCO para suas obras infanto-juvenis, e não demorará a ser traduzido para o francês, pois já tem traduções para o inglês e alemão. Além do projeto LETRADUSO/UFPA em parceria com a Casa de Cultura Dalcídio Jurandir, em traduzir o livro Chove nos Campos de Cachoeira (1941) para o inglês e espanhol em 2022. A literatura na e sobre a Amazônia é apreendida aqui a partir da teoria da ecotradução, termo criado em português a partir do inglês ecotranslation e do francês éco-traduction por Torres (2021), fazendo referência a todas as formas de pensamento e prática de tradução que se envolvem conscientemente nos desafios da mudança do meio ambiente induzida pelo homem (CRONIN, 2017). Ainda à luz da ecoliteratura, a ecotradução concerne aos textos literários que traz de uma forma ou de outra a natureza como tema, personagem, reflexão e que apreende a tradução da relação entre a natureza e a literatura em diversos contextos culturais e examina em que medida a ficção e/ou a poesia deram um lugar essencial à natureza e às relações antrópicas com o meio ambiente. Portanto, visando ampliar estudos sobre a tradução na e sobre a Amazônia, são bem-vindas comunicações sobre: literatura de autores amazônicos traduzidas em qualquer língua-cultura; tradução comentada de textos literários sobre a Amazônia em outra língua-cultura como relato de viagem; depoimento de autores amazônicos ou de tradutores de obras na ou sobre a Amazônia; tradução e poder da Amazônia na circulação da literatura brasileira; recepção de um autor amazônico específico em tradução em outra cultura; impacto das traduções de autores amazônicos na formação do cânone literário nacional e na formação da identidade nacional; além de retradução de literatura amazônica.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BERMAN, Antoine. A tradução e a letra ou o albergue do longínquo. Tradução de Marie-Hélène C. Torres, Mauri Furlan e Andréia Guerini. 2ª ed. Florianópolis: PGET/UFSC, 2013. CRONIN, Michael. Eco-Translation: Translation and Ecology in the Age of the Anthropocene. London: Routledge, 2017. HARDMAN, Francisco Foot. A vingança da Hileia. Euclides da Cunha, a Amazônia e a literatura moderna. São Paulo: Editora UNESP, 2009. JURANDIR, Dalcídio. Chove nos campos de Cachoeira. Rio de Janeiro: Vecchi, 1941. PIZARRO, Ana. Amazônia: as vozes do rio. Trad. Rômulo Monte Alto. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2012. RIVERA, José Eustasio. La vorágine. Caracas: Biblioteca de Ayacucho, 1976. Disponível em: <http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/se/20190904030113/La_voragine_Jose_Eustasio_Rivera.pdf>. Acesso em: 17/03/2021. TORRES, Marie-Hélène. Nota da Tradutora. In: Cadernos de Tradução Traduzindo a Amazônia. Florianópolis: PGET, 2021 (no prelo).

PALAVRAS-CHAVE: ESTUDOS DA TRADUÇÃO; LITERATURA AMAZÔNICA TRADUZIDA; TRADUÇÃO COMENTADA; RETRADUÇÃO.

COORDENADORES:
Samuel Anderson de Oliveira Lima (Universidade Federal do Rio Grande do Norte)
Leila Maria de Araújo Tabosa (Universidade do Estado do Rio Grande do Norte)
Yuri Brunello (Universidade Federal do Ceará)

RESUMO: Por seu caráter de transmutação-transfiguração-transcriação de signo em signo, todo e qualquer pensamento pode ser compreendido ou conceituado como tradução. Ao pensarmos, estamos traduzindo-recriando aquilo que temos de acervo, seja no espaço consciente ou no inconsciente, seja nos espaços de elaboração criadora. Por isso e por entender que a literatura pode ser vista como espaço privilegiado de base criativa que se pode multireescrever em outras formas e em outros signos, sejam eles verbais ou não verbais, este Simpósio Temático se propõe dialogar com as diversas formas de criação e transcriação que podem trans-ir da literatura para as artes cênicas e/ou para as artes plásticas. O estudo da literatura e seus desdobramentos podem fomentar ideias de recriação, transcriação, segundo apregoa o crítico-poeta-ensaísta-artesão-tradutor Haroldo de Campos (2010) a partir de suas obras originais para um influxo transdisciplinar por meio da tradução intersemiótica (PLAZA, 2008). Utilizamos como base-guia, nesta proposta, o trabalho do já citado Haroldo de Campos, intitulado “Da tradução como criação e como crítica”, que compõe o livro Metalinguagem & outras Metas: ensaios de teoria e crítica literária, e o de Julio Plaza, intitulado Tradução intersemiótica, dentre outras referências, que tratem de processos tradutores criativos. Para Haroldo de Campos, todo texto é traduzível, recriado e, mais ainda, o texto literário, “mais inçado de dificuldades”, pois “tradução de textos criativos será sempre recriação, ou criação paralela, autônoma porém recíproca” (CAMPOS, 2010, p. 35), o que representa, neste Simpósio, a recriação da Literatura signo verbal para, por exemplo, a pintura signo não verbal. Julio Plaza (2008), por sua vez, apresenta, como teoria, a tradução intersemiótica a qual encontra como caminho tradutor de linguagens a transmutação que “consiste na interpretação de signos verbais por meio de sistemas de signos não verbais ou de um signo para o outro, por exemplo, da arte verbal para a música, a dança, o cinema, ou a pintura” (PLAZA, 2008, p. 12), o que configura, neste espaço de discussão temática, a passagem do texto literário escrito transcriado para as multifacetadas áreas do teatro e das artes plásticas. Assim, este Simpósio intenciona, dentro das questões que baseiam o tema geral deste congresso da ABRALIC, discutir os espaços da transdisciplinaridade que podem ocupar a cena da Literatura em harmonia de transcriação com o teatro e com as artes plásticas, ampliando o horizonte de leitura da criação livresca, onde a noção de linguagem é vista como espaço de experimentação multidisciplinar, como forma de leitura artística dramática-imagética-literária em debate com a cultura, percebido de maneira contemporânea, podendo possibilitar o reconhecimento do contexto humano que aponta para a compreensão das questões de relação da literatura com a sociedade e suas representações culturais de signos verbais e não verbais como questão de Literatura Comparada. Isso porque pode proporcionar formas de despertar no cidadão e na cidadã o senso crítico e o despertar artístico a partir da leitura literária e suas formas de fluxos transdisciplinares, elaboradas pelos artistas da linguagem literária para o trânsito como artes plásticas e cênicas, uma vez que se colocam em “um espaço estratégico para promover práticas integradas entre as várias áreas do conhecimento” (CASTRO, 2004, p. 14). Para a construção desta proposta temática, além das reflexões proporcionadas pelos críticos referidos, também tomamos como prerrogativa aquilo que está apontado pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) quando orienta: “Envolver-se em práticas de leitura literária que possibilitem o desenvolvimento do senso estético para fruição, valorizando a literatura e outras manifestações artístico-culturais como formas de acesso às dimensões lúdicas, de imaginário e encantamento, reconhecendo o potencial transformador e humanizador da experiência com a literatura” (BRASIL, 2016, p. 87). Portanto, representa a possibilidade da criação de um diálogo com a tríade literatura, cultura e artes, proporcionado pela leitura do texto literário como base, mas, além disso, preconiza também a extrapolação das barreiras que, porventura, sejam criadas pelo texto verbal, já que, segundo nossa proposta, pensamos essa ciência como uma porta aberta − de via dupla − para as outras artes, pela qual transitam e transitam-se essas muitas vozes, formando, plenamente, um constructo coeso e acessível a todos, ou seja, do signo verbal para o não-verbal e vice-versa. Por essa razão, entramos em consonância com o aspecto social do fazer humano, tendo em vista que as artes precisam alcançar o objetivo de atingir plenamente seus espectadores.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: CASTRO, Luciana Maria Cerqueira. A universidade, a extensão universitária e a produção de conhecimentos emancipadores. In: REUNIÃO ANUAL DA ANPED, 27, Caxambu, 2004. Anais Caxambu: ANPEd, 2004. Disponível em: < http://27reuniao.anped.org.br/gt11/t1111.pdf>. Acesso em: 20 abr. 2021. CAMPOS, Haroldo de. “Da tradução como criação e como crítica”. In: Metalinguagem & Outras metas: ensaios de teoria e crítica literária. São Paulo: Perspectiva, 2010. p. PLAZA, Julio. Tradução intersemiótica. São Paulo: Perspectiva, 2008. BRASIL. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Segunda versão revista. Brasília, MEC/CONSED/UNDIME, 2016.

PALAVRAS-CHAVE: Transdisciplinaridade; Transcriação; Tradução intersemiótica; Literatura e teatro; Literatura e artes cênicas.

COORDENADORES:
Sabrina Vier (Universidade do Vale do Rio dos Sinos)
Juciane dos Santos Cavalheiro (Universidade do Estado do Amazonas)
Márcia Lopes Duarte (Universidade do Vale do Rio dos Sinos)

RESUMO: Em diálogo com Antonio Candido (2011, p. 177), compreendemos a literatura como “fator indispensável para humanização”, porque, “em sentido profundo, ela nos faz viver” (p. 178). Nesse sentido, em um país em que há um alto índice de desigualdade social, a assertiva “pobre não lê livros”, que serve como argumento para uma possível taxação de impostos sobre os livros, leva-nos a um abismo ainda maior. Havia, em um passado recente, uma prioridade que se voltava à extinção da fome, da miséria, do analfabetismo funcional. A literatura como um direito básico é o ponto de partida para propor, neste Simpósio, reflexões sobre a importância da arte em tempos de estado de exceção, de casos-limites. Uma teoria do estado de exceção é “condição preliminar para se definir a relação que liga e, ao mesmo tempo, abandona o vivente ao direito” (AGAMBEN, 2004, p. 12). Já apontava Walter Benjamin, em seu célebre artigo sobre a reprodutibilidade técnica da arte, que, “Tendo em vista que a superestrutura se modifica mais lentamente que a base econômica, as mudanças ocorridas nas condições de produção precisariam mais de meio século para refletir-se em todos os setores da cultura” (BENJAMIN, 1993, p. 165). Ou seja, é mais lenta a disseminação de bens simbólicos, que seriam, também, essenciais à manutenção do ser humano, principalmente no que se refere a suas manifestações culturais. Assim, a disseminação da arte, dialeticamente, se, por um lado, aproxima o olhar das grandes obras culturais, por outro, podem, também, ser apreendidas pelos regimes fascistas, com o intuito de, exatamente, impor limites à propagação das artes. Neste sentido, o pensador alemão implode o conceito de aura, “uma figura singular, composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante, por mais perto que ela esteja (BENJAMIN, 1993, p. 170). O poeta que melhor simboliza a perda desta aura, segundo Benjamin, é Charles Baudelaire, justamente porque ele dessacraliza os elementos da poesia e os aproxima da realidade mundana. Deste modo, sem a aura elitizante, a arte deveria aproximar-se das pessoas e garantir a elas o legado cultural de seus antepassados, a fim de que elas possam, também, deixar seu legado para o futuro. Nesse escopo, a literatura, como lugar de memória, é “um instrumento e um objeto de poder”, posto que “a memória”, como a compreende Jacques Le Goff , “procura salvar o passado para servir ao presente e ao futuro”, no sentido de contrapor-se a um discurso cada vez mais monológico e privatizado por determinados grupos que se pautam por interesses estritamente subjetivos (LE GOFF, 2013, pp. 435-437). Assim, neste Simpósio, propostas de análises comparativas de discursos críticos de vertentes diversas, confrontados com os contextos de produção e de circulação de obras da literatura contemporânea, sobretudo a latino-americana, podem contribuir para reflexões sobre o efeito estético suscitadas a cada ato de leitura, na medida em que “o texto só tem significado através de seus leitores; altera-se com eles” (CHARTIER, 1997, p. 12). Agregam-se, pois, nesse escopo, pesquisas que se identifiquem tanto com os fenômenos estritamente literários, como pesquisas sobre temas literários em sentido mais amplo e estudos comparatistas que visem demonstrar o potencial subversivo e reflexivo da arte em relação a outras áreas de conhecimento. O Simpósio pretende reunir pesquisadores e interessados na literatura como um direito e como possibilidade de um vir a ser – na experiência literária como “uma abertura para o desconhecido, para o que não é possível antecipar e pre-ver” (LARROSA, 2007, p. 148). Assim, este Simpósio objetiva reunir dispositivos e estudos que buscam, por meio do texto literário, refletir e problematizar sobre cada nova leitura realizada, que projeta leituras já ecoadas e que trazem novos sentidos a cada enunciação. Dispositivos e estudos, conforme aponta Agambem (2016), em diálogo com Foucault, como relações tecidas entre elementos de um conjunto heterogêneo, linguístico e não linguístico, que engloba diferentes discursos, cujos elementos são o dito e o não dito. Este Simpósio busca, enfim, com base em teóricos como Antonio Candido, Giorgio Agamben, Jacques Le Goff, Roger Chartier, Jorge Larrosa, Walter Benjamin, entre outros, pensar o texto literário “como algo que nos forma (ou nos de-forma ou nos trans-forma), como algo que nos constitui ou nos põe em questionamento com aquilo que somos” (LARROSA, 2003, p. 25-26).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: AGAMBEN, Giorgio. O amigo & O que é um dispositivo? Trad. Vinicius Nicastro Honesko. Chapecó: Argos, 2014. AGAMBEN, Giorgio. Estado de exceção. Trad. Iarci Poleti. São Paulo: Boitempo, 2004. BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Trad. Sergio Paulo Rauanet. In.: ____. Magia e Técnica, Arte e Política. 5ed. São Paulo: Brasiliense, 1993. CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: ___. Vários Escritos. 5 ed. São Paulo: Duas Cidades, 2011. CHARTIER, Roger. A ordem dos livros. Trad. Leonor Graça. Lisboa: Vega Passagens, 1997. LARROSA, Jorge. La experiencia de la lectura: estudios sobre literatura y formación. México: FCE, 2003. LARROSA, Jorge. Literatura, Experiência e Formação: uma entrevista com Jorge Larrosa. In: COSTA, Marisa Vorraber (Org.). Caminhos Investigativos I: novos olhares na pesquisa em educação, 3. ed. Rio de Janeiro: Lamparina, 2007. LE GOFF, Jacques. História & Memória. Trad. Bernardo Leitão et al. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2013.

PALAVRAS-CHAVE: Estado de exceção; Literatura; Crítica literária; (Trans)Formação de leitores.

COORDENADORES:
JANICE INES NODARI (UFPR)
Mônica Stefani (UFSM)
João Pedro Wizniewsky Amaral (UFSM)

RESUMO: Dentre as inúmeras formas de domínio instauradas nas colônias europeias na África, a imposição de uma língua estrangeira, que deveria ser usada em diferentes espaços, tais como comércio, educação e mesmo religião, permitiu uma série de injunções e perdas. Ainda que seja comum encontrarmos produções de escritores e escritoras provenientes de ex-colônias britânicas na África nessas línguas estranhas, impostas, percebe-se na produção desses artistas o movimento de deixar tais imposições marcadas, seja pelo caminho inverso, de escrita e publicação em línguas africanas (THIONG’O, 2012), seja na escolha por usar termos em suaíle, zulu, igbo, iorubá, entre outras línguas, em suas composições. É o caso de produções de Binyavanga Wainaina, Buchi Emecheta, Chimamanda Adichie, Chinua Achebe, Grace Ogot, J. M. Coetzee, Ngugi wa Thiong’o, Wole Soyinka, para citar apenas alguns expoentes. O objetivo deste simpósio é acolher propostas de trabalhos que oportunizem a troca de leituras, de análises e informações com contornos teóricos e críticos de produções literárias africanas especialmente em língua inglesa, bem como colocar essas produções em cotejo com artefatos literários em outras línguas, notadamente a língua portuguesa. Tomamos como ponto de partida o fato de que as Nações Unidas reconheceram a necessidade de promoção e proteção dos direitos humanos de afrodescendentes espalhados pelo mundo, estejam eles em exílio ou diáspora (HALL, 2013), ao declarar o período compreendido entre 2015 e 2024 como sendo a Década Internacional dos Afrodescendentes. Ilustres artistas dentre esses afrodescendentes espalhados pelo mundo dão a conhecer algumas tradições africanas, e experiências de colonialismo (ASHCROFT, GRIFFITHS, TIFFIN, 2013; CÉSAIRE, 2000; SAID, 1993) e pós-colonialismo (GIKANDI, 2009) especialmente em sua escrita, objetivando enaltecer a identidade multifacetada dos indivíduos africanos num claro processo de descolonização, conforme proposto por Frantz Fanon (1952, 1961) e revisitado por Ng?g? wa Thiong’o (1986, 2012). De acordo com Frantz Fanon (1952), a descolonização requer reelaboração contínua, não é um processo com data de término marcada, e perpassa a experiência do sujeito em diversos âmbitos de sua existência e atuação. Já de acordo com Ng?g? wa Thiong’o (1986), a descolonização deve primeiramente acontecer na mente do indivíduo antes que possa ter alguma repercussão prática e viável em seu entorno. Reflexos possíveis da descolonização podem ser concretizados tanto na oratura (THIONG’O, 2012) quanto na literatura, uma vez que, segundo o autor, “foi a ficção que primeiro nos deu a teoria da situação colonial.” (2012), ou seja, tanto a manutenção quanto o questionamento se dão nas expressões orais e escritas. Ambas as perspectivas defendidas por esses escritores questionam tanto o cânone literário pré-estabelecido quando a hegemonia do discurso acadêmico e apontam para práticas de autotradução (BANDÍN, 2003; GENTZLER, 1993), autobiografia (EAKIN, 2014; LEJEUNE, 1989; SMITH & WATSON, 2010), outrobiografia ou escrita de si (ATTRIDGE, 2004; COETZEE & KURTZ, 2015), que se manifestam tanto na poesia quanto na prosa, em romances, novelas, contos, ensaios, peças de teatro, poemas e mesmo em trabalhos acadêmicos. Essas produções questionam a própria existência de um cânone literário eurocentrado e anglófono ao inserir muito mais do que alguns temperos africanos e uma aparente obediência em suas manifestações escritas em língua inglesa. A escrita de si e do coletivo é entendida não apenas como um movimento estético, mas como um resgate da memória, podendo essa ser tanto a memória individual quanto a coletiva, que encontra no registro oral e no registro escrito possibilidades de revisitação, de compreensão, de preservação da identidade de afrodescendentes. É, portanto, um movimento marcadamente político que encontra ecos e semelhantes no sul geográfico, o qual, segundo J. M. Coetzee, é único (HALFORD, 2016). Para o leitor atento, é possível estabelecer paralelos nas produções literárias da África e da América Latina também pelo viés da abordagem decolonial (MIGNOLO, 2012; MIGNOLO & WALSH, 2018), e tal premissa autoriza uma outra maneira de entender a história tanto de povos quanto de indivíduos. Ainda, esses ecos e semelhanças fazem com que, como acadêmicos brasileiros, nos debrucemos sobre as literaturas africanas de língua inglesa com o intuito de revigorar os nossos pensamentos enquanto intelectuais que vivem (n)o sul geográfico (e, aparentemente, periférico), não apenas para darmos voz às produções africanas em língua inglesa, mas para encontrarmos nossa própria voz ao ampliarmos diálogos, travessias e desafios para além da academia, objetivando (re)encontrarmos nosso passado, (re)desenharmos nosso presente e (re)imaginarmos nosso futuro.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ASHCROFT, Bill; GRIFFITHS, Gareth; TIFFIN, Helen. (Eds.). Postcolonial Studies. The Key Concepts. 3rd ed. London, New York: Routledge, 2013. ATTRIDGE, Derek. Coetzee and the Ethics of Reading: Literature in the Event. Chicago: University of Chicago Press, 2004. BANDÍN, Elena. The Role of Self-translation in the Decolonisation Process of African Countries. Universidade de León, 2003, p. 35-53. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/283237317_The_role_of_self-translation_in_the_colonisation_process_of_african_countries. Acesso em: 13 jan 2018. CÉSAIRE, Aimé. Discourse on Colonialism. Trans. Joan Pinkham New York: Monthly Review Press, 2000. COETZEE, John Maxwell; KURTZ, Arabella. The Good Story: Exchanges on Truth, Fiction and Psychotherapy. New York: Viking, 2015. EAKIN, Paul John. Fictions in Autobiography: Studies in the Art of Self-Invention. Princeton: Princeton University Press, 2014. FANON, Frantz. The Wretched of the Earth. Trans. Richard Philcox. New York: Grove Press, 1961. _____. Black Skin, White Masks. Trans. Charles Lam Markmann. London: Pluto Press, 1952. GENTZLER, Edwin. Contemporary Translation Theories. 2nd. ed. London: Routledge, 1993. GIKANDI, Simon. Cambridge Studies in African and Caribbean Literature. Ng?g? wa Thiong’o. Cambridge: Cambridge University Press, 2009. HALFORD, James. Reading Three Great Southern Lands: From the Outback to the Pampa and the Karoo. The Conversation, 11 jul. 2016. Disponível em: <https://theconversation.com/reading-three-great-southern-lands-from-the-outback-to-the-pampa-and-the-karoo-60372> Acesso em: 29 mar. 2021. HALL, Stuart. Da Diáspora. Identidades e Mediações Culturais. Trad. Adelaide La Guardia Resende, Ana Carolina Escosteguy, Cláudia Álvares, Francisco Rüdiger e Sayonaram Amaral. Belo Horizonte: UFMG, 2013. LEJEUNE, Philippe. On Autobiography (Theory and History of Literature). Minneapolis: University of Minnesota Press, 1989. MIGNOLO, Walter. Local Histories/Global Designs: Coloniality, Subaltern Knowledges and Border Thinking. 2nd ed. with new preface. Princeton, NJ: Princeton University Press, 2012. MIGNOLO, Walter & WALSH, Catherine. On Decoloniality. Concepts, Analytics, Praxis. Durham: Duke University Press, 2018. SAID, Edward W. Culture and Imperialism. New York: Vintage Books ? Random House, Inc., 1993. SMITH, Sidonie; WATSON, Julia. Reading Autobiography – A Guide for Interpreting Life Narratives. Minnesota: University of Minnesota, 2010. THIONG’O, Ng?g? wa. Globalectics. Theory and the Politics of Knowing. New York: Columbia University Press, 2012. _____. Decolonising the Mind: The Politics of Language in African Literature. London: Routledge, 1986.

PALAVRAS-CHAVE: literaturas africanas em língua inglesa; pós-colonialismo; descolonização; identidades; memória.

COORDENADORES:
Fernando de Mendonça (Universidade Federal de Sergipe)
MARIA DO CARMO DE SIQUEIRA NINO (Universidade Federal de Pernambuco)
Mariângela Alonso (Universidade de São Paulo)

RESUMO: Retomando discussões iniciadas em edições anteriores da ABRALIC, este simpósio se organiza como um espaço para o debate de reflexões críticas voltadas à relação da literatura com as outras artes (cinema, fotografia, música, pintura, teatro etc.), baseando-se numa perspectiva de análise intersemiótica (PLAZA, 2013) e tendo como propósito ampliar e aprofundar os estudos advindos deste ramo da literatura comparada. Adotar a Intersemiose como postura de observação, continua sendo uma oportunidade para discutir as experiências literárias nas textualidades contemporâneas, notadamente marcadas pelo diálogo de linguagens e a hibridez de formas e mídias. Com o objetivo de melhor delimitar este complexo âmbito de pesquisa, multifacetado por natureza, propomos a aplicação do conceito de mise en abyme como uma âncora teórica, um denominador e ponto de interseção para as leituras que aqui possam emergir. Advinda de uma técnica romanesca explorada por André Gide, a partir dos últimos anos do séc. XIX, a expressão deriva de um termo que, na heráldica, vem se referir ao ponto em que diversas figuras e formas se relacionam, dentro de escudos e medalhões, compondo em abismo o fundo de uma imagem sem, necessariamente, se tocarem. Posteriormente teorizada por Lucien Dällenbach (1977; 1979), que aprofundou o caráter especular e destacou a presença desta ideia de composição narrativa como uma constante passível de identificação, da Antiguidade aos tempos modernos, esta consciência nos surge como um método de investigação para melhor uniformizar o heterogêneo cenário aberto pela relação das artes. Assim, importa não somente verificar a maneira como variadas obras podem se relacionar, mais do que isso, torna-se relevante perceber a influência destas relações no gesto criativo, em si mesmo. Uma obra que se constrói em abismo, segundo Dällenbach, vem também se desdobrar numa ‘autotextualidade’, em outras palavras, numa ‘intertextualidade autárquica’, passando a depender intrinsecamente do diálogo com outros textos e linguagens para subsistir como forma autônoma e original. Para Jean Verrier, o procedimento narrativo da mise en abyme reflete os problemas da gênese do romance, trazendo ao leitor um caminho sempre aberto e convidativo à leitura, rompendo com os meios e com o totalitarismo das narrativas tradicionais, uma vez que “l’oeuvre est une création où la lucidité joue un role majeur” (VERRIER, 1972, p. 60). Resultam dessa lucidez autoconsciente do escritor as reflexões em torno do processo de criação e da própria ficção. Nesse sentido, o processo de escrita instaura a investigação sobre o próprio ato criador que envolve a literatura. Espécie de construto artístico e crítico, a narrativa torna-se um caleidoscópio, que, por meio do reflexo da luz exterior em pequenos espelhos, apresenta, a cada movimento, combinações variadas e agradáveis de efeitos visuais ou sentidos. Essa sobreposição de camadas de significação logo se percebe como um modus operandi muito expressivo e recorrente na literatura contemporânea, seja em obras que ultrapassem o verbo escrito para alcançar novos domínios de visualidade e, até mesmo, sonoridade; ou literaturas que vêm encontrar nas tecnologias eletrônicas, na cibernética e na rede virtual, novos horizontes de possibilidades textuais. O conceito de mise en abyme, desde os romances e apontamentos ensaísticos de André Gide, presta-se como instrumento de análise comparatista, pois instaura numa obra a reflexividade direta por outra(s) obra(s), seja através de semelhança ou de contraste. Jogo de reflexos a ser resgatado por Dällenbach, ao definir uma narrativa em abismo como obrigatoriamente estruturada por meio de um ‘relato espelhado’, assim como determina Umberto Eco (1989) em sua teoria de espelhamentos, ampliando o caráter vertiginoso das artes que se alimentam ininterruptamente. Diante disso, o simpósio propõe uma ampla discussão de obras que recorram a caminhos em composição especular, seja no direcionamento de textos que apontem para outros textos (obras dentro de obras), mas especialmente, no caso de linguagens que se voltem para outras linguagens, desafiando a percepção e inovando as estéticas contemporâneas. Acompanhando uma tendência dos estudos mundiais em literatura comparada, como se pode constatar pela organização de um periódico internacional da Università degli Studi di Verona (2014), integralmente voltado para pesquisas que contemplem a mise en abyme como escopo principal de análise crítica, espera-se contribuir aqui para a discussão e divulgação do tema. Diante da alta procura por esta proposta em edições anteriores da ABRALIC, a renovação do simpósio visa oportunizar um maior contato entre pesquisadores brasileiros que já se dediquem ao assunto.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: DÄLLENBACH, Lucien. Intertexto e autotexto. In: ______; et al. Intertextualidades. Tradução de Clara Crabbé Rocha. Coimbra: Almedina, 1979, p. 51-76. ______. Le récit spéculaire: essai sur la mise en abyme. Paris: Editions du Seuil (Poétique), 1977. ECO, Umberto. Sobre os espelhos e outros ensaios. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989. MISE EN ABYME: international journal of comparative literature and arts. Verona: Università degli Studi, 2014 - . ISSN 2284-3310. Disponível em: <https://journalabyme.wordpress.com/> Acesso em 16 Abr. 2021. PLAZA, Julio. Tradução intersemiótica. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 2013. VERRIER, Jean. Le récit réfléchi. Littérature, n. 5, Février 1972, p. 58-68.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura Comparada; Intersemiose; Mise en Abyme; Especularidade.

COORDENADORES:
Luciana Ferrari Montemezzo (Universidade Federal de Santa Maria)
Phelipe de Lima Cerdeira (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)
Rosane Maria Cardoso (Universidade do Rio Grande)

RESUMO: O presente simpósio tem por objetivo discutir e refletir sobre as literaturas de língua espanhola produzidas nos séculos XX e XXI, partindo da análise de seus contextos de produção e de recepção, tendo em vista as relações que elas estabelecem com o Brasil. A proposição de friccionar os múltiplos espaços de enunciação do universo hispânico, a partir dos horizontes de recepção e de crítica estabelecidos em universidades e grupos de pesquisa, amplia a busca pela fissura de determinado campo de poder (BOURDIEU, 1990, 2002). Esse processo reverbera conjuntos de epistemologias outras (MIGNOLO, 2003), capazes de escapar de hipertrofias e ideias de literaturas nacionais sistematizantes, que pouco parecem dialogar com as expectativas e exigências trabalhadas via Literatura Comparada, há muito, libertas do estigma do texto devedor (COUTINHO, 2004). Ao resgatar postulados como os estabelecidos por Claudio Guillén (1985), fomentamos o quanto parece ser, sobretudo na América Latina, cada vez mais producente o exercício que prevê o pensar literário, a partir de uma dialética entre o local e o pretenso universal, entendendo que a única constante verdadeiramente possível é a da pluralidade. Da década de 30 – entendida como um ponto de inflexão para pensar as literaturas hispânicas para além das múltiplas contribuições das estéticas vanguardistas –, passando pelo boom – movimento-chave para que a literatura se transforme em personagem de si – e pelo pós-boom, são diferentes as experiências que nos permitem pensar a literatura a partir de suas mutações (PERRONE-MOISÉS, 2016). Por outro lado, é preciso considerar as situações de pouco prestígio que o português e o espanhol ocupam no que Pascale Casanova (2002) denominou “República Mundial das Letras”: um espaço de origem eurocêntrica que se espalha de forma irregular e desigual pelo planeta. Sob tal ponto de vista, as desigualdades tornam-se mais evidentes nos países colonizados. Entendemos que as literaturas estrangeiras surgem em um novo sistema literário devido à demanda de novos leitores. Esses leitores procuram, a partir de textos estrangeiros, preencher uma lacuna deixada pelo seu próprio sistema literário. Em busca da diversidade de vozes e de multiculturalidade, o leitor de um texto em língua estrangeira almeja aquilo que não é dito – ou é dito de modo diverso – na sua língua. Seja por meio de divulgação editorial, viagens, publicidade, críticas literárias, correspondências, prefácios, traduções (anotadas e comentadas ou não), entrevistas ou por informações divulgadas em rede, os leitores ampliam seus horizontes para além de sua língua materna e passam a desejar ler autores estrangeiros. De acordo com Carvalhal (2003), esses elementos, somados aos “fenômenos editoriais, as revistas e jornais literários”, são fundamentais para a divulgação do conhecimento. Nesse espaço, os novos textos são recebidos pelo novo público. Além disso, tais fontes podem trazer à tona aspectos relevantes, insólitos, obscuros sobre a biografia ou a obra de um determinado autor ou período literário. Compreender que aspectos chamaram a atenção do público brasileiro para um autor que não faz parte da sua cultura e que não escreve na sua língua potencializa o diálogo e estabelece vínculos que fortalecem a memória cultural entre diferentes povos e culturas. Para Steiner (2005), “cada língua mapeia um mundo diferente”. Nesse sentido, interessa mapear os espaços percorridos para que os textos produzidos em língua espanhola cheguem ao público brasileiro. Portanto, este simpósio, cujo eixo parte da premissa de estabelecer diálogos entre as literaturas hispânicas, receberá propostas de trabalhos inseridos nas seguintes temáticas: a) o desenvolvimento das literaturas escritas na Península Ibérica e na América em contraste, fortalecendo a quebra de hierarquias entre as partes; b) a retroalimentação cultural e literária entre escritores e escritoras desde o século XX; c) estudos tradutórios de obras publicadas a partir do século XX; d) estudos e pesquisas que expandam as lacunas e silenciamentos sistematicamente perpetrados pelas historiografias literárias, valorizando as autorias feminina, indígena e afro-hispânica; e) problematizações acerca de vozes periféricas apagadas por processos ditatoriais e/ou hegemônicos, dando vazão para experiências de migrações, exílio e insilio; f) leituras de poéticas que discutam os múltiplos encontros e desencontros dos discursos ficcional e histórico; g) problematizações sobre os conceitos de autoficção e escritas do eu; h) trocas culturais e memória histórico-literária; i) fontes primárias: o papel de entrevistas e de epistolários na fortuna crítica de um autor; j) interpretação e divulgação de autores contemporâneos: temas e metodologias de pesquisa comparatista.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BOURDIEU, Pierre. El campo literario. Prerrequisitos críticos y principios de método. Criterios, La Habana, n.25-28, enero 1989-diciembre 1990, p. 20-42. Trad. Desiderio Navarro. Disponível em: http://educacion.deacmusac.es/practicaslegitimadoras/files/2010/05/bourdieucampo.pdf. Acesso em: 26 abr. 2021. CARVALHAL, Tania Franco. O próprio e o alheio. São Leopoldo: Ed. Unisinos, 2003. CASANOVA, Pascale. A República Mundial das Letras. Tradução Marina Appenzeller. São Paulo: Estação Liberdade, 2002. COUTINHO, Eduardo. La reconfiguración de identidades en la producción literaria de América Latina. In: ELGUE DE MARTINI, Cristina et al. Espacio, memoria e identidad: configuraciones en la literatura comparada. Córdoba: Comunicarte Editorial, 2005. p. 117-126. GUILLÉN, Claudio. Entre lo uno y lo diverso. Barcelona: Editorial Crítica, 1985. MIGNOLO, W. Historias locales, diseños globales. Colonialidad, conocimientos subalternos y pensamiento fronterizo. Buenos Aires: Akal Ediciones, 2003. PERRONE-MOISÉS, Leyla. Mutações da literatura no século XXI. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. STEINER. George. Depois de Babel. Curitiba: UFPR, 2005. Tradução de Carlos Alberto Faraco.

PALAVRAS-CHAVE: Literaturas Hispânicas; Memória; História; Tradução; Fontes primárias.

COORDENADORES:
DANIELLE GRACE DE ALMEIDA (UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE)
Dennys Silva-Reis (Universidade Federal do Acre)
Rosária Cristina Costa Ribeiro (Universidade Federal de Alagoas)

RESUMO: Ao propor um simpósio dedicado às literaturas latino-americanas de expressão francesa, sabe-se da complexidade que o tema envolve (SILVA-REIS, GYSSELS, 2020). A começar pelos impasses suscitados pela tentativa de definição de uma produção literária que, distante do hexágono, possa fundamentar suas próprias raízes identitárias. Enquanto, para o leitor comum, a França conserva a imagem de país da literatura, desde o século XX, com as reflexões trazidas pelos escritores da Negritude, tornou-se incontornável teoricamente considerar a literatura em língua francesa uma produção que não se restringe às fronteiras desse país. A política expansionista francesa percorreu séculos difundindo a língua pelos cinco continentes. No que concerne à América Latina, esses espaços geográficos, hoje ex-colônias, como a República do Haiti, ou territórios franceses, ditos outre-mer, como algumas ilhas do Caribe e a Guiana Francesa, são palcos de uma literatura que continua a dramatizar os conflitos advindos da violência colonial. A língua é, portanto, um terreno tão arenoso quanto mágico, fundado, por vezes, pela sintaxe das línguas crioulas, ou pelo desejo de reconhecimento através de um língua de tradição literária, submetendo aqui e ali a língua dos clássicos franceses à descrição rústica da paisagem tropical. Ou ainda, narrativizando diegeses propriamente identitárias da América Latina em língua francesa. Trata-se de uma literatura constitutiva de um trânsito, permitindo a circulação de identidades através de um procedimento dialético que Édouard Glissant (1990) definiu como “poética da relação”. Nesse contexto, as narrativas de expressão francesa na América Latina participam principalmente de correntes que se complementam e se completam em um mosaico multicultural, marcado pela resistência de René Ménil, e pela (re)existência de Price-Mars, Maryse Condé ou Vincent Placoly. Seja pertencente a uma tradição oral (oralitura), seja a uma tradição escrita, ou de ambas, seja na literatura infanto-juvenil, contos, narrativas orais, romances, novelas, compõem um quadro tão diverso quanto suas produções, marcadas pela, heteroglossia, pela polifonia (SATYRE, 2004) e pelas ressonâncias (GLISSANT, 1990). Assim, no que diz respeito às propostas de trabalho ligadas à narrativa, um dos objetivos do simpósio é celebrar a multiplicidade de vozes e culturas, contemplando as expressões em língua francesa publicadas nesse território tão violentado como a América Latina. Inclui-se aqui as produções que tenham como corpus publicações narrativo-argumentativas, como os ensaios de Christiane Taubira. Dessa forma, esperamos contribuir para a legitimação dessas produções e ampliação da divulgação de seus crescentes estudos, em toda sua heterogeneidade, em busca de seus próprios cânones. No que diz respeito à poesia, pretendemos reunir trabalhos que mostrem o adensamento das relações de diversidade na construção de um projeto, que, mesmo sendo poético, não deixa de acenar para o político, nos termos de Jacques Rancière (1995; 2009). Em relação a esse aspecto, vale pontuar o papel fundador da poesia nas literaturas latino-americanas de expressão francesa. Desde o encontro entre Aimé Césaire (Martinica), Léon Gontran-Damas (Guiana Francesa) e Jacques Roumain (Haiti) nos anos 1930 e 1940, a poesia tem se estabelecido como uma arte que apresenta o pensamento anticolonialista através de uma sofisticada operação estética. Na contemporaneidade, a produção poética parece confluir dois aspectos essenciais: o diálogo com a tradição, inaugurada por esses e outros conterrâneos, e as questões socioculturais que se avultam no presente. Nesse sentido, destacam-se poetas como Frankétienne e Elie Stephenson, além de importantes vozes femininas, como as de Evelyne Trouillot, Assunta Renau Ferrer e Suzanne Dracius. Apesar da escassez de estudos teóricos no Brasil e de traduções para o português, que limita a circulação de tais obras, podemos notar um aumento considerável de estudos nos últimos anos. Portanto, esperamos acolher trabalhos que discutam relações literárias comparativas com a produção brasileira, implicações tradutórias e mecanismos estéticos que envolvam a poesia desses países. Por fim, porém não menos importante, o texto teatral latino-americano de expressão francesa, enquanto objeto dos Estudos Literários Francófonos, parece ser o mais pobre no baú da fortuna crítica literária brasileira. Isso ocorre por dois motivos principais: a efemeridade deste texto que muitas vezes é encenado, mas não publicado; e, pela dificuldade de acesso às obras em si como publicação literária (BÉRARD, 2009). Os estudos do texto e até mesmo da cena teatral de expressão francesa no Caribe e na América do Sul podem trazer grandes contribuições aos estudos literários e linguísticos descortinando aspectos étnicos, sociais e linguageiros dessas diferentes comunidades que compartilham a língua francesa escrita e oral neste espaço pluriétnico. Até mesmo autores muito conhecidos pela prosa são ainda desconhecidos no aspecto teatral - tais como Maryse Condé, Édouard Glissant, Jean Métellus, dentre outros. Interessante notar que muitos dramaturgos latino-americanos de expressão francesa são igualmente autores, diretores de teatro e críticos literários teatrais, como por exemplo, Odile Pedro Leal (1995, 2001), Gerty Dambury (2015, et ali 2018) e Pierre Chambert (2015). Logo, tencionamos com este simpósio impulsionar estes estudos, ainda incipientes no Brasil.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BÉRARD, Stéphanie. Théâtres des Antilles - traditions et scènes contemporaines. Paris: L'Harmattan, 2009. CHAMBERT, Pierre. Kokolampe: un théâtre école plurilingue dans les Guyanes. Montpellier: L'entretemps, 2015. DAMBURY, Gerty. Le rêve de William Alexander Brown/ La compagnie africaine présente Richard III. Paris: Éditions du Mangier, 2015. ______ et al. Décolonisons les arts. Paris: L'Arche, 2018. GLISSANT, Edouard. Poétique de la Relation. Paris : Gallimard, 1990. LEAL, Odile Pedro. Le théâtre en Guyane : quelles écritures ? Dissertação de mestrado em Estudos teatrais. Paris: Université Sorbonne Nouvelle - Paris 3, 1995. ______. Théâtre et écriture ethniques de Guyane. Tese de doutorado em Estudos teatrais. Paris: Université Sorbonne Nouvelle - Paris 3, 2001. RANCIÈRE, Jacques. Políticas da escrita. Trad. Raquel Ramalhete, Laís Eleonora Vilanova, Lígia Vassalo e Eloísa Araújo Ribeiro. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995. ______. A partilha do sensível: estética e política. Tradução de Mônica Costa Netto. São Paulo: EXO Experimental, 2009. SATYRE, Joubert. La Caraïbe In: Introduction aux littératures francophones: Afrique · Caraïbe · Maghreb [en ligne]. Montréal: Presses de l’Université de Montréal, 2004. Disponível em: <http://books.openedition.org/pum/10659>. Acesso em 19 de abril de 2021. SILVA-REIS, Dennys; GYSSELS, Kathleen. Les littératures latino-americaines d’expression française : vues du Brésil ou “la malédiction de l’anachronisme” d’Octavio Paz. Caligrama: revista de estudos românicos. v 25. N. 3. Belo Horizonte: UFMG, 2020.

PALAVRAS-CHAVE: Literaturas latino-americanas de expressão francesa; Narrativas; Poesia; Teatro; Oralitura.

COORDENADORES:
Paulo Dutra (University of New Mexico)
Felipe Fanuel Xavier Rodrigues (Fundação Técnico-Educacional Souza Marques)
LUIZ HENRIQUE SILVA DE OLIVEIRA (CEFET-MG)

RESUMO: Dando continuidade ao projeto de acolher comunicações dedicadas ao estudo da vida, obra e pensamento de autores e autoras de ascendência africana, cuja imaginação literária provém de vivências da afrodescendência em localidades formalmente descolonizadas, às margens das quais a africanidade constitui leitmotif de literaturas que se situam dialeticamente dentro e fora de sistemas literários hegemônicos, apresentamos esta proposta de simpósio. O objetivo é explorar os contornos críticos e teóricos das produções literárias engendradas a partir das histórias, culturas e instituições de pessoas de ascendência africana, bem como o impacto dessas literaturas em contextos de desigualdades e demandas sociais. Ao declarar o período de 2015-2024 como a Década Internacional dos Afrodescendentes, as Nações Unidas reconheceram a urgência de se colocar na ordem do dia a promoção e proteção dos direitos humanos de um contingente de aproximadamente 200 milhões de pessoas de ascendência africana espalhadas pelo mundo. A discussão dessa pauta acarreta ressonância política e histórica no contexto brasileiro. Apesar de o Brasil gerar a segunda maior população afrodescendente atual, os jovens negros (pretos e pardos) são as principais vítimas de homicídio no país (CERQUEIRA et al., 2020). O fenômeno, já descrito como genocídio negro, expõe os efeitos funestos da persistência do racismo e impõe reflexões acerca da cultura como local de luta e sobrevivência para afrodescendentes que vivem em democracias desiguais. Na genealogia do racismo contemporâneo – onde quer que seja flagrante –, constam ontologias construídas para fundamentar sistemas de segregação racial que cercearam os direitos das pessoas negras em territórios controlados por projetos colonialistas etnocêntricos. Contudo, o imprevisível surgimento de literaturas de sujeitos que perspectivam tradições africanas, afirmam identidades negras e tematizam experiências em ambientes hostis manifesta a dinâmica cultural de afrodescendentes cuja escrita contrapõe práticas textuais e interpretativas que essencializaram seus corpos e os trataram como objetos. Trata-se de um processo de descolonização, isto é, um processo histórico em que sujeitos legatários do mal-estar colonial recriam a si mesmos como seres humanos, rompendo, portanto, com a conformidade à lógica de um mundo em que a discriminação racial perdura. Nesta edição, priorizaremos trabalhos que convoquem teorias desenvolvidas por autores e autoras da África e da Diáspora Africana e/ou com elas dialoguem. Com isso, focalizaremos princípios e conceitos teóricos nos quais se fundamenta o trabalho da crítica literária do corpus negro. Em sua prática teórica, esses/as pensadores/as têm desafiado sistematicamente noções pré-estabelecidas de literatura com novos conceitos de escrita, leitura e interpretação que imbricam as contingências da verossimilhança e das sociedades nas quais os sujeitos teóricos operam. Ao vigor de concepções inovadoras para perscrutar a fenomenologia da obra literária e à ascensão de paradigmas alternativos de produção criativa e crítica junta-se o emprego de teorias transdisciplinares aos interesses dos estudos da literatura per se. Por conseguinte, o escopo das teorias dedicadas ao “devir-negro do mundo” (MBEMBE, 2017, 18) atravessa as mais diversas áreas do conhecimento, intersectando a existência das pessoas negras com preocupações que vão desde o fenômeno literário à complexidade das questões relacionadas à raça, a gênero e à classe social. Reafirmamos, dessa maneira, a potencialidade das subjetividades negras para a articulação de modos de pensamento cujos impactos são sentidos na literatura, como exemplifica a declaração “Eu sou o meu próprio fundamento”, de Frantz Fanon (2020, 241). A essa inscrição ontológica correspondem gestos de autorrepresentação e autodeterminação verificados nos discursos literários que, na perspectiva fanoniana, falam para “assumir uma cultura, suportar o peso de uma civilização” (FANON, 2020, 31). Além de Fanon, os mais influentes nomes a adentrarem essa arena epistemológica são: Aimé Césaire, Léopold Senghor, Frantz Fanon, Henry Louis Gates Jr., Stuart Hall, bell hooks, James Baldwin, Toni Morrison, Édouard Glissant, Paul Gilroy, Cornel West, Chinua Achebe, Ng?g? wa Thiong'o, Francis Abiola Irele, Chimamanda Adichie, Audre Lorde, Elizabeth Alexander, Manuel Zapata Olivella, Nancy Morejón, Lélia Gonzalez, Nei Lopes, Conceição Evaristo, Cuti, Miriam Alves, Abdias do Nascimento, Muniz Sodré, Domício Proença Filho, Beatriz Nascimento, Leda Martins, Sueli Carneiro, Edmilson de Almeida Pereira, Grada Kilomba, Lívia Natália, Djamila Ribeiro, entre outros.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: CERQUEIRA, Daniel et al. (orgs.). Atlas da violência 2020. Rio de Janeiro: IPEA, 2020. FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Trad. Sebastião Nascimento. São Paulo: UBU, 2020. MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. Trad. Marta Lança. 2a ed. Lisboa: 2017.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura Afrodescendente; Africanidades; Identidade Negra; Racismo; Descolonização.

COORDENADORES:
Flavio García (Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ))
MARISA GAMA-KHALIL (Universidade Federal de Uberlândia (UFU))

RESUMO: Mundo afora, há tempos, muito se reflete sobre a ficção fantástica, mas ainda é impossível delimitar, com rigor, o universo que esse termo-conceito recobre. Então, pesquisadores, teóricos e críticos vêm adotando o termo insólito para recobrir esse espectro de manifestações ficcionais. Tzvetan Todorov, em Introdução à literatura fantástica (1970), reuniu as ideias de teóricos, críticos e literatos que, antes dele, debruçaram-se sobre o fantástico, com o fito de esquadrinhar uma definição para essa literatura. Por intermédio de uma posição marcadamente estruturalista, o teórico búlgaro ofereceu ao público da época um estudo que ainda hoje é seguido por grande parte de estudiosos dessa vertente ficcional e que a considera sob a perspectiva genológica. Sob a ótica todoroviana, o gênero fantástico se define pela hesitação de personagens, comunicada ao leitor, mantendo-se para além do desfecho da narrativa, e tem por vizinhos o gênero maravilhoso, no qual a hesitação inexiste, e o gênero estranho, em que a hesitação, instaurada no início da narrativa, é desfeita por alguma evidência que tenha como base a razão. Insatisfeitos com a delimitação do fantástico entre aqueles dois gêneros, a partir de semelhanças e diferenças, e percebendo que algumas narrativas não se encaixam rigorosamente nos universos contingenciados por eles, alguns estudiosos buscaram novas perspectivas teóricas na tentativa de definir o fantástico. Entre as alternativas apresentadas, podem-se destacar duas: o fantástico como modo ou como categoria. O pesquisador português Filipe Furtado, acompanhando, especialmente, os argumentos de Rosemary Jackson (1981), denuncia, no verbete “Fantástico: modo” (2009), o quanto a perspectiva genológica deixa à parte uma série de narrativas que poderiam ser consideradas e lidas como fantásticas. Nessa linha de entendimento, Furtado admite que o conceito de sobrenatural não seria englobante a ponto de conjugar diferenças e similitudes e, por isso, defende que o modo fantástico se caracterizaria por uma fenomenologia metaempírica. Furtado defende que o metaempírico (2021 [s/d]) englobaria, para além de acontecimentos da ordem do sobrenatural, outros que, assustadores ou não, percebam-se insólitos, inexplicáveis quando da produção do texto, seja por incapacidade de percepção, seja por falta de conhecimento de suas leis, seja, enfim, por não possuírem existência efetiva naquela realidade quotidiana. A definição do fantástico pelo mirante de categoria foi eleita para explicar o diálogo do fantástico com gêneros diversos, bem como com outras artes. Vale lembrar que as visões genológica e modal – especialmente essa última – permitem refletir sobre uma infinidade de expressões da arte. A pesquisadora portuguesa Maria João Simões (2007), com base nos estudos de Roger Bozetto, Arnaud Huftier, Étienne Souriau e Robert Blanché, esclarece que a categoria se define por intermédio de um ethos específico e estabelecido ilustrativamente através de um diagrama em rosácea. O fantástico seria um dos núcleos da rosácea, composta por tantas outras unidades nucleares, como o grotesco, o gótico, o sublime, o cômico, o trágico etc. Todas essas variadas experiências de compreensão do fantástico foram e continuam sendo realizadas em função de haver um imenso conjunto de produções artísticas que fazem emergir elementos e/ou acontecimentos da ordem do inexplicável e que parecem esquivar-se a toda tentativa de definição, mas que se podem reunir sob a denominação abrangente de insólito ficcional. Há, contudo, no vasto e heterogêneo conjunto de produções abrangíveis sob esse termo-conceito, um traço distintivo que lhe daria certa unidade teórica, metodológica, crítica e conceitual: o caráter insólito na composição de qualquer de suas categorias narrativas, isoladas ou solidariamente entre si, afastando o texto do universo semionarrativo realista. Para o pesquisador boliviano Renato Prada Oropeza (2006), essa impressão se produziria a partir do recurso a diferentes estratégias de construção narrativa – ranhuras, fissuras, fraturas, rupturas, resultantes da instauração de incoerências ou incongruências face aos referentes extratextuais, geralmente demarcados pela verossimilhança realista – que põem em xeque as expectativas da lógica racional e aristotélica. Percorrendo por essas manifestações do insólito ficcional, espera-se que as apresentações e discussões acolhidas neste simpósio problematizem e reflitam sobre gêneros, modos, categorias do discurso que fogem da mimesis realista.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: FURTADO, F. Fantástico: modo. In: CEIA, C.(Coord.). E-Dicionário de Termos Literários (EDTL). Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2009. Disponível em https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/fantastico-modo. Acesso em 16 de abr. de 2021. FURTADO, F. Metaempírico. In: REIS, C.; ROAS, D.; FURTADO, F.; GARCÍA, F.; FRANÇA, J. (Eds). Dicionário Digital do Insólito Ficcional (e-DDIF). Rio de Janeiro: Dialogarts, s/d. Disponível em http://www.insolitoficcional.uerj.br/m/metaempirico. Acesso 21 de abr. de 2021. JACKSON, R. Fantasy: The Literature of Subversion. London: Routledge, 1981. PRADA OROPEZA, R. El discurso fantástico contemporáneo: tensión semántica y efecto estético. Semiosis, II, México, n. 3, p. 53-76, enero-junio, 2006. SIMÕES, M. J. Fantástico como categoria estética: diferença entre os monstros de Ana Teresa Pereira e de Lídia Jorge. In: Fantástico. Coimbra: Centro de Literatura Portuguesa; Imprensa de Coimbra, p. 65-81, 2007. TODOROV, T. Introdução à literatura fantástica. São Paulo: Perspectiva, 1970.

PALAVRAS-CHAVE: Insólito Ficcional; Fantástico Gênero; Fantástico Modo; Fantástico Categoria; Comparatismo

COORDENADORES:
Tatiana da Silva Capaverde (Universidade Federal de Roraima)
Juliana Bevilacqua Maioli (Universidade Federal de Rondônia)

RESUMO: Segundo James Clifford (1997, p. 14) as mobilidades e os encontros humanos são complexos e de longa data. Em relação às Américas, podemos afirmar que os deslocamentos fazem parte de sua composição cultural desde os tempos do ‘descobrimento’ e que os fluxos migratórios internos dos povos nômades fazem parte de uma realidade ainda mais pregressa. O convívio entre europeus, africanos e as populações aborígenes nos períodos da conquista e da colonização converteram o continente americano em um espaço de hibridações culturais que se desdobram até nossos dias. O século XXI assiste a um processo de mundialização que, sendo impulsionado pelo avanço das tecnologias de comunicação, internet e transporte, tem favorecido a intensificação dos deslocamentos culturais e a, consequente, aproximação entre distintos povos. Aínsa (2010) considera ainda que, em decorrência das dinâmicas da globalização e seus consequentes efeitos no setor político-econômico, indivíduos de diferentes culturas e lugares podem conviver em permanente contato com alteridades, ensejando, assim, a conformação de identidades alternativas, para as quais não há uma base territorial e linguística única. Nesse mundo interconectado, os sujeitos têm a possibilidade de se converterem em nômades culturais, uma vez que podem se deslocar com facilidade por diferentes territórios e, inclusive, habitar os interstícios de diferentes Estados-nações. Frente a esse contexto, um grande número de intelectuais e artistas passam a explorar a diversidade material, cultural e identitária de um mundo conectado. Dessa forma, os valores simbólicos das fronteiras tendem a ser revisitados e redimensionados em pró da incorporação de outras coletividades que introduzem novos intercâmbios de ideias e experiências estéticas. Destarte, a reflexão teórico-crítica acerca dos processos de desterritorialização/reterritorialização (HAESBAERT, 2011) ressignificaram da ideia de fronteira, a qual passa a ser concebida como lugar privilegiado de encontros e conflitos onde se operam novas negociações de sentidos de identidade e pertencimento, não mais adscritos a uma referência espacial estritamente nacional. As variadas formas de interação entre o local e global materializadas nas narrativas latino-americanas mediante a ressignificação da experiência de trânsito, evidenciam os mecanismos de construção de identidades forjadas a partir de relações dialógicas com o Outro, que, embora nem sempre dialéticas (CORNJEO POLAR, 2000), apontam para a emergência de sujeitos portadores de uma índole identitária fronteiriça, híbrida e fluída, articulada desde a diferença. A relevância e complexidade desse assunto, reflete-se, por exemplo, no Dicionário das mobilidades culturais: percursos americanos (2010), estudo de referência organizado por Zilá Bernd, em cujo prólogo, a autora ensaia uma tipologia com a qual procura sistematizar os possíveis modos de mobilidade presentes nos discursos literários contemporâneos, dentre os quais destaca: 1-) as mobilidades migratórias transculturais; 2-) as mobilidades memoriais e intersubjetivas; 3-) as mobilidades transnacionais; 4-) as mobilidades espaciais (do imaginário das metrópoles); e, 5-) as mobilidades desviantes (BERND, 2010, p. 18-23). Tal classificação demonstra que as representações do deslocamento na literatura e as figurações identitárias delas resultantes, merecem um exame pormenorizado, que leve em conta as particularidades do processo de criação literária, pois como assevera Palermo (2012, p. 134) “os movimentos de diáspora e migração [...] respondem a modelos histórico-culturais específicos”, devendo, portanto, “ser lidos de forma relacional, nas continuidades e contradições, nas dinâmicas de trauma e assimilação” (PALERMO, 2012, p. 134). Considerando que se trata de um tema atual e relevante no século XXI a partir da compreensão do “surgimento de novos padrões de movimento transareais, translinguais e transculturais, que ultrapassam a distinção entre literatura nacional e mundial” (ETTE, 2018, p. 17), o presente Simpósio Temático pretende reunir pesquisadores da área dos estudos literários que se dediquem à análise de narrativas que tenham como tema estrutural ou temático o eixo da mobilidade. O encontro busca discutir os conceitos de movência, hibridez, e impureza, que, desde as últimas décadas do século XX, desestabilizaram os dos conceitos de nação e identidade. Nesse sentido, parte-se do princípio de que a mobilidade instiga a revisão de dicotomias como local/global, centro/periferia, o próprio/alheio, fomentando o surgimento de outras percepções espaço-temporais, que instauram, na literatura, novas zonas de contatos transculturais, nas quais se redesenham territorialidades alternativas e outras geografias do pertencimento. Além dos diálogos com Aínsa (2010), Bernd (2010) e Palermo (2012), sobre as estéticas do deslocamento; a base referencial teórica deste simpósio, orienta-se pelas ideias de identidades, cultura e espaços de autores como Homi Bhabha (1998), Stuart Hall (2001), Cornejo Polar (2000), García Canclini (2001), Zygmunt Bauman (2001), Augé (2010), Nicolas Bourriaud (2009), entre outros. Desta forma, ao explorar a representação das mobilidades culturais no contexto das narrativas latino-americanas, espera-se promover discussões e reflexões sobre as problemáticas que giram em torno dos conceitos identidade e pertencimento, numa época em que o trânsito não constitui apenas um assunto da moda, mas que, ao contrário, revela-se como signo de uma evolução profunda que afeta tanto representações do mundo e a nossa maneira de como vivemos nele, quanto os próprios paradigmas do relacionamento humano.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: AÍNSA, Fernando. Palabras nómadas. Los nuevos centros de la periferia. In: ESTEBAN, Ángel; MONTOYA, Jesús; NOGUEROL, Francisca; PÉREZ LÓPEZ, María Ángeles (ed). Narrativas latinoamericanas para el siglo XXI: nuevos enfoques y territorios. Hildelshein: OLMS, 2010. AUGÉ, Marc. Por uma antropologia da mobilidade. Maceio: EDUFAL; UNESP, 2010. BAUMAN, Zygmund. Modernidade líquida. Trad. Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. BERND, Zilá (org.). Dicionário de mobilidades culturais: percursos americanos. Porto Alegre: Lieralis, 2010. BHABHA, Homi. O local da cultura. Trad. Myriam Ávila. Belo Horizonte: UFMG, 1998. BOURRIAUD, Nicolas. Radicante. Trad. de Michèle Guillermont. Buenos Aires: Adriana Hidalgo Editora, 2009. CLIFFORD, James. Las culturas del viaje. Revista de Occidente. Madrid: Arce, n. 170- 171, 1997, p. 45-74. CORNEJO POLAR, Antonio. Uma heterogeneidade não dialética: sujeito e discurso migrantes no Peru moderno. In: VALDÉS. Mario J. (Org.). O condor voa: literatura e cultura latino-americanas. Tradução de Ilka Valle de Carvalho. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2000. p. 299-310. ETTE, Ottmar. EscreverEntreMundos: literaturas sem morada fixa. Curitiba: Ed UFPR, 2018. GARCÍA CANCLINI, Néstor. Culturas Híbridas: estrategias para entrar y salir de la modernidad. Buenos Aires: Editorial Paidós, 2001. HAESBAERT, Rogério. O Mito da Desterritorialização: do fim dos territórios à mundialização. 6 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. 5. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. PALMERO, Elena. Literaturas hispânicas no Canadá: notas de pesquisa para uma história comparada da literatura hispano-canadense. In: PORTO, Maria Bernadette.; VIANNA, NETO Arnaldo Rosa (Org.). Habitar e representar a distância em textos literários canadenses e brasileiros. Niterói: EdUFF, 2012, p. 131-144.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura e deslocamento; Mobilidade cultural; Identidade; Fronteira; Narrativa latino-americana.

COORDENADORES:
Leonardo Mendes (UERJ)
Haroldo Ceravolo Sereza (UFSCAR)

RESUMO: O propósito desse Simpósio é discutir os princípios da estética naturalista e debater suas principais manifestações literárias, de qualquer nacionalidade, tanto no século XIX, quanto nos séculos XX e XXI. As propostas introduzidas por este movimento estético democrático, que ousava nos temas e apresentava procedimentos discursivos específicos, garantiu sua difusão pelo mundo (Becker & Dufief, 2018), atraindo escritores de diversos países que adotavam o naturalismo como uma forma de se alinhar à modernidade numa geografia específica que não cabia nas fronteiras das literaturas nacionais. Tal força de representação ultrapassou igualmente seu período histórico e sobrevive até hoje, mostrando que a temporalidade literária obedece a regras específicas dos campos literários (Casanova, 1999). O princípio naturalista fundamental é retratar “a vida como ela é”, estudando personagens de diversas classes sociais em seus cotidianos, mesmo quando desprezíveis ou abjetos. Este método de observação e de criação deu origem a uma infinidade de críticas tanto à brutalidade e à imoralidade do naturalismo quanto à pretensão ingênua de representar fielmente a realidade. Entretanto, ingênua era a acusação de que os escritores naturalistas eram ingênuos, pois em vários textos-chave da estética, como o prefácio da segunda edição de Thérèse Raquin (1868) e o ensaio O romance experimental (1880), Émile Zola esclarece que o objetivo era criar uma “ilusão” da realidade, pois se o romance naturalista adotava procedimentos científicos para reagir contra um romantismo gasto então muito em voga, cabia a cada artista em seu “temperamento” individual o ato da criação. Daí que não se deva falar de “escola” e em “discípulos”, pois cada escritor tomou os princípios da estética e os moldou à sua maneira – o que nos permite hoje falar de “naturalismos” (Becker & Dufief, 2017). Destacamos esse mal-entendido como um entre vários reducionismos impingidos ao naturalismo, retratado pela historiografia tradicional como uma estética menor, falsa e ingenuamente científica, muitas vezes reduzida a um clichê. Estudos recentes em vários países vêm desvendando um quadro mais sofisticado e complexo, capaz de acomodar uma gama de vertentes naturalistas no século XIX e XX, em suas relações com o gótico, o decadentismo, a literatura licenciosa, elegendo ora a representação trágica da existência, ora uma exploração dos enredos repetitivos e da desilusão (Baguley, 1995). Na literatura brasileira oitocentista esses desdobramentos parecem capazes de abarcar uma gama bem maior de autores e textos do que a historiografia tradicional conseguiu identificar. A onda naturalista do século XIX deu origem a métodos de pesquisa e criação, bem como a formas de expressão que foram retomadas por escritores ao longo dos séculos XX e XXI. A forma de abordar a realidade como elemento constitutivo da obra servirá a pintores, fotógrafos, cineastas e autores de novela, que nela verão um modo legítimo de se falar sobre o mundo e as sociedades. Flora Süssekind, ao analisar o romance brasileiro do século XX, refere-se às vagas naturalistas nos anos 1930 e 1970. Também aponta, nos temas tratados na obra de Ferréz, Dráuzio Varella e Paulo Lins, nos anos 2000, para uma retomada dos postulados centrais do naturalismo. O desejo de expressar dimensões pouco atraentes da realidade, a primazia dada à descrição de conflitos sociais, os temas do preconceito racial e da diversidade sexual, assim como o desejo de documentar situações de opressão e exclusão de sujeitos vistos como subalternos constituem elementos do pacto naturalista de leitura que se renova e se reproduz na contemporaneidade. O leitor encontra obras que se posicionam como retratos e debates que dialogam com o tempo imediato e que sugerem tomadas de posição sobre violências e situações quotidianas. O elemento extraliterário é um componente central da obra, e a busca por verossimilhança decorre tanto do discurso da experiência pessoal quanto da pesquisa científica ou jornalística. Rancière (2010) aponta que, ao abolir hierarquias e criar obras que não respeitavam a organização até então vigente, o naturalismo do século XIX criou, por meio do “efeito de realidade”, o “efeito de igualdade”, que está diretamente ligado, para ele, à possibilidade de associação livre de imagens. Rancière dirá ainda que a literatura que privilegia o descrever sobre o narrar permite que o “aristocrático emprego da ação” seja “bloqueado pela democrática coleção desordenada de imagens”. Com a perspectiva renovada de um naturalismo democrático, múltiplo e desordenado, reconhecível nos séculos XIX, XX e XXI, convidamos pesquisadores a enviar propostas de trabalho que incorporem novas questões de pesquisa e estudos de caso ao debate sobre o naturalismo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BAGULEY, David. Le Naturalisme et ses genres. Paris : Nathan. 1995 BECKER, Colette & DUFIEF, Pierre-Jean (dir.). Dictionnaire des naturalismes. 2 vols. Paris : Honoré Champion, 2017. BECKER, Colette & DUFIEF, Pierre-Jean. Présentation du Dictionnaire des naturalismes. Excavatio : XXX, 1-10, 2018. CASANOVA, Pascale. La République mondiale des Lettres. Paris : Seuil, 1999. RANCIÈRE, Jacques. O Efeito de Realidade e a Política da Ficção. Trad. de Carolina Santos. Revista Novos Estudos, nº 86. São Paulo: Cebrap, março 2010. SÜSSEKIND, Flora. Tal Brasil, qual romance? Rio de Janeiro: Achiamé, 1984. ______. Desterritorialização e forma literária. Literatura brasileira contemporânea e experiência urbana. Literatura e Sociedade, nº 8. São Paulo: FFLCH, 2005. ZOLA, Émile. O romance experimental e o naturalismo no teatro. Trad. Italo Caroni, Célia Berrentini. São Paulo: Perspectiva, 1982.

PALAVRAS-CHAVE: Naturalismo: Realismo; Ciência; Democracia

COORDENADORES:
Débora Cota (Universidade Federal da Integração Latino-americana)
Maria Candida Ferreira de Almeida (Universidad de los Andes)
Nilcéia Valdati (Universidade Estadual do Centro-Oeste)

RESUMO: Uma das questões contemporâneas que tem se imposta ao campo literário é o pensamento em torno do comum, ou seja, como tem se constituído o comum a partir das relações entre o que é próprio e/ou impróprio. Este simpósio quer trazer este problema para pensar as poéticas do presente. Na crítica e na produção artístico-literária das últimas décadas na América Latina, a ideia de comum e comunidade que segue a perspectiva de intelectuais europeus, especialmente italianos e franceses, costuma girar em torno da construção de um novo conceito de “comunidade”, com o qual procura-se desconstruir os termos de identidade, cultura e Estado da tradição do pensamento ocidental. Tais considerações apontam para a dessubjetivação da noção de comunidade, que pode ser vista na crítica de Florencia Garramuño (2014), ao propor uma expansão do campo para renovar as forças dos estudos sobre a literatura latino-americana, em especial, a disciplina de literatura comparada. Por aqui, a reflexão sobre estes aspectos tem incluído também pensar a animalidade (GIORGI, 2014), o direito das coisas (SAFATLE, 2019), o feminismo (TIBURI, 2018), o racismo estrutural (ALMEIDA, 2018), os ódios políticos (KIFFER; GIORGI, 2019), confiscações (VILLELA;VIEIRA, 2020), encerramento em massa (BORGES, 2020), enfim, todos os ruídos que esgarçam o comum. Com tantos conflitos, a comunidade não pode seguir sendo pensada como uma apropriação inerente de sujeitos sociais que compartilham certas características que os homologam. Propomos pensar uma relação dialética que configura uma alteridade de sujeites com outres, implicando apagar um fundamento último da existência compartilhada como sua base ontológica, apoiando-nos na proposta de Paul Preciado (2002), para quem o que se busca nessa outra noção de “Comunidade” é, em princípio, possibilitar que uma cidadania baseada no compartilhamento de fluxos, linguagens, técnicas, novos códigos se aproxime de sua realidade. Dentro desta perspectiva, a literatura, ainda mais, a literatura comparada, pode ser entendida como, mais que um produto social e cultural privilegiado, um campo no qual se estabelecem relações estreitas entre os indivíduos em torno da ideia de comunidade, que também a questiona e a transforma. A literatura comparada é um campo privilegiado porque desde sua origem questiona os fundamentos do comum, atuando contra uma busca pela origem, pela primazia de certos experimentos literários sobre outros, de um fundamento de origem, calcado na herança platônica, que finalmente impedia a compreensão ou aceitação da ideia de patrimônio comum da humanidade. Ela estaria, tomando de empréstimo as palavras de Haroldo de Campos (1983, p.2-3), na “encruzilhada, diálogo necessário e não xenofobia monológica, paralelograma de forças em atrito dialético e não equação de um desconhecido mimético-pavloviano”. Centrado nestas preocupações, este simpósio aceita propostas de estudos em torno da produção artístico-literária e crítica da e/ou sobre a América Latina e que se encontrem voltadas a contribuir nas discussões que se desmembram a partir de um pensamento do comum nas poéticas latino-americanas do presente: a inespecificidade ou o descentramento do literário que considere seus contatos e contágios em suas abordagens; as perspectivas transnacionais e pós-nacionais de produções contemporâneas que negligenciam as fronteiras demarcatórias das nações; a consideração das alteridades que impedem a essencialização e a homogeneização; e/ou o contrário, o imunitarismo que se fecha diante das possibilidades de abertura a Outre

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ALMEIDA, Sílvio. O que é Racismo Estrutural? Belo Horizonte: Letramento, 2018. BORGES, Juliana. O que é encarceramento em massa?. Belo Horizonte: Letramento, 2018. CAMPOS, Haroldo de. “Da razão antropofágica: diálogo e diferença na cultura brasileira”. Boletim bibliográfico - Biblioteca Mário de Andrade, São Paulo, v.44, jan./dez. 1983. GIORGI, Gabriel. Formas comuns: animalidade, literatura e biopolítica. Tradução de Carlos Nougué. 1. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2014. [Coleção Entrecríticas] GARRAMUÑO, Florencia. Frutos estranhos: sobre a inespecificidade na estética contemporânea. Tradução de Carlos Nougué. 1. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2014. [Coleção Entrecríticas] KIFFER, Ana; GIORGI, Gabriel. Ódio político e políticas do ódio: lutas gestos e escritas do presente. Rio de Janeiro: Bazar do tempo, 2019. PRECIADO, Paul B. Manifiesto contrasexual. Madrid: Editorial Opera Prima, 2002. SAFATLE, Vladmir. El circuito de los afectos: cuerpos políticos, desamparo y fin del individuo. Traducción Juan David Millán Mendoza. Cali: Editorial Buenaventura, 2019. TIBURI, Márcia. Feminismo em comum: para todas, todes e todos. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018. VILLELA, Jorge Mattar; VIEIRA, Suzane de Alencar (Orgs). Insurgências, ecologias dissidentes e antropologia modal. Goiânia: Editora da Imprensa Universitária, 2020.

PALAVRAS-CHAVE: Comum; Literatura latino-americana; Perspectivas transacionais e pós-nacionais; Alteridade; Inespecificidade.

COORDENADORES:
GISLEI MARTINS DE SOUZA OLIVEIRA (IFMT - Campus Fronteira Oeste)
Claudia Vanessa Bergamini (UFAC)
Vanderluce Moreira Machado Oliveira (IFMT)

RESUMO: O simpósio agregará comunicações que proponham uma interpretação do conto na literatura contemporânea brasileira, levando em consideração as mais diversas projeções e estratégias que revelam o aperfeiçoamento da escrita do gênero. Desde os primeiros estudos sobre a terminologia do conto, conforme orienta Nádia Battella Gotlib (1990), observa-se a tendência de diferenciá-lo do romance, o qual teria uma forma mais longa e tradicional, sendo que apenas no século XIX surge a acepção short story, a fim de designar uma narrativa curta com características específicas e independentes. A diversidade e dinâmica de procedimentos estéticos utilizados na construção do conto têm relações estreitas quanto ao funcionamento da estrutura romanesca e, assim, torna-se salutar o estudo dos efeitos produzidos por cada gênero em suas singularidades. A autora ainda faz um percurso diacrônico que esboça o debate acerca da teoria do conto, seguindo uma linhagem variada de autores, a saber: Edgar Allan Poe, Júlio Cortázar, Horacio Quiroga, passando também por Charles Perrault, André Jolles, Boris Eikhenbaum, Olivier Henry, bem como Mário de Andrade, Machado de Assis, dentre outros. Sendo assim, é possível observar os vários empreendimentos teóricos e literários os quais permitiram que essa forma breve alçasse um patamar privilegiado no rol da literatura ocidental. Ricardo Piglia (1990), por exemplo, traz luz a autores como Franz Kafka e Jorge Luis Borges, seguindo o argumento de que o conto moderno constitui uma narrativa composta por duas histórias, uma superficial e outra secreta, que encaminham o desfecho para uma revelação. Paradoxalmente, configura-se uma tensão entre as duas histórias, fazendo que dessa lógica narrativa antagônica aflore correlações surpreendentes: “Há algo no final que estava na origem, e a arte de narrar consiste em postergá-lo, mantê-lo em segredo, até revelá-lo quando ninguém o espera.” (PIGLIA, 1990, p.106). Percebe-se que o conto deixa de ser algo engessado a um paradigma conceitual quando é apreendido em seus diversos efeitos de sentido que sugerem, como afirma Piglia, sua natureza fragmentária e elíptica. Interessa ainda ressaltar a denúncia feita por Júlio Cortázar (2006, p. 149) quanto à primazia do romance: “De qualquer modo, enquanto os críticos continuam acumulando teorias e mantendo exasperadas polêmicas acerca do romance, quase ninguém se interessa pela problemática do conto.” Outro elemento entra em cena quanto à abordagem do conto e corresponde ao tempo da leitura em relação à demanda de cada gênero. O romance, devido a sua extensão, é lido com interrupções e pausas que estão em conformidade com o ritmo imposto pela sua composição, enquanto o conto, em decorrência de sua brevidade, pode ser apreciado em uma só “assentada”, como diria Poe (apud GOTLIB, 1990). De modo analógico, o intelectual argentino relaciona o romance com o cinema na tentativa de mostrar que ambos têm uma “ordem aberta” e, ainda, o conto com a fotografia, tendo em vista o foco limitado à perspectiva estética do fotógrafo, ou melhor, a um fragmento da realidade. Ao capturar a “fugacidade na permanência”, cabe ao conto apresentar um enredo capaz de prender a atenção do leitor e de convencê-lo a persistir com a leitura. Quanto à projeção do conto contemporâneo na literatura brasileira, Karl Erik Schøllhammer (2004) destaca a fragmentação e a procura por novas formas de experiência narrativa como recursos estéticos que transgridem ao mesmo tempo que dialogam com a escrita tradicional do gênero. Desse modo, o conto adquire novas roupagens quando introduz uma maior dinâmica no processo de criação literária. O autor delineia que a literatura contemporânea apenas representa o mundo atual por meio de uma inadequação e/ou “[...] uma estranheza histórica que a faz perceber as zonas marginais e obscuras do presente, que se afastam de sua lógica.” (2011, p. 10). Escritores, como Luiz Ruffato e Marcelino Freire, exemplificam a nova vertente para se refletir sobre a produção de narrativas curtas no Brasil, pois, segundo Schøllhammer, retratam a realidade pelo ponto de vista dos que estão às margens do sistema social. Além disso, outros traços como a metaficção e a escrita de si demonstram que a realidade trazida pela literatura atual não se trata de um realismo tradicional e ingênuo. Nesse cenário múltiplo pelo qual o conto contemporâneo circula, a própria definição do que é contemporâneo é – quase – impalpável, remete ao que há de mais vanguardista, àquilo que suscita o sabor da atualidade e, portanto, permite o diálogo imediato entre o tempo presente e a narrativa de linguagem híbrida, aberta, simbólica, cujos traços carecem de debates e estudos que busquem, no mínimo, a compreendê-los.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: CORTÁZAR, Julio. Alguns aspectos do conto. In:_____. Valise de cronópio. Trad. Davi Arrigucci Jr. e João Alexandre Barbosa. São Paulo: Perspectiva, 2006. GOTLIB, Nádia Battella. Teoria do conto. 5. ed. São Paulo: Ática, 1990. PIGLIA, Ricardo. Formas breves. Trad. José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Cia das Letras, 1990. SCHØLLHAMMER, Karl Erik. Miniatura e fragmento: brevíssima incursão pelas formas breves do Brasil. In: NOGUEROL, Francisca (Org.). Escritos disconformes. Nuevos Modelos de Lectura. Salamanca: Universidad de Salamanca, 2004. _____. Ficção brasileira contemporânea. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.

PALAVRAS-CHAVE: CONTO; DINAMICIDADE; REAL; CONTEMPORANEIDADE.

COORDENADORES:
ELIANE TEREZINHA DO AMARAL CAMPELLO (FURG - Universidade Federal do Rio Grande)
Elizete Albina Ferreira (PUC - GO - Pontifícia Universidade Católica Goiás)
Marta Francisco de Oliveira (UFMS - Universidade Federal de Mato Grosso do Sul - Campus Coxim)

RESUMO: O conto é um dos gêneros literários mais cultivados pelas escritoras de todas as épocas, de inúmeros países e de línguas distintas. O objetivo do Simpósio é a análise de contos de autoria feminina, de qualquer tempo e publicados em qualquer língua. A abordagem crítica, a partir de considerações dos questionamentos das protagonistas, terá por base concepções teórico-metodológicas da Crítica Literária Feminista, com vistas a demonstrar a tendência libertária e emancipatória desta écriture. Colocar o conto, desde seus processos de construção e autoria, bem como as próprias autoras em perspectiva neste simpósio implica buscar tecer redes de percepções e compreensões, de vozes em e de diferentes latitudes e propiciar a visibilidade, o debate, a leitura, a descoberta ou redescoberta do potencial literário e estético da escrita de mulheres, desestabilizando convicções que porventura ainda insistam em deixar a autoria feminina à margem de listas e publicações dedicadas à seleção dos melhores contos nacionais ou do universo de uma determinada língua. Observar e valorizar como tantas escritoras vêm se destacando no cenário literário chama a atenção para os modos de escrita e as variações de inscrição dessas autoras na composição dos textos, quer narrando experiências próprias, quer outras não exatamente pessoais, vividas na própria pele, como uma poética de “pequenos detalhes, algumas inflexões, que emocionam” e revelam facetas do universo feminino, emprestando aqui as considerações de Figueiredo (2013, p. 21). Por outro lado, não se desconsidera a expansão da criação literária feminina para os olhares outros acerca dos mundos interior e exterior, vivenciados e construídos em conjunto, mas por elas narrados em sua singularidade no trato com a linguagem estética. Segundo o que inferimos de Venegas e Casamayor (2020), o esforço de memória coletiva e discussão que aqui propomos traz à luz textos e autoras de modo a interpelar o próprio diálogo, orientando-o na direção que culmina em questionamentos mais profícuos e em ‘iluminações’. Podemos, portanto, ter em foco não apenas escritoras que são situadas na periferia de uma tradição por serem mulheres, mas também por serem contistas, talvez como parte menos visível de sua produção e projeto intelectual. Partimos do entendimento de que ainda se faz necessário resgatar e fazer jus à autoria de mulheres em variados momentos e espaços locais, nacionais e internacionais, no sentido de ampliar o cânone e outras esferas legitimadoras da escrita, difundindo as criações de autoria feminina entre leitoras e leitores, discentes de literatura e interessadas/os na leitura tanto no ensino fundamental e médio como no ensino superior e pós-graduações, expandindo a visibilidade destas autoras na academia e na sociedade. Propomos a escrita e as leituras de contos de autoria feminina como um território (re)conquistado, um lugar simbólico sendo constituído de modo mais acessível e aberto no qual autoras de diferentes idades e estilos encontram um teto todo seu, ampliado para as possibilidades contemporâneas de difusão, interlocução e reflexão. A abertura deste Simpósio à análise de contos de mulheres de tempos e de países variados pode vir a constituir um conjunto de contos com características comuns entre si e/ou a uma diversidade inusitada de particularidades na arte contística, na medida em que as protagonistas ocupem espaços em vários segmentos sociais. Neste viés, acolheremos trabalhos com suporte na interseccionalidade, enquanto a seleção de autoras e seus contos apontem para a convergência de temas com fundamento em raça, gênero, sexualidade, classe e etnia. Os contos podem também distinguir pressupostos teóricos inovadores, no combate aos estereótipos femininos, o sexismo e o racismo subjacentes à critica literária tradicional sem, no entanto, desconsiderar o campo mais vasto da Crítica Literária Feminista. Por fim, estendemos estas possibilidades de diálogo, a partir de uma questão de ordem também revisionista, o traçado de um percurso de crítica e de escrita que recupere a autoria feminina por meio de nomes a serem (re)inseridos no horizonte de leituras contemporâneas, ou por retomarem uma genealogia, a modo de precursoras, ou por demarcarem seu lugar entre suportes e públicos que promovam relações diferenciadas entre texto/leitura com os novos perfis de leitoras e leitores. Entretanto, um dos aspectos mais relevantes recai na proposta de focar o caráter investigativo dos contos analisados, valorizando a presença da mulher na história literária e a criatividade feminina. Nesta perspectiva, podem ser consultadas obras tais quais: Descentramentos/convergências: ensaios de crítica feminista, de Rita Schmidt, Crítica literária feminista: uma trajetória, de Susana Funck, Traduções da cultura: perspectivas críticas feministas, organizada por Izabel Brandão et al., entre outras.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BRANDÃO, Isabel, CAVALCANTI, Ildney, COSTA, Claudia de Lima e LIMA, Ana Cecília Acioli (Orgs.). Traduções da cultura: perspectivas críticas feministas. Florianópolis: EDUFAL; Editora da UFSC, 2017. FIGUEIREDO, Eurídice. Mulheres ao espelho: autobiografia, ficção, autoficção. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2013. FUNCK, Susana Bornéo. Crítica literária feminista: uma trajetória. Florianópolis: Insular, 2016. SCHMIDT, Rita Terezinha. Descentramentos/convergências: ensaios de crítica feminista. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2017. VENEGAS, Socorro. CASAMAYOR, Juan. Exhumar la luz. In: VENEGAS; CASAMAYOR (editores). Ciudad de México: UNAM; Editorial Páginas de Espuma, 2020.

PALAVRAS-CHAVE: Conto de autoria feminina; Crítica literária feminista; Protagonista.

COORDENADORES:
Maria de Fatima do Nascimento (Universidade Federal do Pará (UFPA))
Hugo Lenes Menezes (Instituto Federal do Piauí, IFPI, Teresina)
MARCELA FERREIRA (Instituto Federal de Goiás (IFGO) Uruaçu)

RESUMO: Hoje, após o surgir do comparatismo ainda nos Oitocentos, o cartesianismo está defasado diante da unidade epistemológica e da transdisciplinaridade, que transita “entre”, “através” e “além” das diversas áreas do saber. De tal enfoque são ilustrativas as relações multinterpretativas entre arte da palavra, humanidades, cultura e tecnologia, numa variedade de suportes textuais, particularmente sob as interfaces inclusivas dos “estudos culturais” com o “comparatismo literário”. Esse, para Carvalhal (1997), contribui para a alteridade em meio à individualidade. Aqui situamos um crítico estético (música, pintura, teatro e cinema) e literário, além de pensador brasileiro: o hermeneuta Benedito Nunes, para quem: “Combinando a liberdade de imaginação e a ordem dos conceitos, esse arrojo hermenêutico solicita a utilização convergente, inter(-trans)disciplinar, das ciências dispersas na forma individuada, estética, de um discurso favorável à hipótese fecunda e arriscada, à discussão de questões emergentes, não confinadas a uma única disciplina e às soluções problemáticas (NUNES, 2010, p. 299). Tal intelectual se torna bacharel em Direito pelo fato de o curso lhe propiciar a epistemologia, sobretudo, pela Teoria do conhecimento (1921), de Nicolai Hartmann. Depois no exterior, leciona e dirige seminários em universidades. Em seu país, dedica-se ao magistério superior do Pará. Ministra aulas de História da Filosofia e Ética, na Graduação em Ciências Sociais, Pedagogia e História, bem como Teoria Literária na Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Pará. No Suplemento Literário da “Folha do Norte” em Belém (PA), inicia sua produção regular de ensaísta, cujo ponto alto é então “Cotidiano e a morte em Ivan Ilitich”, que prenuncia a criativa estrutura dialógico-transacional da crítica nuniana. Em seu discurso teórico confrontativo e transdisciplinar, outras vozes comparecem, como a de Nietzsche (Filosofia Geral), Werner Jaeger (Filologia), Freud (Neurologia, Psiquiatria e Psicanálise), Benveniste (Linguística), Heidegger (Hermenêutica), Goldmann (Sociologia), Bergson (Ciência da Intuição), Sartre (Existencialismo), Foucault (História das Ideias), Northrop Frye (Antropologia Literária), Husserl (Fenomenologia), Gadamer e Ricoeur (Hermenêutica e Fenomenologia). O traço distintivo da articulação modelarmente verificamos em “A clave do poético” (2009), de Benedito Nunes, que, em estudos de literatos paraenses, julga digno de elaboração um paralelo entre eles e autores regionais, brasileiros e estrangeiros: Dalcídio Jurandir, Érico Veríssimo e Proust; Haroldo Maranhão, Mário de Andrade e Rabelais; Benedicto Monteiro e Inglês de Sousa; Bruno de Menezes, Jorge de Lima e Mallarmé; Paulo Plínio Abreu, Augusto Frederico Schmidt e Rilke; Ruy Barata, Baudelaire e Homero; Mário Faustino, Cecília Meireles, Eliot e Ezra Pound; Max Martins, Drummond e Dylan Thomas; Paes Loureiro, Bruno de Menezes e Maiakovski; Vicente Cecim e Nietzsche; Age de Carvalho, Max Martins e Rimbaud; Antonio Moura, João Cabral e Laforgue; Alonso Rocha e Castro Alves; Paulo Vieira e Mário Faustino. Por sugestão desse último, Benedito Nunes colabora para o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, no qual ele “estreia com o artigo ‘O homem e sua hora’, referente à obra homônima de Mário Faustino. Nesse ponto, o intelectual belenense mantém coluna sobre Filosofia, encerra suas atividades naquele Suplemento, após também contribuir para “A Província do Pará”, e passa a colaborar em “O Estado de São Paulo”, a convite de Décio Almeida Prado; no “Estado de Minas Gerais” e na “Folha de São Paulo”, sem prejuízo de revistas como a lusa “Colóquio Letras”. Do ensaísmo jornalístico, Benedito Nunes incorpora a “compreensão totalizante da cultura” (EULÁLIO, 1992, p. 19) e seu primeiro livro de crítica literária, “O mundo de Clarice Lispector” (1966), “constitui-se de cinco ensaios estampados em “O Estado de São Paulo”. Neles analisa três romances claricianos: “Perto do coração selvagem” (1943), “A maçã no escuro” (1961) e “A paixão segundo G.H.” (1964), bem como o conto “Amor”, de “Laços de família” (1960). Para tanto, dialoga com Kierkegaard, Sartre e Heidegger, mormente no poder ontológico e gnosiológico da linguagem verbal, vinculada à fenomenologia da existência. Igualmente, enquanto clariciano, ele publica “O dorso do tigre” (1969), em cuja segunda parte aborda Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e Fernando Pessoa. Por sua vez, o criador do “Manifesto Antropófago” (1928), recebe o nuniano “Oswald Canibal” (1979). Benedito Nunes continua a estudar a literata ucraniano-brasileira também em “Leitura de Clarice Lispector” (1973) e “O drama da linguagem” (1989). Ademais, coordena a edição crítica de “A paixão segundo G.H” (1988). Entre os livros póstumos de nosso autor, ressaltamos “Do Marajó ao arquivo” (2012), voltado para representantes da literatura paraense e nacional. Então, com o presente simpósio, objetivamos acolher diferentes trabalhos acerca de Benedito Nunes no ano de uma década sem esse grande intelectual.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: CARVALHAL, Tânia Franco (Org.). Literatura comparada no mundo. Porto Alegre: L&PM, 1997. EULÁLIO, Alexandre. O ensaio literário no Brasil. In. WALDMAN, Berta; DANTAS, Luiz (Org.). Escritos. Campinas: Edunicamp; São Paulo: Editora da Unesp, 1992. NUNES, Benedito. Pluralismo e teoria social. In. PINHEIRO, Victor Sales (Org.). Ensaios filosóficos. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

PALAVRAS-CHAVE: Benedito Nunes; Literatura e outras atividades humanas; Diálogos transdisciplinares; Crítica estético-literária; Comparatismo.

COORDENADORES:
Juracy Ignez Assmann Saraiva (Universidade Feevale)
Paul Dixon (Purdue University)

RESUMO: O texto literário é um cronótopo que sintetiza o momento de sua produção e que, por suas virtualidades semânticas, se expande em leituras múltiplas nos variados momentos de sua recepção. Nele cruzam-se tempos e espaços, desenha-se a vida social, reconstituem-se eventos, inscrevem-se múltiplos outros textos, mesclam-se interpretações para constituir uma totalidade, na qual se revela a função da literatura. Agente responsável pela ativação dos sentidos do texto, o leitor instala a ruptura dessa totalidade, mas também a recompõe por meio de sua atividade hermenêutica, com a qual busca conferir respostas às reflexões e indagações que o diálogo, instaurado pelo texto, promove. Machado de Assis, observador perspicaz, analisou a sociedade fluminense e a recriou em seus textos ficcionais, poéticos, dramáticos e ensaísticos, neles infiltrando sua crítica sobre comportamentos humanos e neles expressando suas convicções éticas e estéticas. Analisados e interpretados, hábitos e costumes da vida cotidiana, grupos sociais e tipos humanos, formas de lazer e de integração coletiva, espaços públicos e privados, manifestações artísticas e populares, acontecimentos históricos remetem ao contexto do Segundo Império, que ganha contornos de realidade. Consequentemente, as obras de Machado redesenham o contexto de sua produção, ao mesmo tempo em que compõem um jogo de espelhos, no qual o objeto representado e sua representação compelem o leitor a assumir um posicionamento crítico-interpretativo. Paralelamente à transposição do contexto cultural e a ele interligado, Machado de Assis instala, em seus textos, um espaço de reflexão sobre a arte em geral e sobre a literatura em particular, que também concorre para dar forma a posicionamentos críticos do escritor sobre o fenômeno artístico, os quais incidem sobre o ato de criação do texto e sobre o de sua recepção. A análise de ambas as dimensões, a da sociedade e a do sistema artístico, integra, assim, o momento da recepção do texto ao de sua produção e contribui para a apreensão de sentidos, inscritos na textualidade, e para a elucidação de aspectos da poética machadiana. O presente simpósio visa a discutir o posicionamento crítico que Machado de Assis expressa em suas obras tanto em relação à sociedade brasileira quanto em relação ao fazer artístico. Orientado pela interdisciplinaridade, o simpósio acolhe comunicações que refletem sobre a obra machadiana enquanto processo de representação que se posiciona criticamente sobre o contexto social, histórico e cultural e sobre o próprio sistema artístico, em especial, o literário. O simpósio abre-se, portanto, para estudos de base sociocultural, filosófica, comparatista, poética e narratológica, entre outras, valorizando, também, pesquisas que tratem dos processos de recepção da obra do escritor brasileiro. A pluralidade de enfoques enseja que sejam elucidados, nos corpora selecionados para análise, reflexões que Machado de Assis realiza sobre circunstâncias humanas e sobre o fazer artístico da cultura de que faz parte. A partir desse eixo central, as comunicações podem optar, como corpus de análise, pelo romance, pelo conto, pelo teatro, pela poesia, pela crônica, pela crítica, pela ensaística e pela correspondência machadianas. Dessa forma, entre outros aspectos, elas podem tratar da produção metafórica e alegórica que, frequentemente, tematiza aspectos históricos, na obra do escritor; podem restabelecer diálogos de textos machadianos com outros textos literários e com elementos do teatro lírico e dramático, da música e da dança, das artes visuais, da arquitetura e da geografia, de todas as artes e ofícios que o escritor incorpora às suas criações; podem deter-se nas manifestações do cotidiano e em elementos da cultura popular que o olhar do escritor privilegia; podem enfocar as crônicas como espaço de denúncia social ou de avaliação de eventos culturais. A crítica que se inscreve nos textos, a partir da qual Machado compõe a ficcionalização de uma teoria do fazer poético, também tem lugar no âmbito do simpósio, que abrange, igualmente, os vínculos entre Machado e o público leitor do Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX e da primeira década do século XX. Além disso, devido à relevância que a obra machadiana deve ocupar na formação dos brasileiros, acolhem-se, igualmente, comunicações que tematizem sua leitura em ambientes formais e não formais de ensino e aprendizagem. Em síntese, o simpósio objetiva contribuir para a divulgação de estudos que exploram a obra de Machado de Assis em sua relação com o contexto de sua produção e de sua recepção e que, por extensão, ressaltam sua importância e a necessidade de sua atualização no âmbito acadêmico e no sistema educacional brasileiro.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

PALAVRAS-CHAVE: Machado de Assis; Sociedade brasileira; Ficção; História; Poética; Crítica.

COORDENADORES:
SHEILA MARIA DOS SANTOS (Universidade Federal de Santa Catarina)
MARLOVA GONSALES ASEFF (Universidade de Brasília)

RESUMO: Ao longo da história da literatura ocidental, poetas e prosadores estiveram envolvidos, em maior ou menor grau, com a tarefa da tradução. E há várias evidências que comprovam como a atividade tradutória não só contribuiu para promover renovações no interior das literaturas nacionais, como também esteve em suas gêneses. É bem difundido, por exemplo, o impacto que teve a tradução dos escritos de Edgar Allan Poe por Charles Baudelaire, cuja obra, mais tarde, repercutiria no movimento simbolista e, em seguida, no modernismo hispano-americano. No caso da literatura brasileira, desde seus primórdios, os escritores estiveram a cargo das traduções. Ainda no período colonial, Gregório de Matos fez paráfrases e imitações de poemas dos espanhóis Francisco de Quevedo e Luis de Góngora. Já no fim do século XVIII, poetas do Arcadismo, como Cláudio Manuel da Costa e Basílio da Gama, foram buscar na Itália as normas estéticas e os modelos para a vida literária. (PAES, 1990, p. 12). Sabemos também que durante o Romantismo, Machado de Assis, Gonçalves Dias e Castro Alves se dedicaram à tradução literária, principalmente de gêneros como o romance-folhetim, o drama e a poesia. Antonio Candido demonstrou a influência das traduções de Baudelaire por poetas brasileiros no decênio de 1870, na passagem do Romantismo para o Simbolismo. Tais traduções, segundo o crítico, “definiram os rumos da produção poética, traçando a isonomia de uma fase [da literatura brasileira]” (CANDIDO, 2006, p. 28). Candido chama a atenção para o fato de que esses poetas eram, em sua maioria, “secundários”, jovens rebeldes que usaram Baudelaire como “um instrumento libertador”. Na década de 1930, época na qual o mercado editorial brasileiro começava a se organizar, a Livraria do Globo foi pioneira na tradução de romances policiais norte-americanos. Os anos entre 1942 e 1947 constituíram a época de ouro da tradução para essa editora de Porto Alegre, quando importantes poetas brasileiros, como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Mario Quintana, atuaram como tradutores para a casa editorial. Wyler destaca que nesse período os tradutores não eram mais, como nos séculos anteriores, poetas poliglotas e diletantes. Eram escritores consagrados em ascensão, ou seja, os responsáveis em qualquer cultura pela criação e reprodução dos padrões linguísticos do idioma (WYLER, 2003, p. 117). Logo em seguida, ao reconhecer a lucratividade do mercado de literatura traduzida, a editora José Olympio também decidiu apostar em literatura traduzida. Para isso, recrutou um time de escritores para atuar como tradutores, entre eles Lúcio Cardoso, Vinícius de Moraes, Guilherme de Almeida, Raquel de Queirós e José Lins do Rego, que traduziram para essa editora nos anos de 1940 (HALLEWELL, 2005, p. 459-460). Também os poetas pertencentes à chamada Geração de 45 engajaram-se com entusiasmo na tradução de poesia. Podemos citar Péricles Eugênio da Silva Ramos, Geir Campos, Idelma Ribeiro de Faria, Dora Ferreira da Silva, Darcy Damasceno, Paulo Mendes Campos, Dante Milano, Stella Leonardos, Lêdo Ivo, Jamil Almansur Hadad e Foed Castro Chama. Nesse sentido, é possível citar ainda o trabalho dos irmãos Campos e sua teoria da Transcriação, a qual toma o texto traduzido como uma recriação, ou ainda, “criação paralela, autônoma, porém recíproca” (CAMPOS, 2013, p. 5). Com efeito, as observações de Haroldo de Campos evidenciam o aspecto transformador e criador do ato tradutório, o que implica uma mudança na visão que se faz do tradutor e de sua função. Portanto, a atuação dos escritores como tradutores, além de servir como um eficaz instrumento de divulgação e de legitimação dos textos no mercado editorial, suscita uma série de questionamentos pertinentes à História da Tradução Literária, bem como aos Estudos da Tradução e à Literatura Comparada. Um deles diz respeito à voz do escritor presente no texto traduzido, uma vez que a crítica tradicional avilta a visibilidade do tradutor no texto traduzido, como denuncia Lawrence Venuti (1995). Honig (1985, p. 8) também acredita que entre as questões inquietantes neste domínio está a de se pensar em que medida um poeta descobre a sua “voz” no poeta traduzido ou o quanto da “voz” do outro poeta ele toma para si. Assim, dada a riqueza temática identificada na discussão sobre a atuação de escritores-tradutores e a formação dos cânones literários, este simpósio receberá trabalhos que versem sobre os seguintes temas: • Análise de tradução de escritores-tradutores e a relação entre tradução e criação, sob um viés interdisciplinar; • Apreciação de projetos de reescrita poética nos quais existam dificuldades de se estabelecer uma fronteira clara entre o que seria tradução adaptação ou imitação; • Análise de pastiches, enquanto gênero literário híbrido pautado em questões tradutórias; • A literatura traduzida e a formação dos cânones;

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: CAMPOS, Haroldo de. Transcriação. (Org.) TÁPIA, Marcelo; NÓBREGA, Thelma Médici. São Paulo: Perspectiva, 2013. CANDIDO, ANTONIO. Os primeiros baudelairianos; A revolução de 30 e a cultura. In Educação pela noite. Rio de janeiro: Ouro sobre o Azul, 2006. HALLEWELL, Laurence. O livro no Brasil: sua história. Traduzido por Maria da Penha Villalobos; Lólio Lourenço de Oliveira. São Paulo: Edusp, 2005. HONIG, Edwin. The Poet's Other Voice: Conversations on Literary Translation. Amherst: The University of Massachusetts Press, 1985. PAES, José Paulo. Tradução, a ponte necessária: aspectos e problemas da arte de traduzir. São Paulo: Ática, 1990. VENUTI, Lawrence. The Translator's Invisibility: a History of Translation. London and New York: Routledge, 1995. WYLER, Lia. Línguas, poetas e bacharéis: uma crônica da tradução no Brasil. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.

PALAVRAS-CHAVE: Escritor-tradutor; Cânones; Literatura traduzida.

COORDENADORES:
Giovanna Ferreira Dealtry (Uerj)
Carlos Augusto Bonifácio Leite (UFRGS)

RESUMO: Em julho de 1922, Lima Barreto publica a crônica “O futurismo”, na Revista Careta, após ter recebido de Sérgio Buarque de Hollanda um exemplar da Revista Klaxon. A tentativa de garantir o elogio do autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma, um dos poucos admirados pelos jovens modernistas paulistas, não poderia dar mais errado. “Disse cá comigo: esses moços tão estimáveis pensam mesmo que não sabíamos disso de futurismo? Há vinte anos, ou mais, que se fala nisto e não há quem leia a mais ordinária revista francesa ou o pasquim mais ordinário da Itália que não conheça as cabotinagens do “il Marinetti”. O texto de Lima Barreto desnuda algumas concepções consagradas pelo cânone modernista brasileiro. Dentre elas a ideia de que os modernistas paulistas seriam os primeiros responsáveis pela ponte com as vanguardas europeias ou que os artistas das primeiras décadas do século XX dividiam-se em grupos homogêneos contra ou a favor da tradição beletrista. Outro episódio envolvendo os amigos Ribeiro Couto e Manuel Bandeira revela as imbricações do período. Apesar de reconhecer a dívida para com os modernistas paulistas, Bandeira, em Itinerário de Pasárgada, explica os motivos pelos quais nem ele ou Ribeiro Couto participaram da Semana de Arte Moderna: “Nunca atacamos publicamente os mestres parnasianos e simbolistas, nunca repudiamos o soneto nem, de um modo geral, os versos metrificados e rimados”. Mais recentemente, mesmo em versão menos acadêmica, Ruy Castro dá notícia da efervescência moderna que ocorria na cidade do Rio de Janeiro das primeiras décadas do século XX em Metrópole à beira-mar. Os episódios brevemente relatados revelam a complexidade da vida literária no período, como também apontam para uma diversidade da compreensão da modernidade e de modernismos, nem sempre atendendo à conceituação formal, europeizante, de movimento. Ou seja, para além de uma pretensa hierarquização entre poetas, ficcionistas, ensaístas, artistas no sentido amplo, cabe pensar, a partir da contemporaneidade, como esses sujeitos e obras colocados à margem durante décadas são imprescindíveis para a constituição de uma nova compreensão estética, temática e ética da modernidade brasileira. A partir desse cenário, a proposta central do GT Outros modernismos é provocar o debate teórico e crítico acerca da conceituação dos termos “modernismo” e “modernidade” na literatura e nas demais artes brasileiras, tendo como arco temporal o final do século XIX até a década de 1930. Partimos do princípio de que a construção canônica do movimento modernista ofuscou as inovações e rupturas estéticas e temáticas de escritores e escritoras, compositores e compositoras, fora da década de 20 e da cidade de São Paulo. Sob rubricas generalizantes, como “pré-modernismo”, por exemplo, opera-se o esvaziamento inovador de obras diversas, como as de Gilka Machado, Lima Barreto, Joaquim Inojosa, Julia Lopes de Almeida, João do Rio, Patrícia Galvão, entre outras. Ao mesmo tempo, sob duvidoso recorte geracional, integram-se obras e escritores que reservam notáveis tensões em relação ao modernismo paulista, como Bandeira, Drummond, Jorge Amado, Graciliano Ramos etc., mas que tem suas diferenças apagadas em relação ao grupo dos cinco ou ao amplo conceito de “modernismo”. Assim, muitas vezes, os elos em comum parecem se sobrepor reforçando uma “identidade moderna” nascida em São Paula e espraiada para o resto do país. Em paralelo, também é possível observar como o ensaísmo de Gilberto Freyre e Manuel Bonfim, ilustrativamente, oferecem novas perspectivas sobre o modernismo fora do eixo Rio-São Paulo. Nesse sentido, serão bem-vindas comunicações: a) que abordem temas identificados com a modernidade desse período, em geral, ligados à metrópole, como a importância de novas tecnologias, a imprensa ágil, a multidão, a flânerie, o cinema, os cafés, os grupos de trabalhadores ou minoritários (negros, indígenas, homossexuais, mulheres, imigrantes); b) Que sejam (e/ou se postulem como) vanguarda, isto é, que apresentem uma posição de rompimento, diferenciação em relação a algum movimento estético ou instituição (real-naturalismo, parnasianismo, academicismo etc.), ou uma movimentação pela novidade, pelo “ir adiante” em termos estéticos e/ou de representação; c) Que recuperem a importância de outros núcleos modernos, como Cataguazes, Porto Alegre, Recife, Belo Horizonte etc.; d) Que releiam a partir da ótica crítica da contemporaneidade o modernismo paulista; e) Que apresentem análises sobre a vida literária e cultural do período e novas sociabilidades e subjetividades modernizantes. Nesse cenário, Monica Pimenta Velloso (1996), Renato Cordeiro Gomes (2008) e Carmem Lucia Negreiros de Figueiredo (2016), entre diversos trabalhos e estudiosos, demonstram como as relações entre metrópole, novas tecnologias, camadas marginalizadas, vida cultural e criação estética entrecruzam-se no início do século XX.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BANDEIRA, Manuel. Itinerário de Pasárgada [7ª ed.]. São Paulo: Global, 2019. BARRETO, Lima. “O futurismo”, in _______. Toda crônica, v.2; apresentação e notas de Beatriz Resende e Rachel Valença. Rio de Janeiro: Agir, 2004. CASTRO, Ruy. Metrópole à beira-mar: o Rio moderno dos anos 20. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. FIGUEIREDO, Carmem Lúcia Negreiros de. “Vivência urbana e experiência estética em narrativas da Belle Époque. p. 267-292. In Belle Époque – crítica, arte e cultura. (orgs. Negreiros, Carmem et alli). São Paulo: Intermeios, 2016 GOMES, Renato Cordeiro. Todas as cidades, a cidade: literatura e experiência urbana. São Paulo: Rocco, 2008. VELLOSO, Mônica Pimenta. Modernismo no Rio de Janeiro: turunas e quixotes. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1996.

PALAVRAS-CHAVE: modernidade; vida literária e cultural; crítica ao cânone; outros modernismos.

COORDENADORES:
Amilton José Freire de Queiroz (Universidade Federal do Acre, Colégio de Aplicação)
EZILDA MACIEL DA SILVA (Universidade Federal do Pará)
Simone de Souza Lima (Universidade Federal do Acre)

RESUMO: O simpósio propõe-se a estabelecer diálogos sobre as epistemologias, os comparatismos e as humanidades das/nas Américas, Amazônias e Áfricas, mapeando, ademais, as textualidades rizomáticas da literatura, vida e sociedade. Os aportes teóricos, metodológicos e críticos são oriundos da Teoria Literária, Literatura Comparada, Estudos Culturais e Pós-coloniais, Decoloniais e Geografia Cultural, principalmente os de Jonathan Culler (2016), Eneida Maria de Souza (2012), Ivete Walty (2012), Homi Bhabha (1998), Edward Said (2005), Stuart Hall (2013), Benjamim Abdala Junior (2012), Tania Carvalhal (2003), Zilá Bernd (2013), Eurídice Figueiredo (2013), Angel Rama (2001), Cornejo Polar (2000), Hugo Achugar (2006), Aníbal Quijano (2000) e Roberto Lobato Corrêa (2011). O simpósio acolherá trabalhos que enfoquem as interlocuções da literatura com outros saberes, tais como História, Antropologia, Sociologia, Geografia Cultural, Filosofia, Artes Plásticas, Jornalismo, Cinema, Educação, Ensino, Relações Internacionais, Direito e Tecnologias. Estudar, pesquisar e discutir as humanidades é aprofundar, expandir a visão do “fim do império cognitivo”, dimensionar as “epistemologias do Sul” (SANTOS, 2019) e desenvolver hipóteses sobre “Comparar? Aproximar? Dialogar? Friccionar” (CASA NOVA, 2008). O simpósio coloca-se, assim, como parte de um processo, sempre aberto, como é da natureza dos percursos transfronteiriços e, sobretudo, das textualidades rizomáticas das Américas, Amazônias e Áfricas. Não à toa, procura elaborar reflexões sobre “raízes e labirinto” (SANTIAGO, 2006), “vestígios memoriais” (BERND, 2014), “Paralelas e tangentes” (SANTILLI, 2003), uma “geocrítica do eurocentrismo” (MATA, 2012), “Amazônia babel” (LIMA, 2014), as formulações pós-coloniais (LEITE, 2013) e “os paradigmas críticos e representações em contraponto” (BRUGIONI, 2019). A diligência crítica proposta aqui quer pensar as obras literárias, em diálogo com outras esferas do conhecimento. Parte, para tanto, das seguintes questões: como os narradores africanos, latino-americanos e brasileiros configuram o diálogo entre culturas, literaturas, linguagens e humanidades nos séculos XX e XXI? Que papel exercem as estéticas do deslocamento nas trocas e transferências culturais, linguísticas, éticas? Como os conhecimentos da teoria, crítica e comparatismo podem ser articulados às correntes teóricas como os estudos culturais, pós-coloniais, decoloniais e geoculturais? Como interpretar textualidades que têm representado alteridades desviantes e suscitado novas formas de compreensão da literatura, sociedade e cultura? Como abordar romances, contos, crônicas, produções cinematográficas, artes plásticas que, em certa medida, vão na contramão da busca da identidade nacional, bem como interpretar textualidades rizomáticas marcadas por nomadismo, errância, diáspora? Ou, ainda, quem são os novos ficcionistas africanos, latino-americanos e brasileiros que estariam promovendo novas leituras dos contatos coloniais e pós-coloniais? Que espaços as textualidades rizomáticas têm ocupado na cena crítico-teórico-comparatista? Que visões do espaço urbano e rural têm sido apresentadas nestas produções artísticas? Como tais ficcionistas, intelectuais e tradutores têm vivido e representado a tensão entre o local e o global e que ocupam a era da globalização? Que posicionamentos a crítica pode adotar diante destes textos que elegem a montagem, o recorte, as imagens e as citação como formas discursivas tão díspares? Silviano Santiago (2002) desenvolve também a linha de raciocínio sobre a relação entre viagem, sociedade e literatura. Para o crítico, “os europeus viajam por que são insensíveis aos seus, porque não tem o alto senso de justiça” (p. 225). A interface entre cultura, sociedade e imaginário está ali, porém não é vista, reconhecida e vivida, sendo negada para dar lugar a construção do espelho da Europa no Novo Mundo, a propagar a fé do Império como instrumento de negação dos valores do outro, indígena, negro, feminino, sequestrar o código linguístico deste último e instituir uma prática etnocêntrica para falar pelo outro e em nome dele. Erik Karl (2016) aponta que “o brasileiro facilmente se sente estrangeiro diante de seus compatriotas, apesar dos laços de língua e reconhecimento mútuo que os unem. Ainda existem barreiras culturais, dificilmente superáveis que desafiam as noções ideológicas de identidade e semelhança” (SCHOLLHAMMER, p.155). A afirmação poderia ser ampliada à relação, humanidades, linguagens e identidades, que também tem como variante o instável do encontro, abarcando a direção e dimensão múltipla de que tudo na subjetividade olhada transforma a relação entre quem olha e aquilo que é olhado. Nesse sentido, pretende-se, neste simpósio, dialogar com a “Literatura brasileira contemporânea: um território contestado” (DALCASTAGNÈ, 2012), estudar “A literatura afro-brasileira: abordagens em sala de aula” (DUARTE, 2019), investigar as “Poéticas indígenas: lugar, identidade e memória”, ampliar a leitura da “Literatura como arquivo da ditadura brasileira” (FIGUEIREDO, 2017) e ampliar as lições de “Literatura Comparada e Literatura Brasileira: circulações e representações” (JOBIM, 2020). Eis alguns dos horizontes de interesse que orientam, portanto, a concepção, proposição e concreção deste simpósio, para o qual convidamos pesquisadores e estudantes de pós-graduação a refletir sobre os percursos transfronteiriços e as textualidades rizomáticas das/nas Américas, Amazônias e Áfricas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ABDAJA JUNIOR, Benjamim. Literatura comparada e relações comunitárias, hoje. São Paulo: Ateliê Editorial, 2012. ACHUGAR, Hugo. Planetas sem boca: escritos efêmeros sobre Arte, Literatura e Cultura. Trad. Lysley Nascimento. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2006. BERND, Zilá. Afrontando fronteiras da literatura comparada: da transnacionalidade à transculturalidade. Revista Brasileira de Literatura Comparada, v. 1, 211-222, 2013. BERND, Zilá. Por uma estética dos vestígios memoriais: releitura da literatura das Américas a partir dos rastros. Belo Horizonte, Fino traço, 2013. BHABHA, Homi. O local da cultura. Trad. Myriam Ávila. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998. BRUGIONI, Elena. Literaturas africanas comparadas: paradigmas críticos e representações em contraponto. Campinas, Editora da Unicamp, 2019. CARVALHAL, Tania. O próprio e o alheio: ensaios de literatura comparada. São Leopoldo: Editora UNISINOS, 2003. CASA NOVA, Vera. Fricções: traço, olho e letra. Belo Horizonte, Editora UFM, 2008. CORNEJO POLAR, Antonio. O condor voa. Literatura e cultura latino-americanas. Trad. Ilka Valle de Carvalho. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2000. CORRÊA, Roberto Lobato; ROZENDAHL, Zeny. Introdução à geografia cultural. Rio de Janeiro, Beltrand Brasil, 2011. COUTINHO, Eduardo. Mutações do comparativismo no universo latino-americano: questões da historiografia literária. In. SCHMIDT, Rita Terezinha et al. (Org). Sob o signo do presente: intervenções comparatistas. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2010, p. 31-42. COUTINHO, Eduardo. Transferências e trocas culturais na América Latina. In: José Luís Jobim et .. (Org.). Lugares dos discursos: o local, o regional, o nacional, o internacional, o planetário. 01ed. Niterói: Editora EdUFF, 2006, v. 00, p. 218-232. CULLER, Jonathan. Teoria literária hoje. In: CECHINEL, Andre et al (Org). O lugar da teoria literária. Florianópolis: EdUFSC; Criciúma: Ediunesc, 2016. p. 395-417. DALCASTAGNÈ, Regina. Literatura brasileira contemporânea: um território contestado. 1. ed. Rio de Janeiro, Vinhedo: Editora da UERJ, Horizonte, 2012. DUARTE, Eduardo Assis. Literatura afro-brasileira: abordagens na sala de aula. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2019. GRAÚNA, Maria das Graças Ferreira. Poéticas indígenas: lugar, identidade e memória. In: III ENILLI, 2017, Garanhuns. Nas fronteiras da linguagem: língua, literatura e cultura. Salvador: EDUFBA, 2015. HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Trad. Adeline La Guardia Resende. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013. FIGUEIREDO, Eurídice. Literatura Comparada: o regional, o nacional e o transnacional. Revista Brasileira de Literatura Comparada, v. 23, p. 31-48, 2013. FIGUEIREDO, Eurídice. A literatura como arquivo da ditadura brasileira. 1ª. ed. RIO DE JANEIRO: 7Letras, 2017. JOBIM, José Luís. Literatura comparada e literatura brasileira: circulações e representações. 1. ed. Boa Vista, RR: Rio de Janeiro, Editora da Universidade Federal de Roraima: Makunaima Edições, 2020. LIMA, Simone de Souza. Amazônia babel: línguas, ficção, margens e resíduos utópicos. Rio de Janeiro, Letra Capital, 2014. QUIJANO, Aníbal. Colonialidad del poder, cultura y conocimiento en América Latina. In: Dispositio/n. Ann Arbor, Michigan, v. 24, n. 51, p. 137-148, 2000. PADILHA, Laura Cavalcante. A África e suas fonias – impasses e resgate. In: PONTES, Geraldo e ALMEIDA, Claudia (Orgs). Relações literárias internacionais: lusofonia e francofonia. Niterói/ Rio de Janeiro: EdUFF/de Letras, 2007. P. 103-116. RAMA, Angel. Regiões, culturas e literaturas. In. AGUIAR, Flávio; VASCONCELOS, Sandra Guardini T. Tradução de Raquel Corte dos Santos, Elsa Gasparotto. São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 2001. SAID, Edward. Representações do intelectual: as conferências Reith de 1993. Trad. Milton Hatoum. São Paulo, Companhia das Letras, 2005. SANTIAGO, Silviano. As raízes e o labirinto da América Latina. Rio de Janeiro, Rocco, 2006. SANTIAGO, Silviano. Nas malhas da letra. Rio de janeiro: Rocco, 2002. SANTILI, Maria Aparecida. Paralelas e tangentes: entre literaturas de língua portuguesa. São Paulo, Arte & Ciência, 2003. SOUZA, Eneida Maria. Tempo de pós-crítica: ensaios. 2 ed. Belo Horizonte: Veredas e Cenários, 2012. WALTY, Ivete . Literatura comparada: transculturação e espaço público. Organon (UFRGS), v. 27, p. 83-103, 2012.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura; Epistemologia; Comparatismo; Humanidades; Mobilidades.

COORDENADORES:
NICIA PETRECELI ZUCOLO (Universidade Federal do Amazonas)
Marlise Vaz Bridi (Universidade de São Paulo)

RESUMO: A literatura como manifestação cultural elabora representações sobre o posicionamento de um grupo social, uma época, pela voz paradoxalmente singular e coletiva da autoria, e quanto mais central for essa voz, mais aceita como autêntica pelo cânone ela será. As práticas de sujeitos envoltos em situação de opressão e violência, representadas em diversas manifestações culturais, inscrevem-se na construção simbólica dos corpos e da arte como uma materialidade, um corpo, uma subjetividade. Se essa subjetividade partir de uma ótica descentrada, seja pela elaboração estética, seja pelo ponto de origem, percebe-se que as engrenagens de opressão começam a movimentar-se, exigindo uma aprovação do cânone, tradicionalmente hetero-normativo, branco, masculino. Mulheres, homossexuais, transexuais, negrxs, indígenas, quilombolas, precisam ter seu fazer artístico validado pelo centro hegemônico de prestígio e disseminação cultural de seu país. A tradição, no que tem de negativo e prejudicial às manifestações culturais, insidiosamente oprime a inovação, tanto da perspectiva de autoria, quanto de forma, conteúdo e personagens. Nesse sentido, manifestações culturais, dentre elas a literatura, com obras que problematizam questões de gênero, sexualidade, poder, violência e identidade de modo amplo, são fundamentais como alerta (na falta de outra palavra) para essa situação. Pensar em Stela Manhattan, de Silviano Santiago, Lory Lamb, de Hilda Hilst, Delfina e Maria das Dores, de Paulina Chiziane, Constança H, de Maria Teresa Horta, Fernando Seixas, de José de Alencar, Bento Santiago, de Machado de Assis, a narradora inominada de A manta do soldado, Myra, de Maria Velho da Costa, Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo, é perceber como o controle é sutil, normatizando comportamentos e criando espaços de exclusão e de violência institucionalizada. Aqui, podem ser acrescidos elementos como o geográfico: as escritoras do norte do país têm o mesmo trânsito que as escritoras do sudeste? As escritoras do sudeste têm o mesmo trânsito que os escritores do nordeste? As escritoras do séc. XIX tinham sequer sua existência reconhecida? Michel Foucault, em seu primeiro volume da História da sexualidade, afirma que [a] sexualidade é o nome que se pode dar a um dispositivo histórico: não à realidade subterrânea que se apreende com dificuldade, mas à grande rede de superfície em que a estimulação dos corpos, a intensificação do discurso, a formação dos conhecimentos, o reforço dos controles e das resistências, encadeiam?se uns aos outros, segundo algumas grandes estratégias de saber e de poder. (FOUCAULT, 2005, p. 100). Tome-se a fala de Foucault como fundamental para entender que a sexualidade transcende questões de gênero e desejo. Entenda-se a sexualidade como um mecanismo de controle, uma maneira de educar os corpos, singularizá-los de modo a “desencorpar” o indivíduo, tentando revesti-los de uma igualdade normalizadora, que – ao mesmo tempo em que diz reconhecê-lo individualmente – apaga sua identidade, transferindo-a para o grupo, onde é mais fácil o controle (SCOTT, 2005). O modo como os papéis sociais precisam ser definidos conforme o que é normatizado desvela a necessidade de se buscar a resistência pela literatura ou por outras manifestações culturais, como cinema e música, por exemplo. O domínio do cânone pelo discurso hegemônico masculino ainda é uma realidade, entretanto a abertura para discussão em espaços tradicionalmente masculinos, como a academia e a produção literária, possibilita olhares de diferentes ângulos sobre a construção de papéis sociais de homens e mulheres e seus exercícios de sexualidade e identidade. A literatura e a produção de obras artísticas que abordem a performance de corpos considerados abjetos, de identidades desviantes, são cruciais para o enfrentamento de um cânone literário que espelha uma sociedade misógina, racista, homofóbica e xenófoba. As diversas transformações nos papéis sociais de gênero e sexualidade historicamente vivenciados pela sociedade são uma realidade, e como tal ecoam na literatura e nas produções artísticas, levantando algumas questões como: será que a representação da mulher e do homem assume aspectos distintos a partir da autoria feminina? Será que a sororidade (entendida como resistência ao patriarcado, tida como relação de união, colaboração, apoio e empoderamento entre mulheres) se faz presente no discurso ficcional de autoria feminina? Será que os escritores pensam as personagens femininas a partir de estereótipos, permitindo às masculinas uma maior mobilidade? A relação corpo-desejo-identidade é problematizada tanto por homens quanto por mulheres, sejam trans ou cisgênero? Como e por quem é representada a abjeção e a violência? O poder e a violência são representados igualmente por autores e autoras? O grupo de pesquisa Relações de gênero, poder e violência em literaturas de língua portuguesa espera para este simpósio trabalhos que problematizem questões de gênero (do feminino, do homossexual, do queer, das novas masculinidades, do corpo, do abjeto), trabalhos que investiguem as relações de poder e violência, a cisão – ou não – do poder patriarcal na contemporaneidade, tomando como base o texto literário, erudito ou popular, consagrado ou não canônico, ou outras produções culturais, como as advindas do cinema e/ou da música.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ALENCAR, José. Senhora. São Paulo: Penguin, 2013. ASSIS, Machado. Dom Casmurro. São Paulo: Penguin, 2016. CHIZIANE, Paulina. O alegre canto da perdiz. Lisboa: Editorial Caminho, 2008. EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio. Rio de Janeiro: Pallas, 2003. COSTA, Maria Velho da. Myra. Lisboa: Assírio e Alvim, 2008. FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: A vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2005. HILST, Hilda. O caderno rosa de Lory Lamb. Porto Alegre: Editora Globo, 2005. HORTA, Maria Teresa. A paixão segundo Constança H. Lisboa: Bertrand Editora, 2010. JORGE, Lídia. A manta do soldado. Rio de Janeiro: Record, 2003. SANTIAGO, Silviano. Stela Manhattan. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. SCOTT, Joan. O enigma da igualdade. In: Revista de Estudos feministas. Vol.13. Florianópolis Jan./Apr. 2005.

PALAVRAS-CHAVE: Resistência; Gênero; Corpo; Opressão; Cânone.

COORDENADORES:
André Cechinel (Universidade do Extremo Sul Catarinense)
Cristiano de Sales (Universidade Tecnológica Federal do Paraná)

RESUMO: O arlequim que Mário de Andrade nos apresenta em muitos momentos de sua Paulicéia Desvairada opera de maneira precisa na proposição de uma estética modernista para a literatura brasileira. O modo como esse personagem aparece dentro da outra personagem, São Paulo, evoca um dos temas mais caros ao grupo que se empenhou na utopia modernista da década de 1920, a saber, o devaneio. Este, que carregava também um desejo de liberdade ganhou corpo em versos harmônicos – uma invenção formal de Mário. Essa refinada artimanha de amalgamar forma e conteúdo não apenas colocou o poeta paulistano no centro do movimento como também revelou um potente modo de transgredir. A transgressão, sabemos, ocupa lugar cativo nas tentativas de teorização acerca do modernismo. No entanto, não se pode baratear esse conceito no mero sentido de desvio ou negação de um sistema em curso (seja este sistema estético ou ideológico), pois, como fez o autor de Macunaíma, transgredir consiste sobremaneira em estabelecer contato com a tradição da qual se intenta libertar. Modificar algo num sistema demanda transformação e não se transforma nada encerrando a dialética entre a herança material-cultural e o novo que se pretende fazer aparecer. O ser contemporâneo de Agamben não é o que vê os limites do tempo e o nega, mas sim aquele que estabelece dialéticas distintas e desestabiliza o dispositivo do tempo. Por isso o arlequim de Paulicéia tentou cantar na cidade e foi levado pela polícia, porque seu canto não compunha mais melodias como queria a industrialização moderna que tomava conta da cidade, seu canto fazia harmonias com outros desejos, outros sonhos, oferecia outro ritmo. A transgressão estava em se permitir devanear. Ela é uma das principais potências do que chamamos modernismo em literatura. É uma potência que nos faz hoje acreditar que é característico da poesia transgredir. Tendo em vista o cenário maniqueísta que se transformou a arena pública dos debates que tocam a política no Brasil hoje, e que esse binarismo chegou a colocar objetos de arte no centro de uma discussão antes moralista do que estética, queremos com esse simpósio colocar em questão o caráter transgressor da poesia nos meios em que ela ainda opera (e isso inclui espaços instituídos, como universidades e escolas, e não instituídos, como circuitos que independem do academicismo). Tendo em vista também que vivemos hoje cenários muito antes distópicos do que o cenário utópico que sedimentou o ato de transgredir como marca da poesia, queremos discutir a transgressão em diferentes momentos históricos, abrindo, com isso, espaço para estudiosos dos diferentes períodos e tradições poéticas. Seja pelo inutensílio de Paulo Leminski – para quem a rebeldia era um bem absoluto que se manifestava na linguagem por meio da poesia –, ou pelos corpos riscados de Ana Cristina Cesar – onde o contorno de um seio e os traços da escrita de um poema se confundiam na tentativa angustiada de não separar a poesia da vida –, ou ainda na assumida luta inglória com o corpo da linguagem a que se entregou Ferreira Gullar, o rastro estendido no tempo que faz de certas escritas algo canônico (mesmo que em princípio à margem) parece trazer sempre a cicatriz de uma subversão num sistema operante. Mesmo quando nos afastamos das constelações de Mallarmé ou da postura mais radical de Rimbaud, encontramos vozes que permaneceram no tempo e no espaço porque desestabilizaram algo, não legitimaram o status quo da vida ou da literatura. E isso não é um mérito moderno, ocorre desde muito antes das interpretações românticas que damos à história da literatura. Enquanto Baudelaire parecia entender e explicar algo da Modernidade com seu cisne atordoado no asfalto, ou com a passante que desperta paixões à última (e não à primeira) vista, Walt Whitman libertava o verso com eloquência contagiante. Rilke equilibrava conteúdo e forma de maneira cirúrgica não para dizer o que fazia a poesia moderna, mas para escancarar justamente o que as teses sobre a lírica moderna não davam conta de explicar. De certo modo foi o que fez também o marujo Neruda que não cessou de sonhar e se fazer lírico, ou Hilda Hilst que ousou fazer de deus uma via de acesso sensorial (sensual) e não um fim. Cecília, que transgrediu a objetividade triunfante de Drummond para assumir-se só e afinada com uma subjetividade ibérica... Enfim,o que entrelaça esses poetas todos na mesma carne, ou campo, é o fato de não terem deixado estabilizar algo (estético ou ideológico). Isso também o faz quem se exprime em outras linguagens (Miró lido por João Cabral). Por isso queremos com esse simpósio não apenas homenagear os que já o fizeram, mas também ver posto em movimento obras e leituras que nos permitam debater novamente com quais dialéticas queremos nos comprometer em cenários tão ideologicamente estanques.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: AGAMBEN, Giorgio. A ideia da prosa. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013. ANDRADE, Carlos Drummond de. Nova Reunião 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1989. BERARDINELLI, Alfonso. Da poesia à prosa. São Paulo: Cosac Naify, 2007. CESAR, Ana Cristina. Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. GULLAR, Ferreira. Toda Poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015. HILST, Ilda. Exercícios, São Paulo: Globo, 2002 MEIRELES, Cecília. Viagem. São Paulo: Global Editora, 2012. NETO, João Cabral de Melo. Obras completas. Rio de Janeiro: Niva Aguilar, 1999 RILKE, R. M. Poemas. (Edição bilíngue). Tradução Geir Camos. São Paulo: Luzes no Asfalto, 2010. WHITMAN, Walt. Folhas de Relva. Tradução Bruno Gambarotto. São Paulo: Hedra, 2011.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura; Poesia; Transgressão.

COORDENADORES:
MARIA TEREZA AMODEO (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul)
Paulo Roberto Tonani do Patrocínio (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
Ivete Lara Camargos Walty (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais)

RESUMO: O presente simpósio centra-se na discussão da relação entre política e literatura, definindo-a em um sentido expandido que inclui outras manifestações artísticas. Tendo como objetivo central a análise das formas de (auto)representação dos sujeitos subalternos que passaram a ocupar a produção cultural brasileira contemporânea a partir de fins dos anos 1990, problematiza-se a fronteira entre o real e a ficção, a história e a biografia, o eu e o outro, ampliando a compreensão da relação entre arte e vida, já que o ser humano necessariamente produz sentido para viver. Nessa perspectiva, busca-se construir um quadro teórico que permita ler as insurreições dos sujeitos silenciados enquanto mecanismos que expressem as idiossincrasias, as especificidades e as diferenças das identidades “ex-cêntricas” (HUTCHEON, 1998). Identidades que foram, ao longo da história, relegadas à margem, circulando em torno daquilo que simbolicamente é dado como o ideal do grupo social dominante - processo a que Erick Landowski (2002) cunhou como o “Senhor Todo Mundo”. Esse modelo a ser seguido provoca a exclusão, promove o estereótipo, que, conforme Bhabha (1998), atua como “esquema epidérmico”, um conhecimento aparentemente espontâneo, incorporado como algo natural. A discriminação promovida pelas modalidades estereotípicas atua de forma limitadora, reduzindo a realidade a proposições binárias, excludentes, estratificando posições, isolando indivíduos e grupos. É a repetibilidade que garante o efeito de verdade, de probabilidade, de predictabilidade, pelo excesso, sem provas (BHABHA, 1998). Desse modo, propõe-se refletir sobre questões, tais como: a política de construção identitária e formas de subjetivação e diferenciação no texto literário e em outras manifestações e produtos culturais; a posição/lugar do intelectual diante da alteridade construída pelas vozes subalternas na contemporaneidade; os processos de legitimação e autorização dos novos sujeitos da enunciação na cultura brasileira; formas de engajamento e intervenção política na cena cultural contemporânea. Para essa reflexão, há que se recorrer a Jacques Rancière, quando propõe que o que se conhece usualmente como política é justamente a atividade de estabelecer o status-quo, o que, na verdade, constitui-se num ato policial. Para ele a política é a arte do litígio, em que os corpos e as vozes, em ato de insubmissão, expõem suas diferenças e rivalidades, reivindicando visibilidades. Demonstrando essa diferença entre polícia e política, afirma que a escrita se faz política “porque traça, e significa, uma re-divisão entre as posições dos corpos, sejam eles quais forem, e o poder da palavra soberana, porque opera uma redivisão entre a ordem do discurso e a das suas condições” (RANCIÈRE, 1995, p.8.). O autor evidencia, pois, a atividade política como um lugar de dissonância, que faz o ruído se tornar discurso, na medida em que desloca “um corpo do lugar que lhe era designado ou muda a destinação de um lugar”; “faz ver o que não cabia ser visto [...], faz ouvir como discurso o que só era ouvido como ruído.” (RANCIÈRE, 2018, p. 43) O horizonte teórico produzido por Rancière nos permite examinar a produção literária contemporânea como um espaço de disputa protagonizado por novos sujeitos da enunciação que cobram para si uma identidade baseada na afirmação de uma diferença incontornável, intransferível e irredutível. A presença dessas vozes emergentes evidencia “a escrita de uma nova literatura democrática que aposta na instituição de um sistema literário partilhado, que reconhece novas subjetividades e novos atores no mundo da cultura, e na reconfiguração do próprio termo literatura” (RESENDE, 2014, p. 14). A constituição de um sistema literário/cultural compartilhado resulta na necessária reconfiguração do papel e lugar do intelectual. Afinal, outrora o intelectual atuava como porta-voz desses grupos, falando em nome dos sujeitos, silenciando-os. Na contemporaneidade, não haveria mais espaço para tal tipo de atuação; esses atores passam a “falar” e não desejam mais que o intelectual “fale” em nome deles. Se o debate aqui proposto surge em decorrência do protagonismo desses sujeitos contemporâneos, o pensamento crítico ocidental há muito produz interrogações acerca da questão, a exemplo da conversa entre Michel Foucault e Gilles Deleuze, ainda em 1972, intitulada “Os intelectuais e o poder”. No diálogo, Foucault já anunciava a necessidade de aparecimento de uma nova forma de engajamento do intelectual, não mais como aquele que dizia a verdade aos que ainda não a viam e em nome dos que não podiam dizê-la. A partir de uma abordagem multidisciplinar, o simpósio busca refletir acerca dos limites do literário/artístico frente às vozes subalternas e propor o debate sobre novos modelos teóricos que possam abarcar as especificidades dos discursos em pauta, tendo como referência leituras que, descartando critérios de valor e hierarquia, conjuguem o entendimento entre literatura e política.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora da Universidade Federal de Minas Gerais, 1999. FOUCAULT, Michel. Os intelectuais e o poder: conversa entre Michel Foucault e Gilles Deleuze. In: MACHADO, Roberto (Org.). Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2002. HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo: história, teoria, ficção. Rio de Janeiro: Imago, 1998. LANDOWSKI, Eric. Presenças do outro: ensaios de sociossemiótica. São Paulo: Perspectiva, 2002. RANCIÈRE, Jacques. Políticas da escrita. Trad. Raquel Ramalhete et al. São Paulo: Editora 34, 1995. RANCIÈRE, Jacques. O desentendimento: política e filosofia. Trad. Ângela Leite Lopes. São Paulo: Editora 34, 2018. RESENDE, Beatriz. Possibilidades da nova escrita literária no Brasil. In: RESENDE, Beatriz e FINAZZI-AGRÓ, Ettore. Possibilidades da nova escrita literária no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Revan, 2014.

PALAVRAS-CHAVE: Contemporaneidade; Enunciação; Identidade; Litígio; Política.

COORDENADORES:
Deborah Walter de Moura Castro (Unifal-MG)
Paulo Henrique Caetano (UFSJ - MG)
Maria Rita Drumond Viana (UFSC)

RESUMO: No poema “Silêncio”, da poeta americana Marianne Moore (1887-1972), há dois versos que dizem “O sentimento mais profundo sempre se mostra no silêncio;/ não em silêncio, mas contenção” (trad. José Antônio Arantes). Nesse trecho, entendemos que os significados mais obscuros, e talvez mais complexos, são expostos não em uma escrita hemorrágica, mas quando guardam-se as palavras. Segundo George Steiner, em Linguagem e Silêncio, “o mais elevado e puro grau do ato contemplativo é aquele em que se aprendeu a abandonar a linguagem” (1988, p. 30). Steiner diz que o Apóstolo nos contou que o começo era o verbo e que aceitamos essa realidade sem discussão: “[é] a raiz e o córtex de nossa experiência e não podemos transportar facilmente nossa imaginação para fora dele. Vivemos no interior do ato do discurso” (1988, p. 30). Mas o autor admite que “existem atividades do espírito enraizadas no silêncio”, conjurando na nossa consciência uma lacuna existente “entre a nova compreensão de realidade psicológica e as antigas modalidades de manifestação retórica e poética” (1988, p. 30). A verdade é que o silêncio reveza com as palavras a árdua tarefa de comunicar. Ele está presente mesmo quando está também a palavra, e por isso ele é uma entidade que coexiste com a linguagem verbal, faz parte dela (ORLANDI, 2007). Mesmo quando o sujeito não estabelece um laço evidente com o silêncio, “quanto mais se diz, mais o silêncio se instala, mais os sentidos se tornam possíveis e mais se tem ainda a dizer” (ORLANDI, 2007, p. 69), como o princípio da polissemia, ou como um ponto que a palavra não atinge. Consideramos então que o silêncio não é ausência e nem implica a falta de sentido. O ‘vazio’ sempre adquire a proporção de alguma coisa – ou de qualquer coisa. Ou seja, o silêncio pode estar inclusive mais perto de uma possibilidade irrestrita de significados do que de significado nenhum. É como se ao nos aproximarmos de uma escrita silenciosa, admitimos a insuficiência das palavras em querer dizer. Manoel de Barros já dizia, em “O apanhador de sonhos”, que “as palavras são usadas para compor silêncios”. Uma poética da contenção pode se aproximar de um desafio criativo, como o desafio dos dadaistas em criar uma linguagem que transcendesse a razão; ou “Nudism”, o livro de páginas em branco do poeta Cégeste, no filme “Orfeu” (Orphée, 1950), de Jean Cocteau. Pode ser também, segundo Susan Sontag, no ensaio “A estética do silêncio”, uma forma de transformação da arte, uma relutância em se comunicar dentro dos padrões: “[o] mais comum é que continue a falar, mas de uma maneira que o público não pode ouvir” (SONTAG, 1987, p. 15). A artista e poeta sueca Cia Rinne (1973 - ) escreve em um de seus versos para Notes for soloists: “cut out from books/ important words/ destroy the book./ (diagonal reading)/ And then someone will notice.” Rinne afirma que sua preocupação é reduzir as palavras ao mínimo possível para permitir a visualização de um pensamento ou uma ideia. Segundo ela, a simplicidade ou o minimalismo, tanto na literatura quanto nas artes visuais, é também um movimento contra o excesso de informação e desperdício de materiais no mundo contemporâneo. Pensando então nas diversas formas como o silêncio pode ser tangenciado, seja como um desafio criativo, pela obliteração de palavras, rasura, minimalismo, ou em página em branco, o interesse deste simpósio é reunir trabalhos que tragam possibilidades poéticas que margeiem o silêncio de forma a chegar perto da ilegibilidade. O objetivo é colocar em debate também as possibilidades de leitura de textos literários e artísticos que acomodem uma poética silenciosa e sua projeção para além do texto. O silêncio, devido à impossibilidade de ser atingido em sua plenitude, deve apresentar características que sustentem a leitura dos poemas/obras nos limites do que é perceptível uma vez que são muitos os caminhos, as entradas e os desvios. Craig Dworkin, em seu livro Reading the illegible, diz que qualquer trabalho pode ser conceitualizado e lido ativamente, mesmo quando aparentemente não apresente nada a ser lido. Segundo Dworkin, sempre haverá a presença de um algo passível de leitura, ou o que ele chama de substrato. A questão não está entre presença ou ausência, mas o que de qualquer maneira significa. Quase como um postulado filosófico, uma leitura que tem como objetivo o silêncio já antecipa que seu fim é apenas o começo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: DWORKIN, Craig Douglas. Reading the illegible: avant-garde and modernism studies. U. da California: Berkeley, 2003. MOORE, Marianne. “Silêncio”. Trad. José Antônio Arantes. Trapiche dos Outros. Acesso em: 15/04/2021. Disponível em: <https://trapichedosoutros.blogspot.com/2011/05/34.html> ORLANDI, Eni Puccinelli. As formas do silêncio: no movimento dos sentidos. 6. ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2007. SONTAG, Susan. “A estética do silêncio”. In: A vontade radical: estilos (1966). Tradução de João Roberto Martino Filho. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. Disponível em: Acesso em: 23/02/2015. STEINER, George. Linguagem e Silêncio: ensaios sobre a crise da palavra. Trad. Gilda Stuart e Felipe Rajabally. São Paulo: Companhia das letras, 1988.

PALAVRAS-CHAVE: Poéticas da contenção; Rasura; Apagamento; Minimalismo; Silêncio.

COORDENADORES:
GILSON PENALVA (UNIVERSIDADE FEDERAL DO SUL E SUDESTE DO PARÁ)
Ana Lúcia Liberato Tettamanzy (UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL)
Márcio Araújo de Melo (UNIVERSIDADE FEDERAL DO TOCANTINS)

RESUMO: Muito tem se falado sobre a Amazônia, principalmente na contemporaneidade, em que virou modismo discutir questões ecológicas e ambientais. Todo o mundo hoje se volta para essa região do planeta com a mesma insistência em vê-la como reserva florestal capaz de salvar o planeta já poluído e contaminado. O olhar exótico que sempre norteou a relação do resto do mundo com essa região tem feito com que se observe a floresta, o rio, os animais, os peixes e insetos sem, no entanto, observar respeitosamente as pessoas e as culturas, em especial negros e indígenas. Conscientes dessa problemática, interessa-nos pôr em relação trabalhos que contribuam para o debate sobre as formas de alteridade racial/cultural/histórica demarcadas no texto literário amazônico, com o intuito de problematizar a nossa formação cultural, pensada pelo modelo hegemônico, que sempre esteve ligado a uma perspectiva de negação do Outro, estabelecendo hierarquias culturais. Com o intuito de desestabilizar essas hierarquias, esse simpósio pretende fazer ouvir vozes e versões que foram silenciadas historicamente, propondo rediscutir epistemologias, discursos e ideias preconceituosas que mantêm estruturas de exclusão e impedem a manifestação da diferença. Nesse sentido, o simpósio assume propositadamente um caráter de pesquisa implicada, por problematizar a pseudo-neutralidade do discurso ocidental que se propõe discutir a natureza do literário apenas pelo viés estético, negligenciando o político e o ideológico. A intenção é propor uma análise prioritariamente do objeto literário per se, sem reduzi-lo ao beletrismo despolitizado e ornamental, mas compreendendo a literatura como campo também fértil para a expressão de discursos ideológicos, políticos e sociais e para modalidades textuais compósitas. Nessa perspectiva, a criação verbal deixa de ser compreendida apenas como a grande obra, detentora de um saber hegemônico, representativa de uma cultura de elite, expressa numa língua padrão, assumindo, de forma desafiadora, um caráter mais heterogêneo, plural e problematizador. Desenvolver espaços fronteiriços de diálogos que contemplem o espaço amazônico, com ênfase em aspectos identitários e culturais na contemporaneidade é uma atividade relevante e necessária. Em primeiro lugar, porque é uma forma de conhecer a diversidade de grupos indígenas, de negros, migrantes internos e imigrantes que possuem formas de vida e trabalho, fracassos e expectativas que de certo modo se articulam. Segundo, porque é uma maneira de re-conhecer que essa região não é apenas “patrimônio ecológico estratégico”, mas também abrigo de uma série de vozes que, mesmo em grande parte silenciadas, contribuíram e ainda contribuem para a formação de uma consciência nacional. Em outras palavras, para nós, essa região apresenta-se não apenas como centro de importância ecológica, uma vez que é também centro de elaboração constante de culturas e imaginários. Estudá-la, nesse sentido, é como afirma Ana Pizarro “uma forma de apropriá-la para o continente que a olhou sem vê-la” (2004, p.34). A reflexão que ora propomos está afinada com as discussões de Homi K. Bhabha, Stuart Hall, Jacques Derrida, Franz Fanon, Rita Olivieri Godet, Edward Said, Ana Pizarro, Julia Kristeva, Eduardo de Assis Duarte, Zilá Bernd, Arturo Escobar, Silvia Cusicanqui, Glória Anzaldua, entre outros que têm ajudado a pensar povos, culturas e saberes não como uma essência fixa e homogênea, que se mantém imutável, mas como um processo que se encontra em constante diálogo e transformação. Temos interesse ainda em reflexões em torno do conceito decolonial, desenvolvido por Aníbal Quijano e Walter Mignolo, por apresentarem uma reflexão sobre resistência epistêmica ao projeto colonialista, centralizador e imperial, que historicamente subjugou povos e culturas consideradas marginais. É a partir dessas reflexões que estamos propondo desestabilizar o pensamento, deslocando o olhar para a margem, para os de fora, para os que não constaram nos manuais ou constaram de forma negativada. No contexto amazônico, estamos falando de negros, indígenas, quilombolas, caboclos, peixeiros, prostitutas. Com este simpósio, espera-se contribuir para a elaboração de novas subjetividades e formas alternativas de conhecimento, que coloquem em evidência não só os sujeitos que foram e ainda são silenciados e problematicamente representados, mas, também, num campo de observação mais amplo, ajudem a pensar no próprio espaço amazônico, que também é historicamente marcado por essa condição de exclusão. Portanto, trata-se da tentativa de rever estereótipos em torno do espaço amazônico que passam, inevitavelmente, por relações de poder e saber que produziram (e ainda produzem) imagens e enunciados clichês, que falseiam esse espaço e as pessoas que vivem nele.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ANZALDÚA, Gloria. Borderlands/La frontera: the new mestiza. 4ed. San Francisco: Aunte Lute Books, 2012. BHABHA, Homi K. O local da Cultura. Trad. Myriam Àvila, Eliana Lourenço de Lima Reis, Gláucia Renate Gonçalves. 2 ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013. BERND, Zilá. Literatura e Identidade Nacional. 2. ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2003. CUSICANQUI, Silva Rivera; BARRAGÁN, Rossana (orgs). Debates Post Coloniales: una introducción a los Estudios de la Subalternidad. La Paz: SEPHIS; Ediciones Aruwiyiri; Editorial Historias, 1989. DERRIDA, Jacques. A diferença. In: ______. Margens da Filosofia. Trad. Joaquim Costa, Antônio M. Magalhães. São Paulo: Papirus, 1991, p. 33- 62. DUARTE, Eduardo de Assis. O negro na Literatura Brasileira. In: FERREIRA, Elio; FILHO, Feliciano José Bezerra; COSTA, Margareth Torres de Alencar (Orgs.). Literaturas e canções afrodescendentes: África, Brasil e Caribe. Teresina, PI: EDUFPI, 2017, p. 37-51. ESCOBAR, Arturo. Mundos y conocimientos de outro modo: el programa de investigación de modernidad/colonialidade latinoamericano. Tabula Rasa, n. 1, p. 51-86, Ene.-Dic. 2003. FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Trad. Renato da Silveira. Salvador, EDUFBA, 2008. HALL, Stuart. Cultura e representação. Trad. Daniel Miranda e Willian Oliveira. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio: Apicuri, 2016. MIGNOLO, Walter D. Desobediência epistêmica: a opção descolonial e o significado de identidade em política. Trad. Ângela Lopes Norte. In: Caderno de Letras: Universidade Federal Fluminense – Dossiê: Literatura, língua e identidade, n.34. Niterói: Instituto de Letras, 2008, p. 287-324. OLIVIERI-GODET, Rita. A alteridade ameríndia na ficção contemporânea das Américas: Brasil, Argentina, Quebec. Belo Horizonte: Fino Traço, 2013. PIZARRO, Ana. Amazônia: as vozes do rio: imaginário e modernização. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012. QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder e classificação social. In: SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula (orgs). Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez, 2010, pp.84-130.

PALAVRAS-CHAVE: Amazônia; Cultura, Alteridade; Processos de identificação

COORDENADORES:
Leocádia Chaves (Universidade de Brasília)
Luiz Gonzaga Morando Queiroz (Universidade Federal de Mina Gerais)

RESUMO: Conforme demonstra Regina Dalcastagnè (2012), o sistema literário brasileiro, como dispositivo de poder, também é produtor e reprodutor do status quo. Ou seja, confirma e reafirma pelo modo artístico-discursivo um ordenamento social mantido por múltiplos supremacismos. Isso se revela por exemplo quando, diante do universo recenseado, constata-se que mais de 72,7% dos romances publicados por essas editoras foram escritos por homens; sendo que 93,9% são brancos; 78,8% com escolaridade superior; 60% moradores do eixo Rio-São Paulo, um grupo que em grande medida já está presente em outros espaços privilegiados de produção de discurso, de poder e que de forma não coincidente encena, em sua maioria, narradores e personagens relevantes como fortalecedores da matriz colonial: à imagem e semelhança de si mesmos. Salienta-se que embora o “censo” não tenha se voltado para a questão da identidade de gênero – cisgeneridade e transgeneridade –, como demonstra a pesquisadora, essa produção se efetiva sob um mapa de violências de grupos subalternizados, seja pela sua ausência – como autores e autoras –, seja em representações estigmatizadoras – não homem, não branco, não heterossexual, não rico, não urbano, não qualificado – como ocorre, por exemplo, com a representação de personagens negras e dissidentes sexuais (homossexual, bissexual e assexuado). Essa “radiografia” também se confirma para a produção romanesca do intervalo subsequente, de 2005-2014, pesquisado por Dalcastagnè, conforme descreve Graziele Frederico (2017). Em “acréscimo” a este, Luiz Henrique Moreira Soares e Rosiney Aparecida Lopes (2017) verticalizam a indagação para a representação de travestis em romances entre os anos de 2000-2016. Dentre as constatações, confirmam que a maioria desses romances foi escrita por homens – provavelmente cis –, que por sua vez monopolizam – por meio de seus narradores – os lugares de fala no interior das narrativas. Do total de trinta e nove romances, e de cinquenta personagens travestis, apenas dezoito são representadas como protagonistas; as demais ocupam espaços de exclusão social com representações que orbitam entre corpos mortos, assassinas perigosas, seres angustiados, suicidas ou sujeitos não nomeáveis. Em contraparte, o sistema literário brasileiro ainda tem dificuldade também para se posicionar frente a outras variáveis que confrontam sua face hegemônica, como aquela que provém de autoras e autores gênero-dissidentes que buscam expressar modos, processos e experiências de subjetivação e representação coerentes e alusivas a suas identidades. Esses abalos começam a se fazer visíveis, ainda que de forma tímida, já no final dos anos 1970 e ao longo dos 80 com produções literárias de caráter autobiográfico e/ou memorialístico, seja na poesia de Ruddy Pinho, seja na prosa de João W. Nery e Anderson Herzer (CHAVES, 2021). Um aumento em escala geométrica dessa produção a partir dos anos 90 expôs autores/as, leitores/as, críticos e historiadores em contato mais direto com noções como performatividade de gênero, abjeção, deslocamento de discursos binários, ordem heterocentrada, modelo heteronormativo, abordagens queer (SOARES, 2020). Dentro desse contexto, pelo menos dois grandes afluentes se estabeleceram: os de autores/autoras gênero-dissidentes com um olhar autobiográfico, em que o exercício de memória traz à cena literária os mecanismos de constituição da persona narradora; os de autores/autoras gênero-dissidentes que constroem a reflexão sobre o gênero e o estar no mundo por meio especialmente de narrativas que encenam personagens outros e seus dramas cotidianos no espaço onde convivem. Seja com o olhar voltado eminentemente para dentro si, seja para fora de si, para o outro e seu contexto, essa literatura trará para o espaço ficcional os conflitos e as disputas característicos de pessoas gênero-dissidentes, fazendo irromper novas subjetividades e ameaçando estilhaçar a ordem hegemônica. Desse modo, como confirmam Michel Foucault (1988), Judith Butler (2018) e as “guinadas” no nosso próprio sistema literário: onde há poder, há resistência. Diante dessa certeza histórica é que indagamos: a quantas anda a produção literária de pessoas gênero-dissidentes na contemporaneidade? Como a crítica literária tem se comportado diante desta produção? Em que medida suas produções têm colocado em xeque o status quo? Essa produção se confirmaria como uma outra face da literatura brasileira contemporânea? Salientamos que, ao qualificar e delimitar a instância da autoria como gênero-dissidente (BUTLER, 2017), ou seja, de pessoas que por múltiplas formas irrompem contra a compulsoriedade identitária cisheteronormativa, não desprezamos a existência de outros marcadores sociais que relacionados àquele vêm reforçando extermínios em nossa sociedade (CRENSHAW, 1991), não sendo, então, negligenciável nas propostas de comunicação a serem apresentadas. Assim, a proposição deste simpósio temático vem da compreensão da necessidade de se garantir a ocupação deste importante espaço de poder de nosso sistema literário para que essa produção e a sua crítica irrompam de forma fraturadora do status quo, portanto, resistindo, rebelando, revoltando contra as produções e modelagens hegemônicas de existir (es) e saber (es).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão de identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017. BUTLER, Judith. Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa de assembleia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018. CHAVES, Leocádia Aparecida. A escrita autobiográfica trans como estratégia de resistência e organização: vaga-lumes na escuridão. 2021. 155f. Tese (Doutorado em Literatura) – Instituto de Letras, Universidade de Brasília, Brasília, 2021. CRENSHAW, Kimberlé. Mapping the margins: intersectionality, identity politics, and violence against women of color. Stanford Law Review, v. 43, n. 6, p. 1241-1299, jul. 1991. DALCASTAGNÈ, Regina. Literatura brasileira contemporânea: um território contestado. Rio de Janeiro: Editora da UERJ; Horizonte, 2012. FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: A vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988. FREDERICO, Graziele. Ausências e silenciamentos: a ética nas narrativas recentes sobre a ditadura brasileira. 2017. 105 f. Dissertação (Mestrado em Literatura) – Instituto de Letras, Universidade de Brasília, Brasília, 2017. SOARES, Luiz Henrique Moreira; LOPES, Rosiney Aparecida. Ela é amapô de carne, osso e palavras: personagens travestis no romance contemporâneo brasileiro. Revista do Instituto de Políticas Públicas de Marília, Marília, v. 3, n. 1, p. 79-96, Jan./Jun. 2017. Disponível em: http://www2.marilia.unesp.br/revistas/index.php/RIPPMAR/article/view/7391. Acesso em: 30 ago. 2017. SOARES, Luiz Henrique Moreira. Sereia do asfalto, rainha do luar: configurações da personagem travesti no romance contemporâneo brasileiro. 2020. 150 f. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, São José do Rio Preto, 2020.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura Contemporânea; Autoria gênero-dissidente; Rebeldia literária; Perspectiva queer; Crítica literária.

COORDENADORES:
Gabriela Bruschini Grecca (Universidade do Estado de Minas Gerais - Unidade Divinópolis)
José Lucas Zaffani dos Santos (Universidade Estadual Paulista "Julio de Mesquita Filho", Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara)
Marisa Corrêa Silva (Universidade Estadual de Maringá)

RESUMO: Reconhecer na psicanálise uma chave de leitura de processos culturais é um dos passos fundamentais para desmistificar a ideia de “psicologizar a sociedade”, permitindo que novas experiências intelectuais venham à tona. Para Vladimir Safatle (2020, p. 9-10), é importante negar a psicanálise como prática solidária a formas de “psicologização do campo político, de redução de sua gramática e dinâmica à dimensão psicológica”, que tentem encaixar rigidamente conceitos fechados em dinâmicas cotidianas e/ou confrontos diretos. Em outra chave, se a psicanálise precisa afirmar que não está na consciência a centralidade das decisões do sujeito, uma vez que, dentro deste, existe outra dimensão, subversiva e que não se pode mensurar - o inconsciente - então, entender o sujeito (que, além de indivíduo, é também ator da práxis política) é buscar os sentidos de suas movimentações sociais, comunicativas e/ou estéticas, públicas e privadas. Assim, as relações entre literatura, arte e psicanálise são formas de acessar experiências de espraiamento e dissolução do sujeito, seja ele individual ou coletivo, bem como de suas angústias e mediações relacionais. Sobre a exploração do texto literário pela busca de um sentido hermenêutico, podemos nos amparar com a ideia de linguagem do próprio Jacques Lacan (1998, p. 86), para quem “a linguagem, antes de significar alguma coisa, significa para alguém (...) ela se exprime, mas sem ser compreendida pelo sujeito, naquilo que o discurso relata do vivido, na medida em que o sujeito assume o anonimato moral da expressão: é a forma do simbolismo”. Logo, nota-se a inclinação natural da prática psicanalítica pelos usos e manifestações da linguagem, fato que permite a pesquisadores contemporâneos estreitar os caminhos por meio dos quais seria possível utilizar os fundamentos metodológicos desta área do conhecimento para aprofundar as veredas estéticas que determinados autores elegem, bem como o efeito causado nos receptores. Adalberto de Oliveira Souza (2009, p. 244) parece compactuar com tal posicionamento, reforçando que “a literatura e sua prática sempre foram um exercício da linguagem, tanto oral como escrita, criando um espaço marginal às formas habituais da comunicação e tendo como fundamento a expressão de uma subjetividade” e, por intermédio da psicanálise, seria possível a busca “do sentido reprimido que se espera recuperar”. Todavia, a incorporação da psicanálise como abordagem interpretativa do texto literário não se restringe necessariamente à reprodução fenomenológica da relação paciente (texto) e analista (crítico), tal como sugere Souza (2009, p. 244). Cabe também confrontar os conceitos pensados para a clínica (angústia, identificação, transferência) e operacionalizá-los como modos de leitura, isto é, “ler os textos de outros com Lacan” ou outros autores (ŽIŽEK, 2010, p. 12, grifo do autor). Ainda sobre o caso específico da psicanálise lacaniana, Marisa Corrêa Silva (2009, p. 212) explica que “Lacan, com sua recusa de definições, sua perpétua abertura para o jogo de novos significados e sua proposta de que o Inconsciente se estrutura como linguagem (...) se aproxima de autores como Derrida e Deleuze, no sentido de recusar as formas de pensamento fechadas, calcadas na lógica de origem grega, que acabavam resultando em formas autoritárias de pensamento, uma vez que caíam facilmente no dualismo e no maniqueísmo”, revelando, assim, relações criativas entre objetos de cultura e possibilidades de (re)significação. Ainda nessa perspectiva, a constituição dos sujeitos numa relação de dependência do Outro, que, apesar disso, é inexistente ou inconsistente (SILVA, 2017, p. 117-118), cria aberturas para a discussão dos processos ideológicos decorrentes da construção do sujeito em torno de uma falta, de uma ausência fundamental. Se a obra de arte e/ou a obra literária coloca(m) o sujeito em xeque, para que tal se dê de maneira consistente e autêntica, é preciso que ela aceite o estatuto de vaso comunicante, de membrana porosa, cuja função não é a de pacificar o sujeito em relação às demandas do Outro, mas, ao contrário, a de denunciar a existência problemática e sempre-já ideológica dos constructos de “eu” e do Outro. À luz do exposto, este simpósio busca trabalhos que abordem as circulações e os diálogos entre a literatura, as manifestações artísticas e a psicanálise - em suas diferentes vertentes ( junguiana, lacaniana, freudiana etc.) e diferentes apropriações (materialismo lacaniano, estudos culturais), de modo que a abordagem comparatística possa se efetuar entre textos distintos ou no entrecruzamento de visadas teóricas que desafiem as fronteiras mais tradicionalmente estabelecidas entre literatura, psicanálise e outras artes.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: LACAN, Jacques. O seminário sobre "A carta roubada". In: Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 13-66. SAFATLE, Vladimir. Maneiras de transformar mundos: Lacan, política e emancipação. 1ª edição. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2020. SILVA, Lívia Campos e. O estatuto do Outro no pensamento de Jacques Lacan. Orientadora: Daniela Scheinkman Chatelard. 2017. Dissertação (Mestrado em Psicologia) - Instituto de Psicologia, Universidade de Brasília, 2017. Disponível em: https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/25245/1/2017_L%C3%ADviaCamposeSilva.pdf. Acesso em: 15 abr. 2020. SILVA, Marisa Corrêa. Materialismo Lacaniano. In: BONICCI, Thomas. ZOLIN, Lúcia Osana. (Org.). Teoria Literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. Maringá: Eduem. 3ª edição (revisada e ampliada), 2009. p. 211-216. SOUZA, Adalberto de Oliveira. Crítica Psicanalítica. In: BONNICI, Thomas. ZOLIN, Lúcia Osana. (Org.). Teoria literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. Maringá: Eduem. 3ª edição (revisada e ampliada). 2009. p. 243-256. ŽIŽEK, Slavoj. Como ler Lacan. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Zahar, 2010

PALAVRAS-CHAVE: Psicanálise; Crítica psicanalítica; Estudos culturais; Arte; Literatura.

COORDENADORES:
Maria Clara Gonçalves (UNESP/Assis)
Elizabeth R. Azevedo (USP/ECA)
Fabiana Siqueira Fontana (CAL/UFSM)

RESUMO: O simpósio de "Revisão da historiografia teatral: ler e reler fontes primárias, visões críticas e juízos estéticos" foi idealizado por um grupo de pesquisadores, cujo objetivo é discutir acerca de peças, autores, gêneros, repertórios e/ou círculos teatrais de pouca visibilidade na historiografia teatral. Os textos dramáticos são uma parte importante do teatro, apresentando-se como expressão estética que, assim como na literatura, utilizam-se das palavras para contribuir à concepção da experiência humana. Os pesquisadores que se debruçam sobre o teatro, devem compreender que "a peça teatral, considerada literatura, é um dos elementos mais importantes do teatro; todavia, não o constitui, não lhe é condição indispensável" (ROSENFELD, 2008, p. 35). Devido a sua natureza multifacetada, o teatro tornou-se um objeto de análise complexo, sendo necessário levar em consideração outros fatores que não somente o texto. Essa "dificuldade" pode ser um dos motivos para que os textos dramáticos tenham obtido um espaço menor nos estudos literários de maior relevância. Deve-se ressaltar, ainda, que as obras teatrais receberam (e ainda recebem) leituras ligadas à critérios estéticos pautados em interesses históricos do momento de concepção da crítica. Em geral, "ao observarmos as premissas estéticas e culturais que impulsionaram as criações artísticas, constatamos que as reflexões construídas sobre as mesmas foram elaboradas a partir de ideias que, ao serem, sistematicamente, defendidas, tornaram-se referências para as práticas teatrais transformadas em marcos ordenadores da temporalidade que conhecemos como História do Teatro Brasileiro" (GUINSBURG; PATRIOTA, 2012, p. 23). Torna-se necessário, assim, questionar a cristalização de determinadas apreciações nos estudos historiográficos, pois isso contribui para o "apagamento" de uma parcela do universo teatral, criando uma linha temporal histórica fragmentada e construída a partir de critérios que nos dias atuais devem ser revisitados. Há de se repensar, ainda, sobre o juízo de "valor" estético, já que determinadas peças, autores, gêneros, repertórios e/ou círculos teatrais tiveram mais relevância junto à crítica justamente por conta desse fator. As questões que atribuem essa ideia valorativa às obras de arte, em geral, sempre incorrem em julgamentos que diferenciam quais devem ocupar um lugar expressivo e quais serão colocados à margem nos estudos críticos. Os critérios que definem a posição dessas partes constituintes do universo teatral nos estudos sobre teatro, poderão ser discutidos a partir dos interesses críticos que mobilizam os pesquisadores de hoje. Ou seja, outros interesses mobilizarão outras avaliações que contribuirão à novas informações sobre a cena teatral como um todo. Contudo, não se trata de desconsiderar a relevância estética das produções, autores ou movimentos teatrais já consagrados pelos estudiosos, mas sim fazer um exercício reflexivo que permita questionar determinados lugares-comuns da crítica que foram realizados em outros tempos e em outras circunstâncias. Tal movimento reflexivo permite que seja incorporado aos estudos outros textos, autores e movimentos teatrais que possuem relevância estética, mas que, por diversos fatores, foram postos de lado na historiografia teatral. Obviamente, que esse movimento já está ocorrendo e, por isso, esse simpósio busca reunir esses trabalhos e criar uma rede ativa entre os pesquisadores. Se o juízo dos críticos está ligado às ideias estéticas que são valorizadas no momento em que suas análises foram feitas, então "o valor é uma atribuição historicamente construída. Frases como ‘esta obra tem densidade’ não são objetivas, e evocam primariamente os interesses dos sujeitos que as enunciam" (GUINZBURG, 2008, p. 103). Para que sejam construídas análises que ampliem o entendimento sobre o teatro nos estudos críticos, torna-se relevante avaliar as concepções estéticas que orientam as apreciações estilísticas das dramaturgias, a importância de determinados autores ao entendimento da cena teatral no qual estavam inseridos, o olhar valorativo da crítica pautado na hierarquização dos gêneros, os círculos teatrais de menos prestígio que permitem ampliar as informações sobre o movimento teatral e/ou o repertório de companhias/teatros à compreensão do gosto de uma época. Sobre o uso de fontes primárias, os aspectos da cena que ultrapassem a dramaturgia podem ser encontrados em diversas fontes, como anúncios de espetáculos, programas de peças e no ambiente histórico das encenações (destacando atores, diretores e cenógrafos); assim como documentos utilizados em seus processos de criação. Trabalhos que busquem empreender uma leitura que explore outros textos e não apenas os canonicamente evocados pela crítica estabelecida de autores consagrados, ou mesmo àqueles que busquem um novo olhar sobre os já desgastados lugares-comuns da historiografia teatral, contribuirão sobremaneira à discussão proposta neste simpósio.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: GUINSBURG, Jacó; PATRIOTA, Rosângela. Teatro Brasileiro: ideias de uma história. São Paulo: Perspectiva, 2012. GUINZBURG, Jaime. “O valor estético: entre universalidade e exclusão”. Alea, Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas, Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro. 2008, vol. 10, n. 1, p. 98-107. ROSENFELD, Anatol. Prismas do teatro. São Paulo: Perspectiva, 2008.

PALAVRAS-CHAVE: Dramaturgia; Crítica Teatral; Fontes Primárias; Historiografia Teatral; Juízos Estéticos.

COORDENADORES:
Andréa Sirihal Werkema (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)
Maria Juliana Gambogi Teixeira (Universidade Federal de Minas Gerais)

RESUMO: “O conceito de poesia romântica, que atualmente corre o mundo e causa tanta polêmica e discórdia, partiu originalmente de mim e de Schiller. (...) Os Schlegel adotaram a ideia, e a desenvolveram, de modo que agora ela se disseminou pelo mundo todo, e todo mundo agora fala em classicismo e romantismo, nos quais ninguém pensava há cinquenta anos” (ECKERMANN, 2016, p. 392). À primeira vista, as polêmicas e discórdias evocadas por Goethe, versando sobre Romantismo e Classicismo, não têm mais lugar na cena contemporânea. Mesmo as definições de clássico e de romântico como opostos naturais perderam um tanto de sua força já que tal oposição deixou de fazer sentido no dia a dia de uma literatura que se voltou para outros problemas ditos mais urgentes. Afora o campo dos especialistas, tem-se por plenamente assente a identidade dos dois contendores da antiga disputa, assim como já bem demarcado o seu vencedor. Os românticos teriam ganhado a briga e, ao ganhá-la, fundaram a ideia moderna de Literatura. Mas se a ganharam, será para, logo a seguir, perdê-la para seus herdeiros imediatos que, recusando a herança, dispõem seus antecessores em lugar bem próximo àquele que estes haviam outorgado aos clássicos: literatura ultrapassada, datada. Há alguma ironia (talvez não exatamente a romântica) no desfecho dessa história. Afinal, uma das armas principais do combate romântico contra o classicismo é justamente a da atualidade, seu mais perfeito ajuste às formas do tempo e suas demandas específicas. Lembremos Stendhal: “O romantismo é a arte de apresentar aos povos as obras literárias que, no estado atual de seus costumes e de suas crenças, são passíveis de lhes proporcionar o maior prazer possível. O classicismo, ao contrário, apresenta-lhes a literatura que proporcionava o maior prazer possível a seus bisavós” (STENDHAL, 2008, p. 73). Convertidos os românticos em nossos bisavós, aos clássicos (qualquer que seja a identidade que se lhes atribua) caberia, no melhor dos cenários, a dimensão de fósseis. E para ambos, sobram apenas os “arqueólogos” da literatura, cujo idiossincrático prazer estaria na contramão do estado atual dos costumes e crenças. Assim seria a história se alguns autores que ainda gozam de “atualidade” não nos indicassem que os restos dessa arqueológica batalha, ao serem escavados, iluminam questões aparentemente obscuras do presente da literatura e nos obrigam a revisar a historieta acima. Que se pense em Jacques Rancière, que tomando para si o desafio de reconstituir o “sistema de razões” que funda o nosso conceito de Literatura, retoma a cena supostamente obsoleta de modo a avaliar o que se perde e o que se ganha quando a implosão do sistema beletrista substitui um sistema literário assentado na “palavra eficaz” pelos tormentos de uma “palavra muda” (RANCIÈRE, 2010). Ou ainda em Thomas Pavel, que em um de seus retornos ao XVII francês e sua estética “estrutural e conscientemente infiel à realidade empírica” (PAVEL, 1996, p. 371), contrapõe esse “suplemento ontológico visível” próprio à ordem de mundo beletrista à “transfiguração da banalidade e sagração do lugar comum” e ao estreitamento do imaginário próprios à literatura moderna. E radicalizando o olhar para o presente através do cultivo do passado, lembremos João Adolfo Hansen em suas agudezas antianacrônicas, capazes de surpreender a atualidade através de um rigoroso investimento no que já não lemos (e nem sabemos ler) de um passado que deve ser reconstituído para que se faça mais clara a própria ideia do presente. De fato, uma compreensão mínima do imenso legado clássico – em toda a sua diversidade e complexidade – na literatura ocidental é pré-requisito para qualquer estudo que se faça no campo dos estudos literários, assim como o entendimento da quebra, ou da revolução romântica se faz caminho obrigatório para entender formas, aberturas e mesmo a transformação incessante dos gêneros literários. Mesmo a oposição clássico x romântico tem que ser revista de maneira incessante, já que se sustenta muitas vezes apenas de maneira didática, histórica ou metodológica, sendo que a verdade textual pode nos contar outra história. Demos alguns exemplos pontuais e apenas ilustrativos do problema proposto para formular um convite que aqui se faz aos amantes de literaturas inatuais, estejam elas conformadas nas doutrinas clássicas ou nas batalhas românticas, ou nos entrecruzamentos possíveis entre tais caminhos, para que venham conversar conosco – e, eventualmente, polemizar – sobre o muito de surpresa que ainda guarda esse passado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ECKERMANN, Johann Peter. Conversações com Goethe nos últimos anos de sua vida. 1823-1832. Trad. Mário Luiz Frungillo. São Paulo: Editora UNESP, 2016, p. 392. HANSEN, João Adolfo. Agudezas seiscentistas e outros ensaios. Org. de Cilaine Alves Cunha e Mayra Laudanna. São Paulo: Edusp, 2019. RANCIÈRE, Jacques. La parole muette – essai sur les contradictions de la littérature. Paris: Fayard, 2010. STENDHAL. Racine e Shakespeare. Trad. Leila de Aguiar Costa. São Paulo: Edusp, 2008, p. 73. PAVEL, Thomas. L’art de l’éloignement – essai sur l’imagination classique. Paris: Gallimard, 1996, p. 371

PALAVRAS-CHAVE: Romantismo; Classicismo; Neoclassicismo; historiografia literária.

COORDENADORES:
Pedro Fernandes de Oliveira Neto (Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN))
Maria Aparecida da Costa (Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN))
Jonas Jefferson de Souza Leite (Universidade Federal de Pernambuco (UFPE))

RESUMO: A literatura portuguesa nos últimos sessenta anos se revestiu de uma variabilidade de formas, expressões, estéticas, temas e obsessões que, entre as águas da ficção de viés ou teor mais social advindas do que foram as produções do chamado Neorrealismo (e mais distante, do Realismo) e as da ficção mais preocupadas com o trato estético, eivadas dos resquícios das vanguardas, tem assumido uma nova face, mais aberta, plural e ingressada no que poderíamos designar como uma literatura de corte universal. Isto é, tal literatura desplega os localismos ao se mostrar interessada pelas transformações e variações comuns a toda comunidade humana; trata-se isso ora como uma força marcadamente típica do post-modernismo (cf. Arnaut, 2002), ora como fluxo comum dado a uma época de dinamizações e integrações, afinal toda literatura é sempre um “modelo orgânico, vivo” (cf. Real, 2012). Nesse caso específico, as circunstâncias históricas que parecem influenciar os escritores advêm, dentre outras, do reconhecimento de Portugal numa dinâmica político-geográfica da Europa e das contínuas trocas culturais favorecidas em momentos pouco depois do fim das obstruções ditatoriais impostas ao largo de mais de quatro décadas e a possibilidade de integração do país para as correntezas das globalizações, que, positiva ou negativamente têm assumido o protagonismo de novos valores contrários aos estilemas da opressão. Independente de qual perspectiva teórica nasça uma compreensão sobre as modificações no âmbito do literário, o fato é que se cobra dos investigadores maneiras de pensarmos sobre e com intuito de construir detalhadamente suas implicâncias seja para com o cânone, a forma, seja para com as questões sociais, culturais e políticas, porque, no fim de tudo, o que todas as mudanças favorecem, numa dialética, são também novas formas de ser e estar no mundo (cf. Seixo, 1984). O produto das transformações por que passa a ficção, sabemos, se faz de motivações de ordem diversa e a principal delas responde pela presença de como os sujeitos se relacionam com as novas posições assumidas nos contextos pelos quais transitam; ao mesmo tempo, a literatura tece uma participação na variabilidade das forças reinauguradas no mundo fora do tecido textual. O que marca este período, então, no romance português, é o desenvolvimento de novas práticas e experiências com a narrativa, a proliferação das inquietações tornadas em matérias temáticas dos novos ficcionistas — ora afastando-se do conteúdo histórico-social e de uma reflexão sobre os modos de ser e estar português para se aproximar de preocupações a um só tempo interior e exterior ao indivíduo do seu país (nativo ou ingresso) ora reinventando os mananciais de criação, tais como a guerra colonial, os transes da imigração, outros episódios da história dos povos (as guerras, os regimes despóticos, as violências explícitas ou encobertas), as crises do sujeito, a diversidade das relações humanas desencadeadas no extenso e complexo jogo social etc. No caso da ficção romanesca, do ponto vista estético-formal, cite-se a diversidade da composição, acentuada na valorização da escrita e suas implicações na tessitura textual (das quais as intersemioses, o ready-made e os procedimentos metaficcionais são apenas alguns exemplos), nas relações entre os modos escriturais e orais, no uso de novos recursos estilísticos, de criação, recriação e interpenetração das formas discursivas, na diversidade de registro e conformação da narrativa seja decorrentes das constantes infiltrações dos tons subjetivos (cf. Cerdeira, 2020), marcados pelo recurso de intromissão lírica seja o desenvolvimento da reflexão sobre o cotidiano, a rotina íntima dos sujeitos agora olhada como mundividências de interesse ao literato. Ainda, o que seduz a escrita é um tipo de interesse por formas ficcionais diversas — tais como uso recorrente das chamadas narrativas marginais (em desordem, cf. Barrento, 2016), os gêneros de primeira pessoa, os relatos, os diários, as crônicas etc. Os rumos, portanto, são muitos e vastos; “o romance português sofreu, no seu todo, uma profunda rutura” (REAL, 2012, p. 22). No interesse de apontar, descrever, discutir, relacionar, construir diálogos com a pluralidade de eventos situados no âmbito da ficção romanesca, sua dinâmica geral, ora reafirmando essa tendência à dispersividade, ora estabelecendo uma busca por uma unidade dialética que possa compreender sujeitos e mundos na sua pluralidade, é que se constitui este simpósio. Vinculadas às discussões desenvolvidas no âmbito do Grupo Estudos Sobre o Romance, nosso intuito é, a partir da leitura de romances publicados em Portugal a partir dos anos 1950, abrir algumas coordenadas úteis crítica, teórica e metodologicamente para pensar sobre o que é, no fim de tudo, um afã da literatura portuguesa pela universalidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ARNAUT, Ana Paula. Post-modernismo no romance português contemporâneo. Fios de Ariadne, máscaras de Proteu. Coimbra: Almedina, 2002. BARRENTO, João. A chama e as cinzas. Um quarto de século de literatura portuguesa (1974-2000). Lisboa: Bertrand Editora, 2016. CERDEIRA, Teresa. Formas de Ler. Belo Horizonte: Moinhos, 2020. REAL, Miguel. O romance português contemporâneo 1950-2010. 2 ed. Lisboa: Caminho, 2012. SEIXO, Maria Alzira. Dez anos de literatura portuguesa (1974-1984): ficção. In: Revista Colóquio/ Letras, Lisboa, n.78, março, 1984, p.30-42.

PALAVRAS-CHAVE: Estudos sobre o romance; Literatura portuguesa; Romance português contemporâneo.

COORDENADORES:
Evaldo Balbino (Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG))
Leni Nobre de Oliveira (Centro Federal Tecnológico de Minas Gerais (CEFET – MG))
Tereza Ramos de Carvalho (Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT/CUA))

RESUMO: O campo literário é locus interdisciplinar por excelência. Afirma claramente isso, por exemplo, o fundador da semiologia literária Roland Barthes. Para o estudioso, a literatura “assume muitos saberes”. Citando o romance Robinson Crusoé, diz o crítico haver aí “um saber histórico, geográfico, social (colonial), técnico, botânico, antropológico (Robinson passa da natureza à cultura)”. Prosseguindo no seu argumento, Barthes continua: “Se, por não sei que excesso de socialismo ou de barbárie, todas as nossas disciplinas devessem ser expulsas do ensino, exceto uma, é a disciplina literária que deveria ser salva, pois todas as ciências estão presentes no monumento literário”. É com o mesmo Roland Barthes que aprendemos que a literatura “faz girar os saberes, não fixa, não fetichiza nenhum deles; ela lhes dá um lugar indireto, e esse indireto é precioso. Por um lado, ela permite designar saberes possíveis – insuspeitos, irrealizados: a literatura trabalha nos interstícios da ciência: está sempre atrasada ou adiantada com relação a esta”. A ciência, afirma o autor de O prazer do texto, “é grosseira, a vida é sutil, e é para corrigir essa distância que a literatura nos importa. Por outro lado, o saber que ela mobiliza nunca é inteiro nem derradeiro; a literatura não diz que sabe alguma coisa, mas que sabe de alguma coisa; ou melhor: que ela sabe algo das coisas (BARTHES,1979, p. 18-19). Diríamos até mais sobre o campo literário: ele é um espaço eminentemente transdisciplinar. Além de promover diálogos entre disciplinas e ciências diversas, ele as atravessa ou por elas é atravessado, na medida em que se trata dum campo que encena os diferentes saberes e com eles se cruza. Eis aí o poder humanizador do texto literário, no sentido de que ele nos dá o reconhecimento de pertencermos às culturas humanas (CANDIDO, 2004). Nessa perspectiva, texto e contexto, no espaço literário, formam um amálgama de representação da vida, e os contextos (nas mais diferentes perspectivas históricas, filosóficas, sociológicas, antropológicas, enfim conceituais) se fazem textos, participam da estrutura mesma da obra literária (CANDIDO, 2000). Na leitura literária, pois, o crítico deve ficar atento ao texto e aos contextos que o engendram e nos quais ele é engendrado (BOSI, 2001). Conforme explica Ivana Martins, “a literatura [deve] ser compreendida como produção artística inserida na cultura, sofrendo influências de ordem política, social, ideológica, histórica, entre outras. [...] a obra literária é produto de um contexto maior, no qual visões de mundo, valores ideológicos de uma época, costumes, lendas, enfim, a diversidade de elementos culturais, participam ativamente, influenciando a constituição do texto (MARTINS, 2009, p.90). Somando-se aos diferentes saberes e técnicas de longa data, têm-se hoje as revoluções culturais da era digital. Fala-se aqui duma era a que devemos prestar atenção, não a considerando cegamente, nos termos de Pierre Lévy e em relação às técnicas culturais anteriores e antigas, como bárbara e contrária à vida: “O cúmulo da cegueira é atingido quando as antigas técnicas são declaradas culturais e impregnadas de valores, enquanto que as novas são denunciadas como bárbaras e contrárias à vida. Alguém que condena a informática não pensaria nunca em criticar a impressão e menos ainda a escrita. Isso, porque a impressão e a escrita (que são técnicas!) o constituem em demasia para que ele pense em apontá-las como estrangeiras. Não percebe que sua maneira de pensar, de comunicar-se com seus semelhantes, e mesmo de acreditar em Deus, são condicionadas por processos materiais.” (LÉVY, 1993, p. 15). O fazer literário, bem como a recepção da literatura, qualquer que seja o espaço em que ocorram, viabiliza-se através de um sistema semiótico (ou intersemiótico), perpassando por diversos níveis sígnicos (quer sejam eles visuais, sonoros, verbais etc.). Nesse sentido, para além da oralidade e da escrita, podemos também dizer de outras plataformas e de outras possibilidades de produção e recepção literárias, quando, nos termos de Pierre Lévy, consideramos o mundo da cibercultura (LEVY, 1999) e das virtualidades midiáticas (LEVY, 1996). Pela exposição teórica até aqui feita, este simpósio busca congregar comunicações que teçam leituras da tessitura literária em diálogo com diferentes contextos e disciplinas, comunicações que concebam a literatura como o espaço interdisciplinar e transdisciplinar por excelência e como espaço que se constrói em diferentes plataformas, a partir de diferentes tecnologias e com diversidade sígnica. Sendo assim, serão recebidas as mais diversas abordagens teóricas que levem em consideração alguns desses aspectos aqui apontados.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BARTHES, Roland. Aula. Trad.: Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Cultrix, 1979. BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. 4 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. Vários escritos. 4 ed. São Paulo/Rio de Janeiro: Duas Cidades / Ouro sobre azul, 2004. p. 169-191. CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. 8 ed. São Paulo: T. A. Queiroz, 2000. LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. Tradução de Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 1993. LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999. LÉVY, Pierre. O que é o virtual. Tradução Paulo Neves. São Paulo: Editora 34, 1996. MARTINS, Ivana. A literatura no ensino médio: quais os desafios do professor? In: BUNZEN, Clécio; MENDONÇA, Marcia (Orgs.). Português no ensino Médio e formação do professor. 3 ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2009. p. 83-102.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura; Texto; Contexto; Saberes; Tecnologias.

COORDENADORES:
Magali dos Santos Moura (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)
PEDRO HELIODORO DE MORAES BRANCO TAVARES (Universidade Federal de Santa Catarina)
Tito Lívio Cruz Romão (Universidade Federal do Ceará)

RESUMO: Nas últimas décadas, o envolvimento com a atividade da tradução vem alcançando um crescente destaque entre as diversas atividades que já vinham sendo realizadas, no Brasil, por professores universitários e membros da academia em geral. É voz corrente que grande parte das traduções ditas literárias, mas também as traduções realizadas em áreas de contato com a Literatura Comparada, tais como a Psicanálise e a Filosofia, são levadas a cabo, preponderantemente, por docentes. Talvez uma explicação para esse fato resida, por exemplo, em questões de cunho meramente econômico: dado o alto grau de complexidade da tradução de textos oriundos das áreas recém-mencionadas, a relação custo-benefício, na hora de se assinar um contrato de tradução com uma editora, em geral não parece ser muito atraente para tradutores ditos profissionais. Esclareça-se, a esse respeito, que não existe, no nosso país, nenhuma associação que congregue especificamente tradutores editoriais em geral ou literários em particular. Falta, portanto, uma representação para essa classe de profissionais. Dessa maneira, tanto na vasta área da Germanística, com seus limites que avançam para áreas como a Psicanálise, a Filosofia, a História, as Ciências Sociais etc., não se procede de modo diferente: vários docentes têm desenvolvido atividades tradutórias, que não se resumem apenas ao ato de traduzir, mas que se inserem em diferentes formatos de apresentação e formas de atuação: a) desenvolvem e capitaneiam projetos editoriais, com editoras particulares ou de suas respectivas IES; b) propõem projetos de extensão com foco voltado para a tradução ou a retradução de textos literários de expressão alemã; c) criam e efetuam pesquisas que envolvem a tradução ou a retradução de obras clássicas e/ou canônicas, assim como de textos críticos seminais de escritores germanófonos, não apenas os já conhecidos do grande público, mas também aqueles cujas contribuições ainda são pouco difundidas em nosso país, entre outros. Essas atividades não se restringem, portanto, apenas a traduções inéditas, mas também abrangem retraduções e reedições críticas (v. reedições do Fausto de Johann Wolfgang von Goethe, a revisitação às diversas traduções de Herbert Caro de obras de Thomas Mann, as retraduções de obras de Sigmund Freud, de Walter Benjamin etc.). Se, por um lado, esses trabalhos são caracterizados, também, como uma revisitação às obras de diversos autores, por outro lado, eles permitem que se estabeleçam novas discussões não apenas acerca do processo tradutório em si, mas também sobre necessárias (re)atualizações críticas sobre autores e obras com uma mirada contemporânea, sem se perder de vista, obviamente, o foco do texto original que lhes serve de protótipo. O exercício da tradução e a apresentação ao público de obras de autores de outras épocas trazem consigo uma espécie de busca por realocação desses contextos e atores – os próprios autores, mas também seus personagens – mais antigos, ao se lançar a possibilidade de que novos diálogos sejam estabelecidos entre os textos ditos clássicos e/ou canônicos com a cultura e a língua contemporâneas vigentes no Brasil atual. Vislumbra-se, assim, novos pontos de partida para discussões no amplo campo da Literatura Comparada. Este simpósio pretende abrigar produções que incitem discussões sobre os mais variados temas decorrentes do acima exposto, tais como: a) a recepção, via (re)tradução de autores clássicos de expressão alemã (de Literatura, Psicanálise, Filosofia etc.) na atualidade brasileira; b) cotejo de técnicas, estratégias, modos e procedimentos tradutórios empregados na tradução de obras germanófonas para o português brasileiro; c) o papel desempenhado pelo tradutor como mediador cultural entre diferentes mundos, diversas épocas, várias formas de linguagens etc.; d) os processos de revisão estabelecidos pelas editoras que implicam em novas relações entre o passado e o presente; e) o estabelecimento de listas terminológicas, glossários, notas do tradutor e demais elementos paratextuais durante o processo tradutório; f) o fomento do diálogo entre a literatura e outras áreas do saber; g) processos trans/interculturais como determinantes do processo tradutório; h) discussão acerca da escolha dos objetos de tradução; i) o trânsito editorial entre a academia e as grandes, médias e pequenas editoras; j) a variabilidade da tradução de gêneros literários; k) as peculiaridades do ensino de tradução literária no Brasil e a prática de tradução; l) a recepção pelo público brasileiro da literatura de expressão alemã traduzida (o que se lê, o que se vende, o que se precisa ainda traduzir etc.) a dicção do autor germanófono e a sua dicção na obra traduzida; n) a tensão entre autores clássicos e ética tradutória; e, por fim, o) as relações contratuais entre tradutores literários e editoras, e a inexistência de uma associação de tradutores literários como empecilhos para um maior número de obras germanófonas traduzidas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

PALAVRAS-CHAVE: Estudos da tradução; Estudos culturais; Literatura de expressão alemã; Filosofia; Psicanálise.

COORDENADORES:
Clarissa Prado Marini (Universidade Federal do Oeste da Bahia)
Kall Lyws Barroso Sales (Universidade Federal de Alagoas)

RESUMO: Na esteira da transdisciplinaridade apresentada como norteadora do congresso da ABRALIC 2021, propomos este simpósio temático visando promover o diálogo entre o estudo de literaturas traduzidas e o estudo de traduções de especialidade nas áreas das ciências humanas. Enquanto podemos pensar num distanciamento entre textos literários e textos de áreas de especialidade, como os textos das diferentes áreas do conhecimento das Ciências Humanas, podemos também aproximar esses dois gêneros de texto. O tradutólogo Antoine Berman (1991) defende que poesia, literatura, filosofia, textos religiosos e grande parte das obras de ciências humanas podem ser consideradas como obras. Segundo o conceito do que Berman chama de “obra”, esta seria classificada como a escrita que não usa a língua como instrumento de comunicação para transmissão de mensagens, mas a considera como o meio de revelação do sujeito, ou seja, a própria linguagem como reveladora do existir humano. As pesquisas dedicadas à tradução de literatura têm grande espaço nos Estudos da Tradução no Brasil e são figuras de proa tanto na elaboração de traduções inéditas, de retraduções e, consequentemente, na circulação do pensamento sobre línguas/culturas, além do diálogo constante com outras áreas das chamadas humanidades. Se entendemos que o objeto das ciências humanas é “o ser expressivo e falante”, pode-se defender que as ciências humanas não têm por objetivo a exatidão do conhecimento, seu objetivo está no campo das descobertas, das revelações, das interações e das comunicações (BAKHTIN, 2017, p. 58). A tradução torna-se, portanto, elemento imprescindível no diálogo entre literaturas, línguas e culturas. Em língua portuguesa, muitas traduções de textos de especialidade têm como fundamento o estudo e a análise literária, pois segundo a reflexão bakhtiniana, a ciência da literatura deve estabelecer um vínculo mais estreito com a história da cultura, pois é parte inseparável dela (BAKHTIN, 2017, p. 11). Assim, um sentido só revela as suas profundezas encontrando o outro, pois, entre eles, há uma relação dialógica que supera o fechamento e a unilateralidade desses sentidos e dessas culturas. Na busca desse outro, a reflexão bakhtiniana dialoga com o entendimento de Berman sobre as traduções, pois, para este, “a essência da tradução é ser abertura, diálogo, mestiçagem, descentralização. Ela é relação, ou não é nada.” (BERMAN, 2012, p. 17). Dentro desta perspectiva dialógica, a tradução de obras teóricas tem grande importância para o desenvolvimento das áreas do conhecimento nacional e internacionalmente. Izidoro Blikstein relata numa entrevista (FERREIRA, 2013), que a tradução de grandes obras da Linguística desempenhou um importante papel na divulgação das teorias linguísticas e acabou por culminar na inauguração dos departamentos de Linguística nas universidades brasileiras, mudando o cenário da grande área de “Letras” para sempre. As traduções de obras francófonas como as de Saussure, Benveniste, Barthes, Greimas, Dubois, traduzidas no Brasil nas décadas de 1960 e 1970, são até hoje basilares na formação dos cursos de Letras. O professor Blikstein comenta, nessa mesma entrevista, que nos cursos de Letras eram desenvolvidos estudos diacrônicos de Filologia Românica e Portuguesa e esse movimento de tradução de grandes linguistas contribuiu para uma “avalanche” da Linguística o que, posteriormente, mudou os currículos universitários no Brasil para acompanhar as mudanças que estavam acontecendo internacionalmente. Além disso, a tradução de obras teóricas nas ciências humanas contribui para a reflexão e recepção das literaturas. É difícil negar, por exemplo, a influência e a relevância do pensamento do teórico russo Mikhail Bakhtin nas mais diversas áreas do conhecimento, filosofia, história, ciências sociais e, principalmente, linguística e literatura. É a partir das traduções de Julia Kristeva que o pensamento bakhtiniano constrói seu complexo diálogo com o Ocidente. Características temáticas ou estilísticas aproximam a literatura das demais áreas das ciências humanas, pois são textos nos quais a linguagem é construída de maneira singular a expressar o pensamento de um sujeito. A respeito desse compartilhamento de características entre textos literários e de ciências humanas, mais especificamente da filosofia, Castro Ramírez (2018) alerta que em ambos, as noções de “autor”, “leitor”, “originalidade”, “criação”, “tradição” (entre outras) têm muita influência tanto na análise desses textos quanto na tradução deles. Tendo como ponto de partida estas complexas relações entre traduções de literatura e de teoria nas ciências humanas, serão acolhidos, neste simpósio, trabalhos a respeito de história da tradução, crítica de tradução ou tradução comentada de textos literários ou textos teóricos de ciências humanas escritos, originalmente, em língua francesa e traduzidos para língua portuguesa ou, no sentido inverso. Serão considerados trabalhos que abordam: 1) textos literários traduzidos, ou em tradução, que construam diálogos com outras áreas das ciências humanas e 2) textos traduzidos, ou em tradução, de diferentes áreas das Ciências Humanas: Teoria Literária, História da Literatura, Linguística, Estudos da Tradução, Filosofia, História, Sociologia, Antropologia, Psicologia, Pedagogia.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BAKHTIN, Mikhail. Notas sobre literatura, cultura e ciências humanas. Organização, tradução e notas de Paula Pezerra. Rio de Janeiro: Editora 34, 2017. BERMAN, Antoine. Traduction spécialisée et traduction littéraire. Actes du Colloque International. La Tilv éditeur. Paris, 21 et 22/03/1991. BERMAN, Antoine. A prova do estrangeiro: Cultura e tradução na Alemanha romântica. Tradução de Maria Emília Pereira Chanut. Bauru, SP: EDUSC, 2002. CASTRO RAMÍREZ, Nayelli. Traduzir a filosofia para além da filosofia: Assinaturas, acontecimentos, contextos. Tradução de Clarissa Prado Marini e Ana Alethéa Osório. Belas Infiéis, v. 7, n. 2, p. 97-114, 31 dez. 2018. Disponível em: http://periodicos.unb.br/index.php/belasinfieis/article/view/18285 . Acesso em: abril de 2021. FERREIRA, Alice Maria de Araújo. Entrevista com Prof. Dr. Izidoro Blikstein. In: Traduzires. Brasília, vol. 2, nº 1, 2013. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/traduzires/article/view/13645 . Acesso em: abril de 2021.

PALAVRAS-CHAVE: Estudos da Tradução; Tradução Literária; Tradução de Ciências Humanas.

COORDENADORES:
Daniel Marinho Laks (UFSCar)
Roberta Guimarães Franco (UFMG)
Renata Flavia da Silva (UFF)

RESUMO: As relações entre memória, história e literatura sempre foram objeto de análise e de debate acerca das especificidades de cada campo e das possibilidades de diálogos interdisciplinares, especialmente dentro do campo conflituoso da Literatura Comparada. Obras literárias que dialogam de forma próxima com a história, seja pelo gênero literário, pelo tema e/ou personagens escolhidos, ou que apresentam um caráter (auto)biográfico, podem funcionar como base para a organização de arquivos públicos ou particulares, monumentos e museus, os quais têm como objetivo mediar o estabelecimento de uma memória coletiva sobre acontecimentos transcorridos. A possibilidade de curadoria dos episódios que devem ser rememorados ou comemorados sob uma perspectiva nacional está intimamente ligada à afirmação dos interesses de grupos que estabeleceram sua hegemonia e, nesse sentido, o processo de produção de uma memória coletiva pretende funcionar como ferramenta política de legitimação de estruturas específicas de poder. Debate também presente na formação dos cânones literários, questionados por correntes críticas mais contemporâneas pelo seu caráter fragmentário e centralizador, que atenderia a perspectivas e interesses específicos. Nesse sentido, a memória vem, cada vez mais, se configurando como um elemento essencial na construção de sentidos entre o texto literário e o discurso histórico. Ao longo do tempo, a análise literária foi ganhando contornos que incluem, desde a possibilidade de pensar a obra em múltiplos contextos e temporalidades de acordo com o leitor, advinda através da Estética da Recepção, até os mais recentes Estudos Culturais e Póscoloniais, possibilitando novas formas de olhar eventos históricos consagrados ou trazendo à luz questões que a dita história oficial silenciou. A memória, por sua vez, seja pensada como componente intratextual, atuando diretamente na estrutura narrativa, aliada à ideia de tempo, seja constituindo o espaço entre a obra literária e o seu contexto de produção, ou ainda estabelecendo fronteiras entre as perspectivas individuais e coletivas, se configurou como instância que permite pensar a literatura tanto na sua esfera subjetiva quanto social. No contexto das literaturas de língua portuguesa, pode-se evidenciar formas variadas de diálogo entre memória, história e literatura. No Brasil, tais diálogos podem apontar desde a necessidade de criação de uma identidade nacional, até a urgência em propor limites e questionamentos a este conceito – basta lembrar das ideias de Silviano Santiago em Uma literatura nos trópicos (1978) –, chegando a manifestações mais recentes, ou a recuperação de obras/escritores apagados/silenciados, que trazem novos olhares sobre acontecimentos, personagens e espaços. No caso da Literatura Portuguesa, por exemplo, a história desempenhou um importante diálogo por meio de diferentes temas, mas também como próprio elemento ficcional. Basta pensar a maneira pela qual os mitos identitários foram construídos pela história da literatura portuguesa ao longo dos séculos. Além da transformação da memória nacional como um dos grandes temas da literatura, um outro aspecto relevante é o reverso dessa temática, como afirma Eduardo Lourenço (2014), ao apontar a dificuldade de assumir uma memória nacional não mais baseada nos grandes mitos, mas na decadência da colonização. Grande parte da literatura portuguesa do século XX, sobretudo após a Revolução dos Cravos, tem se ocupado da revisitação de fatos históricos ou da escrita ou reescrita de momentos relevantes para o país no que diz respeito à colonização. Já para as Literaturas Africanas de Língua Portuguesa – ainda lutando por uma nomenclatura que as particularize na academia – a relação entre literatura e história parece ainda mais evidente, pelos recentes processos históricos que trazem um caráter testemunhal, muitas vezes autobiográfico, para essas literaturas, problematizando os silenciamentos em torno da colonização, das guerras pelas independências, da descolonização e das guerras civis. E também, dialogando com um passado mais distante, pela necessidade de reformular a história produzida pelo olhar exógeno, reconstruindo mitos, recuperando personagens, reconfigurando espaços agora nacionais. Portanto, as literaturas de língua portuguesa formam um extenso objeto de análise, comparadas entre si ou dentro de um único espaço, para o antigo e ainda necessário debate entre Literatura, História e Memória. Este simpósio, continuidade da proposta de edições anteriores, pretende, assim, acolher trabalhos que discutam as relações entre memória, história e literatura. Para isso, sugerimos, entre outros possíveis, alguns eixos de articulação: a literatura como arquivo; representação do trauma na narrativa e na poesia; vertentes políticas das escritas de si; memória coletiva e espaços públicos; relações entre os espaços de língua portuguesa.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: LOURENÇO, Eduardo. Do colonialismo como nosso impensado. Prefácio de Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi. Lisboa: Gradiva. 2014 SANTIAGO, Silviano. Nas malhas da letra. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.

PALAVRAS-CHAVE: Literaturas de língua portuguesa; História; Memória; Política, Arquivo.

COORDENADORES:
Andreia Guerini (Universidade Federal de Santa Catarina)
Odile Cisneros (University of Alberta)
Orlando Grossegesse (Universidade do Minho)

RESUMO: Embora falada por mais de 250 milhões de pessoas de 09 países em 04 continentes (https://www.cplp.org/), a língua portuguesa ocupa um lugar "periférico" no sistema-múndi globalizado. Em termos literários, a produção desses países lusófonos é muito rica e variada, mas pouco conhecida no âmbito da literatura universal. Não por acaso, em Gênio. Os 100 autores mais criativos da história da literatura (2003), Harold Bloom elege como representantes da língua portuguesa Camões, Eça de Queirós e Machado de Assis, escritores consagrados, mas todos anteriores ao século 20. E em O Cânone Ocidental: Os livros e a escola do tempo (2001), publicação anterior ao Gênio, temos Fernando Pessoa, junto com Borges e Neruda. Bloom cita e destaca a obra de três autores portugueses, um brasileiro e nenhum africano ou asiático. Curiosamente, Pessoa, considerado o maior poeta português do século 20, teve uma recepção muito tardia no universo de língua inglesa. No entanto, em 1975, a publicação de New Portuguese Letters (tradução de Helen Lane para o inglês de Novas Cartas Portuguesas, uma obra coletiva e heterogênea de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, também conhecidas como “as três Marias”, e publicada originalmente em 1972), teve um impacto importante em correntes feministas internacionais. Mais recentemente, autores como o português José Saramago e o moçambicano Mia Couto ficaram conhecidos pelo mundo fora, o primeiro recebendo o Prêmio Nobel em 1998 e o segundo o Prêmio Neustadt em 2014. Essa fortuna literária desigual do mundo de língua portuguesa leva a questionamentos importantes: qual é o lugar das literaturas de língua portuguesa no mapa da literatura mundial? Como ela se posiciona perante a outras literaturas dominantes? Se, como argumenta o crítico literário americano David Damrosch (2003), “literatura mundial” é a forma em que as obras literárias circulam fora de seu contexto nacional, as literaturas de língua portuguesa podem apresentar um estudo de caso bastante rico e diversificado além de paradoxal por ter tido, apesar de sua riqueza, pouca disseminação em outros contextos. Por isso, este simpósio tem por objetivo, em um primeiro momento, dar continuidade ao seminário "Versões do Brasil 1 e 2", que aconteceu no âmbito da Associação de Literatura Americana Comparada (ACLA), de 09 a 11 de abril de 2021, que se propôs a discutir como a literatura brasileira circula no exterior, mais especificamente nos sistemas literários de língua inglesa, espanhola, francesa e italiana. O seminário da ACLA abordou variados assuntos, das recentes traduções e retraduções de Clarice Lispector, Machado de Assis, Jorge Amado e autores do Nordeste brasileiro, até questões de internacionalização, pedagogia, teoria e performance em ficção e poesia contemporâneas. Em um segundo momento, este seminário quer ampliar a discussão incorporando um âmbito maior da lusofonia a fim de verificar como as literaturas de língua portuguesa (e não apenas a brasileira) têm sido recebidas em outros sistemas culturais. Apesar de uma longa história e conquistas inquestionáveis, em geral, as obras literárias de língua portuguesa, aparentemente, não se destacam no cenário literário mundial ou ficam circunscritas a determinadas épocas (o caso de Os Lusíadas, de Camões) ou a determinados grupos, como o da academia (o caso das obras de Machado de Assis), ou ao mercado editorial (o caso das obras de Paulo Coelho). Grande parte da circulação de obras só é possível através da tradução, e as traduções atuam como uma força e podem interferir em seu funcionamento, como já destacado por Itamar Even-Zohar (2000) em sua Teoria do Polissistema Literário. Entre as perguntas mais importantes que surgem está a questão do impacto da tradução na fortuna literária das que, no contexto nacional, ou da língua, são consideradas obras-primas. Por que e como as obras literárias escritas em português atingem públicos e reconhecimento para além do contexto da lusofonia? Há escritas que assumem o lugar de “born translated” (Walkowitz 2015)? Este seminário quer examinar textos-chave da lusofonia e sua tradução em vários idiomas (alemão, inglês, espanhol, francês, italiano, russo, chinês e outros), para avaliar a sorte de tais “versões” no cenário literário mundial. Quais autores tiveram sucesso fora do seu contexto nacional e linguístico e quais não? Foi a tradução responsável pelo sucesso ou falta dele? Qual seria o mapa, ou mapas (Lambert, 1990) das literaturas de língua portuguesa no mundo não-lusófono? É possível esboçar uma história das traduções (Lambert, 2020) de literaturas de língua portuguesa? Como as micro-histórias (Adamo, 2006 e Ginzburg, 1993) podem ajudar a compreender a macro-história da recepção de autores de obras de língua portuguesa?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ADAMO, S. “Microhistory of translation”. In BASTIN, G. L. & BANDIA, P. F. (eds). Charting the Future of Translation History, Ottawa: University of Ottawa Press, 2006, p. 81–100. BLOOM, H. Gênio. Os 100 autores mais criativos da história da literatura. Tradução de José Roberto O'Shea. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003. BLOOM, H. O Cânone Ocidental: Os livros e a escola do tempo. Tradução de Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. DAMROSCH, D. “From the Old World to the Whole World.” What Is World Literature? Princeton: Princeton University Press, 2003. EVEN-ZOHAR, I. The Position of translated literature within the literary polysystem. In: Lawrence Venuti (Org.). The Translation Studies Reader. Londres: Routledge, 2000, p. 192-197. GINZBURG, C. “Microhistory: Two or three things that I know about it”. Translated by John & Anne C. Tedeschi. In Critical Inquiry 20/1, 1993, p. 10–35. LAMBERT, J. “A la recherche de cartes mondiales des littératures”, in Janos Riesz & Alain Picard, Eds. Semper aliquod novi. Littérature comparée et Littératures d’Afri - que. Mélanges offerts à Albert Gérard. Tübingen, Gunter narr, 1990, pp. 109-121. LAMBERT, J. 2 “On the Fragmented History of Translation Historiography”. Moniz, Maria Lin, Isabel Capeloa Gil & Alexandra Lopes (eds). Era uma vez a tradução... / Once upon a time there was translation. Lisboa: Universidade Católica Editora, 2020. WALKOWITZ. R. L. Born Translated: The Contemporary Novel in an Age of. World Literature. New York: Columbia UP, 2015.

PALAVRAS-CHAVE: Literaturas de língua portuguesa; Literatura Mundial; Recepção; Tradução; Versões.